Arquivo para Música
Brincadeira de criança!
Fato número 1: Em agosto, eu descobri um brinquedo novo e minha mais nova obsessão: Rockband, um jogo de videogame em que o “controle” é um instrumento musical de brinquedo, e que se joga “acompanhando” a música que aparece na telinha. Quanto mais notas se acerta, mais pontos se faz. (Para provas de minha obsessão, vide relato do Danilo).
Coisa de criança? Pode ser. Mais que é bom, é bom. E como eu queria que um trem bão desse existisse quando eu era pequena! Eu teria ficado craque no violão rapidinho. Tipo ninja mesmo. Com as manhas tudo.
Fato número 2: Eu passei milhares horas de minha adolescência aprendendo a tocar violão. Por “tocar violão” entenda “aprender música dos Beatles” – na minha cabeça, um remete a outro e vice-versa. (Para prova de minha obsessão com os Beatles, vide este meu relato, por exemplo.)
Fato número 3 = Fato 1 + Fato 2!!!!
Em outras palavras, vai ter o Rockband dos Beatles! Êta nóis! QUE FERA, VÉI!!! Quando eu crescer, eu quero comprar um desse pra mim! Yeah, yeah, yeah!
http://br.noticias.yahoo.com/s/04112008/11/entretenimento-beatles-vao-ganhar-guitar-hero.html
Foi tão estranho que choveu…
Sabe quando acontece uma coisa
bem surpreendente e a gente fala:
“Nossa, que surpresa! Vai chover!”
Às vezes é um telefonema inesperado.
Às vezes uma visita há muito só na promessa.
Às vezes o cônjuge, prole ou similar
que resolve do nada
lavar a louça, ou arrumar a cama.
Neste primeiro dia de outubro
ocorreu algo bem surpreendente.
Choveu.
Pela primeira vez desde o dia 29 de maio último.
O domingo trouxe boatos de garoa esparsa e breve aqui e ali. Só para dar vontade. Eu mesmo não vi, nem acreditei muito em quem falou que viu. Afinal, a previsão de chuva era só para fim de outubro, talvez meados.
Mas no começo da noite da segunda
não foi boato nem garoa.
O céu veio todo a baixo, de uma vez,
com direito a relâmpago e trovoada.
O clima era de quadrilha de festa junina.
De um lado da rua se gritava:
“Olha a chuva!”
E o outro lado respondia:
“É mentira!”
Até que todo mundo debruçou na janela,
achando a chuva melhor que a novela.
Crianças pulavam, pessoas gritavam.
Até fogo de artifício resolveu se fazer
de trovão e raio e entrar na festa.
O clima era de fim de campeonato.
E meu pai que sempre achou ruim
quando a previsão do tempo chamava chuva
de “mau tempo” ou “tempo feio”
olhava com o resto da cidade
a lindura do toró
seu presente de aniversário
mais desejado
O clima era mais festivo que final de campeonato
Era mais festivo
que festa de São João ou de aniversário
O fim era do inverno; a chuva venceu a seca
E a festa
era a primavera
Cai, chuva!
Hoje o céu está tão lindo
Cai, chuva!
Meu amigo,
Tim Maia
Meu amigo,
cai chuva
Minha amiga
chuva
cai.
Post Mortem (parte 2 de 2)
No post passado, eu falei de dois cantores geniais que morreram de forma chocante ainda muito novos: John Lennon e Cazuza. Mas o que me levou mesmo a ressucitar este blog foi o especial da Globo sobre o Renato Russo, que foi ao ar na última sexta-feira. O impacto do programa em mim foi tão grande que eu passei o final de semana inteiro na maior deprê. “Pô, cara, o Renato Russo morreu. Que tristeza.”
Quando o Renato Russo morreu em 1996, eu tinha 16 anos e tinha acabado de transferir para uma escola nova. Era a Semana Cultural no Centro Educacional Sigma, e o número de bandas fazendo cover do(a) Legião Urbana era algo absurdo — isso antes mesmo de sair a notícia que o Renato tinha morrido.
Legião Urbana era para mim outro caso clássico de música de clube. Fan eu não era; na verdade, nem me dava conta que eu sabia tanta música deles. Quando a notícia estorou na mídia, foi aquela overdose: Legião tocando em todo lugar, fanatismo total. Até porque mais ou menos na mesma época saiu o “Tempestade”, que o Renato tinha gravado três meses antes de morrer, e a procura por esse disco foi uma febre. Eu não conseguia entender muito o chororô geral — falar a verdade, estava até um pouco de saco cheio.
Mas foi justamente aí que eu percebi que osmose ou não, o número de músicas do Legião que eu sabia de cor — sem nem saber que era Legião — era imenso. Até os longos 9 minutos e pouco de Faroeste Caboclo eu tinha na minha memória, da época que eu e meus primos ficávamos competindo, nas tardes de sábado no clube, quando eu tinha lá meus 7 anos.
Sem muito alarde, até para não pagar muito a língua, fui comprando um disco aqui, outro ali, até adquirir a coleçao completa. Legião virou algo central no meu repertório de violão, ao lado dos Beatles. No princípio, eu gostava mais das músicas da época do clube — anos 80, coisa de início de carreira. Depois vieram o disco V e o Descobrimento do Brasil, coisa já da minha adolescência. Daí o discos solo. (Se alguém duvida do efeito dessas músicas no meu consciente-inconsciente-subconsciente e super-consciente, vide este post de agosto passado.)
Me impressionava não só a poesia e o poder de observação das letras do Renato Russo, como o bom gosto dele nos covers que ele escolhia. Por bom gosto entenda-se: gosto que nem o meu. Madonna, Billy Joel, Neil Young: só tem coisa boa. Para ter idéia, há alguns meses eu falei da minha recente descoberta e fascínio com a música do Leonard Cohen. Até hoje eu tenho que escutar esse disco pelo menos umas dez vezes por semana (dia sim, dia não, com direito a um repeat ou dois). Qual então não foi minha surpresa semana passada ao escutar pela primeira vez o disco “Último Solo” do Renato Russo e dar de cara logo na primeira faixa com o “That´s no way to say good-bye” do Leonard Cohen. Foi dar de cara e ficar de cara.
Pensando bem, acho que o que eu gosto no Renato Russo e no Leonard Cohen é bem parecido: uma poesia inteligente combinada com uma percepção aguda do dia-a-dia. É o tipo de coisa que me faz gostar também do Raul Seixas e do Belchior.
(parêntese 1: por algum motivo muito interessante a wikipedia em inglês coloca Cazuza, Mutantes, Raul Seixas e Renato Russo como grandes nomes da música nacional. Não sei quem fez essa seleção, mas que tem um super bom gosto, isso tem.)
(parêntese 2: O Raul é outro desses caras que eu sei de cor e salteado por osmose, que morreu novo em 1989, que eu admiro muito hoje mas que cuja biografia eu conheço pouco. No dia que sair um especial sobre o Raul, aposto que eu vou ficar tão impressionada como fiquei com os tributos a John Lennon, Cazuza, e Renato Russo que citei nestes dois posts-mortes).
Mas eu divago. O que eu queria dizer é que eu passei o final de semana pensando no Renato Russo, e querendo saber mais sobre a vida dele. Só de re-escutar a discografia completa no sábado (sim, tive que escutar ela todinha. Várias vezes), desta vez sabendo que quando ele escreveu tal música, ele sabia que estava morrendo. Quando escreveu essa aqui, ainda não. Quando escreveu essa ele tinha acabado de assinar o primeiro contrato de gravação e cortado os pulsos. Só de saber um pouquinho da história por trás de uma música aqui outra ali me fez encher de lágrima.
Mas acho que o que de tudo de tudo me deixou mas impressionada foi que ele morreu sozinho. Nem a mãe dele, nem o pessoal do Legião sabia que ele tinha AIDS, ou pelo menos foi o que o programa da Globo deu a entender. Pelos meus cálculos, o Renato ficou sabendo que era aidético mais ou menos na época que o Cazuza morreu. Talvez ele tenha ficado impressionado com a cobertura minuto a minuto da doença do Cazuza, e resolveu partir para o outro extremo. Não sei. Mas só de imaginar a situação toda, dele segurar sozinho essa barra, me dá um aperto no coração.
O que no final das contas prova que apesar de todo meu complexo de superioridade, minhas emoções são tão vulneráveis a estímulos midiáticos como a de todos os tietes que na minha ignorância eu criticava. Se brincar, até mais. Porque olha só: até sair para comprar a biografia do Renato Russo eu saí. Se todo mundo que tem o meu poder aquisitivo é tão influenciável quanto eu, estimo que as vendas do “Trovador Solitário” neste final de semana deve ter batido recorde. Se não bateu, isso só pode provar que meu nível de impressionabilidade é maior do que a média da população que tem meu nível de renda ou maior. Não falei que tinha complexo de superioridade?
Enfim, vou parar por aqui e ir devorar meu livrinho novo. Depois eu conto detalhes. E depois do fim, o que vier vai terminar de ser o começo:
É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais
(Renato Russo, Love in the Afternoon)
Post Mortem (parte 1 de 2)
É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais
(Renato Russo, Love in the Afternoon)
Quando o John Lennon morreu, eu tinha acabado de comemorar meu primeiro aniversário. A primeira vez que eu lembro de ter ouvido o nome do ex-Beatle — ou dos Beatles — foi em dezembro de 1990, quando passou na TV o filme “John e Yoko” e o show “Tributo a John Lennon”, para comemorar os dez anos de seu assassinato.
Eu tinha onze anos, e fiquei impressionada. Tínhamos acabado de comprar nosso primeiro video-cassete, e uma das primeiras fitas que a gente gravou continha esses dois programas. Em um mês eu devo ter assistido essa fita umas dez vezes, possivelmente mais. Como se isso não fosse suficiente, já que eu e meu irmão acabamos decorando os diálogos, nós às vezes dispensávamos a fita e fazíamos a dramatização ali nós dois, colocando um primo como terceiro figurante quando dava. Por algum motivo, o cara que dublava o John Lennon parecia ser o mesmo que dublava o Chapolin, o que deixava as cenas ainda mais memoráveis, e fazia a gente cair na gargalhada sem nem saber por quê. Os efeitos dessa maratona foram permanentes; quem duvidar, dê uma olhada neste meu post de abril, ou neste testemunho do meu irmão caçula.
Isso foi em dezembro de 1990. Em julho do mesmo ano morreu Cazuza. A gente estava de férias, e tínhamos parado em Três Marias no meio de uma viagem de carro Brasília-Rio. A notícia não pegou ninguém de surpresa– acho que a minha surpresa foi de saber que ele até o dia anterior ele ainda estava vivo. O Cazuza foi a primeira personalidade brasileira a assumir publicamente que era portador do vírus da AIDS, e a evolução da sua doença foi exaustivamente documentada pela mídia da época.
Apesar de não ser fan do Cazuza na época (não sei se eu era fan de alguma pessoa na época, talvez do Balão Mágico), eu conhecia muita música dele por osmose. Muita mesmo. Cazuza é o que até hoje eu defino como “música de clube”: era o que tocava nas rádios na época em que passávamos as tardes de sábado no clube nadando ou brincando de bola. Como esse era o único lugar que eu ouvia rádio na época — por que os alto-falantes eram tão altos e onipresentes a não dar outra opção — e como Cazuza era o que estava nas paradas do rádio, ergo Cazuza tornou-se um caso clássico de música de clube, ao menos para mim.
Mas assim, eu nunca pensei muito no Cazuza. Quer dizer, até o ano passado, quando assisti o filme baseado em sua vida. Daí lá foi Ester de novo ficar super-impressionada. Em um mês, eu devo ter visto o filme umas quatro ou cinco vezes. Comprei uns três discos, e pus para tocar o que eu já tinha e nunca havia parado para escutar muito. Por mais de mês não tocava mais nada no meu som. Virei fan de carteirinha. O cara é muito gênio, fala sério.
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Não perca no próximo episódio: Renato Russo e o “Por Toda Minha Vida” de 14 de setembro.
Disco furado
Quem me conhece talvez saiba da minha tendência de ouvir um disco repetidamente até furar. Às vezes é o mesmo disco por alguns dias, às vezes a semana inteira (e às vezes mais: se você duvida, ou se não me conhece, queira por gentileza conferir o post “Comida para a Alma”, de abril 2007).
Nas paradas dessa semana o número único foi “The Essential Leonard Cohen”. Eu comprei esse disco tem meses, junto com uns outros seis (uma dessas promoções de R$ 0,99 por disco se você comprar tantos discos, e daí você compra, e acaba sendo bem mais que um real por disco que eles usaram de isca, mas nesta altura do campeonato você já se apegou aos discos, então você termina de comprar assim mesmo).
Eu até tenho uma resolução de nunca comprar mais de dois CD´s de uma vez, justamente porque eu preciso de tempo para saborear cada disco novo, escutar até furar ou até meu cérebro se satisfazer que, sim, temos esse disco em nossos arquivos. É como se eu tivesse que gravar o disco no meu cérebro, memorizar os títulos, as ordem das faixas, as letras, para poder ter certeza que realmente eu tenho esse disco, literalmente encorporado à minha coleção, gravado no meu cérebro direito e esquerdo, ouvido direito e esquerdo, lábio superior e inferior, mãos e pernas.
Por algum motivo, apesar de toda essa minha política administrativa burocrática quanto à aquisição de Cd´s, por algum motivo eu nunca cheguei a escutar o Leonard Cohen quando eu comprei. E no meio de tantos discos me pedindo atenção, discos novos a serem gravados no cérebro, disco velho reclamando de falta de carinho, mudanças constantes de uma parte a outra da cidade, eu simplesmente nunca parei para escutar o Leo.
Até essa semana. Um outro fato que as pessoas que me conhecem podem ou não saber sobre a minha pessoa é que de quando em vez eu tenho que escutar todos os meus discos, na ordem que eles estão na prateleira. Então se dessa vez eu vou em ordem alfabética, da próxima vez eu começo com trilhas sonoras do Woody Allen e O Melhor de U2, e vou cantando até chegar no Abba. Se dessa vez é a prateleira de música brasileira, da próxima vez é música internacional. E se dessa vez for a prateleira dos Beatles (eles têm uma prateleira só para eles), da próxima vez é a do Legião (que também tem uma só para eles. Minhas prateleiras são pequeninhas). E foi assim que eu descobri o Leonard Cohen lá quietinho do lado do Phil Collins.
Então eu pus para tocar uma vez. E gostei. Pus de novo. E repeat. E coloquei para tocar até eu dormir. E depois quando eu acordei. E enquanto me vestia para o trabalho. E ao voltar do trabalho. Achei os acordes das minhas músicas favoritas na internet. Toquei “Hallellujah” no violão tantas vezes que já até dou conta de tocar sem olhar (eu sei, lugar comum dizer que a música do Leonard Cohen favorita é Hallellujah. Mas o motivo pelo qual todo mundo gosta de Hallellujah é bem simples: é uma música linda: melodicamente, ritmicamente, letralmente, guturalmente, biblicamente, absolutamente).
E os dias se passaram, e a semana se passou. Meus dedos, sem prática, de repente se sentiram como se fosse o segundo grau de novo. E minha garganta também, e meu violão, e meu coração. Eu só não me atrevi perguntar meus vizinhos o que eles acharam dessa história.
Alimento para a Alma
Ontem eu fui almoçar num lugar que há tempos eu não freqüentava. Teve uma época que eu ia lá quase todo domingo, em parte porque eles sempre tocavam discos dos Beatles. Dicos inteiros. Do começo ao fim.
Desta vez não era os Beatles que temperavam o ambiente, mas Elvis Presley. Nada mal, embora isso dificultasse o processo de prestar atenção nas minhas conversas (quando elas existiam — as distrações eram muitas). Depois do Elvis, veio uma salada de músicas dos anos 50 e 60, que fez não só eu, mas o pessoal da mesa do lado cantar.
Saindo do restaurante, entrei numa livraria em busca de inspiração. A inspiração veio, mas não tanto dos milhares e milhares de títulos tentadores, todos prometendo a solução para todos meus problemas (tenho certeza que a solução está lá em algum lugar, só que meu tempo de vida é limitado, e o número de livros no mundo – ou nas livrarias – parece não ser).
A inspiração veio pelos auto-falantes: eles tocavam “Help”, dos Beatles. E não se limitaram à primeira faixa do disco de mesmo nome (que por si só refletia bem meu estado de espírito e ironicamente o deixava mais leve). Eles tocaram o disco inteiro. Todas as quatorze faixas.
Como meu pobre irmão bem sabe,”Help” foi o primeiro disco que eu comprei, com minha própria mesada. Com a costumeira avidez de adolescente, eu pus esse disco para tocar até ele (o disco, não meu irmão) quase furar (o disco era de vinil, e a mesada limitava um pouco o repertório). Eu diria quase que eu escutei este disco “ad nauseam”, só que eu nunca enjoei dele (não sei se meu irmão pode dizer o mesmo). Eu decorei as letras todas (apesar de não saber inglês na época, o que nunca foi empecilho). Aprendi os acordes todos (duas coisas na minha vida que começou com os Beatles: inglês e violão). E agora na livraria, muitas mesadas depois, eu não conseguia de jeito nenhum lembrar a última vez que eu tinha ouvido esse disco.
Eu não estava procurando nada específico na livraria (além do significado da vida, do universo e de tudo que existe — como eu estava dizendo, nada específico). Então fiquei andando sem rumo de prateleira em prateleira. Percorri as estantes todas, de “Antropologia” a “Zoologia”, passando por “Saúde e Bem-Estar” e voltando via “Estilo de Vida Digital”, cantarolando, digo, cantando em alta voz, pronunciando deliberadamente cada palavra, lembrando da época que eu não sabia o que elas queriam dizer, mas as dizia saborosamente. Algumas pessoas por quem eu passava olhavam para mim confusas. Algumas outras estavam compenetradas demais em suas buscas, e enquanto outras estavam compenetradas cantando também (principalmente durante “Yesterday”, durante “Act Naturally” nem tanto.)
No último acorde de “Dizzy Miss Lizzy”, minha busca por inspiração se deu por terminada. Voltei para casa, completamente satisfeita com meu especial de domingo: almoço e livraria. E até agora eu não sei dizer se o que repunha minhas energias naquele restaurante era a comida ou se era a música.