Arquivo para Toronto

Já que ninguém está vendo… (Parte 1)

Um dia desse fui no cinema assistir “Ensaio sobre a Cegueira.” Eu estava bem empolgada, primeiro porque muita gente tinha me falado bem do livro, e segundo, porque as filmagens foram feitas no Brasil, e eu estava no Brasil quando elas foram feitas.

Meus sentimentos ao sair do cinema são um pouco mais difíceis de descrever. Parte de mim achou que a premissa era forte, mas que o filme ia longe demais. O que me incomodava não era nem o fato de que algumas cenas eram extremamente violentas e/ou desagradáveis, mas o fato delas parecerem gratuitas. No quesito verossimilhança, portanto, o filme perdia muito ponto. Cheguei então ao meu veredito quanto o filme: desagradável demais para ser verdade. Ponto. O que mostra como que eu não sei de nada mesmo.

Alguns dias depois, fui assistir “Triagem: O dilema humanitário de James Orbinski. Entrei na sala com o filme começando, e o sentimento de “que legal, eu conheço esse lugar, eu conheço esse rosto” me deixou toda contente.

Quando eu mudei para Toronto em 2002, Massey College, uma residência da Universidade de Toronto, foi minha primeira morada (ainda hoje ela é minha base no Canadá). Eu morei lá um pouco mais de dois anos, em cujo período também morava lá o senhor James Orbinski com sua esposa Rolie Srivastava.

Os dois sempre foram membros ativos da comunidade, e sempre muito dispostos a bater papo com os membros menos famosos da comunidade, tipo eu. Mas  eu, na minha timidez fora do comum, nunca nunca, nesses quase sete anos, tinha tido a coragem de dirigir mais do que um sorriso e aceno de cabeça ao vê-los passar.

Eu sabia que ele era muito famoso, e que ele tinha estado em Ruanda durante o genocídio em 1994. Eu até suspeitava que ele tinha ganhado o prêmio Nobel, mas disso eu não tinha muita certeza, porque na minha cabeça me parecia muito inacreditável que um ganhador do prêmio Nobel fosse meu vizinho.

Mais de seis anos depois, estou eu numa sala de cinema assistindo um documentário sobre meu ex-vizinho James Orbinski. O rosto conhecido e o cenário conhecido me deram uma sensação de proximidade que eu nunca tinha tido numa sala de cinema.

À medida que o filme foi passando, o sentimento de dejà-vu foi intensificando, mas de uma maneira muito bizarra: de repente, parecia que eu estava assistindo “Ensaio sobre a Cegueira” de novo!  O absurdo de que as pessoas são capazes de fazer quando sabem que “não tem ninguém vendo mesmo” e o heroísmo quase que involuntário das pessoas que se vêem prestando cuidados em circunstâncias para lá de degradantes, sem saber se elas próprias vão sair vivas daquela situação são coisas absolutamente arrepiantes.

De repente, me vi tomada das mesmas emoções que senti assistindo “Ensaio sobre a Cegueira.” Só que agora não dava para eu colocar meus sentimentos numa caixinha hermeticamente fechada e rotulada como “sentimentos à toa causados por uma história de ficção para lá de exagerada.” Ruanda não foi ficção. Aconteceu de verdade. E eu conheço alguém que estava lá.

“O Dilema Humanitário de James Orbinski” é na verdade e de verdade um “Ensaio sobre a Cegueira”: uma cegueira mundial e muito real.  Por dias e dias, fiquei em estado de choque.

Sete e sete são quatorze…

Nos últimos dez dias, o número de grupos de brasileiros que eu vi aqui em Toronto – na rua, no parque, na universidade, nos restaurantes — deve ter ultrapassado 20. Eu digo “grupos”, porque se fosse para contar as pessoas, acho que dava mais de cem. Tem família com criança, tem universitários, e tem adolescentes que andam em dúzias, com crachazinho dependurado no pescoço.

Motivo? Estamos em julho, mês de férias. E a economia brasileira está numa fase boa – como disse o New York Times na segunda-feira dia 7 e o Yahoo-EUA na terça dia 8. E o Yahoo-Brasil de ontem tinha uma chamada principal enorme de título “Estudar no Exterior Rules.” Toronto é exterior, é relativamente barato se comparado a outros exteriores, tem vôo direto de São Paulo… A lista de bons motivos para brasileiros passarem férias aqui é grande.

Minha primeira reação quando eu vi un grupo de adolescentes brasileiros andando junto com crachazinho na universidade semana passada (depois do reajuste cognitivo “peraí, eu conheço essa língua – ah, é português!” ) foi “ah, é julho, mês de férias. Mas nossa, essa meninada parece criança demais para está viajando sozinha…” Dentro de instantes eu própria me corrigi: “Nossa, Ester, você está ficando velha mesmo, com essa história de “mas eles são tão jovens!” Lembra que a primeira vez que você viajou para o exterior? Você tinha 14 anos, estava completamente desacompanhada, e não viu nada demais nisso…”

Isso foi em julho de 1994, há exatamente 14 anos. Eu saí do Brasil no primeiro dia da nossa moeda atual, o real – um período em que depois de décadas de inflação absurda, começou-se um período de estabilidade econômica sem precedentes. Tinha mais ou menos um ano que eu tinha começado a estudar inglês, e 30 dias na Inglaterra me ajudou a melhorar muito. A família com quem eu fiquei foi sensacional, e até hoje somos amigos. Fico pensando que se aquela experiência não tivesse sido tão positiva, provavelmente eu não teria tomado a decisão de fazer faculdade fora do Brasil – e de ficar fora do Brasil por todos esses anos.

Milhões de coisas aconteceram naqueles trinta dias em julho de 1994, e até hoje eu lebro da seqüência de eventos e de emoções, como se tivesse sido ano passado. Minha curva de aprendizado na época estava a todo o vapor. E isso me fez pensar no seguinte:

Em julho de 1994, 14 anos atrás, eu tinha 14 anos. Hoje eu tenho 28. Podemos considerar aquela viagem como o marco de 50% da minha vida até agora. Dividamos essas duas metades ao meio. Temos então quatro vezes sete anos, que podem ser analisados da seguinte maneira:

  • 0-7 anos: muitas coisas aconteceram na minha vida – começando pela minha própria vida. Nesses sete anos eu nasci, aprendi a caminhar, a falar, a ler, e muitas outras coisas. O mundo passou da década de 70 para a década de 80. Minha curva de aprendizado: lá em cima, tendendo a 90 graus (pi radiandos).
  • 7-14 anos: muitas coisas aconteceram de novo. Passagem da infância, via puberdade, até adolescência – mudança pra caramba. Primeiros namorados. Comecei a aprender uma língua estrangeira. Comecei a tocar violão. Saí do Brasil pela primeira vez. Passamos dos anos 80 para os anos 90. Curva de aprendizado: ainda lá em cima.
  • 14-21 anos: várias coisas novas de novo. Aos 14 anos eu não tinha nem começado o segundo grau; com 21 já tinha me formado na faculdade e começado um doutorado. Nesses sete anos, viajei bastante. Aprendi mais línguas novas. Mudei para outros países. Chegou o tão esperado terceiro milênio. Curva de aprendizado: ainda altíssima.
  • 21-28 anos: nada muito novo. Nada de década nova, nem milênio novo. Eu era uma doutoranda com 21 anos, continuo sendo aos 28. Está certo que nem é o mesmo doutorado. E está certo que eu me mudei de cidade, de departamento, de área de estudos. Mas o que me espanta é que nos últimos 7 anos – ou seja, 25% da minha vida, e 100% da minha maioridade legal – eu me apresento como sendo uma “doutoranda estrangeira.” É tempo pra caramba. Está na hora de ou parar de ser estrangeira, ou de ser doutoranda: de preferência as duas coisas. Curva de aprendizado: completamente horizontal.

As coincidências não param por aí. Julho é o mês 7. Eu nasci no dia 14. Eu fiz minha graduação em 3 anos e meio – 7 semestres: o que quer dizer que eu já passei o dobro de tempo sendo doutoranda do que sendo graduanda. Sinceramente, eu acho que eu tenho que me formar antes de fazer 29 anos, nem que seja só para manter essas proporções tão harmônicas. Mas será que eu consigo? Não sei dizer…

O que me espanta é que nesses sete anos gente que nem pensava em existir não só nasceu, mas aprendeu a andar, falar, a ler. E outros passaram da infância à adolescência, via puberdade. Começaram a estudar uma lingual estrangeira, e a tocar violão, e a viajar para o exterior. Tiveram o primeiro beijo, ou o primeiro filho (ou o segundo, ou terceiro). Alguns casaram e separam. Terminaram o Segundo grau e a faculdade. Aliás, tem um rapaz que estavava no segundo grau quando eu o conheci, no meu primeiro ano como pós-graduanda na Massey College (parte da universidade de Toronto). Hoje em dia ele é também um pós-graduando na Massey College. E eu ainda estou aqui, no mesmo lugar. Minha curva de aprendizado: estagnação total.

Então talvez eu esteje ficando velha mesmo, com aquele tipo de invejinha que os adultos sentem das gerações mais novas. Enquanto criança ou adolescente, a gente nunca sente invejinha dos mais novos, só dos mais velhos. Eu já cruzei aquele limiar que divide a fase em que a gente tenta de tudo parecer mais velho do que é, e agora estou no lado de cá, onde se tenta parecer mas novo do que se é. Mas eu ainda não cheguei naquela idade que se caracteriza por sua sabedoria e paciência – aliás, estou muito longe de chegar lá. E parte de mim acha isso bom (“Beleza, ainda não estou tão velha assim!”) enquanto outra parte quer apressar as coisas (“falta muito para eu adquirir paciência? E sabedoria, rola um atalho até lá? Não? Pô, porque não? Como assim? Tá demorando, viu? Agiliza, vai…”)

E assim são as pessoas e as criaturas…

Conhecendo Paulo Freire

Meus amigos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) me perguntam se no Canadá alguém já ouviu falar do Paulo Freire. E sempre riem quando eu respondo: “Sim, eu por exemplo.”

Tenho passado muitas horas na biblioteca da faculdade de educação em Toronto — principalmente horas de sábado. Eis aqui uma foto de onde estudo:

Geralmente quando eu me apresento a alguém como sendo brasileira, não raro a pessoa responde: “Ah, terra do Pelé, que legal!” Exceto na faculdade de educação. Lá as pessoas respondem: “Que legal, terra do Paulo Freire!” Dá uma olhada no painel acima — canto inferior esquerdo:

 

No começo eu sorria amarelo: “Pois é… Não, nunca li nada dele não.. Sério mesmo… Pois é, vou ver…” Mas depois de um tempo, resolvi criar vergonha na cara: como assim esse povo todo é fã do Paulo Freire, e eu, sua compatriota, nunca li nada? Tenho que dar um jeito nisso, nem se for para dizer que li e não gostei.”

 E daí eu li. E gostei para caramba. E virei fã de carteirinha. E minha vida — de estudante, de educadora, de brasileira, de estrangeira — nunca mais foi a mesma…

Escrever e ticar, é só começar

Ultimamente, não tenho escrito muito porque 1) tenho estado muito ocupada e 2) nada de interessante tem acontecido. Como assim? Assim que tenho passado as últimas semanas entre trabalho e tese, e não só isso deixa pouca energia mental para blogar, mas também fiquei com pena dos meus cada vez menos fiéis leitores, lendo um post depois do outro sobre Ester tentando ser menos absorvida em si mesma — e fracassando terrivelmente.

Mas 1) tendo voltado a freqüentar a academia depois de cinco semanas de vida completamente sedentária, me lembrei que “muito ocupada” muitas vezes é desculpa esfarrapada. Muitas vezes é só questão de ajuste de prioridades. Endorfinas (reforço positivo) e dores musculares (reforço negativo) me fazem prometer nunca nunca nunca mais ficar tanto tempo sem ir a academia. E como já falei antes, blogar segue princípios semelhantes.

2) tendo assistido recentemente o filme “Mais Estranho que Ficção,” percebi que nenhuma vida é tão enfadonha a ponto de não render uma boa história — nem mesmo a minha. Então aqui vai mais uma dose de Ester descaradamente não fazendo nenhum esforço em ser menos absorvida em si mesmo.

*****

No dia 24 de maio, portanto há um mês e 5 dias, eu elaborei uma lista de leitura consistindo em 87 itens. Um dia inteiro foi só montando a tal lista – um belo dia de sábado por sinal, e eu enfurnada no subsolo da biblioteca, checando volume por volume de um certo periódico, anotando todo título que tinha remotamente alguma coisa a ver com a minha tese.

Depois da lista feita — pensei comigo — o resto era fácil: só ler os artigos, e ir ticando um por um. Dado que cada artigo tinha em média 5-7 páginas, e eu leio até rápido, calculei que uma ou duas semanas seriam mais do que suficiente para ler o que julguei ser mais ou menos 500 páginas — e  ainda redigir um relatório sobre todo esse material.

Ledo engano. Primeiro, porque nem sempre cada um dos 87 itens correspondia a um artigo. Em alguns casos, o item era “todo o primeiro volume de 1993,” o que poderia ser 40, ou até 80 páginas se fosse um volume duplo. Segundo porque cinco páginas não eram bem cinco páginas padrão, daquelas que cabem em meia página A4 deitada. Na verdade, cada página era uma página A4 em pé, com três colunas, e a letra bem pequeninha. O que quer dizer que cada página valia por cinco: um artigo de cinco páginas tinha portanto conteúdo de quinze, e o que eu calculei como sendo 500 páginas estava mais para 1.500.

Paciência. Peguei minha caneta vermelha, fiz de conta que era trabalho de aluno, e mandei bala, lendo a cada minuto livre, no trabalho, na biblioteca, em cafés. Nisso, descobri várias coisas.

1. Que por mais que 1.500 páginas possam ser espremidas em 500, 500 ainda são um tantão para xerocar: em termos de tempo, dinheiro (10 centavos a página = 50 dólares!) e principalmente munheca. Ainda mais quando o artigo não atende suas expectativas, e a única satisfação que se tem em lê-lo é ticar um item da lista. E como esse periódico não é emprestável, resolvi que seria bom tentar passar o máximo de tempo lendo na própria biblioteca, e só xerocar os artigos que fossem realmente imprescindíveis.

2. Mas no verão, a biblioteca fecha cedo: 20hrs de segunda a quinta, 17hrs sexta e sábado, e fica fechada no domingo. Dado que eu trabalho de segunda a sexta até às 16hrs, o tempo eu posso passar na biblioteca fica um pouco restrito, com uma granda concentração no sábado. Várias vezes o segurança teve que me interromper no meio de um artigo, ou de uma fotocópia: “Senhora, a biblioteca já fechou, você tem que sair agora.” “Mas, moço, faltam só três páginas! Três páginas só!” “Senhora!”

3. Cafés são lugares bizarros quando observados com atenção e assiduidade. A maior parte do público que freqüenta cafés — e até dois meses atrás eu me encaixava nessa categoria — ou não freqüenta regularmente, ou não passa tempo suficiente. Alguns vão ao mesmo café todo dia, mas não passam mais de 10 minutos; outros passam uma hora ou duas, mas muito ocasionalmente. E outros vão acompanhados, o que interfere um pouco no fator ”atençao.” O que eu presenciei nessas últimas cinco semanas passando em média três horas por dia, seis dias por semana, em cafés, nossa, não está escrito — cada história… Talvez eu escreva sobre isso num futuro próximo. Ou não.

4. Uns dias atrás, descobri, ao pentear o cabelo, umas manchas vermelhas no meu couro cabeludo. Fiquei preocupada: seria sangue? Depois de tentar olhar mais de perto (difícil examinar direito o couro cabeludo…) descobri que eram manchas de caneta… Eu tenho mania de coçar a cabeça enquanto leio. Se faço isso à mão livre, no final do exercício meu cabelo está pura juba de leão. Mas nunca tinha feito isso com caneta — ao menos não com caneta vermelha (ou ao menos não que eu tenha percebido). Na pressa de terminar de pentear o cabelo para sair, tentei disfarçar os rabiscos  mudando o jeito de partir o cabelo. Ótima idéia, não fosse pelo fato que eu consegui rabiscar minha cabeça quase inteira… Paciência…

Enfim, acabou que ontem o dia tão aguardado chegou: tiquei o último item nessa minha lista. Está bem que ao invés de uma semana, ela me levou uma semana e um mês! E isso só para ler: ainda tenho que escrever um relatório sobre ela todinha, para entregar sexta. Só que eu estou com uma preguiça…

E foi a preguiça de escrever que me levou a blogar… Irônico, não?  Agora deixa eu curtir meu domingo, que ninguém é de ferro…

“Ester viu o Incrível Hulk na Universidade de Toronto”

“Que frase mais ambígua! Provavelmente ela quer dizer que a Ester assistiu o filme ‘O Incrível Hulk’ na Universidade de Toronto. Mas do jeito que está escrito, fica parecendo que a Ester viu um mostro verde andando na Universidade de Toronto, o que é muito improvável — incrível mesmo. Ao menos que a Ester tivesse visto alguém fazendo de conta que era o Incrível Hulk, tipo, se estivessem fazendo um filme, ou algo do tipo.”

“Ué, vai ver a frase não é ambígua — vai ver ela é polisêmica.”

“Como assim?”

“Seria ambígua se ela quisesse dizer só uma das coisas que você falou. Mas às vezes ela quer dizer as três coisas — em cujo caso ela merece um adjetivo mais caprichado que um reles ‘ambígua’. ‘Polisêmica’ é uma palavra muito mais massa!”

“Você acha mesmo que a Ester não só assistiu o filme na Universidade de Toronto, mas que ela viu o monstrão andando na universidade?”

“Bem, tem um cinema praticamente na universidade. E o parte do filme foi rodado em Toronto ano passado, então é possível que ela tenha visto quando eles estavam lá filmando. E mesmo que ela não estivesse, provavelmente dá para ela perceber que algumas das cenas que eram para ser em Virginia ou em Nova Iorque eram na verdade bem em frente de onde ela mora.”

“Acho isso tudo incrível demais — absolutamente inacreditível.”

“Pode ser incrível, mas talvez não seja impossível. Nunca se sabe…”

“E tem uma parte que é no Rio também, você viu? Aliás, com quase 200 milhões de brasileiros no mundo, custava ter chamado alguém que falasse português com um sotaque mais autêntico? Tipo, não só eles tinham 200 milhoes de pessoas da onde escolher, mas também 200 milhões de pessoas que conseguem perceber que ninguém no Rio fala daquele jeito… Não dava para entender nada…”

“Monstruosa a caracterização dos brasileiros, né? Fazer o quê…”

Mudanças súbitas

Há uns vinte dias, mais ou menos, estava conversando com meu amigo Danilo, com quem não conversava desde que estive em Montreal em fevereiro. Ele me fez aquela pergunta super inocente: “então, que há de novo?”

Suspirei fundo e respondi: “Nada.”

“Como assim, ‘nada’? Três meses se passaram, você foi ao Brasil e voltou, e você me diz que não tem nenhuma novidade?”

 ”É. A tese continua na mesma, as incertezas continuam as mesmas, o computador que eu comprei naquela época continua com aqueles problemas que você viu, até o dedão do pé que eu machuquei naquele dia que a gente foi patinar no gelo ainda está roxo.”

“Caramba! É mesmo?”

“É. Posso dizer portanto que mudaram as estações, mas nada mudou. Aliás, nem isso mudou muito, porque continua frio pra caramba, se considerarmos que estamos em maio.”

“Ai, tá frio mesmo. Mas escuta, nem o dedão sarou?”

“Sarou não. A unha do dedão do pé direito caiu na véspera de eu vir para o Canadá. A do pé esquerdo ainda está com 50% de sua superfície de cor azul-aroxeado, e nem é esmalte. Aliás, antes da outra cair, eu estava mantendo as duas a base de esmalte bem escuro, o que não só ajuda na aparência delas, mas me faz esquecer que elas estão machucadas. Não fosse por isso eu estaria mancando até hoje, só de ver o estado delas…”

“E o computador?”

“Ah, outra novela. Aquele Windows Vista não vale nada. Completamente não-funcional. E o Microsoft Office 2007, meu Deus, que difícil. E a minha cópia original do XP e do Office 2003 estão ainda guardados numa caixa na casa da minha amiga que mora há uma hora daqui — e é quase impossível achá-los para comprar. Acabou que mal cheguei aqui em Toronto, o meu computador pifou por completo — e isso eu tendo que começar meu trabalho novo com ele no dia seguinte! No momento do aperto, uma colega me emprestou os cds de instalação dela, e da-lhe nós reformatando o disco para reinstalar tudo de novo, e achar tudo quanto é driver… Tudo isso só como um band-aid temporário: o meu código não bate com os discos que ela me deu, o que quer dizer que estou aqui na contagem regressiva até o computador dá pau de novo (“29 dias para autenticar sua cópia do Windows, 28, 27… 13, 12, 11…, 4, 3, 2…”). Crônica de uma morte anunciada…”

***

Uma semana depois dessa conversa, várias mudanças súbitas ocorreram, o que prova que as coisas não desenvolvem sempre linearmente, mas aos trancos e barrancos:

1) Tudo começou com uma árvore que fica em frente ao lugar onde trabalho e estudo. Um dia ela estava lá, grande, frondosa, emblemática. Duas horas depois só estava o talo, de diâmetro enorme, mas todo podre por dentro.

2) Um hóspede que tinha confirmado e reconfirmado sua estada (estadia?) na última hora não apareceu. Motivo: ataque do coração. O que quer dizer que nenhum plano é tão rígido que não pode ser mudado na última hora. O que reforça o esquema carpe diem. (Para os preocupados: o hospéde está bem e já voltou para casa).

3) O clima do nada resolveu ficar quente: de 12 graus a 36 (isso mesmo, 36) da noite pro dia.

4) O computador pifou três dias depois do anunciado (numa segunda-feira, ao invés da sexta, só para me manter em suspense). Mas minha outra amiga veio, me trouxe minhas caixas todas, inclusive a que continha meus cds de instalação. Em duas horas, consegui reformatar o disco — de novo — e reinstalar tudo, tudo — de novo. O código foi aceito sem problemas, os drivers foram todos instalados, e depois de três meses duvidando da bondade da idéia de ter comprado esse computador novo, eis que tudo deu certo e vivemos todos felizes para sempre. Ainda estou ralando para entender o novo WordPress (com esses problemas computadoriais, perdi o pique de blogar, e agora está tudo diferente!), e o novo Windows Player 11 também não ajuda (tá tudo branco! Ao invés da telinha psicodélica, tem as capinhas dos meus discos para eu escolher. Tudo tão estranho!). Mas como é bom ter um computador que funciona!

5) Meu supervisor passou de “cético de que as mudaças que eu propus para minha tese fossem realmente necessárias/desejáveis/factíveis” a “muito empolgado com o novo direcionamento da tese.” Viva! Mas hoje é dia de vê-lo de novo, o que quer dizer que tudo ainda pode acontecer.

6) Depois de três meses tendo parado de tomar meu remédio anti-acne (parei de tomar aqui no Canadá, em fevereiro, por causa do frio, depois de só três meses de tratamento), minhas espinhas voltaram a todo vapor, como flores desabrochando na primavera. Ai, ai…

7) E, por último, a mais recente mudança súbita da semana (por enquanto): a unha do dedão do meu pé esquerdo caiu. Sozinha, do nada. Estava eu andando de sandália na chuva, sábado à noite. Cheguei em casa, tirei a sandália molhada, e ao enxugar os pés, percebi que metade da unha não estava lá. Não vi cair, e nem doeu. Sem titubear, lasquei o esmalte rosa-choque por cima. Afinal, é verão, época de esbanjar sapatos abertos, oras (já não me bastassem as espinhas querendo interferir com a alegria veranil de andar na rua sem estar encapotado da cabeça aos pés…).

Pois é, pois é. Mudaram as estações… mas eu sei que alguma coisa aconteceu…

Ah se todos dodóis da vida pudessem ser esquecidos com uma dose de esmalte rosa-choque… 

Irritações

A primeira semana de volta a Toronto foi complicada:

1. Eu não gosto de reclamar muito do frio, mas o clima não estava ajudando. Na primeira semana de fevereiro, as escolas em Toronto fecharam duas vezes por causa da neve. Eu estava no maior estresse preparando para ver meu orientador pela primeira vez em seis meses. Duas horas antes do horário combinado, a universidade inteira fechou por causa da neve. A reunião com meu orientador passou para a semana seguinte, o que quer dizer, mais outros cinco dias de ansiedade. Eba!

2. Minhas roupas de inverno estavam na casa de uma amiga que mora a cerca de uma hora de Toronto. Na minha obsessão com planejar e organizar tudo com antecedência, eu esqueci de combinar de pegar minhas roupas com minha amiga. Acabou que na semana que eu cheguei em Toronto ela estava viajando com a família. Eba!

3. Por causa do remédio contra a acne, minha pele reagiu feio ao frio e às botas nova que comprei por causa do item 2. Tive então que comprar creme e mais creme, que ao invés de aliviar a sensação, provocavam o efeito contrário, de irritar ainda mais. Todo mundo que encontrava comentavam como eu estava “corada.” Lá pelas tantas eu cansei de explicar que não era bronzeado, e sim alergia, e passei simplesmente a sorrir e agradecer o elogio.

4. Quando a minha amiga voltou com a família, fui visitá-la. Aproveitei a oportunidade para olhar o que eu tinha deixado na garagem dela, e filtrar o que eu precisava com mais urgência. Não dava para trazer tudo comigo, mas pelo menos dava para selecionar algumas coisas de maior prioridade, e separar outras para ela trazer da próxima vez que ela fosse para cidade de carro (ela geralmente vai de transporte público, que é mais fácil, barato e prático do que carro). Resultado: acabou que a combinação caixas, frio, livros, poeira, peso e cansaço dispararam uma crise alérgica, e passei dois dias de cama com rinite, sinusite ou similar.

5. Quando, alguns dias depois, minha amiga pode vir de carro para a cidade, uma nevasca fez com que ela desse meia-volta depois de passar quatro horas na estrada. Minhas malinhas então monopolizaram o bagageiro do carro dela por mais alguns dias, o que aumentou exponencialmente minha vergonha pelo incoveniente causado.

6. No meio disso tudo, enquanto eu ainda estava recuperando da rinite, houve um vazamento na casa da amiga onde estou hospedada. Eu estava sozinha em casa quando o pequeno ”dilúvio” começou. Mais tarde, depois que estava tudo sob controle, e eu morrendo de vergonha tentava explicar para minha amiga o que tinha acontecido na casa dela na sua ausência, ela me disse algo que me fez pensar: “Ester, não precisa se desculpar, está tudo bem, você não poderia ter feito mais nada. Além do mais, coisas são só coisas. Coisas não importam, pessoas sim.”

Coisas não importam, pessoas sim. E foi aí que eu decidi parar de me importar tanto com coisas que eu não posso controlar (vide items 1-6). Complicava um pouco o fato da minha pele estar irritada, o que me tornava muito mais facilmente irritável, irritada e irritante. Então resolvi parar de tomar o tal remédio para acne, e isso parece que resolveu o problema. O clima melhorou. Minha amiga troxe minhas malas. A sinusite-rinite sarou. Minhas roupas novas me caem bem (apesar de agora eu ter mais roupas de inverno do que eu tinha quando eu morava aqui). Vi meu orientador algumas vezes. Agora é só esperar a reunião com o resto da banca na sexta-feira, o que em si nunca é uma experiência muito agradável. Mas eu estou tentando encará-la como uma ida ao dentista: ninguém gosta, mas a maioria sobrevive.  (Claro que anestesia torna o processo todo menos desagradável. Mas minha reunião é pela manhã, e acho que não pegaria bem se eu chegasse na reunião levemente embriagada.) 

Moral da história, como diria Bob McFerrin: 

“In every life there’s some trouble.
When you worry you make it double.
So don’t worry, be happy”

(“Toda vida tem seus problemas
A preocupação só os faz multiplicar
Então não se preocupe, alegre-se”)

Bom conselho!  

Violão não é bagagem de mão? (Parte 7)

“É seu esse violão?” perguntou o comissário de bordo.

 ”Ih, ferrou…” pensei cá comigo.
“É meu sim,” falei com cara de desentendida.
“Algum problema?”

“Você sabe tocar?”

“Sei”

“Se eu pedir para tocar uma música para mim você toca?”

Por uma fração de segundo eu achei essa perguntação toda muito esquisita. Mas logo lembrei que esse pessoal de aeroporto às vezes faz perguntas aparentemente inocentes mas cheias de segundas intenções, para pegar o mentiroso desatento.

(Caso clássico: “Você está indo para onde?” “Cuiabá.” “Fazer o quê?” “Eu moro lá.” “Há quanto tempo?” “Desde criança.” “Ok. Mato Grosso é MG, certo?” O viajante desatento ou desinformado concorda, e daí até provar que pingo não é letra, já perdeu o vôo.)

Me achando muito esperta, e vendo um sorriso na cara do cara, respondi: “Toco, claro que toco. É para tocar?”

“Ah, eu acho tão bonito mulher tocar violão… Eu queria saber tocar também. Agora mesmo está indo um tanto de gente tocar num festival em Dublin. Me deu uma vontade de estar nesse vôo…”

Nisso a voz do comandante espalhou-se por todos auto-falantes: “Atenção, tripulação, preparar para a decolagem.” O comissário sorridente concluíu a paquera com uma piscadinha e disparou corredor a frente fechando bagageiro e verificando cintos de segurança.

Eu disparei a rir descontroladamente e me segurei para não chamar atenção demais. Questão de segurança.

* * * * *

“Atenção, senhores passageiros!”

Acordei assustada com a agressividade dos auto-falantes e das luzes ofuscantes acesas de uma vez.

“Dentro de instantes daremos início ao nosso serviço de café-da-manhã.”

Olho pela janelinha: ainda é noite. Olho para o relógio: 4:45 da manhã. Meio cedo para tomar café, não? O comandante corrige meus pensamentos:

“Agora são cinco horas e quarenta e cinco minutos no horário local. Podemos ver à direita da aeronave a cidade de Brasília. O nosso tempo de vôo até São Paulo é de aproximadamente mais duas horas, com o pouso previsto para as sete e cinqüenta, desembarque para as oito horas e sete minutos.”

Olho para o relógio. Ainda falta tanto tempo. E depois do desembarque tem fila da alfândega. Depois tem que pegar bagagem. Depois fila de check-in de novo. Depois esperar um tantão para embarcar, outras duas horas de vôo, para, com sorte, chegar em Brasília antes da janta.

Olho pela janela e vejo as luzinhas da minha cidade que ainda dorme lá em baixo. “Ei, essa é a minha parada! Eu quero descer aqui! Cadê a cordinha para eu dar o sinal?”

Último capítulo

Violão não é bagagem de mão? (Parte 5)

Retrospectiva da série:

Parte 1: Preparativos

Parte 2: Como assim?

Parte 3: Interlúdio

Parte 4: Raio X

Parte 5:

A consciência a pesar nas costas

Sorri agradecida, respirei fundo de novo e passei pela portinha da segurança. Tirei o violão e a mochila das costas e pus na esteira. Mostrei meu bilhete. Passei pelo detector de metais, virando para trás toda hora, piscando para meu amigo e estalando os dedos como quem sabe que está fazendo coisa errada e diz “eita ferro!”. Bandeira total: minha cara de poker típica.

Tendo passado pelo detector, o segurança pegou meu violão e disse em voz forte e clara: “Senhora, seu violão…” Olhei para ele esperando mais. “Senhora, seu violão: não pode levar!” Ou então: “Senhora, seu violão: está apreendido, queira me acompanhar!” Ou ainda: “Senhora, seu violão: tem que despachar. A multa é de mil dólares!”

Mas não. Foi só: “Senhora, seu violão. Boa viagem!”

O desvio no Duty Free

Que estranho. Os carinhas da segurança (que em geral são os mais cri-cri de todos) não sabiam dessa que violão não é bagagem de mão. Acenei mais uma vez para meu amigo (e ainda acrescentei um “jóia” sorridente com o polegar) e segui rumo ao portão de embarque.

Mais adiante avistei do lado direito do corredor em que estava um balcão de informações da Air Canada. Do lado esquerdo, uma loja Duty Free gigante, com saída lá para o outro lado. Não tive dúvidas. Eu nem gosto de Duty Free, mas como o balcão daAir Canada tinha três atendentes e nenhum cliente, resolvi não dar muito na vista. O labirinto de balcões da Duty Free me caiu como uma bela camurflagem.

O último portal

Tendo sobrevivido mais esse perigo sã e salva (na verdade, mais salva do que sã), fui passando de um portão de embarque a outro até chegar no meu. Nesse percurso, vi pelo menos outros três violeiros. Que estranho. Será que eles não sabem que violão não é bagagem de mão? Ou será que a cara de poker deles era assim tão melhor que a minha? Não dava para saber.

Cheguei então ao meu portão. Como ainda faltava um tempinho para embarcar, resolvi ligar para meus pais em Brasília para dizer que estava tudo bem.

Parte 6

Violão não é bagagem de mão? (Parte 4)

Inocentite aguda

Terminamos nosso insípido lanche conversando sobre tais assuntos e fomos caminhando vagarosamente para a outra ponta do aeroporto onde era o embarque. Conversa vai, conversa vem, eu havia esquecido completamente daquela história que violão não é bagagem de mão. Sério mesmo. Não estou falando isso só para bancar a inocente.

A verdade é que eu não sei blefar. Para se ter uma idéia, eu sou péssima de truco. Poker então nem se fala. Quando o jogo é máfia ou killer, aí é que eu me entrego mesmo, de tanto piscar. Mentir me dá tique nervoso.

Apegos e desapegos

Quando então, no momento da despedida, meu amigo atentou para o fato que eu já ia entrando com o violão, eu caí em mim e me toquei de novo do drama da situação. Se ele não tivesse me lembrado, era capaz de eu passar pela segurança toda na maior naturalidade, sem achar que estava fazendo nada errado. Mas passar sabendo era outra história. Eu não daria conta. Comecei então me despedir de verdade do Arquimedes.

Enquanto a fila do raio-x caminhava, li com toda atenção a placa listando todas as coisas proibidas a bordo: armas de fogo, objetos cortantes, aerosois, shampoos e outros líquidos de higiene pessoal, até água. Em nenhum lugar constava “violão e outros instrumentos musicais”.

Nesse momento me deu um estalo. Segurei meu violão mais forte, e resolvi arriscar. Comecei a explicar para meu amigo que se me barrassem, que eu me virava. Pois pensei cá comigo: o Arquimedes, por mais querido que fosse, não tinha me custado nem os $120 de excesso e já tinha mais do que se pagado nos nossos quases doze anos juntos. O que viesse a mais era lucro. Não compensava toda aquela dor de cabeça para ou deixá-lo para trás, ou pagar para recebê-lo depois em frangalhos. Se desse para eu levá-lo, bem; senão, o melhor era passar ele adiante com saúde.

Já tinha começado até a ensaiar o discurso que faria na hora em que fosse apreendida: “Moça (ou “moço”), “fica com esse violão para você. Dê ele de presente a alguém que você gosta, um filho, sobrinho ou afilhado. É um violão muito bem-quisto, cuide bem dele. Ele se chama Arquimedes.”

O Plano B

Com o discurso pronto, ajeitei nos ombros mochila, violão e coragem,  respirei fundo, e segui rumo ao raio-X. Meu amigo ainda me deu uma recomendação final: “Olha, eu vou ficar aqui te observando até você passar do raio-X e chegar lá no final daquele corredor. Depois que você sair de vista, eu ainda vou ficar plantado aqui por uns dez minutos. Se der alguma coisa errada, lembra que eu estou aqui e posso pegar o violão de volta, tá? Agora vai lá, e boa sorte.”

Que será que aconteceu então? Será que deu certo? Não perca em breve mais um capítulo desta apegante história!

Parte 5: Duty Free

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