Arquivo para Transições geográficas
Sete e sete são quatorze…
Nos últimos dez dias, o número de grupos de brasileiros que eu vi aqui em Toronto – na rua, no parque, na universidade, nos restaurantes — deve ter ultrapassado 20. Eu digo “grupos”, porque se fosse para contar as pessoas, acho que dava mais de cem. Tem família com criança, tem universitários, e tem adolescentes que andam em dúzias, com crachazinho dependurado no pescoço.
Motivo? Estamos em julho, mês de férias. E a economia brasileira está numa fase boa – como disse o New York Times na segunda-feira dia 7 e o Yahoo-EUA na terça dia 8. E o Yahoo-Brasil de ontem tinha uma chamada principal enorme de título “Estudar no Exterior Rules.” Toronto é exterior, é relativamente barato se comparado a outros exteriores, tem vôo direto de São Paulo… A lista de bons motivos para brasileiros passarem férias aqui é grande.
Minha primeira reação quando eu vi un grupo de adolescentes brasileiros andando junto com crachazinho na universidade semana passada (depois do reajuste cognitivo “peraí, eu conheço essa língua – ah, é português!” ) foi “ah, é julho, mês de férias. Mas nossa, essa meninada parece criança demais para está viajando sozinha…” Dentro de instantes eu própria me corrigi: “Nossa, Ester, você está ficando velha mesmo, com essa história de “mas eles são tão jovens!” Lembra que a primeira vez que você viajou para o exterior? Você tinha 14 anos, estava completamente desacompanhada, e não viu nada demais nisso…”
Isso foi em julho de 1994, há exatamente 14 anos. Eu saí do Brasil no primeiro dia da nossa moeda atual, o real – um período em que depois de décadas de inflação absurda, começou-se um período de estabilidade econômica sem precedentes. Tinha mais ou menos um ano que eu tinha começado a estudar inglês, e 30 dias na Inglaterra me ajudou a melhorar muito. A família com quem eu fiquei foi sensacional, e até hoje somos amigos. Fico pensando que se aquela experiência não tivesse sido tão positiva, provavelmente eu não teria tomado a decisão de fazer faculdade fora do Brasil – e de ficar fora do Brasil por todos esses anos.
Milhões de coisas aconteceram naqueles trinta dias em julho de 1994, e até hoje eu lebro da seqüência de eventos e de emoções, como se tivesse sido ano passado. Minha curva de aprendizado na época estava a todo o vapor. E isso me fez pensar no seguinte:
Em julho de 1994, 14 anos atrás, eu tinha 14 anos. Hoje eu tenho 28. Podemos considerar aquela viagem como o marco de 50% da minha vida até agora. Dividamos essas duas metades ao meio. Temos então quatro vezes sete anos, que podem ser analisados da seguinte maneira:
- 0-7 anos: muitas coisas aconteceram na minha vida – começando pela minha própria vida. Nesses sete anos eu nasci, aprendi a caminhar, a falar, a ler, e muitas outras coisas. O mundo passou da década de 70 para a década de 80. Minha curva de aprendizado: lá em cima, tendendo a 90 graus (pi radiandos).
- 7-14 anos: muitas coisas aconteceram de novo. Passagem da infância, via puberdade, até adolescência – mudança pra caramba. Primeiros namorados. Comecei a aprender uma língua estrangeira. Comecei a tocar violão. Saí do Brasil pela primeira vez. Passamos dos anos 80 para os anos 90. Curva de aprendizado: ainda lá em cima.
- 14-21 anos: várias coisas novas de novo. Aos 14 anos eu não tinha nem começado o segundo grau; com 21 já tinha me formado na faculdade e começado um doutorado. Nesses sete anos, viajei bastante. Aprendi mais línguas novas. Mudei para outros países. Chegou o tão esperado terceiro milênio. Curva de aprendizado: ainda altíssima.
- 21-28 anos: nada muito novo. Nada de década nova, nem milênio novo. Eu era uma doutoranda com 21 anos, continuo sendo aos 28. Está certo que nem é o mesmo doutorado. E está certo que eu me mudei de cidade, de departamento, de área de estudos. Mas o que me espanta é que nos últimos 7 anos – ou seja, 25% da minha vida, e 100% da minha maioridade legal – eu me apresento como sendo uma “doutoranda estrangeira.” É tempo pra caramba. Está na hora de ou parar de ser estrangeira, ou de ser doutoranda: de preferência as duas coisas. Curva de aprendizado: completamente horizontal.
As coincidências não param por aí. Julho é o mês 7. Eu nasci no dia 14. Eu fiz minha graduação em 3 anos e meio – 7 semestres: o que quer dizer que eu já passei o dobro de tempo sendo doutoranda do que sendo graduanda. Sinceramente, eu acho que eu tenho que me formar antes de fazer 29 anos, nem que seja só para manter essas proporções tão harmônicas. Mas será que eu consigo? Não sei dizer…
O que me espanta é que nesses sete anos gente que nem pensava em existir não só nasceu, mas aprendeu a andar, falar, a ler. E outros passaram da infância à adolescência, via puberdade. Começaram a estudar uma lingual estrangeira, e a tocar violão, e a viajar para o exterior. Tiveram o primeiro beijo, ou o primeiro filho (ou o segundo, ou terceiro). Alguns casaram e separam. Terminaram o Segundo grau e a faculdade. Aliás, tem um rapaz que estavava no segundo grau quando eu o conheci, no meu primeiro ano como pós-graduanda na Massey College (parte da universidade de Toronto). Hoje em dia ele é também um pós-graduando na Massey College. E eu ainda estou aqui, no mesmo lugar. Minha curva de aprendizado: estagnação total.
Então talvez eu esteje ficando velha mesmo, com aquele tipo de invejinha que os adultos sentem das gerações mais novas. Enquanto criança ou adolescente, a gente nunca sente invejinha dos mais novos, só dos mais velhos. Eu já cruzei aquele limiar que divide a fase em que a gente tenta de tudo parecer mais velho do que é, e agora estou no lado de cá, onde se tenta parecer mas novo do que se é. Mas eu ainda não cheguei naquela idade que se caracteriza por sua sabedoria e paciência – aliás, estou muito longe de chegar lá. E parte de mim acha isso bom (“Beleza, ainda não estou tão velha assim!”) enquanto outra parte quer apressar as coisas (“falta muito para eu adquirir paciência? E sabedoria, rola um atalho até lá? Não? Pô, porque não? Como assim? Tá demorando, viu? Agiliza, vai…”)
E assim são as pessoas e as criaturas…
Toronto, o retorno
Seis meses voaram: hora de ir para Toronto, conforme combinado com minha banca. Ansiedade marcou os dias — aliás, semanas — que precederam a viagem. As pessoas me perguntavam se eu estava empolgada. Eu revirava e revirava meu espírito procurando a resposta, mas não, não era empolgação que eu estava sentindo. Parecia mais cansaço: eu estava exausta só de pensar na viagem. Exaustão por antecipação. A verdade era que eu não queria muito fazer essa viagem.
Cheguei em Toronto no meio dum vento gelante. A viagem em si não teve maiores emoções (ao contrário da viagem anterior). Os sete minutes de caminhada do metrô até a casa da minha amiga quase me matou de frio. Como parte do meu super-planejamento de mudança, eu tinha deixado todas minhas roupas de inverno no Canadá, na casa de outra amiga. O que queria dizer que eu simplesmente não estava adequadamente vestida para aquele frio.
Tinha, claro, minha velha jaqueta azul, que apesar de incrivelmente feia, é incrivelmente quente. (Tal jaqueta tinha sido aposentado havia uns dois anos, quando, depois de usá-la por tantos anos, sua feíura se tornou para lá de óbvia. Tenho dificuldade hoje em dia de entender como pude usar essa jaqueta por tanto tempo — ou até mesmo como pude comprá-la. Está certo que elá é para lá de quentinha, mas mesmo assim… Acho que meu gosto em roupas mudou um tanto nos últimos invernos).
Sob minha jaqueta azul quentinha apesar de feinha, eu vestia umas duas ou três camadas que não eram quentinhas o suficiente. Minhas blusas de frio também tinham ficado na casa da minha amiga. A verdade é que ninguém esperava que estaria tão frio — à principio eu achei que era só eu que tinha perdido o costume, mas todo mundo que encontrei nesse dia disse que aquele dia tinha sido frio muito acima da média. Que sorte a minha.
Os sete minutos de caminhada pareceram sete horas. Duas vezes tive que parar para me proteger do vento e me aquecer. Meu rosto era o que mais sofria. Desde outubro estava tomando remédio para acne, cujo princípio é remover todo o óleo da pele. Sem a gordura natural, as bactérias responsáveis pela acne morrem, o que é bom. Mas sem a gordura natural, a pele perde sua camada de proteção contra as intempéries climáticas, o que não é muito bom. No Brasil, eu estava tomando todas as precauções de não sair de casa sem filtro solar. Mas ao chegar no Canadá nessa fria manhã, depois de passar o dia e a noite viajando, eu tinha esquecido deste cuidado. E o bronze resultante destes sete minutos gelados foi impressionante.
Finalmente cheguei na casa da minha amiga. Ela tinha deixado as chaves com o porteiro, dizendo que estaria em casa à noite. Minha primeira atitude foi tomar um banho. Para minha surpresa, notei ao me despir que meu corpo inteiro — pernas, braços, barriga — estavam vermelhinhos, como se eu tivesse passado um dia ensolarado numa praia nudista sem protetor solar.
Saí do banho às 9 da manhã. Lista de prioridades incluía: 1) comprar loção hidratante, 2) combinar de pegar minhas roupas de frio na casa da minha amiga, 3) tirar uma soneca.
A soneca ganhou.
Caminho da roça
Amanhã é dia de ir para roça; estamos aqui nos últimos preparativos para a viagem. Meu pai diz que Montalvânia (o município onde fica nossa fazenda) fica na intersecção de duas BRs que não existem. Como tem gente que acha que ele fala isso só de brincadeira, e como tendinite, falta de tempo, excesso de cansaço/preguiça, etc, me impedem de escrever muito, resolvi copiar um trechinho do blog do Luís Cláudio Guedes que comprova este fato curioso:
“A BR-030 quando, e se um dia for concluída, vai ligar Brasília ao litoral Sul da Bahia. No seu traçado original (que corta paisagens ainda quase intactas narradas no livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa), a rodovia tem previsão de passar por Montalvânia, no Norte de Minas, numa extensão, até Brasília, de 326,6 quilômetros. Em Montalvânia, a BR-030 cruza com a BR-135, que liga a região Sudeste a São Luís do Maranhão e também não possui pavimento no trecho que corta o extremo Norte de Minas.
Ligar Brasília a Montalvânia era o grande sonho do fundador daquela cidade, o pioneiro Antônio Montalvão (1917/1992), que chegou a abrir uma picada até a nova capital a golpes de machado e enxadão. Essa estrada deixaria o Norte de Minas a um “pulo” dos mercados importantes como Brasília, Anápolis e Goiânia, mas parece ser mesmo coisa de sonhador. Outra opção para ligar o Distrito Federal àquela região seria via Januária. Aécio já prometeu ligar por asfalto Januária a Cônego Marinho. Esta última parece ser a opção mais factível. Sonhar não custa nada.”
Nota Estérica: além da BR-030, uma outra opção para fazer o percurso Brasília-Montalvânia é ir pela Bahia até Cocos em pista asfaltada, e depois atravessar para Minas Gerais para completar o finalzinho da viagem na estrada de chão. Este trajeto, que passa por três regiões brasileiras (Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste), é praticamente duas vezes mais comprido (600km de asfalto + 40km de chão até Montalvânia + outros 30km de chão até a nossa propriedade), mas ainda consegue levar mais ou menos o mesmo tempo de viagem (sem contar que batuca bem menos, e tem o super lanche no posto do Rosário).
Todavia, no momento esta opção não é viável, dado que está quebrada a ponte sobre o rio Itaguari , que fica em Cocos, já no finalzinho da viagem. Nos resta então a bela BR-030, de chão como sempre, chovendo como nunca. O que confere a toda esse aventura um quê de quadrilha (de festa junina, claro):
“Olha a chuva!” “É ment… ah, não é não!”
“A ponte caiu!” “É ment… ah, não é não!”
Violão não é bagagem de mão? (Parte 7)
“É seu esse violão?” perguntou o comissário de bordo.
”Ih, ferrou…” pensei cá comigo.
“É meu sim,” falei com cara de desentendida.
“Algum problema?”
“Você sabe tocar?”
“Sei”
“Se eu pedir para tocar uma música para mim você toca?”
Por uma fração de segundo eu achei essa perguntação toda muito esquisita. Mas logo lembrei que esse pessoal de aeroporto às vezes faz perguntas aparentemente inocentes mas cheias de segundas intenções, para pegar o mentiroso desatento.
(Caso clássico: “Você está indo para onde?” “Cuiabá.” “Fazer o quê?” “Eu moro lá.” “Há quanto tempo?” “Desde criança.” “Ok. Mato Grosso é MG, certo?” O viajante desatento ou desinformado concorda, e daí até provar que pingo não é letra, já perdeu o vôo.)
Me achando muito esperta, e vendo um sorriso na cara do cara, respondi: “Toco, claro que toco. É para tocar?”
“Ah, eu acho tão bonito mulher tocar violão… Eu queria saber tocar também. Agora mesmo está indo um tanto de gente tocar num festival em Dublin. Me deu uma vontade de estar nesse vôo…”
Nisso a voz do comandante espalhou-se por todos auto-falantes: “Atenção, tripulação, preparar para a decolagem.” O comissário sorridente concluíu a paquera com uma piscadinha e disparou corredor a frente fechando bagageiro e verificando cintos de segurança.
Eu disparei a rir descontroladamente e me segurei para não chamar atenção demais. Questão de segurança.
* * * * *
“Atenção, senhores passageiros!”
Acordei assustada com a agressividade dos auto-falantes e das luzes ofuscantes acesas de uma vez.
“Dentro de instantes daremos início ao nosso serviço de café-da-manhã.”
Olho pela janelinha: ainda é noite. Olho para o relógio: 4:45 da manhã. Meio cedo para tomar café, não? O comandante corrige meus pensamentos:
“Agora são cinco horas e quarenta e cinco minutos no horário local. Podemos ver à direita da aeronave a cidade de Brasília. O nosso tempo de vôo até São Paulo é de aproximadamente mais duas horas, com o pouso previsto para as sete e cinqüenta, desembarque para as oito horas e sete minutos.”
Olho para o relógio. Ainda falta tanto tempo. E depois do desembarque tem fila da alfândega. Depois tem que pegar bagagem. Depois fila de check-in de novo. Depois esperar um tantão para embarcar, outras duas horas de vôo, para, com sorte, chegar em Brasília antes da janta.
Olho pela janela e vejo as luzinhas da minha cidade que ainda dorme lá em baixo. “Ei, essa é a minha parada! Eu quero descer aqui! Cadê a cordinha para eu dar o sinal?”
Violão não é bagagem de mão? (Parte 6)
Ao telefone
“Olha, tá tudo bem.” Meus olhos corriam de um lado para o outro como um pêndulo nervoso. “Tá, tá no horário certinho.” Ninguém me interceptou ainda. “Não, sem problema.” É, parece que não tem ninguém me observando.
A vontade era de dizer que eu estava entrando com o violão escondido, que eu estava com as pernas tremendo, que eu tinha burlado o sistema, blefado, camuflado, que eu me sentia uma verdadeira contrabandista. Mas vai que nisso alguém me escuta e começasse a achar que o negócio era bem mais feio do que na verdade era? Até que eu provar que pingo não era letra, muita água ia ter que passar de baixo da ponte, e aí eu corria o risco da vaca ir para o brejo e dar com os burros n´água. Melhor eu ficar na minha.
“Tá, tá tudo ótimo. Beijo. Até amanhã.”
Embarque
Desliguei o telefone e fiquei aguardando meu vôo. Às vezes acontece que a pessoa do check-in depois vai para o portão ajudar no embarque. Eu estava então morrendo de medo de dar de cara de novo com a tia do check-in. A espera deve durado uma hora, mas para mim foram duzentas.
Reparei que tinha outro jovem violeiro na área. Quando finalmente chamaram para o embarque, fiquei esperando ele passar primeiro, e fiquei só na espreita.
Alívio número um foi que a tia do check-in não veio fazer o embarque. Legal. Alívio número dois foi que o violeiro entrou sem parecer ter tido problema. Beleza.
Mesmo assim, escolhi uma fila que passasse à direita do balcão. Por quê? Ora, porque assim o funcionário que pegasse meu cartão de embarque ficaria à minha esquerda. E daí? Ora, e daí que eu carrego o violão com o ombro direito. Dessa forma, o braço que entrega o bilhete não é o mesmo que carrega o violão. Tudo planejado nos mínimos detalhes para não chamar atenção.
O Túnel da Verdade
O cara pegou meu bilhete, entregou o canhoto e me desejou boa viagem. Um obstáculo a menos. Mas agora é que iam ser elas: quando (conforme descrito na parte 4, “Apegos e Desapegos”) compus o “Discurso da Apreensão”(note bem o trocadilho), na minha cabeça o pano de fundo de todo o discurso era o túnel que leva ao avião. Ali bem na curva, quase já na porta da aeronave.
O perigo então ainda estava por vir. O túnel da verdade se estendia à minha frente. Entrei, com a cara e a coragem, esperando ser abordada a qualquer momento. Fiz a curvinha, já contando com o pior.
Nada. Entrei no avião.
“É agora!”, pensei.
No avião
“Seu bilhete, senhora. Corredor a esquerda, no final.” A moça nem olhou para o meu violão.
Achei meu assento e coloquei o violão no bagageiro logo acima (que para minha surpresa estava completamente vazio). Sentei já pegando o cobertozinho, me cobri, coloquei o fone de ouvido e respirei aliviada. Deu certo.
Mais um perigo
Mal me acomodei, logo chegou alguém para sentar ao meu lado, no assento do corredor (o meu era o da janela, só tinha dois). Abriu o bagageiro, colocou sua maleta e sentou, deixando o bagageiro aberto. Não gostei. Mas também não quis reclamar, para não chamar atenção.
Aumentei o volume do mp3 para escapar das conversas chatas (“Puxa, véi, Paris é muito melhor que Montreal, nem se compara. Os franceses são chatos, mas são chiques.”). Compenetrada nos meus sudokus, nem vi quando fecharam as portas da aeronave e a tripulação veio fechando os bagageiros para preparar para a decolagem.
Quando vi, o comissário de bordo estava conversando com o cara do meu lado. Fingi que nem vi, e fiquei só rezando. Até que o carinha do meu lado me cutucou dizendo para quem quisesse ouvir: “Meu não. Deve ser dela.”
Gelei.
Violão não é bagagem de mão? (Parte 5)
Retrospectiva da série:
Parte 5:
A consciência a pesar nas costas
Sorri agradecida, respirei fundo de novo e passei pela portinha da segurança. Tirei o violão e a mochila das costas e pus na esteira. Mostrei meu bilhete. Passei pelo detector de metais, virando para trás toda hora, piscando para meu amigo e estalando os dedos como quem sabe que está fazendo coisa errada e diz “eita ferro!”. Bandeira total: minha cara de poker típica.
Tendo passado pelo detector, o segurança pegou meu violão e disse em voz forte e clara: “Senhora, seu violão…” Olhei para ele esperando mais. “Senhora, seu violão: não pode levar!” Ou então: “Senhora, seu violão: está apreendido, queira me acompanhar!” Ou ainda: “Senhora, seu violão: tem que despachar. A multa é de mil dólares!”
Mas não. Foi só: “Senhora, seu violão. Boa viagem!”
O desvio no Duty Free
Que estranho. Os carinhas da segurança (que em geral são os mais cri-cri de todos) não sabiam dessa que violão não é bagagem de mão. Acenei mais uma vez para meu amigo (e ainda acrescentei um “jóia” sorridente com o polegar) e segui rumo ao portão de embarque.
Mais adiante avistei do lado direito do corredor em que estava um balcão de informações da Air Canada. Do lado esquerdo, uma loja Duty Free gigante, com saída lá para o outro lado. Não tive dúvidas. Eu nem gosto de Duty Free, mas como o balcão daAir Canada tinha três atendentes e nenhum cliente, resolvi não dar muito na vista. O labirinto de balcões da Duty Free me caiu como uma bela camurflagem.
O último portal
Tendo sobrevivido mais esse perigo sã e salva (na verdade, mais salva do que sã), fui passando de um portão de embarque a outro até chegar no meu. Nesse percurso, vi pelo menos outros três violeiros. Que estranho. Será que eles não sabem que violão não é bagagem de mão? Ou será que a cara de poker deles era assim tão melhor que a minha? Não dava para saber.
Cheguei então ao meu portão. Como ainda faltava um tempinho para embarcar, resolvi ligar para meus pais em Brasília para dizer que estava tudo bem.
Imagine…
Imagine que eu cogitei seriamente ficar em São Paulo até amanhã. Cogitei. Muito muito, que minha imaginação não brinca em serviço. E quase que resolvi ficar mesmo. Só que:
1. Imagine que, se não fosse pelo feriado semana que vem fazer a passagem ficar três vezes mais cara do que essa semana, eu teria ficado. Quer dizer, isso antes da BRA ir a falência e a outras empresas começarem a acomodar os passageiros que ficaram sobrando, o que com certeza bagunçaria meu retorno ainda mais. Mas acho que fosse só isso eu até teria feito uma força, imagine… Só que:
2. Ai, você nem imagina o tanto de trabalho que eu tenho que fazer. No dia de finados, fiz meu PPM (Planejamento Pluri-Mensal), como faço todo começo de mês. Percebi que para dar conta de tudo que eu gostaria de fazer até o natal, novembro vai ter que durar uns cinco meses… Imagina só. Mas eu até que eu teria segurado a onda e deixado para por sebo nas canelas semana que vem, só para poder ficar em São Paulo até amanhã. Só que…
3. Se eu não fosse perder tanta aula… Porque agora, além de malhar, eu estou fazendo Krav Magá e Tai Chi Chuan (um para treinar explosão, e o outro para repor a energia). E imagina que nesse nem bem um mês direito que eu estou fazendo essas aulas, eu já tive tanta falta… Assim fica complicado. Mas até que eu encarava mais uma faltinha só, para poder ficar em São Paulo até sexta. Só que:
4. Não tinha lugar para ficar. Assim, até que teoricamente dava para acrescentar mais umas três diárias no hotel que eu estava, que era muito simpático, e até em conta para seu nível de conforto, você nem imagina. Só que:
5. A grana está curta. Esse negócio do visto já está me gerando tanto gasto, ainda mais com esse negócio de eu ter ido a São Paulo à toa, e agora ter que ir atrás de despachante. Eu nem imagino como vai estar a conta do cartão quando chegar. Mas entre extravagâncias e extravagâncias até que dava para espremer mais um pouquinho e colocar mais uminha. Só que:
6. Se ao menos tivesse levado mais roupa… Eu só tinha levado roupa para 2-3 dias. Ainda assim, eu até cogitei achar uma lavanderia (já que o item 5 restringe um pouco a compra de mais roupas, e de qualquer forma, eu só havia levado uma mochila, que já estava estourando de cheia). Só que:
7. Eu tinha me esquecido o que é chuva e não levei comigo sequer um sapato fechado ou uma meia, ou uma camisa de manga. E choveu direto por dois dias… Então eu precisava não só de lavanderia, mas de sapato, agasalho, vai imaginando a figura… E tudo isso vai contra os itens 5 e 6.
Mas, olha, imagine que eu até pensei em fazer uma forcinha, nos esquemas 1-5, só para poder ficar em São Paulo até o dia nove de novembro de zero-zero-sete.
Você já está imaginando que isso tudo é só para eu poder ficar mais tempo no Instituto Paulo Freire, né? Ou então resolver logo o negócio do visto. Mas não: tanto um quanto outro dá para fazer em outra oportunidade, e apesar de eu ser uma pessoa impulsiva, até que eu sou paciente (por mais paradoxal que isso possa parecer).
Mas não é nada disso. O que eu queria está fazendo em São Paulo exatamente nesse momento era estar no Theatro Municipal. Ora, eu nunca fui ao Theatro Municipal, e teoricamente não há nada que esteja lá há tantas décadas que não possa esperar um pouco mais.
Quer dizer, tem algo que só está lá hoje, que eu nunca imaginaria ver no Brasil, assim, tão acessível ao público. É o tipo de coisa que não dá para voltar e ver de uma outra vez, ou fazer por despachante. Este algo é uma performance. Uma noite com alguém.
Pois imagine que a senhora Yoko Ono está se apresentando nesse momento em São Paulo. Eu que nem sabia que ela se apresentava assim, ainda mais que fazia turnê. E imagina que ela parece estar mais bonita hoje, com seus acho que 74 anos, do que há 40 anos, quando o mundo todo a conheceu. E imagina que o ingresso custava R$ 60,00 (não sei se inteira ou meia, mas que, de qualquer forma, é muito menos que muitas outras coisas).
E imagine que eu perdi uma coisa dessas!
Pois é. Dados os motivos 1-7 expostos acima, tudo o que me restou foi voltar para Brasília, e buscar consolo no bom e velho “Imagine”…

“In the middle of a dream,
In the middle of a dream,
I call your name:
Oh, Yoko…”
Vivendo e aprendendo
Essa semana eu fui a São Paulo para renovar meu visto do Canadá. A viagem foi boa, e eu fiz uma porção de coisas, exceto renovar o visto (por incompetência própria: eu esqueci de marcar horário, e o próximo agora era só semana que vem).
Depois de chorar um pouco sobre o leite derramado, eu resolvi tirar proveito da viagem. Aproveitei para conhecer o Instituto Paulo Freire.
É um prédio desprentencioso num bairro desprentencioso. As pessoas dentro do prédio também são bem despretenciosas. Perguntei a secretária se podia fazer um tour do Instituto, mesmo sem ter marcado horário.
Ela chamou um rapaz na sala ao lado, e perguntou se ele poderia ser meu guia. Ele concordou prontamente, e me pediu para sentar numa mesa em sua pequena sala cheia de livros. Tanto as roupas como as maneiras das duas pessoas eram bem simples, assim como tudo no lugar.
O rapaz começou a me explicar que o Instituto surgiu de uma idéia em 1991 quando seu pai deu uma palestra na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e foi fundado mesmo em 1992. Eu não fazia idéia de quem era o pai dele, e quase interrompi para perguntar. Mas daí ele começou a explicar que seu pai esteve bem ativo nos primeiros cincos anos do Instituto, até falecer em 1997. Eu comecei a ter uma forte suspeita de quem seu pai seria.
Daí ele falou que quando seu pai morreu, todos os livros dele foram doados para a sala onde a gente estava. Neste momento eu me arrepiei toda. O rapaz era nada mais nada menos que o filho caçula do Paulo Freire. Os livros na sala era da coleção pessoal de Freire, datando desde os anos 40. Eu achei uma cópia de 1959 de ”A Sociedade Democrátia e seus Inimigos” de Karl Popper, outra de 1963 do “Paideia” de Jaeger, todas com notas na margem e resuminhas no final, à mão do próprio Paulo Freire!
(Interessante que eu cito esses dois livros na minha tese, e que na contra-capa do livro do Popper, Freire faz uma referência a Jaeger, o que é muito fera!). Nos outros dois minutos que eu passei as vistas pela biblioteca eu também vi Russell, Freud, Anísio Teixeira, Fernando Azevedo e Euclides da Cunha, e muitos outros. Definitivamente tenho que ir lá com mais tempo.
Lut, o filho do Paulo Freire, me deu um tour do subsolo, onde ficam os arquivos. Me apresentava para todo mundo, contando piadas e histórias pelo caminho, como se a gente fosse amigo de infância.
Depois ele ofereceu a me mostrar os escritórios nos andares de cima, mas logo lembrou que estava na hora de buscar a filha na escola. Então ele pediu para a secretária para me levar lá. Ao mesmo tempo, me perguntou se eu poderia voltar no dia seguinte, para ele me mostrar uma escola perto onde é a sede de vários programas. Eu concordei entusiasticamente.
Lizeth, a secretária, me mostrou os andares de cima, onde se encontram todos os escritórios administrativos. Todo lugar que ela parava (tesouraria, comunicações, editora, informática, cozinha, relações internacionais) ela me apresentava para todo mundo quase solenemente, e eles paravam o que estavam fazendo e me recebiam como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo, e como se interrompê-los fosse tudo parte do esquema. Isso que eu nem tinha marcado horário nem nada, nem tinha falado muito sobre minha modesta pessoa.
Voltei no dia seguinte, dessa vez com a máquina (imagina que eu não tinha nem levado máquina!) , um tanto de pergunta mirabolante para o Lut e um tanto de coisa para bisbilhotar antes de retornar para Brasília no começo da noite. Infelizmente, acabou que o Lut não pode ir. Isso me deixou chateada por meio segundo. Mas depois eu lembrei da sorte que eu tinha dado de já ter conversado com um filho do Paulo Freire, sem estar nem esperando, e dele ter se mostrado tão simpático e disponível. Daí calculei que eu já estava no lucro, e que a visita já tinha superado em muitos as expectativas.
Além disso, no Instituto não faltava coisa para entreter uma pessoa do meu nível de curiosidade — curiosidade que a Lizeth soube aguçar bem. Não só eu fui à tal escola (que na verdade não era uma escola, mas um centro afiliado ao Instituto) e conversei com pessoas interessantíssimas (desde membros do conselho do Instituto a pesquisadores de além-mar), mas vi também muitas coisas maravilhosas, incluindo uma cópia do manuscrito (a mão mesmo!) de ”Pedagogia do Oprimido” de 1968″!!!
Essa foi realmente uma daquelas viagens que o desvio sai mil vezes melhor do que o itinerário original. Agora é correr atrás de um despachante para conseguir o tal do visto…

Fachada do Instituto Paulo Freire

A simpática Lizeth guarda o forte.

Cópia de 1959
de ”Sociedade Democrática e seus Inimigos”,
anotada pelo próprio Paulo Freire.”
Violão não é bagagem de mão? (Parte 4)
Inocentite aguda
Terminamos nosso insípido lanche conversando sobre tais assuntos e fomos caminhando vagarosamente para a outra ponta do aeroporto onde era o embarque. Conversa vai, conversa vem, eu havia esquecido completamente daquela história que violão não é bagagem de mão. Sério mesmo. Não estou falando isso só para bancar a inocente.
A verdade é que eu não sei blefar. Para se ter uma idéia, eu sou péssima de truco. Poker então nem se fala. Quando o jogo é máfia ou killer, aí é que eu me entrego mesmo, de tanto piscar. Mentir me dá tique nervoso.
Apegos e desapegos
Quando então, no momento da despedida, meu amigo atentou para o fato que eu já ia entrando com o violão, eu caí em mim e me toquei de novo do drama da situação. Se ele não tivesse me lembrado, era capaz de eu passar pela segurança toda na maior naturalidade, sem achar que estava fazendo nada errado. Mas passar sabendo era outra história. Eu não daria conta. Comecei então me despedir de verdade do Arquimedes.
Enquanto a fila do raio-x caminhava, li com toda atenção a placa listando todas as coisas proibidas a bordo: armas de fogo, objetos cortantes, aerosois, shampoos e outros líquidos de higiene pessoal, até água. Em nenhum lugar constava “violão e outros instrumentos musicais”.
Nesse momento me deu um estalo. Segurei meu violão mais forte, e resolvi arriscar. Comecei a explicar para meu amigo que se me barrassem, que eu me virava. Pois pensei cá comigo: o Arquimedes, por mais querido que fosse, não tinha me custado nem os $120 de excesso e já tinha mais do que se pagado nos nossos quases doze anos juntos. O que viesse a mais era lucro. Não compensava toda aquela dor de cabeça para ou deixá-lo para trás, ou pagar para recebê-lo depois em frangalhos. Se desse para eu levá-lo, bem; senão, o melhor era passar ele adiante com saúde.
Já tinha começado até a ensaiar o discurso que faria na hora em que fosse apreendida: “Moça (ou “moço”), “fica com esse violão para você. Dê ele de presente a alguém que você gosta, um filho, sobrinho ou afilhado. É um violão muito bem-quisto, cuide bem dele. Ele se chama Arquimedes.”
O Plano B
Com o discurso pronto, ajeitei nos ombros mochila, violão e coragem, respirei fundo, e segui rumo ao raio-X. Meu amigo ainda me deu uma recomendação final: “Olha, eu vou ficar aqui te observando até você passar do raio-X e chegar lá no final daquele corredor. Depois que você sair de vista, eu ainda vou ficar plantado aqui por uns dez minutos. Se der alguma coisa errada, lembra que eu estou aqui e posso pegar o violão de volta, tá? Agora vai lá, e boa sorte.”
Que será que aconteceu então? Será que deu certo? Não perca em breve mais um capítulo desta apegante história!
Violão não é bagagem de mão? (Parte 3)
Retomamos agora nossa programação light normal.
Para aqueles que perderam (ou já esqueceram) os dois primeiros capítulos dessa novela, eis aqui um Vale a Pena Ver de Novo:
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Parte 3:
Viagem no tempo, e vice-versa
Fomos então lanchar, o meu amigo com mãos abanando pedindo para me ajudar; e eu, com mochila e violão nas costas, recusando ajuda. Os motivos da recusa: o costume de carregar a mochila é tanto que sem ela eu me sinto despida. Quanto ao violão, acrescenta-se ao costume o ciúme (“nele ninguém tasca”) e a separação iminente (“deixa-me despedir do Arquimedes”).
Como haviámos chegado com bastante antecedência, tínhamos mais duas horas para matar antes do embarque. Andamos vagarosamente de uma ponta a outra do terminal, com direito a parar para observar todas as exposições permanentes do aeroporto (eu adoro aqueles cubos flutuando num aquário. Dá uma paz…). Finalmente sentamos para lanchar um lanche caro e sem graça, só mesmo para passar o tempo (as opções de lanche do aeroporto de Toronto são péssimas. O aeroporto de Brasília dá de mil.)
Jogamos conversa fora. Comparamos nosso passado, presente e futuro de viajantes. Lembramos da época em que gostávamos de tirar onda de “qual seu aeroporto favorito?” e de trocar figurinhas sobre as melhores maneiras de evitar o jetlag, ou de conseguir dormir num vôo intercontinental.
Refletíamos, nostálgicos, sobre o tempo em que achávamos tiração de onda uma pessoa dizer que estava cansada de tanto andar de avião. Como alguém pode cansar de viajar de avião? Nós sorríamos lembrando dos tempos longínquos em que só de pensar em andar de avião dava frio na barriga; na época em que contávamos nos dedos os dias que faltavam para a viagem, os olhos de colecionador já brilhando ao sonhar com os inúmeros sachês e outras coisinhas congêneres a serem adquiridos como troféu.
Foi-se o tempo. O futuro chegou e agora era nossa vez de tirar onda de quem não aguenta mais tanta viajação. Ousei dizer em voz alta algo que há muito sentia, mas que nunca havia tido coragem de falar para ninguém: que se fosse para passar os próximos cinco anos sem viajar para lugar nenhum, até que eu não achava ruim. Vi pelos olhos de meu amigo que eu tinha acertado em cheio um sentimento que ele não sabia que tinha, e ele sorriu para mim agradecido.
Acaba que essa história não acaba em três partes. Talvez em três vez três. Que novela, não?
Não perca a quarta parte deste trio elétrico de aventuras, em breve ou não) num blog perto de você.