Arquivo para Trabalho
Ode ao trabalho
Sem trabalho não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
(Renato Russo, Música de Trabalho, 1996)
Acho que já comentei aqui
De como sempre fui apaixonada por trabalho
Desde muito antes de terminar o primeiro grau
Seguia os classificados de domingo religiosamente
Suspirando em espera do dia que poderia dizer
“Segundo grau completo, tenho, sim, senhor”
Tirei minha carteira de trabalho aos 14
Depois de muita insistência e birra
(“puxa, só depois dos 14?”)
Primeiro registro veio aos 16
(“demorou, hein, caramba!)
Carteira assinada no ensino médio
Era minha maior vaidade
Tem gente que não têm nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber
De trabalhar
Vim para o Canadá aos 19
Trabalho? Tem que ser legal.
E legal por muito tempo
Era só na universidade
Universo pequeno
Todo verão, era aquela história
Eu feito doida atrás de emprego
On campus, legítimo; “frescura,”
Todo mundo me dizia.
Frescura. Gente sendo deportada
A torto, a direito e aos montes.
E eu, fresca
Sem querer me sujeitar a fazer
O que me tinha sido proibido
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria
Ô, castração
Não ter permissão de trabalhar
Legalmente, legitimamente
Sem ser favor, sem ser esmola
Trabalho honesto, puxa vida
É pedir demais?
Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Ô inveja. Confessemos, demos nomes aos bois:
Eu tinha in-ve-ja. Inveja de quem tinha emprego
Chato, entediante, besta, mas emprego
Legal, e legítimo. Digno. Papel passado.
(A inveja era tanta que eu nem considerava
Como até o emprego pode ser desumanizante.)
Exigido e proibido. Recompensado e punido
O luxo é qual: ter ou não ter?
Não sei.
Mas ter é uma honra
É uma dádiva, um direito básico
O mínimo necessário
Que me pode ser possível agora
Permitido, ainda não
Mas possível ao menos.
Possível, espero
Primeiro de Maio
Dia de São José Operário
Fiz minha noveninha
Pedido que zele pelo meu trabalho
E pelos que trabalham
Pelos que oferecem, que regulam
Que proíbem ou destorcem
Pelos que o desprezam e desvalorizam
Pelos que muito o prezam e de que muito precisam
São José Operário
Roga por todos nós
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p’rá casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
Ofertório
De São José, aprendi
O amor ao trabalho
E o trabalho por amor
Trabalho, apaixonante, sacrificante
Amor que dá um trabalho lascado
Paixão que a gente teima em resistir
E teima em ser arrebatado
Este meu trabalho é por amor
Amor a Deus
Amor a meu país e meu povo
Amor a minha família e meus amigos
Amor ao próximo, perto e distante
Conhecido e desconhecido
Adorável e insuportável
Amor ao meu amor
Meu Deus, minha Força, meu Amor
Eu, pequeninha, Te ofereço, te peço
Aceita esse meu ato de amor
Abençoa esse meu ato de amor
Multiplica esse meu ato de amor
Põe Seu amor nesse meu ato de amor
Faça com ele o que Você quiser
Mas faça com que ele Te agrade
Adicione a ele o que eu não posso adicionar
Remova dele o que eu não posso remover
E se o que te agrade seja que ele não se realize
Então delete, tire isso de mim
Remova meu ego egoísta do meu trabalho
Do meu amor. De mim.
Este trabalho e esta trabalhadora são coisas Suas
Criados por Você e para Você
Você que me deu, Você que me tire
Esse amor e esta amadora são coisas Suas
Criados por Você e para Você
Você me colocou nessa: agora Você que me tire.
Se Você não quiser, também não quero
Mas faz de mim um trabalho que Te agrade
Um amor que te agrade
São José, padroeiro do trabalho, da família,
do Canadá, da igreja,
da minha paróquia, da minha família,
da minha vida,
hoje faz 29 anos que fui batizada
na paróquia que leva seu nome.
Se eu puder nessa ocasião
pedir um favorzinho,
peço o seguinte:
fala com sua Esposa
para dar uma palavrinha com o Filho dela
que eu estou precisando
de uma forcinha extra hoje.
Valeu, brigadão!
Grata como sempre,
(E um pouquinho mais do que o de sempre)
Ester.
Contabilidade Filosófica
Ester numa entrevista de emprego…
“Devido a cortes no orçamento, minha graduação juntou dois cursos. Felizmente, parece existir uma demanda crescente no campo da contabilidade filosófica.”
Tem anos que eu recortei essa tirinha e carrego ela comigo. Ela já me serviu em várias aulas de Filosofia da Educação. Já passou um tempão alfinetada no meu quadro de cortiça. Agora ela esta grudada com durex na porta do meu escritório, pelo simples fato de eu achar que ela descreve precisamente e concisamente minhas qualificações para meu trabalho atual.
Como eu disse no post “Primeiro de Maio”, meu trabalho de verão é muito simples: oferecer quartos na universidade para viajantes que vêm a Toronto no verão. Alguns dos nossos hóspedes são estudantes, outros não. Alguns só passam a noite, outros ficam uma ou duas semanas, outros um ou dois meses, outros o verão inteiro. Alguns vêm do outro lado do mundo, outros do outro lado da cidade.
É uma mistura muito interessante, e eu aproveito a oportunidade para praticar minha comunicação interpessoal — algo que meu trabalho acadêmico não exercita muito. E pode acreditar que nesse meu ramo de prestação de serviço a oportunidade é muita, tanto em quantidade quanto na variedade de interações.
O sistema de reserva que usamos provavelmente tem sido o mesmo nos últimos quarenta anos, senão mais. Ele consiste em dois fichários: o fichário de quartos (preto) e o fichário de pessoas (azul). Minha função é manter os dois fichários sincronizados o tempo todo
O fichário de quartos contém 20 folhas de papel quadriculado, de uns 30X45 cm. O eixo vertical (30cm) corresponde aos quartos. O eixo horizontal (45cm) marca os dias do mês. Cada folha descreve o que acontece em cada mês em cada casa (cinco casas, quatro meses, vinte folhas).
Quando uma pessoa faz uma reserva, ou resolve cancelar, ou mudar de quarto, eu marco no fichário preto, que nem um jogo elaborado de Tetris. A diferença é que é em preto e branco, e de papel e lápis. E os bloquinhos têm sentimentos, e sempre têm razão. Mas é uma satisfação pessoal muito grande ver que todo aquele investimento de tempo e de energia na minha juventude, todas aquelas horas árduas jogando Tetris, não foram em vão. É uma grande emoção.
Já o fichário azul contém os dados pessoais de cada bloquinho, nome, telefone, email, data de chegada e de partida, quarto simples ou duplo, e a assinatura deles dizendo que eles leram e concordam em respeitar as regras da casa.
Esse ano eu revolucionei o fichário azul trazendo divisórias que vão de 1 a 31, maio a agosto. Essa inovação facilita o processo de sincronia com o fichário preto: se o senhor X faz reserva para o dia 6 de julho, então eu só não tenho de ir de A a X para achar o senhor X: no momento da reserva a identidade do senhor X passa a ser “senhor 6 do 7, quarto 17″, e, para todos meus processos mentais, esse é o nome do senhor X para sempre, ou ao menos até ele voltar aqui de novo.
Mas você, meu leitor perspicaz, pergunta: e se o senhor X liga antes para cancelar a reserva, como você sabe onde você arquivou a ficha dele? Resposta: para isso que existe o fichário preto de quartos. Simples, não?
Meu leitor, simpático, sugere: não seria mais fácil jogar isso tudo no computador? Um programinha simples resolveria tudo.
Percebo então que devo explicar um detalhe crucial ao meu atencioso e benévolo leitor: o charme aqui é ser “tradicional”. Tradição é tudo. Nada foi mais testado e aprovado com o passar do tempo quanto o velho método lápis-e-papel que usamos (lápis autêntico, nada de lapiseira). Faxineiros, porteiros, tesoureiros, superintendentes: todos nós dependemos do sistema de comunicação face-a-face para desempenhar bem nossas funções. Nada de mediações computadorizadas, mecanizadas, automatizadas: toda oportunidade é oportunidade de praticar nossa comunicação interpessoal. Nosso sistema foi apurado com o passar das décadas talvez séculos. Tudo friamente calculado e empiricamente comprovado.
E é por isso que essa minha função necessita de uma pessoa devidamente gabaritada em contabilidade filosófica.
Dia do Trabalho
Dia do trabalho é um bom dia para começar um trabalho novo. E haja trabalho!
Aqui no Canadá o dia do trabalho é em Setembro, e marca o começo do ano letivo. Primeiro de maio é só primeiro de maio e se marca qualquer coisa, é o começo do semestre de verão.
Com o ano letivo assim oficialmente terminado ontem, o mês de maio começou todo com cara de ano novo. A temperatura ficou na casa dos 5 e 15 graus positivos, tempo nublado. O campus todo vazio.
E no meu trabalho novo, a empolgação de fazer uma coisinha após a outra rapidinho e perceber de repente que o fim do dia chegou e eu esqueci de fazer coisas tipo beber água ou ir ao banheiro.
Mudar de trabalho de vez em quando é bom, ainda mais assim. Trabalho acadêmico é muito interessante, mas falta aquele sentimento de realização imediata. No meu trabalho de verão, minha função é prover acomodação. Pode parecer muito trabalho para uma coisa simples, mas no final do dia eu posso dizer: “tantas pessoas têm onde dormir esta noite por minha causa”. Realização imediata: eu vejo a causa, eu vejo o efeito, e a vida continua. E isso é mais do que o que eu posso dizer do trabalho acadêmico.
Mas é bom poder alternar os dois, do mesmo jeito que é bom poder alternar perna esquerda e direita ao andar. Andar com uma perna só envolve um esforço tremendo, e eu admiro muito as pessoas que conseguem. Mas poder andar com as duas é um privilégio. Um tremendo privilégio.