Arquivo para Transições temporais

Brincadeira de criança!

Fato número 1: Em agosto, eu descobri um brinquedo novo e minha mais nova obsessão: Rockband, um jogo de videogame em que o “controle” é um instrumento musical de brinquedo, e que se joga “acompanhando” a música que aparece na telinha. Quanto mais notas se acerta, mais pontos se faz. (Para provas de minha obsessão, vide relato do Danilo).

Coisa de criança? Pode ser. Mais que é bom, é bom. E como eu queria que um trem bão desse existisse quando eu era pequena! Eu teria ficado craque no violão rapidinho. Tipo ninja mesmo. Com as manhas tudo.

Fato número 2: Eu passei milhares horas de minha adolescência aprendendo a tocar violão. Por “tocar violão” entenda “aprender música dos Beatles” – na minha cabeça, um remete a outro e vice-versa. (Para prova de minha obsessão com os Beatles, vide este meu relato, por exemplo.)

Fato número 3 = Fato 1 + Fato 2!!!! 
Em outras palavras, vai ter o Rockband dos Beatles! Êta nóis! QUE FERA, VÉI!!! Quando eu crescer, eu quero comprar um desse pra mim! Yeah, yeah, yeah!

http://br.noticias.yahoo.com/s/04112008/11/entretenimento-beatles-vao-ganhar-guitar-hero.html

Sete e sete são quatorze…

Nos últimos dez dias, o número de grupos de brasileiros que eu vi aqui em Toronto – na rua, no parque, na universidade, nos restaurantes — deve ter ultrapassado 20. Eu digo “grupos”, porque se fosse para contar as pessoas, acho que dava mais de cem. Tem família com criança, tem universitários, e tem adolescentes que andam em dúzias, com crachazinho dependurado no pescoço.

Motivo? Estamos em julho, mês de férias. E a economia brasileira está numa fase boa – como disse o New York Times na segunda-feira dia 7 e o Yahoo-EUA na terça dia 8. E o Yahoo-Brasil de ontem tinha uma chamada principal enorme de título “Estudar no Exterior Rules.” Toronto é exterior, é relativamente barato se comparado a outros exteriores, tem vôo direto de São Paulo… A lista de bons motivos para brasileiros passarem férias aqui é grande.

Minha primeira reação quando eu vi un grupo de adolescentes brasileiros andando junto com crachazinho na universidade semana passada (depois do reajuste cognitivo “peraí, eu conheço essa língua – ah, é português!” ) foi “ah, é julho, mês de férias. Mas nossa, essa meninada parece criança demais para está viajando sozinha…” Dentro de instantes eu própria me corrigi: “Nossa, Ester, você está ficando velha mesmo, com essa história de “mas eles são tão jovens!” Lembra que a primeira vez que você viajou para o exterior? Você tinha 14 anos, estava completamente desacompanhada, e não viu nada demais nisso…”

Isso foi em julho de 1994, há exatamente 14 anos. Eu saí do Brasil no primeiro dia da nossa moeda atual, o real – um período em que depois de décadas de inflação absurda, começou-se um período de estabilidade econômica sem precedentes. Tinha mais ou menos um ano que eu tinha começado a estudar inglês, e 30 dias na Inglaterra me ajudou a melhorar muito. A família com quem eu fiquei foi sensacional, e até hoje somos amigos. Fico pensando que se aquela experiência não tivesse sido tão positiva, provavelmente eu não teria tomado a decisão de fazer faculdade fora do Brasil – e de ficar fora do Brasil por todos esses anos.

Milhões de coisas aconteceram naqueles trinta dias em julho de 1994, e até hoje eu lebro da seqüência de eventos e de emoções, como se tivesse sido ano passado. Minha curva de aprendizado na época estava a todo o vapor. E isso me fez pensar no seguinte:

Em julho de 1994, 14 anos atrás, eu tinha 14 anos. Hoje eu tenho 28. Podemos considerar aquela viagem como o marco de 50% da minha vida até agora. Dividamos essas duas metades ao meio. Temos então quatro vezes sete anos, que podem ser analisados da seguinte maneira:

  • 0-7 anos: muitas coisas aconteceram na minha vida – começando pela minha própria vida. Nesses sete anos eu nasci, aprendi a caminhar, a falar, a ler, e muitas outras coisas. O mundo passou da década de 70 para a década de 80. Minha curva de aprendizado: lá em cima, tendendo a 90 graus (pi radiandos).
  • 7-14 anos: muitas coisas aconteceram de novo. Passagem da infância, via puberdade, até adolescência – mudança pra caramba. Primeiros namorados. Comecei a aprender uma língua estrangeira. Comecei a tocar violão. Saí do Brasil pela primeira vez. Passamos dos anos 80 para os anos 90. Curva de aprendizado: ainda lá em cima.
  • 14-21 anos: várias coisas novas de novo. Aos 14 anos eu não tinha nem começado o segundo grau; com 21 já tinha me formado na faculdade e começado um doutorado. Nesses sete anos, viajei bastante. Aprendi mais línguas novas. Mudei para outros países. Chegou o tão esperado terceiro milênio. Curva de aprendizado: ainda altíssima.
  • 21-28 anos: nada muito novo. Nada de década nova, nem milênio novo. Eu era uma doutoranda com 21 anos, continuo sendo aos 28. Está certo que nem é o mesmo doutorado. E está certo que eu me mudei de cidade, de departamento, de área de estudos. Mas o que me espanta é que nos últimos 7 anos – ou seja, 25% da minha vida, e 100% da minha maioridade legal – eu me apresento como sendo uma “doutoranda estrangeira.” É tempo pra caramba. Está na hora de ou parar de ser estrangeira, ou de ser doutoranda: de preferência as duas coisas. Curva de aprendizado: completamente horizontal.

As coincidências não param por aí. Julho é o mês 7. Eu nasci no dia 14. Eu fiz minha graduação em 3 anos e meio – 7 semestres: o que quer dizer que eu já passei o dobro de tempo sendo doutoranda do que sendo graduanda. Sinceramente, eu acho que eu tenho que me formar antes de fazer 29 anos, nem que seja só para manter essas proporções tão harmônicas. Mas será que eu consigo? Não sei dizer…

O que me espanta é que nesses sete anos gente que nem pensava em existir não só nasceu, mas aprendeu a andar, falar, a ler. E outros passaram da infância à adolescência, via puberdade. Começaram a estudar uma lingual estrangeira, e a tocar violão, e a viajar para o exterior. Tiveram o primeiro beijo, ou o primeiro filho (ou o segundo, ou terceiro). Alguns casaram e separam. Terminaram o Segundo grau e a faculdade. Aliás, tem um rapaz que estavava no segundo grau quando eu o conheci, no meu primeiro ano como pós-graduanda na Massey College (parte da universidade de Toronto). Hoje em dia ele é também um pós-graduando na Massey College. E eu ainda estou aqui, no mesmo lugar. Minha curva de aprendizado: estagnação total.

Então talvez eu esteje ficando velha mesmo, com aquele tipo de invejinha que os adultos sentem das gerações mais novas. Enquanto criança ou adolescente, a gente nunca sente invejinha dos mais novos, só dos mais velhos. Eu já cruzei aquele limiar que divide a fase em que a gente tenta de tudo parecer mais velho do que é, e agora estou no lado de cá, onde se tenta parecer mas novo do que se é. Mas eu ainda não cheguei naquela idade que se caracteriza por sua sabedoria e paciência – aliás, estou muito longe de chegar lá. E parte de mim acha isso bom (“Beleza, ainda não estou tão velha assim!”) enquanto outra parte quer apressar as coisas (“falta muito para eu adquirir paciência? E sabedoria, rola um atalho até lá? Não? Pô, porque não? Como assim? Tá demorando, viu? Agiliza, vai…”)

E assim são as pessoas e as criaturas…

Mudanças súbitas

Há uns vinte dias, mais ou menos, estava conversando com meu amigo Danilo, com quem não conversava desde que estive em Montreal em fevereiro. Ele me fez aquela pergunta super inocente: “então, que há de novo?”

Suspirei fundo e respondi: “Nada.”

“Como assim, ‘nada’? Três meses se passaram, você foi ao Brasil e voltou, e você me diz que não tem nenhuma novidade?”

 ”É. A tese continua na mesma, as incertezas continuam as mesmas, o computador que eu comprei naquela época continua com aqueles problemas que você viu, até o dedão do pé que eu machuquei naquele dia que a gente foi patinar no gelo ainda está roxo.”

“Caramba! É mesmo?”

“É. Posso dizer portanto que mudaram as estações, mas nada mudou. Aliás, nem isso mudou muito, porque continua frio pra caramba, se considerarmos que estamos em maio.”

“Ai, tá frio mesmo. Mas escuta, nem o dedão sarou?”

“Sarou não. A unha do dedão do pé direito caiu na véspera de eu vir para o Canadá. A do pé esquerdo ainda está com 50% de sua superfície de cor azul-aroxeado, e nem é esmalte. Aliás, antes da outra cair, eu estava mantendo as duas a base de esmalte bem escuro, o que não só ajuda na aparência delas, mas me faz esquecer que elas estão machucadas. Não fosse por isso eu estaria mancando até hoje, só de ver o estado delas…”

“E o computador?”

“Ah, outra novela. Aquele Windows Vista não vale nada. Completamente não-funcional. E o Microsoft Office 2007, meu Deus, que difícil. E a minha cópia original do XP e do Office 2003 estão ainda guardados numa caixa na casa da minha amiga que mora há uma hora daqui — e é quase impossível achá-los para comprar. Acabou que mal cheguei aqui em Toronto, o meu computador pifou por completo — e isso eu tendo que começar meu trabalho novo com ele no dia seguinte! No momento do aperto, uma colega me emprestou os cds de instalação dela, e da-lhe nós reformatando o disco para reinstalar tudo de novo, e achar tudo quanto é driver… Tudo isso só como um band-aid temporário: o meu código não bate com os discos que ela me deu, o que quer dizer que estou aqui na contagem regressiva até o computador dá pau de novo (“29 dias para autenticar sua cópia do Windows, 28, 27… 13, 12, 11…, 4, 3, 2…”). Crônica de uma morte anunciada…”

***

Uma semana depois dessa conversa, várias mudanças súbitas ocorreram, o que prova que as coisas não desenvolvem sempre linearmente, mas aos trancos e barrancos:

1) Tudo começou com uma árvore que fica em frente ao lugar onde trabalho e estudo. Um dia ela estava lá, grande, frondosa, emblemática. Duas horas depois só estava o talo, de diâmetro enorme, mas todo podre por dentro.

2) Um hóspede que tinha confirmado e reconfirmado sua estada (estadia?) na última hora não apareceu. Motivo: ataque do coração. O que quer dizer que nenhum plano é tão rígido que não pode ser mudado na última hora. O que reforça o esquema carpe diem. (Para os preocupados: o hospéde está bem e já voltou para casa).

3) O clima do nada resolveu ficar quente: de 12 graus a 36 (isso mesmo, 36) da noite pro dia.

4) O computador pifou três dias depois do anunciado (numa segunda-feira, ao invés da sexta, só para me manter em suspense). Mas minha outra amiga veio, me trouxe minhas caixas todas, inclusive a que continha meus cds de instalação. Em duas horas, consegui reformatar o disco — de novo — e reinstalar tudo, tudo — de novo. O código foi aceito sem problemas, os drivers foram todos instalados, e depois de três meses duvidando da bondade da idéia de ter comprado esse computador novo, eis que tudo deu certo e vivemos todos felizes para sempre. Ainda estou ralando para entender o novo WordPress (com esses problemas computadoriais, perdi o pique de blogar, e agora está tudo diferente!), e o novo Windows Player 11 também não ajuda (tá tudo branco! Ao invés da telinha psicodélica, tem as capinhas dos meus discos para eu escolher. Tudo tão estranho!). Mas como é bom ter um computador que funciona!

5) Meu supervisor passou de “cético de que as mudaças que eu propus para minha tese fossem realmente necessárias/desejáveis/factíveis” a “muito empolgado com o novo direcionamento da tese.” Viva! Mas hoje é dia de vê-lo de novo, o que quer dizer que tudo ainda pode acontecer.

6) Depois de três meses tendo parado de tomar meu remédio anti-acne (parei de tomar aqui no Canadá, em fevereiro, por causa do frio, depois de só três meses de tratamento), minhas espinhas voltaram a todo vapor, como flores desabrochando na primavera. Ai, ai…

7) E, por último, a mais recente mudança súbita da semana (por enquanto): a unha do dedão do meu pé esquerdo caiu. Sozinha, do nada. Estava eu andando de sandália na chuva, sábado à noite. Cheguei em casa, tirei a sandália molhada, e ao enxugar os pés, percebi que metade da unha não estava lá. Não vi cair, e nem doeu. Sem titubear, lasquei o esmalte rosa-choque por cima. Afinal, é verão, época de esbanjar sapatos abertos, oras (já não me bastassem as espinhas querendo interferir com a alegria veranil de andar na rua sem estar encapotado da cabeça aos pés…).

Pois é, pois é. Mudaram as estações… mas eu sei que alguma coisa aconteceu…

Ah se todos dodóis da vida pudessem ser esquecidos com uma dose de esmalte rosa-choque… 

Mês IV

O personagem de Hugh Grant no filme “Um Grande Garoto” sofre de uma falta do que fazer tão crônica que ele costumava dividir o tempo em unidades de 30 minutos. Cortar o cabelo, 2 unidades. Jogar sinuca, 5 unidades. E assim por diante.

Eu tenho uma leve impressão que minha unidade de tempo é quatro meses. Para acrescentar ao que já disse sobre esse assunto no ano passado, olhemos o ano corrente.

Entramos agora no quarto mês do ano de 2008. Desses quatro meses, o primeiro passei todo em Brasília, seguido por um mês completo no Canadá. Agora já faz um mês que voltei para Brasília de novo, para retornar novamente ao Canadá daqui mais um mês. E dessa vez eu fico mais tempo: quatro meses.

Meu 2008 portanto se divirá em 3 períodos de 4 meses: o primeiro indo e vindo, o segundo todo indo e o terceiro todo vindo. Curioso não? Ou será que eu também começo mostrar sintomas de uma crônica falta do que fazer?

… Tempos de Transições (e assim sucessivamente)

Apesar das muitas mudanças e locomoções, tem algumas coisas que continuam as mesmas, e isso me chateia um pouco. Às vezes parece que essa revirada toda não passou de um grande giro de 360 graus, e daí bate o maior desânimo.

Mas como assim, Ester, o que foi que não mudou?

Bom, para ter uma idéia, o título original desse post era “Limbo Eterno,” que reflete bem esse meu sentimento de estar constantemente em transição — sobre o qual aliás eu também comentei no meu post de um ano atrás. É aquela coisa de estar em caráter temporário no lugar em que se pretende estar de vez. Exemplos:

- eu continuo lendo religiosamente os classificados de Brasília procurando emprego que por hora sei que não posso assumir — do jeitinho que eu fazia nessa época ano passado.

- a tese continua parecendo acabável a qualquer momento: e a linha de chegada parece continuar se afastando.

- a vontade de começar coisas, cursos, conhecer pessoas continua enorme: mas o prospecto da falta de continuidade (“não posso começar nada porque no mês de fevereiro vou estar fora”) vem e joga um balde de água fria.

- A dedicação exclusiva com a tese acaba sendo contra-producente, porque eu não consigo descansar, porque eu não tenho com que me entreter, porque não posso me comprometer com outro trabalho ou curso enquanto não acabar a tese, e assim temos um círculo vicioso.

Nessas horas que eu me pego reclamando de barriga cheia, eu me esforço para parar e olhar o lado positivo, para dar graças a Deus pelas coisas boas que ele me dá, e eu de boba não sei usufruir. Nesse espírito, deixei de lado o ”Limbo Eterno” que apesar de ser um título massa, cheio de impacto, é paralisante de dar medo.

Optei então pelo simpático, apesar de desajeitado, ”Transição de Tempo de Transição.” Primeiro, porque ele é um título mais para cima. Ele engloba o aspecto de “transição de tempo,” aquela coisa bem de passagem de ano, mas tem o adicional que não é só a passagem de um ano normal para outro ano normal: acabou um ano de bastante transições, e agora começou outro ano, também de bastante transições, mas transições diferentes, tipo mudar de fase. A idéia é me apegar a alguma coisa que transmita uma sensação de que as coisas estão andando para a frente, e não em círculos.

E foi só eu tomar essa decisão de despreender do passado que de repente, do nada, aconteceu uma coisa interessante: me surpreendi cantarolando, sozinha, do nada: “Não temas, segue a diante, e não olhe para trás. Segura na mão de Deus e vai.” Foi como se não fosse eu que cantasse, mas alguém pegasse minha voz emprestada para mandar uma mensagem para mim mesma. E do meio de todas minhas agonias desses dias, fui arrebatada por uma avassaladora onda de paz e de alegria. ”Nada te perturbes, nada te amedrontes, tudo, tudo passa, só Deus, só Deus não passa.”

Transições de Tempo…

Ano Novo, Vida Nova? Em termos.

Quer dizer, em muitos aspectos minha vida mudou para caramba de um ano para cá. Pode-se dizer que ela deu uma guinada. Eu olho meu primeiro post de 2007, e vejo que muita coisa mudou. Muito do que era então só especulação ou vontade agora é realidade. Por exemplo:

- Eu falava de minha decisão (na época, recém-nascida) de voltar para o Brasil.
Agora a idéia não só amadureceu, mas já deu frutos: estou eu aqui no Brasil, depois de 8 anos fora, e estou para lá de convicta que essa decisão foi corretíssima.

- Eu estranhava o inverno quente, que parecia querer que eu ficasse
Agora que eu fui embora, ele perdeu todos seus pudores, e temos no hemisfério Norte um dos invernos mais frios das últimas décadas. O que quer dizer que eu escolhi o inverno certinho para dar o fora.

- Mesmo assim, parecia que a primavera não chegaria nunca
Acabou que o inverno passado apareceu, com suas temperaturas padrões tendendo para mais frias, só que com um certo atraso. O final de janeiro, fevereiro e março de 2007 pareciam querer compensar todo frio que não tinha tido em dezembro e janeiro. Tinha dias que eu achava que o mês de maio (que seria quando eu poderia pensar em sair do Canadá) não chegaria nunca.

Enquanto quatro meses no ano passado demoraram uma eternidade, esses últimos quatro meses passaram voando. E agora já é inverno tudo de novo.

- Eu reclamava da maratona aérea de fim-de-ano
Nessa virada de Ano eu não passei nem perto de aeroporto, um fato inédito em vários anos. Aliás, estou a quebrar meu record de tempo longe de avião: 62 dias. Inacreditável. Claro que final de janeiro está aí: e então a contagem começa de novo. Mas por hora estou de parabéns.

Ano Novo, etc.

Segunda-feira, 7 de janeiro. Para muitos, 2008 começa hoje. Acabaram-se as festas. Quem tem que trabalhar foi trabalhar; quem pode tirar férias foi viajar. Fiquei eu, nesse meu trabalho que tem cara de férias, mas que me dá mais trabalho que trabalho. De volta ao batente.

Começo pelo mais importante e imprescindível na vida do cidadão moderno: o email. Hora de agradecer os Feliz Natais desejados e desejar os desejos de Feliz Ano Novo. A maior parte dos meus emails foi para Toronto, e terminou com a saudação “te vejo antes do fim do mês.”

Tal repetição me fez perceber que 5 meses em Brasília passaram rápido demais. E só o pensamento de que estarei em Toronto antes de janeiro acabar me deu um frio na barriga. Ou será talvez gastrite? Não sei dizer.

O fato é que a partir de hoje vou substituir o café pelo chá verde. Segundo o filme “Alguém tem que ceder,” chá verde tem as funções acordantes do café, sem o efeito colateral de deixar a gente meio maluco. Como nesses dias meu nível de paciência tende a zero, a irritação tende ao infinito, a concentração é quase nula, a fadiga é considerável (apesar do sono bem acumulado durante a folga natalina), e a gastrite ameaça substituir a tendinite só para me manter atenta, decidir começar 2008 a base de chá verde. Vamos ver o que acontece. 

Violão não é bagagem de mão? (Último capítulo)

Série completa:

Parte 1: Preparativos

Parte 2: Como assim?

Parte 3: Interlúdio

Parte 4: Raio X

Parte 5: Duty Free

Parte 6: Embarque

Parte 7: Voando longe

Parte 8: Chega!

Telepatia dessa vez não funcionou, e o jeito foi esperar chegar em São Paulo. Depois de outras duas horas de vôo, desembarque, polícia federal e retirada de bagagem, estava eu de novo na longa fila do check-in, já me preparando para um novo confronto.

“Próximo! Identidade, por favor. Qual o destino?”

Resolvi partir para o ataque.

“Moça, é o seguinte. Eu estou vindo do Canadá, de mudança para Brasília. Eu sei que vai dar excesso,” (o limite para vôo doméstico é de 23kg total) “mas será que dá para dar um desconto?”

“Ah, claro! Deixa eu pesar sua bagagem para ver o que dá para fazer. São quantas?”

“São três.”

“E tem bagagem de mão?”

“Ih, lá vem de novo…” “Tenho. Duas.”

“Ah, senhora, sinto muito. Só pode levar uma bagagem de mão.”

“Preparar. Apontar. Fogo!” “Quer dizer que eu não posso entrar com essa mochila e o violão?”, eu disse, com voz forte, espichando a coluna para não dá na cara que a mochila passava muito dos 5 kg permitidos.

“Ah, não, senhora. Violão não conta como bagagem de mão não. Pode entrar com ele e a mochila sem problema.”

Então finalmente, depois de tantas aventuras, Arquimedes e eu chegamos juntos, sãos e salvos em casa (mais salvos do que sãos, diga-se de passagem).

E foi assim que eu descobri que, seja no Canadá, seja no Brasil, violão realmente não é bagagem de mão.

FIM

Violão não é bagagem de mão? (Parte 3)

Retomamos agora nossa programação light normal.

Para aqueles que perderam (ou já esqueceram) os dois primeiros capítulos dessa novela, eis aqui um Vale a Pena Ver de Novo:

Parte 1

Parte 2

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Parte 3:

Viagem no tempo, e vice-versa

Fomos então lanchar, o meu amigo com mãos abanando pedindo para me ajudar; e eu, com mochila e violão nas costas, recusando ajuda. Os motivos da recusa: o costume de carregar a mochila é tanto que sem ela eu me sinto despida. Quanto ao violão, acrescenta-se ao costume o ciúme (“nele ninguém tasca”) e a separação iminente (“deixa-me despedir do Arquimedes”).

Como haviámos chegado com bastante antecedência, tínhamos mais duas horas para matar antes do embarque. Andamos vagarosamente de uma ponta a outra do terminal, com direito a parar para observar todas as exposições permanentes do aeroporto (eu adoro aqueles cubos flutuando num aquário. Dá uma paz…). Finalmente sentamos para lanchar um lanche caro e sem graça, só mesmo para passar o tempo (as opções de lanche do aeroporto de Toronto são péssimas. O aeroporto de Brasília dá de mil.)

Jogamos conversa fora. Comparamos nosso passado, presente e futuro de viajantes. Lembramos da época em que gostávamos de tirar onda de “qual seu aeroporto favorito?” e de trocar figurinhas sobre as melhores maneiras de evitar o jetlag, ou de conseguir dormir num vôo intercontinental.

Refletíamos, nostálgicos, sobre o tempo em que achávamos tiração de onda uma pessoa dizer que estava cansada de tanto andar de avião. Como alguém pode cansar de viajar de avião? Nós sorríamos lembrando dos tempos longínquos em que só de pensar em andar de avião dava frio na barriga; na época em que contávamos nos dedos os dias que faltavam para a viagem, os olhos de colecionador já brilhando ao sonhar com os inúmeros sachês e outras coisinhas congêneres a serem adquiridos como troféu.

Foi-se o tempo. O futuro chegou e agora era nossa vez de tirar onda de quem não aguenta mais tanta viajação. Ousei dizer em voz alta algo que há muito sentia, mas que nunca havia tido coragem de falar para ninguém: que se fosse para passar os próximos cinco anos sem viajar para lugar nenhum, até que eu não achava ruim. Vi pelos olhos de meu amigo que eu tinha acertado em cheio um sentimento que ele não sabia que tinha, e ele sorriu para mim agradecido.

Acaba que essa história não acaba em três partes. Talvez em três vez três. Que novela, não?

Não perca a quarta parte deste trio elétrico de aventuras, em breve ou não) num blog perto de você.

Parte 4

Foi tão estranho que choveu…

Sabe quando acontece uma coisa
bem surpreendente e a gente fala:

“Nossa, que surpresa! Vai chover!”

Às vezes é um telefonema inesperado.
Às vezes uma visita há muito só na promessa.
Às vezes o cônjuge, prole ou similar
que resolve do nada
lavar a louça, ou arrumar a cama.

Neste primeiro dia de outubro
ocorreu algo bem surpreendente.
Choveu.
Pela primeira vez desde o dia 29 de maio último.

O domingo trouxe boatos de garoa esparsa e breve aqui e ali. Só para dar vontade. Eu mesmo não vi, nem acreditei muito em quem falou que viu. Afinal, a previsão de chuva era só para fim de outubro, talvez meados.

Mas no começo da noite da segunda
não foi boato nem garoa.
O céu veio todo a baixo, de uma vez, 
com direito a relâmpago e trovoada.

O clima era de quadrilha de festa junina.
De um lado da rua se gritava:
“Olha a chuva!”
E o outro lado respondia:
“É mentira!” 

Até que todo mundo debruçou na janela,
achando a chuva melhor que a novela.
Crianças pulavam, pessoas gritavam.

Até fogo de artifício resolveu se fazer
de trovão e raio e entrar na festa.
O clima era de fim de campeonato.

E meu pai que sempre achou ruim
quando a previsão do tempo chamava chuva
de “mau tempo” ou “tempo feio”
olhava com o resto da cidade
a lindura do toró
seu presente de aniversário
mais desejado

O clima era mais festivo que final de campeonato
Era mais festivo
que festa de São João ou de aniversário
O fim era do inverno; a chuva venceu a seca

E a festa
era a primavera
Cai, chuva!
Hoje o céu está tão lindo
Cai, chuva!
Meu amigo,
Tim Maia
Meu amigo,
cai chuva

Minha amiga
chuva
cai.

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