Arquivo para Violência

Já que ninguém está vendo… (Parte 1)

Um dia desse fui no cinema assistir “Ensaio sobre a Cegueira.” Eu estava bem empolgada, primeiro porque muita gente tinha me falado bem do livro, e segundo, porque as filmagens foram feitas no Brasil, e eu estava no Brasil quando elas foram feitas.

Meus sentimentos ao sair do cinema são um pouco mais difíceis de descrever. Parte de mim achou que a premissa era forte, mas que o filme ia longe demais. O que me incomodava não era nem o fato de que algumas cenas eram extremamente violentas e/ou desagradáveis, mas o fato delas parecerem gratuitas. No quesito verossimilhança, portanto, o filme perdia muito ponto. Cheguei então ao meu veredito quanto o filme: desagradável demais para ser verdade. Ponto. O que mostra como que eu não sei de nada mesmo.

Alguns dias depois, fui assistir “Triagem: O dilema humanitário de James Orbinski. Entrei na sala com o filme começando, e o sentimento de “que legal, eu conheço esse lugar, eu conheço esse rosto” me deixou toda contente.

Quando eu mudei para Toronto em 2002, Massey College, uma residência da Universidade de Toronto, foi minha primeira morada (ainda hoje ela é minha base no Canadá). Eu morei lá um pouco mais de dois anos, em cujo período também morava lá o senhor James Orbinski com sua esposa Rolie Srivastava.

Os dois sempre foram membros ativos da comunidade, e sempre muito dispostos a bater papo com os membros menos famosos da comunidade, tipo eu. Mas  eu, na minha timidez fora do comum, nunca nunca, nesses quase sete anos, tinha tido a coragem de dirigir mais do que um sorriso e aceno de cabeça ao vê-los passar.

Eu sabia que ele era muito famoso, e que ele tinha estado em Ruanda durante o genocídio em 1994. Eu até suspeitava que ele tinha ganhado o prêmio Nobel, mas disso eu não tinha muita certeza, porque na minha cabeça me parecia muito inacreditável que um ganhador do prêmio Nobel fosse meu vizinho.

Mais de seis anos depois, estou eu numa sala de cinema assistindo um documentário sobre meu ex-vizinho James Orbinski. O rosto conhecido e o cenário conhecido me deram uma sensação de proximidade que eu nunca tinha tido numa sala de cinema.

À medida que o filme foi passando, o sentimento de dejà-vu foi intensificando, mas de uma maneira muito bizarra: de repente, parecia que eu estava assistindo “Ensaio sobre a Cegueira” de novo!  O absurdo de que as pessoas são capazes de fazer quando sabem que “não tem ninguém vendo mesmo” e o heroísmo quase que involuntário das pessoas que se vêem prestando cuidados em circunstâncias para lá de degradantes, sem saber se elas próprias vão sair vivas daquela situação são coisas absolutamente arrepiantes.

De repente, me vi tomada das mesmas emoções que senti assistindo “Ensaio sobre a Cegueira.” Só que agora não dava para eu colocar meus sentimentos numa caixinha hermeticamente fechada e rotulada como “sentimentos à toa causados por uma história de ficção para lá de exagerada.” Ruanda não foi ficção. Aconteceu de verdade. E eu conheço alguém que estava lá.

“O Dilema Humanitário de James Orbinski” é na verdade e de verdade um “Ensaio sobre a Cegueira”: uma cegueira mundial e muito real.  Por dias e dias, fiquei em estado de choque.

Já que é moda… (Parte 3)

Tudo é e não é…Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos… (GSV, p. 27-28) 

O que eu gosto no comandante Nascimento é que ele é um personagem de uma complexidade psicológica incrível. Ele não é um vilão malvado sem coração. Ele não é um herói bonzinho com o dever acima de tudo. Ele não é nenhuma coisa nem outra, e também é as duas coisas ao mesmo tempo: ele é humano.  

Ele sofre, ele preocupa, ele erra, ele tortura, ele troca fralda.  Do ponto de vista narrativo-literário, ele é um personagem brilhante. Um autor para escrever um personagem desses tem que ser muito gênio. O ator que o interpreta também.

Quando falei que a resposta de Férrez foi infantil, não quis dizer que a achei de todo ruim (porque coisas infantis não são necessáriamente ruins, pelo contrário). Mas a visão inocente atribuída ao narrador acaba  dando deixa para o seguinte comentário publicado na Época: ele poderia estar roubando por necessidade, mas também para investir no tráfico.

Poderia mesmo. Ou até mesmo as duas coisas. E nenhuma dessas possibilidades faria dele uma pessoa 100% boazinha ou 100% sem coração.

Num momento de delírio, até cheguei a pensar que a reportagem capa da Época de 15 de outubro terminaria com um questionamento nesse sentido, pelo jeito que o último parágrafo começa:

[N]ão se constrói um país com a visão torta e tão arraigada no Brasil que opõe, de maneira simplória, a “elite privilegiada e predadora” aos “bandidos coitadinhos e vítimas.”

Pensei comigo: até que enfim. Vamos sair da simplório e essencialista “isso é isso” e partir para análises mais profundas, mais complexas, menos reducionistas. Algo mais do tipo:

Mire veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (GSV, p. 39)

Ledo engano. O parágrafo e a reportagem terminam com as seguintes palavras: 

Criminoso é criminoso. Ponto. Um país mais justo socialmente tem neste princípio — bandido é bandido — um fundamento essencial. Romper com aquela visão reducionista e nefasta foi um dos maiores méritos “Tropa de Elite” 

Descobri então que dizer simplesmente que “elite é privilegiada e predadora” e “bandidos são coitadinhos e vítimas” é torto e simplório. Porém dizer simplesmente “criminoso é criminoso ponto” não é. Pelo contrário, é um fundamento essencial. O que casa perfeitamente com a capa da Veja da mesma semana que diz:

O filme Tropa de Elite é o maior sucesso do cinema brasileiro porque trata bandido como bandido e mostra usuários de drogas como sócios dos traficantes.  

Dentro, temos as seguintes matérias:

A Realidade, só a Realidade (p.80-83. Ou seja: “A verdade tem dono, e somos nós”)

Abaixo a Mitologia da Bandidagem: Tropa de Elite não rompe só com a tradição nacional de narra uma história do ponto de vista do bandido: rompe com a visão pia e romantizada do criminoso. (p.84-86. Traduzindo: “As pessoas já nascem terminadas: ou são afinadas ou desafinadas, e acabou. E nós que decidimos quem é quem.”)

Máquina Letal contra o Crime: Treinamento exaustivo e código de conduta rigoroso fazem do Bope uma das melhores tropas do mundo (p.88-89. Pergunto, pasma: melhores para que, para quem e de acordo com quem? Porque, como diz o Riobaldo: “cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães”. [GSV, p. 24])

O problema, Guimarães Rosa explica bem:

Uma coisa é por idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas de carne e sangue de mil-e-tantas misérias… Tanta gente – dá susto de saber – e nenhum se sossega….todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons… (GSV, p. 31)

Acontece que uns têm o poder de expressar e resolver suas misérias e insossegos. Outros muitos nem direito de reclamar tem, quanto menos o poder. Ontem eu terminei de ler um livro brilhante chamado “Justiça e a Política da Diferença”, da autora americana Iris Marion Young, falecida ano passado. O seguinte pensamento se encaixa certinho com o que vejo tanto na Veja quanto na Época:

“Enquanto os grupos privilegiados são neutros e exibem uma subjetividade livre e maleável, os grupos excluídos são marcados com uma essência, emprisionados em uma gama fixa de possibilidades. Em virtude das características que o grupo teoricamente tem por natureza, as ideologias alegam que os membros do grupo têm qualidades específicas que os tornam predispostos a algumas atividades e não a outras.” (JPD, p. 170)

A subjetividade da elite (que informa, que expressa, que opina, que publica seus medos e anseios nos jornais e revistas) objetifica os grupos excluídos (que não têm educação, opinião, medo, anseio ou coração). Ao fazer isso, cria-se uma polaridade. Ao mesmo tempo que elite fabrica e vende seus heróis perfeitos e quase super-humanos (acima de tudo e de todos, acima das leis), ela retrata também aqueles que são diferentes como seres subhumanos: sem educação, sem expressão, sem opção, sem futuro, sem jeito, sem valor. Coisa sem valor. Coisa.

E é assim que nascem os genocídios.  


GSV =  João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, Ed. Nova Fronteira

JPD = Iris Marion Young, Justice and the Politics of Difference, Princeton University Press, tradução de Ester Macedo.

Já que é moda… (Parte 2)

Meu post anterior mostrou minha surpresa com a ingenuidade do apresentador Luciano Huck, que, quer queira quer não, teve condições de ter tido uma boa formação intelectual. Mas isso é estereótipo meu de achar que só porque a pessoa é rica, provavelmente estudou em escolas boas e teve uma boa educação — o que não é necessariamente verdade. 

Mas uma ter e prestar formação e informações intelectuais (senão úteis, pelo menos razoáveis) é dever não do rico ou do apresentador de televisão, mas de jornais e revistas. Certo? 

Eu achava que era. Mas a Veja e a Época dessa semana provam mais uma vez a minha ingenuidade. Fiquei de cara em ver que as duas revistas trataram a situação
Tropa de Elite vs. Rolex com ainda mais infantilidade que o próprio Huck.

Vamos aos fatos:  

 A revista Época de 15 de outubro de 2007 traz na capa um close do rosto de Luciano Huck com a boca tampada. Sobre a boca, a seguinte pergunta:

“ELE MERECIA SER ROUBADO?

Sem ter nem entrado na banca para ver a revista mais de perto, já percebi que o debate foge à questão principal. 

Ele merecia ser roubado?  
Claro que não. Ninguém merece. A questão não é essa.

Chego mais perto. Em letras menores, o subtítulo promete:

O que o debate sobre o assalto a Luciano Huck revela sobre a alma do brasileiro”

Penso comigo: cara, que prepotência!
Que pobreza de alma: 
mais de 150 milhões de brasileiros e alma só tem uma? E ela é coisa que dá para alguém tirar um raio-X e revelar? Um cara para fazer isso tem que ter muita moral.

Pego a revista, sento, vou ler. Percebo que não é um cara, mas dois: Celso Masson e Nelito Fernandes. Logo no início do artigo, eles começam o diagnóstico prometido na capa:

“Veio à tona, com o roubo do Rolex de Luciano Huck, a visão de uma parte do povo brasileiro. A elite é tiranizada como aproveitadora e vilã, e os bandidos são glamorizados e perdoados como vítimas ou heróis.” (p.89)

Entendi então que a alma do brasileiro é como uma coluna vertebral: única, porém divisível. Já não falamos da alma do povo brasileiro  como um todo, mas de uma parte.

À que parte exatamente pertence essa visão não é revelada ainda explicitamente. Mas sabemos ao menos que existem no mínimo duas: uma, que, erroneamente ou não, pode ser caracterizada como aproveitadora e vilã; e outra, que também, erroneamente ou não, é glamorizada e perdoada como vítima ou herói. Até aqui também não sabemos se os radiólogos responsáveis pelo diágnosticos pertencem ou não ao corpo (ou alma) em estudo, e em caso afirmativo, à que parte pertencem.

Dando um zoom mais de perto, o raio-X apresenta também contribuições de um certo Roberto da Matta, que caracteriza a reação a Huck como neofascista. Achei que fosse talvez um erro de edição, pois enquanto o artigo de Huck e suas defesas tendem à direita do espectro sócio-pólitico (cujo extremo seria o neofascismo), a maior parte das reações que vi tendem mais à esquerda (cujo extremo seria o neocomunismo).

Mas isso é só uma questão de vocabulário. Afinal, como explica Hannah Arendt, acaba que essas duas formas extremas de totalitarismo, apesar de tão distantes, terminam por ficar muito parecidas (meio que nem quando se junta as duas pontas de uma corda, fazendo um círculo). Então dá para confundir mesmo.

Mas voltando à resposta de Roberto da Matta:

“A reação [a Huck] fere o direito de igualdade. Qualquer pessoa tem direito a denunciar uma injustiça de que foi vítima. Só porque ele é rico, não tem direito a nada?” (p.89)

Nessa hora meus olhos ficaram nadando em água de dó do pobre moço rico. Continuei lendo:

“Por que acham que um sem-terra pode arrebentar a porta do Congresso para protestar e um apresentador não pode escrever uma carta? Onde está a democracia nisto?”  (p.90)

Peraí, seu Matta. Da onde é que o senhor tirou que sem-terra pode arrebentar a porta do Congresso? Pode não. Um sem-terra – ou qualquer pessoa – que cometa tal ação tem que estar disposto(a) a sofrer as conseqüências e responder por ela. 3a Lei de Newton: À toda ação há sempre uma reação de mesma força. 

Cartas também obedecem essa lei de causalidade. É claro que publicar carta não é crime, do jeito que arrebentar portas do Congresso é. É um direito que todo cidadão tem, porém (e infelizmente) uns os tem mais que outros. O problema do Huck não foi publicar uma carta, mas na violência fora de proporção a qual a carta incitava. Ação e reação.

Detalhe da lei de Newton: Ela diz que à toda ação há sempre uma reação igual mas de direção oposta. A carta de Huck foi forte e infantil. A resposta de Férrez foi igualmente forte e infantil: só mudou a direção. Por mais que dar bobeira com um Rolex no braço pode ser vaidade, exibicionismo ou ingenuidade, dizer que o cara merecia ser assaltado é achar que injustiça com injustiça se cancela. Até então eu estava achando o título da capa da Época viajante: só quando eu li a resposta do Férrez que eu entendi.

É claro que é uma resposta literária, até poética: a primeira pessoa não é do autor, assim como a fala do Comandante Nacimento não é nem do Wagner Moura, nem do Padilha. Mas num momento que as pessoas estão tendo a maior dificuldade com esse recurso narrativo de uso de primeira pessoa, confundindo a torto e a direito o subjetivo com o objetivo, esse comentário do Férrez também bem mereceu uma reação. Afinal, reagir é bom, mostra que a gente ainda está vivo (embora a contra-reação de “no fundo, isso parece inveja” [p. 93] pareça para mim um caso perigosíssimo de falta do que fazer).

Cara, eu ainda tenho muito para falar sobre esse artigo (e mais o da Veja). Mas estes posts estão ficando compridos demais. Deixa eu para por aqui por agora; depois eu volto com mais.

Após do diagnóstico vem o prognóstico: não perca o próximo desfile desta super-coleção primavera-verão! 

Já que é moda… (Parte 1)

Interrompemos a nossa programação para dizer uma palavrinha ou duas sobre o assunto do momento: se o compete ou não à alçada do comandante Nascimento o resgate do Rolex de um certo senhor.

Tá gente, eu sei que o assunto está mais do que batido: as principais revistas do país trouxeram estampado na capa esta semana este fascinante assunto, para não dizer nada da blogosfera nacional.

Olhando porém duas destas revistas, a Veja e a Época, achei interessante que nenhuma das duas toca o que é para mim o x da questão (vide o sublinhado no primeiro parágrafo) .

 Vamos aos fatos.

 O senhor que teve seu relógio roubado pergunta em jornal de circulação nacional:

“Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba.”

Esta passagem, a meu ver, justifica duplamente os motivos pelos quais a vítima deste assalto — repito e friso, vítima — não chegou a prestar queixa na polícia: primeiro, porque ele tem dificuldade crônica de localizar uma delegacia; segundo, porque ele acha que a polícia é onisciente.

Dificuldade em publicar suas idéias e necessidades em um grande jornal ele não tem: o que favorece o resto de nós (que, ao contrário da polícia, não somos oniscientes) porque serviu a nobre função de informar e gerar um debate nacional, algo que acho muito positivo.

Num outro ponto, mais no começo do artigo, vemos mais uma vez de maneira clara, a dificuldade de localização e a crença na onisciência policial que dispensaram a vítima de prestar ocorrência:

“Onde está a polícia? Onde está a “Elite da Tropa”? Quem sabe até a “Tropa de Elite”! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto.”

Esta segunda passagem (que ficou bem mais famosa que a primeira dado o sucesso do brilhante filme “Tropa de Elite”) mostra que a vítima acredita não só na onisciência, mas também na onipotência da polícia – ou pelo menos da Elite da Tropa. O que falta é boa vontade; coisa que a vítima tem bastante e poderia distribuir, via discussão com comandante Nascimento, de forma que bastaria 30 dias para a segurança pública colocar assaltos a pedestres e motoristas em extinção.

Não sei se eu sou uma pessoa demais pessimista, ou demais otimista: o fato é que acho esse comentário demasiado ingênuo e problemático.

A ingênuidade da vítima fica ainda mais clara já no final do artigo:

“Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no “Roda Vida” da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, “Tropa de Elite” é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela.”

Acho que faz parte do amadurecimento de toda pessoa passar duma fase em que se acredita em super-heróis, à outra, em que se descobre que eles não existem, e que quando o shopping fecha, o Papai Noel tira a barba, a roupa vermelha, a pança de enchimento, e volta para casa como qualquer pessoa, a pé, de ônibus ou até de transporte próprio, carro, moto ou bicicleta. Só não de trenó.  

Fiquei então satisfeita que, ao final do parágrafo, o ex-dono de um Rolex mostrou ter alcançado um grau de amadurecimento bastante superior ao exibido no começo do mesmo parágrafo. Isso é muito positivo.

Mas outra questão ainda muito mais problemática que a ingenuidade (e com certeza decorrência dela, pois não acredito que o Luciano Huck seja uma pessoa ruim) é a seguinte:

Por que ele quer chamar o comandante Nascimento?
Porque o comandante Nascimento é um policial competente e comprometido: ele não sossega até achar o bandido.
Um bandido — repito e friso, bandido – roubou o relógio do Huck. 
Portanto, o Huck quer se assegurar que o bandido seja punido e que tais atos de violência como o que aconteceu com ele deixe de ocorrer.

Pergunto:
O ladrão que roubou o relógio do Huck agiu de forma certa?
De forma alguma.
O Luciano Huck agiu de forma certa?
Também não.
Chamar o capitão Nascimento por causa de um Rolex é querer usar uma bazuca para matar uma mosca: é desproporcional, não importa quantas casas dê para comprar com um Rolex.

O ladrão deve ser punido? Sim.
Deve ser preso? Provavelmente.
Deve ser torturado com um saco plástico na cabeça? De forma alguma.
Deve ser morto friamente com um tiro a queima-roupa?
Absolutamente não.
Sei que a ingenuidade agora pode ser minha, mas não sei de onde eu cresci com uma crença que a vida (até a do bandido) é um negocinho sagrado e matar é errado.

E eu acho difícil de acreditar que seja isso que o Huck realmente queira, tanto para o bandido que roubou seu relógio, quanto como plano estratégico de como se eliminar assaltos em trinta dias. Eu prefiro acreditar que Luciano Huck seja ingênuo, e não fascista. Será que isso é dor de cotovelo daquela minha velha criança que ainda quer acreditar em Papai Noel?

A seguir cenas do próximos capítulos:

Época e Veja saem à defesa de Luciano

Respingos de uma tempestade

Estando fora do Brasil, a gente só ouve os respingos das notícias, ainda mais eu que sou meio alheia a noticiários. Mas a notícia do acidente com o avião da TAM me abalou muito ontem. Na verdade, não consegui concentrar em mais nada o dia todo, toda hora parando para ver se tinha mais notícia online.

O que me impressiona mais talvez é a proximidade da coisa. Eu tinha passado boa parte do dia anterior, digo, do mês, do ano, pensando na logística da minha mudança para Brasília em agosto. Toda vez que eu vou, tenho que trocar de avião em São Paulo, às vezes tenho que trocar até de aeroporto, de Guarulhos pra Congonhas e vice-versa. Dessa vez eu tenho algumas coisas a resolver em São Paulo, e estou que calculo se é melhor resolver essas coisas logo nessa parada em São Paulo antes de seguir para Brasília, ou se com a mudança toda é melhor seguir logo e voltar a São Paulo depois na primeira oportunidade.

Então eu estou que penso nesse esquema tem tempo. Mas nessa semana um detalhe tornou toda essa logística de passar por São Paulo ainda mais complexa. Uma colega minha aqui de Toronto gostaria que eu fosse com ela para Porto Alegre, para dar uma ajuda com a pesquisa dela. Dois dias atrás estávamos tentando decidir se vale mais a pena fazer emendar essa viagem logo com minha ida em agosto, ou se e melhor fazer uma viagem separada em outubro. Dois dias atrás estávamos fazendo esses planos todos. Depois disso, não falei mais com ela, e não sei a quantas andam os planos dela agora. Mas com certeza de lá para cá muita coisa mudou: muita coisa que não tinha como a gente ter colocado nos nossos planos. Ou nos planos de ninguém.

No natal passado, a última vez que estive no Brasil, os efeitos do acidente do avião da Gol ocorrido em setembro ainda estavam bem visíveis e palpáveis (vide meu post de 5 de janeiro). Este tinha sido o maior acidente aéreo do Brasil até então. Uma tia minha trabalha no aeroporto de Brasília, e colegas dela tinham morrido no acidente. Outros teriam morrido também, se não tivessem mudado de vôo na última hora. Ela tinha fotos dos colegas que morreram, e relatos dos que sobreviveram. E de repente, ver os rostos de dois das dezenas de passageiros que morreram me fez sentir a intensidade e proximidade da coisa.

Mas esse é um lado só. Mas as repercussões no trabalho de outros familiares, entre jornalistas, policiais, funcionários públicos: tinha repercussões para todos os lados.

E isso eram repercussões de um acidente que tinha ocorrido meses antes no meio da floresta Amazônica. O acidente dessa semana foi bem no meio da maior cidade da América do Sul, menos de um ano depois do outro acidente. Imagino que as repercussões devem estar nas alturas. Só dos respingos que chegam até aqui, eu já me arrepio.

E os arrepios não é só pela proximidade da coisa, apesar desse fator pesar muito. É estranho pensar “Caramba, isso poderia ter acontecido comigo.” Mas poderia. Eu já aterrissei várias vezes em Congonhas, algumas delas em tempo chuvoso, e provavelmente terei essa oportunidade outras vezes.

Mas além da proximidade, tem a magnitude de um acidente desse porte, do número de pessoas e de atividades que ele afeta direta ou indiretamente. É algo assim de dar dor de cabeça só de pensar. Eu penso na família de cada uma das duzentas e tantas pessoas, e no que elas deve estar pensando e sentindo, e como a vida delas mudou de repente. E penso nas pessoas que estavam no prédio que foi atingido, e no posto. Penso nos carros que viram um avião passar de raspando e escaparam por um fio. E no que deve ter passado na cabeça não só dos passageiros do avião, mas do piloto, e dos comissários de bordo. Penso nas pessoas que trabalham no aeroporto, ou nos arredores, ou em qualquer aeroporto ou avião. E nas pessoas que trabalham com elas ou para elas. E nas pessoas que moram com elas, ou que as conhecem. É muita gente. É muita coisa. É muito forte.

É inimaginável, indescritível. Faz qualquer coisa que eu daqui possa dizer ou sentir micro-fichinha em comparação: respingo do respingo do respingo da tempestade. Então vou parar por aqui, com um breve momento de respeitoso silêncio.

Pode acontecer em qualquer lugar

Atenção: este post contém referências a orgãos sexuais e violência (é necessário às vezes dar nome aos bois). Baseado em fatos reais.

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Após um post sobre a importância de ser infantil, eis aqui um post sobre um tema mais pesado.

Ultimamente, eu tenho pensado bastante sobre o tema de violência contra mulheres, algo cuja existência eu conhecia, mas não conhecia. Até agora. Claro que eu sempre soube que é o tipo de coisa que pode acontecer a qualquer mulher, mas por alguma razão (arrogância? presunção?), num nível subconsciente eu meio que me achava imune. Não acho mais.

O texto abaixo é tradução de um email que mandei para uma amiga minha quando eu estava em Atenas no dia 7 de junho passado.

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Ok. Uma coisa agradável e depois uma bem desagradável me aconteceu depois que eu te escrevi aquele email na hora do almoço.

A coisa agradável foi que eu subi o Monte Lykavittos, o ponto mais alto de Atenas, com a vista mais fantástica da cidade, da Acrópole, do mar, das ilhas. Incrivelmente lindo! O caminho até em cima me lembrou um pouco das trilhas no Mont Royal em Montreal, mas não tão bem cuidado, ou largo, ou movimentado.

Eu fui pelo caminho mais longo, mais deserto. Lá cima, tinha uma capelinha, um mirante, nem meia dúzia de turistas, um velho dormindo nos degraus de uma torre com um sino, e dois policiais. Eu dei a volta na capela, e descobri um caminho que desce para um restaurante e chega até a saída de um teleférico. Tirei umas fotos, e voltei para o topo, onde os policiais agora estavam conversando com o velho recém-acordado.

Para voltar monte abaixo, eu decidi pegar o caminho principal, que tinha mais estrutura, era mais curto, mais largo, mais movimentado. E foi aí que o algo desagradável aconteceu.

Um passante veio por trás de mim e começou a caminhar ao meu lado e a puxar assunto. Entre grego, inglês e italiano, ele se apresentou como Eric. Depois de três minutos me oferecendo cigarro, e me convidando para sentar um pouco, sem conseguir me fazer parar (eu continuei andando rápido, dizendo que tinha alguém esperando por mim e eu estava atrasada), ele simplesmente abriu a braguilha, tirou o pênis pra fora e murmurou alguma coisa tipo “fazer bambini”, de pé, no meio do caminho, céu aberto, sol brilhando, plenas quatro da tarde, saída principal de uma das principais atrações turísticas de Atenas.

Eu chispei, com velocidade quadruplicada (movendo com meu centro de gravidade, meu umbigo, e todo meu ser). Ele começou a correr atrás de mim, dizendo “sorry sorry”, até me alcançar e me agarrar pelo traseiro. Neste momento eu virei de uma vez (foi a primeira vez que eu parei e/ou virei), levantei o punho fechado, pus minha cara mais brava e disse algo do tipo “não se atreva!” com voz bem firme.

Para minha grande surpresa, o cara congelou. E eu de repente me toquei que eu não sabia nenhum golpe, além de levantar o punho, e como gritar por socorro provavelmente não ia ajudar muito, eu aproveitei que ele estava paralisado, girei nos meus calcanhares e corri. Em 15 segundos eu passei por outro transeunte (mas nessa altura do campeonato homens desacompanhados na faixa dos trinta anos não me transmitiam a mínima confiança). Em mais 10 segundos eu estava fora do parque, de volta à civilização. O incidente todo não levou nem 5 minutos do começo ao fim.

E agora, menos de meia hora depois, estou eu aqui te escrevendo. Minhas pernas estão quase parando de tremer, e meu coração está quase de volta ao ritmo normal. Mas eu estou pensando: eu tenho que cuidar dessa minha atitude “aventureira”: isso não foi nem um pouco divertido… E policiais, só lá em cima do morro; quando você precisa mesmo, nada…

Se cuida,

Ester
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A Importância de se Importar

Faroeste Caboclo - Quando eu tinha dezesseis anos, Galdino Jesus dos Santos, um índio pataxó, foi queimado vivo em Brasília, minha cidade natal e capital do Brasil.

A vítima estava em Brasília para as comemorações do 19 de abril, dia do índio. Estando a pensão fechada, ele dormia num ponto de ônibus em plena W-3 Sul.

Os assassinos eram quatro adolescentes, classe média alta. Quando perguntados por que tinham ateado fogo ao índio, responderam: “A gente não sabia que era um índio. Achamos que era só um mendigo.” Como se de repente isso explicasse tudo.

De onde vem a indiferença? - Eu lembro de na época ter pensado “Que idéia horrível!”. Mas minha reação não era bem indignação: na época eu era estóica demais para me indignar com qualquer coisa. Era mais um desprezo intelectual dos assassinos (“que idéia de jerico”), misturado com um resignado “é, acontece”, e com uma oração para alma do índio, que tinha ido dessa para uma melhor, e para os assassinos, para que Deus desse a eles mais juízo.

Sereníssima - E só. Nada de ficar esquentando com o que já aconteceu. Desprezo, resignação, tranqüilidade. Coisa de estóico mesmo.

Que País É Esse? - “É, acontece.” Ô, meu Deus, onde, quando, como é uma coisa dessas “acontece”? Minha falta de sensibilidade na época me assusta hoje quase tanto quanto à dos próprios assassinos. Anestesia de quem cresceu vendo Brasília sair no noticiário nacional não só pela corrupção mas também pelos crimes violentos praticados por adolescentes de classe média alta.

Geração Coca-Cola - Gente da minha idade, da minha classe social, da minha cidade. A “Parada do Índio” ficava no meu caminho para a escola. Foi pintada, cheia de homenagens. Eu passava lá todo dia, duas vezes por dia. E todo dia balançava a cabeça em reprovação, à la Harvey Siegel, como se o problema dos assassinos tivesse sido um erro de lógica, de pensamento, uma educação falha.

Giz - Foi uma falha da educação? Sim, com certeza. Mas, puxa vida!, os caras eram ricos, freqüentaram as melhores escolas, tinham tudo que queriam. O que prova: 1) que educação não é só coisa de escola e 2) que mesmo na escola a ênfase não pode ser só “intelectual”. O objetivo da educação, dentro e fora da sala de aula deveria ser o de tornar pessoas mais humanas. Não é só aprender a pensar, é aprender pensar com o coração e sentir com a cabeça.

Teorema - Mas não: a ênfase cada vez mais desprende o pensar do agir e do sentir, a teoria da prática, as causas das conseqüências, o lado subjetivo do objeto e o lado objetivo do sujeito. Os problemas são formulados e resolvidos “considerando as condições ideais” e “desconsiderando os atritos”.

Metrópole - E a minha reação estóica é conseqüência disso tanto quanto o ato assassino dos jovens. Trata-se outras pessoas como objetos na equação: esquece-se que são também sujeitos: sujeitos agentes e sujeitos sujeitos, que fazem e que são feitos pela “realidade objetiva” de todo dia. As coisas não “acontecem” simplesmente. Elas são feitas.

Indignação da Pedagogia - Comecei ontem a ler a “Pedagogia da Indignação” do Paulo Freire. Ele ficou profundamente abalado com a história de Galdino. A última coisa que ele escreveu foi sobre o nosso Pataxó, e nossos jovens:

“Que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer.” (Pedagogia da Indignação, p. 66)

Música Urbana - Paulo Freire morreu uns dez dias depois. Não sei se ele entendeu que o Galdino foi morto não foi por ser índio: os moços pensaram que ele fosse “só um mendigo”. Foi um ato desumano de violência, de elitismo, mas não foi por racismo.

Índios - Mas claro que ele foi morto também por ser índio: por estar numa cidade desconhecida, por não ter motorista e ter se perdido, por ter chegado tarde numa pensão sem estrelas, que não tinha recepcionista 24 horas esperando pelo prezado hóspede, ou anfitriã responsável pelo bem estar da visita. Tudo isso para receber as honrarias do Dia do Índio.

Pais e Filhos, Meninos e Meninas - A violência não foi só a dos jovens. Foi da sociedade toda. Foi racismo sim, foi elitismo sim. Da sociedade toda. Meu também. O que não inocenta nem um pouco os quatro culpados. Mas estende a culpa a muitos “inocentes”: ingênuos como eu que não vemos a nossa parte nisso.

Baader-Meinhof Blues - Eu tenho uma amiga que vive dizendo que o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença. E como diz Renato Russo, “de onde vem essa indiferença temperada a ferro e fogo?” Essa história do Galdino parece letra de Metrópole misturado com Faroeste Caboclo; Índios com Baader-Meinhof Blues. “A violência é tão fascinante, e nossas vidas são tão normais”.

Pacato Cidadão - Uma das correntes mais importantes do legado de Paulo Freire na educação é tentar sacudir a indiferença do “pacato cidadão”. Fazer as pessoas pararem de ser tão passivas, pacientes, para serem também agentes impacientes. E isso começa na escola, no berço.
Mais do Mesmo - Quem me dera ao menos uma vez explicar o que ninguém consegue entender. Mas ainda é cedo.