Historinha da Palavra Ambulante

 A liturgia da Vigília Pascal, na noite do Sábado de Aleluia, sempre me impressionou bastante, com toda aquela dinâmica do fogo e das trevas, do Exultet solene, das cinco leituras da História da Salvação e os três salmos à luz de velas, do Glória glorioso e caprichado. É a missa que mais gosto no ano, e olha que eu sou uma pessoa para gostar de missa. As leituras de celebração de ontem me fez lembrar de uma fábula que escrevi já há 14 anos, que reproduzo abaixo, com seu respectivo preâmbulo.

Feliz Páscoa!

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 Montreal, 31/03/2001

Ontem um padre amigo meu deu uma pequena palestra de quinze minutos  sobre a Santíssima Trindade, e uma ideia ficou na minha cabeça: a da segunda pessoa sendo a Palavra criadora de Deus. Acho que isso ficou no meu inconsciente pelas 24 horas seguintes, quando, enquanto eu rezava hoje, uma ficha de repente caiu. Que me fez escrever a seguinte historinha:

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PEQUENA HISTORINHA DA PALAVRINHA AMBULANTE

Era um vez, no principio, uma palavrinha bem animada. Era a palavrinha de Deus, e como ela era bem-obediente, tudo que Deus queria fazer essa palavrinha fazia para Ele de bom grado. Então Deus disse: “Faça-se a luz!”, e a palavrinha foi lá, e tchum, fez a luz.  E Deus achou muito legal. No outro dia, Deus, que tinha gostado muito da ideia, disse: “Faça-se um firmamento para separar umas águas das outras, porque está tudo bagunçado!” E a palavrinha foi lá e catapuf!, fez o firmamento, que Deus chamou de céu, porque é um nome menos ambiguo (firmamento parece coisa de cartório).

E daí no outro dia Deus disse: “Acho melhor que as águas lá debaixo fiquem todas num canto só.” A palavrinha foi lá e, tan dam!, colocou as águas tudo num lado, que Deus chamou de “mares” e apareceu um canto todo seco, que Deus chamou de “terra”. E Deus achou isso tao legal que ele disse: “Acho que um verde cairia bem. Verde para todo lado, árvores e ervas e etc” A palavrinha foi lá e fez tudo isso. E Deus acho isso muito legal.

No outro dia, Deus, que estava achando a história toda muito positiva e divertida, disse: “Que tal uns luzeiros no céu? Daí dá para marcar dias e anos.” E a palavrinha foi la, e tchan tchan tchan tchan !: luzeiros feitos! Deus deixou o maior para marcar o dia, e  os outros para a noite. E Deus achou isso tudo muito legal.

No dia seguinte, Deus, que estava achando tudo o maior barato, disse: “Pululem as águas de seres animados e voem as aves sobre a terra” e a palavrinha foi lá e fez isso tudo. E Deus se empolgou e a palavrinha fez todo tipo de monstro, e de bichinho, e de coisa, voando, rastejando, andando, pulando, nadando, encheu tudo.

No próximo dia, e aí já era o sexto, Deus, que estava muito satisfeito com o serviço de Sua palavrinha, disse: “Façamos os seres humanos nossa imagem e semelhança, e que eles dominem tudo que a gente fez até agora”. E assim surgiu os seres humanos, e deixou eles tomando conta de tudo que Ele tinha feito aquela semana, e passou o sétimo dia descansando, pois afinal, tinha sido uma semana cheia. (Genesis 1)

Os seres humanos ficaram tomando conta das coisas que Deus tinham feitos, mas eles não eram lá muito obedientes, então Deus ficava bravo com eles às vezes, às vezes ficava contente, às vezes mandava mensagens, às vezes colocava eles de castigo, às vezes dava presentes, mas sempre tomava conta deles direitinho.

Um belo dia, Deus, ao invés de mandar um mensageiro, resolveu Ele mesmo ir conversar e ensinar umas coisas para os seres humanos. Foi-se lá então a palavrinha de Deus, aquela mesma, muito obediente, que fazia sempre tudo para Ele, conversar com as pessoas. Afinal, se era para ensinar coisas, exemplo e o melhor professor (que diga St. Agostinho), e essa palavrinha tinha muita experiência em fazer as coisas. Era uma palavrinha muito esperta. Era a palavrinha de Deus, e se palavra e ação é o que faz um professor, Deus que é perfeito tem na sua palavrinha personificada um professor perfeito. Então eis que a palavrinha se fez carne e habitou entre nós.

A palavrinha fez muita coisas que Deus queria fazer. Ela ia para montanha com frequência conversar, pois Deus tinha uma preferência por soltar a palavrinha dele na montanha, e como essa era uma palavrinha muito ativa, ela era também muito faladeira: Ela conversava com Deus para checar os planos, e conversava com as pessoas para comunicar os planos, sempre daquele jeitinho dela, não se contentando com falar as coisas, mas fazendo as coisas também, já que fazer as coisas é a melhor mensagem.

Assim, a obediente palavrinha que fazia tudo para Deus fez muitas coisas para Deus nessa época que Deus resolveu conversar diretamente com as pessoas. E ela tanto fez e tanto falou, um certo dia , a palavrinha terminou de falar tudo que ela tinha de falar, e de fazer tudo o que ela tinha de fazer, e de ensinar o que ela tinha vindo e ensinar, bem aí a voz de Deus se extiguiu: como todo professor bem esforçado, Deus perdeu a voz!  Afinal, tinha sido um dia especialmente cheio, e Ele tinha feito coisas muito grandes e importantes. Era de novo o sexto dia, aquele que Ele e Sua palavrinha tinha feito os seres humanos. Mas como a missão tinha sido cumprida, Ele, afônico, foi descansar: já era sábado de novo, o dia que desde o começo ele tinha escolhido para descansar.

Mas depois de descansar o sábado todinho, chegou domingo de novo, o primeiro dia da semana. Então Deus acordou e disse: “Que legal! Vamos fazer tudo de novo? Eis que eu faço novas todas as coisas!” (Apocalipse 21) E, quem diria, não é que estava lá palavrinha de novo, toda esperta? Ninguém nunca imaginava que depois de toda as peripécias de sua missão junto aos homens ela apareceria de novo, mas Deus é Deus, e não ficaria afônico para sempre.

E eis que a história (História?) termina como ela começa: com a super palavrinha fazendo coisas. Afinal, ela é a voz de Deus, que dita a primeira e a ultima letra: ela é o Alfa e o Omega. Existe disponível uma versão mais cumprida dessa história, de muitos livros, do quais eu citei acima o primeiro e o último só para situar o leitor. Quem já aprendeu a ler que leia!

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Para o alto e avante!

“Paredes inclinadas com agarras, qual o valor disso? Agora conhecimento corporal, isso, sim tem valor.” *

Minha primeira experiência com a escalada foi no meu último mês no Canadá. Por muito anos, meus amigos me convidavam toda semana, mas nunca tinha ido, nem para ver como era. E eis que nas vésperas de voltar para o Brasil, resolvi dar uma olhada, e adorei.

Quando voltei para Brasília, procurei por toda parte, e não achei. 308 norte, setor Leste, UnB, nada nada. Fiquei dois anos nessa. Até que um dia alguém me informou o caminho das pedras. Aqui pertinho de casa. O que um contato não faz.

Comecei a escalar em janeiro de 2013, quando as caudalosas chuvas de verão me impediam de remar. Era um projeto de férias, um mês só, sem compromisso. Mas como muitas coisas na vida, um mês sem compromisso levou a dois, e dois levou a seis, isso já tem mais de ano. Me achei!

Sempre tive dificuldades em manter uma rotina de atividade física. Academias me entediam – pensamento vai para qualquer lugar que não seja lá. Mas na escalada, ou você concentra, ou você se espatifa. Quantas coisas na vida exigem 100% de sua concentração?

Flexibilidade também nunca foi meu forte, em nenhum dos sentidos da palavra. Outro mérito da escalada é justamente a maneira que ela te força a desenferrujar as juntas, todas elas. É bonito ver a fluidez com que os escaladores mais experientes se movimentam; às vezes parecem até que eles estão nadando.

Ainda dentro do componente flexibilidade, entram  também a importante habilidade de aprender a cair, e sua irmã gêmea, a habilidade de tomar riscos calculados. Aqui, como em outros aspectos, sinto que exercitar o literal acaba refletindo no metafórico, e vice-versa.

Talvez a brincadeira que mais gosto sejam as vias, que são percursos em que as agarras para as mãos são marcadas, em ordem alfabética ou numérica, com os pés livres. Tem também os problemas de boulder, que são percursos mais curtos que as vias, porém com movimentos mais difíceis, com mãos e pés marcados. Acho que gosto dos boulders só porque eles me foram descritos como a parte cognitiva da escalada, e filósofos adoram esse tipo de coisa. Mas meu lado lúdico-pedagógico se amarra no A-B-C das vias, embora às vezes eu fique tão cansada que nem soletrar não sei mais.

A verdade é que a sensação que tenho ao final de cada treino é que estou mais sabida. E é engraçado isso.  Eu sempre fui muito grande e talvez por isso, sempre me senti um tanto quanto desajeitada. Às vezes por isso também, nunca tive muita paciência com esportes em geral, sendo extremamente cética com essas histórias de consciência corporal.

Mas na escalada entra forte também o aspecto coordenação, saber articular partes diferentes do seu corpo. E os progressos nesse sentido vem relativamente rápido, e são muito tangíveis: hoje a transição do E para o F é um desafio, semana que vem o problema se desloca para o M-N, e quando se vê chega-se ao Z, já querendo partir para outra via, ou fazer essa de trás para a frente.  É um progresso que dá uma sensação de bem-estar impressionante, que te faz querer mais e mais.

Saio do treino às 22hs, cansada, tendo tido um dia cheio no trabalho. As mãozinhas ardem, e os músculos nem respondem mais de tão cansados. Mas o coraçãozinho, esse está super feliz, já pensando em qual será o próximo desafio. Meditação, terapia, equilíbrio, musculação e conhecimento, tudo isso enquanto sobe-se pelas paredes procurando a próxima agarra.

* R.B.L., instrutor de escalada e dono do muro onde pratico, em conversa com aluno

O Caminho do Artista

“O Caminho do Artista: A Criatividade como Prática Espiritual” (minha tradução de “The Artist´s Way: A Spiritual Path to Higher Creativity”), de Julia Cameron, é um bestseller nos EUA e em outros países, que até onde sei, não foi publicado no Brasil.

Este livro é organizado como um projeto criativo de 12 semanas, para pessoas que se sabem artistas e para aquelas que não se sabem artistas ainda. Meu primeiro contato com ele foi em 2009, no Canadá, quando estava completamente estagnada na escrita da minha tese de doutorado. Como escritora, posso dizer que ele ajudou não só concluir o doutorado, mas em muitos outros projetos, como por exemplo, a autoria de duas óperas, ambas produzidas em Portugal, ou a experimentar atividades que talvez de outra forma nunca tentaria, como o remo e a escalada, o pandeiro e a bateria.

De volta a Brasília, comecei a falar dele a amigos, e não encontrando-o em português, em 2011 comecei a traduzi-lo, para debater com um grupo de amigos, artistas declarados ou não, um capítulo por semana, conforme proposta do livro. Foi uma experiência bastante rica, e foi consenso de todos no grupo que era uma pena esse trabalho não ser mais conhecido por aqui.

Nestes quase três anos desde quando traduzi esse livro, fiz todos os contatos que soube fazer com a autora e com a editora original sobre a possível publicação desse livro no Brasil, sem sucesso. Seguindo a ideia da autora de que fazer um pouquinho é melhor do que nada, decidi que enquanto as grandes publicações não vem, publicações caseiras, sem fins comerciais, como esse blog aqui, fazem mais bem do que deixar a tradução na gaveta. É um meio de difundir as boas ideias desse livro, e quem sabe talvez conseguir assim de pouco em pouco chegar até autora e render-lhe o crédito que lhe é devido. Progresso, e não perfeição, é o que se pede, diz ela.

E é nesse espírito de pequenos mas concretos passos que incluo abaixo um trechinho do primeiro capítulo: um singelo soquinho no estômago, seco e sem rodeios e ao mesmo tempo afetuoso e cheio de esperança e possibilidades, que é uma das coisas que mais me fazem crescer com esse livro.

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Uma das nossas necessidades básicas como seres criativos é apoio. Infelizmente, ele é meio difícil de se encontrar. O ideal seria que fôssemos motivados e incentivados primeiro por nossa família nuclear e daí por círculos cada vez maiores de amigos, professores, conhecidos, etc. Como artistas-em-desenvolvimento, precisamos e queremos ser reconhecidos não só por nossas conquistas e triunfos, mas também por nossas tentativas e esforços. Infelizmente, aqui neste ponto crítico, muitos artistas nunca recebem o incentivo necessário. Como resultado, eles acabam não sabendo que são artistas.

Intimidados e com medo de virarem artistas de verdade, essas pessoas viram “artistas-sombra.” Artistas, mas ignorantes de sua identidade verdadeira, artistas-sombra podem ser vistos à sombra de artistas declarados. Incapazes de reconhecer que possuem em si mesmos a criatividade que tanto admiram, artistas-sombra geralmente namoram ou casam com pessoas que ativamente seguem a carreira artística que secretamente desejam para si. 

Artistas adoram outros artistas. Artistas-sombra gravitam ao redor de sua tribo de direito, mas não conseguem ainda reivindicar seus direitos de nascença. Muito frequentemente é a audácia, e não o talento, que faz uma pessoa artista e outra um artista-sombra – se escondendo nas sombras, com medo de dar um passo à frente e expor o sonho à luz, com medo que ele se desintegre ao primeiro toque.

Para artistas-sombra, a vida pode ser uma experiência descontente, cheia daquela sensação de alvo não-atingido e promessa não-cumprida. Eles querem escrever. Eles querem pintar. Eles querem ser atores, fazer música, dançar… mas eles têm medo de se levarem a sério.

Para sair do reino das sombras para a luz da criatividade, artistas-sombra precisam aprender a se levarem a sério. Com esforço consciente e gradual, eles precisam aprender a nutrir sua criança-artista. Criatividade é brincadeira, mas para artistas-sombra, aprender a se deixar brincar é trabalho árduo.

(Julia Cameron, Caminho do Artista, capítulo 1. Tradução: Ester Macedo)

Peliculite 4: The End

“Então, moço, não dá mesmo. Amanhã eu passo lá na oficina, pode ser?”

“Mas que horas você vai passar?”

“Eu ligo antes, para saber se você está lá.”

“Não, mas que horas?” (Como se isso fizesse diferença.)

“Treze horas.”

“Então tá, treze horas.”

E embora ele foi, rumo ao pôr-do-sol, e ela seguiu para sua aula inaugural com o reitor, sentindo-se já livre de maiores constrangimentos (além dos já sofridos).

No dia seguinte, ao meio-dia, toca o telefone:

“A senhora disse que vinha hoje! Estou aqui esperando já, que eu tenho que sair!”

“Mas moço, o combinado não era treze horas?”

“Ah, era?”

“Era, treze horas estou aí. Você vai estar aí?”

“É, acho que sim. Vou.”

Por garantia, ela resolveu ligar às 12:45, mesmo tendo falado com ele  meia hora antes. Ele estava lá. Ela aproveitou e foi.

Em dez minutos, não faltando mecânico nem tomada, a tal película estava devidamente instalada. Não era da cor certa. Mas daí também já era pedir demais.

Peliculite 3: Câmbio!

Entraram cada um em seu carro, e foram seguindo pela via de mão única da cidade universitária em busca de uma tomada. Passaram pela casa de máquinas, onde ficava o gerador. Tinha tomada ali? Não.

Chegaram à guarita dos fundos. Lá com certeza tinha uma tomada: ela podia ver o segurança com um laptop conectado nela. Explicou sua situação:

“Moço, será que posso usar sua tomada rapidinho?”

Ele olhou seu crachá e perguntou: “A senhora é docente aqui?”

Ela era. Ele perguntou para que precisavam da tomada. Ela explicou:

“Ele precisa para consertar o vidro do meu carro rapidinho.”

“Só um minuto, professora.” Ele sacou seu walkie-talkie e começou a falar:

“Alô, comandante. Aqui é a unidade 342”

“Na escuta, 342.”

“Comandante, temos aqui uma docente que pede autorização para utilizar uma tomada elétrica de nossa unidade para que um técnico mecânico possa efetuar reparos em seu carro.”

“Vai demorar quanto tempo, 342?”

“Parece coisa rápida, comandante. Vou perguntar. Quanto tempo, professora?”

O mecânico se adiantou: “Coisa rápida. 20-30 minutos.”

Ela perdeu toda a cor. Ele tinha falado 10 minutos. Estavam no horário de verão e a noite começava a cair. Olhou seu relógio: 18:50. A aula inaugural era às 19hs.

“Sem problemas, 342. Pede para ela vir aqui retirar a autorização.”

“Positivo, comandante. Autorizado, professora. A senhora só tem que fazer o seguinte: Está vendo aquele prédio ali? Lá é a prefeitura. No terceiro andar fica a segurança. A senhora vai lá no protocolo e retira a autorização e volta aqui que a gente faz isso sem problema algum.”

Ela já tinha desistido antes do “positivo.”

“Moço, eu agradeço, mas agora eu vou ter que entrar em aula. Outra hora eu vejo isso. Obrigada, viu?” Agora foi a vez do mecânico perder a cor:

“Mas eu já estou aqui!”

O primeiro pensamento que passou pela cabeça dela foi que a palavra “já” não se aplicava naquele caso.

Seu segundo pensamento foi: “Tadinho: passou de meia hora ele vai ter que pagar o estacionamento. Será que pago para ele?”

Seu terceiro pensamento foi: “Não, se ele tivesse cumprido a palavra dele em alguma das vezes anteriores, ele não estaria ainda aqui pagando estacionamento.” Ela ficou com esse terceiro pensamento.

Peliculite 2: Luzes!

“Quer dizer que está tá tudo bem, né? Ótimo. Então, eu queria marcar aquele serviço da película.”

“Ah, dona Ester, eu posso ir para aí agora mesmo. Estou aqui em Brazlândia, rapidinho estou aí.”

Talvez ele não soubesse que ela estava na Asa Norte, que não é tão pertinho assim de Brazlândia. O fato é que ela tinha que sair.

“Posso passar lá na oficina mais tarde.”

“Precisa não, dona Ester, pode deixar que eu vou no seu trabalho ou no seu domicílio, não tem problema.”

Ela tinha uma aula inaugural no auditório com o reitor às 14horas. Resolveu marcar para as 13h, mesmo não tendo esperança alguma que esse cara fosse aparecer.

E é claro que não apareceu. Nem às 13hs, nem 14h nem 15h. 16hs terminou a tal aula inaugural e nada. 19hs haveria outra, com o pessoal do noturno.

E eis que as 18h20m o cara liga: “Dona Ester, estou aqui no seu trabalho! Onde está seu carro?”

Sem nem acreditar, ela falou: “Estacionado em frente à entrada para o auditório.”

Ele chegou, estacionou seu carro atrás do dela e perguntou: “Então, dona? Onde tem uma tomada?”

Ela olhou para ele com cara de “como assim?” e disse:

“Como assim?”

Ele olhou para ela com impaciência.

“Tomada. Para ligar a máquina.”

“Moço, tem tomada não.”

“Então como vou fazer o serviço?”

“Ué, num sei. Você oferece para ir ao meu trabalho ou domicílio e não pergunta se tem tomada? Quantos estacionamentos de trabalho ou domicílios do mundo tem tomada?”

“Mas a gente não acha uma aqui fácil?”  Disse ele, com ar conciliador e olhou para dentro do prédio. “Ó, tem uma ali! Moço, ei, moço!”

Ela olhou, e tinha mesmo: na paredinha frontal do palco do auditório, perto de um mega arranjo de flores. O moço que ele chamava era o segurança. Ela olhou no relógio: 18h40m. De repente, veio-lhe à mente a imagem do evento começando, os alunos e professores chegando, e depois o reitor, e o reitor tropeçando no cabo que ligava a tomada do palco do auditório à película do vidro traseiro de seu carro. Ela já via seu futuro:  três dias no trabalho, e para todo sempre seria conhecida pela alcunha de Professora Gambiarra.

Felizmente o segurança a quem o mecânico acenava e gritava saiu do alcance do campo de visão/audição. “Então, moço, a gente não vai fazer isso aqui não.”

(Esta história é continuação de Peliculite 1: Ando devagar por que já tive pressa . Mais ainda por vir.)

Já versus Ainda

Horário normal é legal porque é o horário dos aindas. Acordei feliz e descansada, olhei no relógio e pensei “nossa, ainda tá cedo…” Agora bateu um soninho, olho no relógio: “só 21.30 ainda. Tá cedo.”

Horário de verão tem seus prós, mas em geral ele é mais estressadinho. “Nossa, já é tarde! Tenho que acordar, tenho que dormir, tenho que voltar!”

Houve uma época que eu gostava mais dos “Eba, já!”. Hoje em dia eu curto bem mais um “cedo ainda”. Ainda bem que os aindas dominam 75% do ano. Deixa os “Eba, já!” só para as férias mesmo.