Arquivo para Livros

Escrever e ticar, é só começar

Ultimamente, não tenho escrito muito porque 1) tenho estado muito ocupada e 2) nada de interessante tem acontecido. Como assim? Assim que tenho passado as últimas semanas entre trabalho e tese, e não só isso deixa pouca energia mental para blogar, mas também fiquei com pena dos meus cada vez menos fiéis leitores, lendo um post depois do outro sobre Ester tentando ser menos absorvida em si mesma — e fracassando terrivelmente.

Mas 1) tendo voltado a freqüentar a academia depois de cinco semanas de vida completamente sedentária, me lembrei que “muito ocupada” muitas vezes é desculpa esfarrapada. Muitas vezes é só questão de ajuste de prioridades. Endorfinas (reforço positivo) e dores musculares (reforço negativo) me fazem prometer nunca nunca nunca mais ficar tanto tempo sem ir a academia. E como já falei antes, blogar segue princípios semelhantes.

2) tendo assistido recentemente o filme “Mais Estranho que Ficção,” percebi que nenhuma vida é tão enfadonha a ponto de não render uma boa história — nem mesmo a minha. Então aqui vai mais uma dose de Ester descaradamente não fazendo nenhum esforço em ser menos absorvida em si mesmo.

*****

No dia 24 de maio, portanto há um mês e 5 dias, eu elaborei uma lista de leitura consistindo em 87 itens. Um dia inteiro foi só montando a tal lista – um belo dia de sábado por sinal, e eu enfurnada no subsolo da biblioteca, checando volume por volume de um certo periódico, anotando todo título que tinha remotamente alguma coisa a ver com a minha tese.

Depois da lista feita — pensei comigo — o resto era fácil: só ler os artigos, e ir ticando um por um. Dado que cada artigo tinha em média 5-7 páginas, e eu leio até rápido, calculei que uma ou duas semanas seriam mais do que suficiente para ler o que julguei ser mais ou menos 500 páginas — e  ainda redigir um relatório sobre todo esse material.

Ledo engano. Primeiro, porque nem sempre cada um dos 87 itens correspondia a um artigo. Em alguns casos, o item era “todo o primeiro volume de 1993,” o que poderia ser 40, ou até 80 páginas se fosse um volume duplo. Segundo porque cinco páginas não eram bem cinco páginas padrão, daquelas que cabem em meia página A4 deitada. Na verdade, cada página era uma página A4 em pé, com três colunas, e a letra bem pequeninha. O que quer dizer que cada página valia por cinco: um artigo de cinco páginas tinha portanto conteúdo de quinze, e o que eu calculei como sendo 500 páginas estava mais para 1.500.

Paciência. Peguei minha caneta vermelha, fiz de conta que era trabalho de aluno, e mandei bala, lendo a cada minuto livre, no trabalho, na biblioteca, em cafés. Nisso, descobri várias coisas.

1. Que por mais que 1.500 páginas possam ser espremidas em 500, 500 ainda são um tantão para xerocar: em termos de tempo, dinheiro (10 centavos a página = 50 dólares!) e principalmente munheca. Ainda mais quando o artigo não atende suas expectativas, e a única satisfação que se tem em lê-lo é ticar um item da lista. E como esse periódico não é emprestável, resolvi que seria bom tentar passar o máximo de tempo lendo na própria biblioteca, e só xerocar os artigos que fossem realmente imprescindíveis.

2. Mas no verão, a biblioteca fecha cedo: 20hrs de segunda a quinta, 17hrs sexta e sábado, e fica fechada no domingo. Dado que eu trabalho de segunda a sexta até às 16hrs, o tempo eu posso passar na biblioteca fica um pouco restrito, com uma granda concentração no sábado. Várias vezes o segurança teve que me interromper no meio de um artigo, ou de uma fotocópia: “Senhora, a biblioteca já fechou, você tem que sair agora.” “Mas, moço, faltam só três páginas! Três páginas só!” “Senhora!”

3. Cafés são lugares bizarros quando observados com atenção e assiduidade. A maior parte do público que freqüenta cafés — e até dois meses atrás eu me encaixava nessa categoria — ou não freqüenta regularmente, ou não passa tempo suficiente. Alguns vão ao mesmo café todo dia, mas não passam mais de 10 minutos; outros passam uma hora ou duas, mas muito ocasionalmente. E outros vão acompanhados, o que interfere um pouco no fator ”atençao.” O que eu presenciei nessas últimas cinco semanas passando em média três horas por dia, seis dias por semana, em cafés, nossa, não está escrito — cada história… Talvez eu escreva sobre isso num futuro próximo. Ou não.

4. Uns dias atrás, descobri, ao pentear o cabelo, umas manchas vermelhas no meu couro cabeludo. Fiquei preocupada: seria sangue? Depois de tentar olhar mais de perto (difícil examinar direito o couro cabeludo…) descobri que eram manchas de caneta… Eu tenho mania de coçar a cabeça enquanto leio. Se faço isso à mão livre, no final do exercício meu cabelo está pura juba de leão. Mas nunca tinha feito isso com caneta — ao menos não com caneta vermelha (ou ao menos não que eu tenha percebido). Na pressa de terminar de pentear o cabelo para sair, tentei disfarçar os rabiscos  mudando o jeito de partir o cabelo. Ótima idéia, não fosse pelo fato que eu consegui rabiscar minha cabeça quase inteira… Paciência…

Enfim, acabou que ontem o dia tão aguardado chegou: tiquei o último item nessa minha lista. Está bem que ao invés de uma semana, ela me levou uma semana e um mês! E isso só para ler: ainda tenho que escrever um relatório sobre ela todinha, para entregar sexta. Só que eu estou com uma preguiça…

E foi a preguiça de escrever que me levou a blogar… Irônico, não?  Agora deixa eu curtir meu domingo, que ninguém é de ferro…

Admirável Mundo Novo II

A literatura infantil de Monteiro Lobato sempre me fascinou tanto que ano passado nessa época eu estava pensando seriamente em lhe dedicar uma boa porção da minha tese de doutorado, se não a tese toda. Mas daí me veio a brilhante idéia de que, para fazer isso, seria aconselhável ler também os livros que Lobato escreveu para adultos. Foi o que fiz, e uma prova disso é que todos os meus posts de fevereiro e março de 2007 foram dedicados a esse assunto. 

O último post dessa série  descreve a sensação provocada pelo livro que me fez abandonar por completo o projeto de tese sobre Lobato. A gota d´água tem por título “O Choque das Raças, ou, O Presidente Negro: romance americano do ano 2228.” Este livro foi escrito em 1926, e descreve uma campanha presidencial nos Estados Unidos num futuro muito distante na qual, pela primeira vez, os dois candidatos principais são um homem negro e uma mulher branca.  

Lobato tinha mudado do Brasil para Nova Iorque em 1922 e ficou surpreso com o racismo aberto que ele encontrou lá (não que não existisse racismo no Brasil, mas ele não era tão aberto). A campanha feminista para sufrágio universal também o impressionou bastante (no Brasil, mulheres só tiveram direito de voto em 1932). A combinação desses dois fatores deu origem ao “O Presidente Negro,” um livro contendo tanto racismo e sexismo de dar até náusea. 

No post do ano passado, eu disse que um dos motivos pelos quais Monteiro Lobato me impressiona é sua franqueza: ele sempre escrevia o que pensava, não estava nem aí quanto a chocar ou ofender. Essa característica teve o duplo efeito de gerar algumas das coisas mais geniais que eu já li (como ”O Sítio”), e algumas das coisas mais ofensivas que já li (como “O Presidente Negro”). 

Mas outra coisa que me impressiona é o jeito com que Lobato consegue prever umas situações que só se materializarão décadas depois (petróleo no Brasil, por exemplo). No caso da disputa raça vs. gênero no contexto da disputa presidencial americana, com todos os exageros absurdos de Lobato, as coincidências entre 2228 e 2008 são por vezes assustadoras. Sorte nossa que a realidade não é tão terrível quanto a ficção. Pelo menos assim espero.

Neotenia

Cumprir resoluções é um treco difícil. Esse negócio de acabativa então, vou te contar, dificílimo.

Por exemplo: eu quebrei minha resolução de algumas semanas atrás de parar de ler. Essa semana eu li um livro. Todinho.

Como circunstância atenuante, vale constar que o livro não era acadêmico. Pelo contrário, embora tenha algumas coisas que definitivamente se encaixam nas minhas tarefas escolares. No meio referências mais ou menos explícitas a diferentes fluidos corporais, acompanhados de descrições mais ou menos elaboradas de como tais fluidos fluem, o autor apresenta pérolas geniais, como a seguinte:

“Neotenia” significa “permanecer jovem,” e é irônico que tal palavra seja tão pouco conhecida, porque a evolução humana é dominada por ela. Os seres humanos evoluíram até seu relativo alto grau em virtude de manter as características imaturas de seus ancestrais. Os humanos são os mais avançados dos mamíferos – com exceção talvez dos golfinhos – porque eles raramente crescem. Traços comportamentais como curiosidade sobre o mundo, flexibilidade de reação, e ludicidade são características comuns a todos os jovens mamíferos, mas rapidamente se perdem com a chegada da maturidade – exceto nos humanos. A humanidade avançou, quando avançou, não por ter sido sóbria, responsável e cautelosa, mas por ter sido lúdica, rebelde e imatura.

Tom Robbins, in Still Life with the Woodpecker, p. 19, tradução de Ester Macedo.

De buk is on de teibol

Mais um post sobre o Lobato, prometo que o último, pelo menos por alguns meses.

O Monteiro Lobato lia bastante a literatura inglesa, e até traduziu vários livros do inglês para o português. Mas naquele tempo não havia fitas ou CD´s para aprimorar o “listening”, e filmes americanos não eram tão difundidos como hoje. O que quer dizer que apesar de Lobato saber “ler” inglês bem, umas aulinhas de conversation antes da viagem dele para Nova Iorque teriam sido uma ótima pedida, como mostra o trechinho abaixo:

New York, 5, 9, 1927,

Rangel,

O americano troca o “t” por “r”, de modo que até um inglês de Londres se atrapalha em New York. Há dias pedi “water” num restaurante. O “waiter” – isso que aí vocês chamam de garçon – olhou-me com cara d´asno. Repeti: “A glass or water, please!” Ele ainda ficou no ar uns instantes. Depois seu rosto iluminou-se (era um garçon inteligentíssimo) e disse: “Warer?” (uórar), e trouxe-me a água. “Tomato” é “tomeiro” – e eu sou “Mr. Lobeiro.” Filha é “dórar” e “What of it?” é “Órovet?”. Fui comprar uma fita de máquina. “Standard ou pôrabal?” perguntou o homem. Espertissimamente adivinhei que “pôrabal” queria dizer “portable” – máquina portátil.

Se gostas de ler inglês, poderei mandar-te um milhão de coisas – sobretudo jornais e revistas.

So long, old chap!

Lobato

Admirável Mundo Novo

Eu terminei de ler A Barca de Gleyre, volume de correspondência de Monteiro Lobato com Godofredo Rangel. E a impressão final foi uma que já tive com outro artistas cujo trabalho admiro: a impressão de que eu nunca me daria bem com a pessoa se a conhecesse, apesar de admirar tanto seu trabalho. Impressão que foi confirmada com a lida de O Presidente Negro ou O Choque das Raças, romance futuristico à la “Admirável Mundo Novo” que Lobato escreveu em 1927.

Engraçado isso de querer que as pessoas cujo trabalho você admira sejam do jeito que você acha que as pessoas que desenvolvem tal trabalho devem ser. E difícil dizer se o melhor é deixar a fantasia intacta, ou desmascará-la de vez. A idealista em mim ainda acredita que o melhor é saber a verdade, doa a quem doer. Mas a minha criança interior gostaria que a verdade fosse do jeito que ela imaginava. Como dizia o Rob em “Alta Fidelidade”, que dizia para a ex-namorada algo do tipo: “Eu quero que você diga o que eu quero ouvir, e que seja a verdade”.

O que eu admiro no Monteiro Lobato porém, e que continuo a admirar, é que ele tinha obsessão por ser ele mesmo. Autenticidade era o que ele mais buscava. E isso é que faz dele uma figura tão original e tão forte. Mas é claro, que autenticidade não é um dedo de Midas, que faz tudo em que toca virar ouro. O que é pior: um autêntico cafajeste, ou um cafajeste dissimulado? Melhor seria que não fosse cafajeste, certo?

Eu gosto do jeito que Lobato fala o que pensa: que é o que torna o Sítio do Picapau Amarelo tão único na literatura infantil. Mas às vezes ele pensa umas coisas que me assusta, principalmente em relação a negros, pobres, mulheres e deficientes… E não sei se me assusta mais quando aparece de maneira absurdamente explícita como em O Presidente Negro, ou de forma mais velada como no Sítio… Melhor seria que não assustasse? Não sei dizer.

Lobato e Futebol

Essa semana eu comecei a ler “A Barca de Gleyre”, um volume com as cartas que Monteiro Lobato enviou ao seu amigo Godofredo Rangel ao longo de quarenta anos. Esse calhamaço, cuja leitura adiei por meses, desgostosa da grossura do livro e da camada de poeira sobre a cópia que tirei da biblioteca, é aliás divertidíssimo, ainda mais para aqueles que se interessam pelas “várias faces de Lobato”.

O trechinho abaixo, escrito por Lobato quando era ainda um estudante de 22 anos, é um exemplo do que tenho descoberto da vida deste divertido autor. Dedico este post a um outro escritor de 22 anos que conheço, que também conhece as emoções e sofrimentos de fazenda e futebol nas horas em que não está escrevendo.

—————
S. Paulo, 11, 7, 1904,

Rangel:

Quanta atribulação, meu caro! Tua última chegou no momento em que eu partia para Taubaté, na folga do mês de greve que nos deu esta nossa inefável academia. Fui com planos de responder de lá – mas sobrevieram atribulações. Andei léguas a cavalo, lá pelos sertões do Buquira, e cheguei até às raias de Minas. Voltei para Taubaté derreado, bambo. (…) E cá estou em S. Paulo – mas ainda atribulado. Mudei-me para um quarto de frente na rua Araújo 26, com um lampeão de rua bem junto à minha janela. Tenho luz de graça. E defronte há uma vizinha janeleira que já piscou. Em vez de namorá-la, meti-me pelo futebol – Palmeiras. Joguei vários dias seguidos e fiquei mais derreado que com as léguas do sertão. Estou cheio de pisaduras e dodóis.

Isto deve ser o que na Vida Intensa o Th. Roosevelt quer. O futebol empolgou-me de alma e corpo; escrevo crônicas e jógo. Diz o Tito que é mania – e diz-lhe o Raul: “Jaques, tu es un âne.”* Seja como for, asseguro-te que o futebol apaixona e contunde. (…)

Bom, a cama está a chamar este corpo contuso. Adeus.

LOBATO

* “Jacques, você é uma besta”, frase do livro Petit Chose, de Alphonse Daudet (Nota Estérica)

Intervalo com Bertrand Russell

Devido a dificuldades técnicas e interferências escolares, nossa programação normal foi temporariamente suspensa. Nós pedimos desculpas por qualquer inconveniência e/ou frustração que isso possa ter causado. Retornaremos a nossa difusão costumeira de pensamentos estéricos originais e/ou semi-originais na próxima semana.

Enquanto isso, fica com aqui algumas frases das obras educacionais de Bertrand Russell.

Agradecemos sua preferência. Volte sempre!

—-

Nenhuma teoria política é adequada se não for aplicável às crianças, assim com aos homens e mulheres. Teoristas na sua grande maioria não têm filhos, ou se têm, eles se mantêm cuidadosamente afastados de qualquer perturbação que poderia ser causada por jovens agitações. Alguns desses teoristas escreveram sobre educação, mas em geral sem ter nenhuma criança de verdade em mente enquanto escreviam. (p. 401)Autoridade na educação é de certa forma inevitável, e aqueles que educam têm que achar uma maneira de exercer autoridade de acordo com o espírito de liberdade. Onde autoridade é inevitável, torna-se necessária a reverência.

Para educar bem, e para fazer os jovens crescerem e desenvolverem sua estatura plena, a pessoa deve encher completamente com um espírito de reverência. É reverência para com os outros que falta naqueles que defendem sistemas feitos à máquina e gravado em ferro.

Na educação, com seus códigos de regulamentos vindos do governo, suas salas lotadas, currículo fixo e professores explorados, sua determinação em produzir uma mediocridade pegajosa, a falta de reverência para com a criança é praticamente universal. Reverência requer imaginação e calor humano; ela requer ainda mais imaginação para com aqueles que de fato têm o nível mais baixo de poder ou realização de fato.

A criança é fraca e superficialmente tola, o professor é forte e, em geral mais sábia que a criança. O professor sem reverência, ou o burcrata sem reverência, facilmente despreza a criança por cause dessas inferioridades exteriores. Ele acha que é seu dever ‘moldar’ a criança: na sua imaginação ele é o fazedor de pote com a argila. Desta forma, ele dá a criança uma forma que não é natural, que endurece com a idade, produzindo rachaduras e insatisfações espirituais, de onde saem crueldade e inveja, e a crença que as outras pessoas têm a obrigação de sofrer as mesmas distorções.O adulto que tem reverência não acha que é seu dever ‘moldar’ os jovens. (…) Na presença da criança ele sente uma humildade inexplicável – uma humildade que não é facilmente defendinda em nenhuma base racional, mas de alguma forma mais próxima da sabedoria do que a auto-confiança fácil de muitos pais e professores. (p. 402-3)

Extraído de “Principles of Social Reconstruction”, (1916) in The Basic Writings of Bertrand Russell, 1903-1959. Ed. Robert E. Egner and Lester E. Denonn. New York: Simon and Schuster, 1961. Trad. Ester Macedo.

Buscando Nísia Floresta

Você viu esse link de um concurso de redação no meu blog? Viu? Mas você nunca ouviu falar dessa tal Nísia Floresta? Não? Eu também não.

Mas não ouve falar não é porque a cidadã não fez nada. É porque ninguém fala mesmo. Mas se não fala, como é que está tendo um concurso de redação sobre a tal figura?

Numa bela manhã dominical de junho, estava eu contente e serelepe em casa lendo o Correio Braziliense. Na minha seção favorita, o guia de empregos, logo me saltou aos olhos um anúncio do tamanho de um quarto da página, divulgando um concurso de redação da Fundação Assis Chateaubriand. Nessa época eu nem sonhava com esse blog, e escrever redação para concurso me pareceu um emprego free-lancer tão divertido quanto os outros empregos que eu estava namorando (para quem não sabe, procurar emprego sempre foi meu hobbie desde pequena). Juntou o útil com o agradável.

O problema era descobrir quem era a tal Nísia Floresta. Mas isso era o de menos. Ainda mais que o anúcio do concurso já indicava que eu ia gostar do assunto. “Educadora brasileira do século dezenove.” Beleza, já fui com a cara. E eu, que já estava com água na boca, quando vi os cifrões, começando com 2 mil reais para o estudantes de primeira a quarta série, e só crescendo, aí que empolguei mesmo. Olha só:

ENSINO FUNDAMENTAL
1ª a 4ª séries:
1º lugar – R$ 2.000,00
2º lugar – R$ 1.000,00
3º lugar – R$ 500,00

5ª a 8ª séries:
1º lugar – R$ 4.000,00
2º lugar – R$ 2.000,00
3º lugar – R$ 1.000,00

ENSINO MÉDIO
1º lugar R$ 6.000,00
2º lugar R$ 3.000,00
3º lugar R$ 1.500,00

UNIVERSITÁRIO
1º lugar R$ 8.000,00
2º lugar R$ 4.000,00
3º lugar R$ 2.000,00

Só que parou por aí. E de repende caiu a ficha que só pode participar estudantes devidamente matriculados numa instituição educacional brasileira reconhecida pelo MEC. O que quer dizer que eu estou fora.

Tentei convencer várias pessoas a fazer o concurso. Até ofereci minha assessoria por uma quantia módica (o que eu queria mesmo era participar do concurso) . Mas ninguém me levou a sério. Deixando então essa história do concurso para lá, eu continuei tão intrigada com a tal da Nísia Floresta, que fui fuçar mais sobre ela. E, fuçando, achei tanta coisa interessante, que esse concurso já valeu a pena para mim.

O site oficial do concurso indica quatro sites, do qual o mais útil que eu achei foi:
http://www.memoriaviva.digi.com.br/nisia/

Combinando isso com uma pesquisa no Google, só achei assim um 5 sites sobre a pessoa Nísia Floresta. Ironicamente, a maior parte dos resultados é sobre a cidade de Nísia Floresta, RN, onde nasceu nossa personagem, e não sobre a personagem própria, em cuja honra a cidade foi rebatizada.

Um desses sites é de um artigo de uma certa Cecília Prada, que escreve regularmente para a revista online do SESC-SP. Gente, Nísia Floresta a parte, essa Cecília Prada só escreve sobre coisa fera, tipo Monteiro Lobato e filosofia no Brasil. Virei fã de carteirinha.

O site primeiro que saiu na minha busca foi:
http://www.brazzil.com/2004/html/articles/may04/p101may04.htm

Mas daí no final do texto, por algum motivo em inglês, tem a referência dizendo que ele apareceu primeiro em português na revista do SESC-SP, cujo endereço é:

http://www.sescsp.org.br/

O outro link legal foi para o site da editora Mulheres, de Florianópolis. Tem ali uns dois resumos biográficos que não deu para matar a sede, o que me fez resolver encomendar um dos livros da editora. O volume de correspodência entre Nísia e Comte (gente, a mulher correspondia com o Auguste Comte!) estava esgotado. Encomendei então “Nísia Floresta – A Primeira Feminista do Brasil”, uma pequena antologia com introdução de Constância Lima Duarte.

A eficiência da editora foi de impressionar. De imediato recebi email da pessoa encarregada de despachar as encomendas, Zahidé L. Müzart, dizendo que o negócio já estava no correio. “Caramba!”, pensei comigo, “deve ter uma pessoa lá só para fazer isso… eu nem terminei de olhar o site, e a encomenda já foi enviada!”

Olhando mais o site, percebi que a tal Zahidé não era só a despachante: a mulher tem é muito livro publicado por essa editora. Daí eu fico pensando: nossa, a editora deve ser dela mesma, né? A mulher escreve o livro, edita, imprime, vende, e manda pelo correio. Quem sabe faz ao vivo.

Mas para não ficar parecendo que o negócio é de fundo de quintal, olha só como as coisas se encontram. Paralelamente a isso tudo, continuei eu lendo avidamente a coluna da Cecília Prada, do SESC-SP. Lá pelas tantas ela cita essa Zahidé Müzart, como sendo uma acadêmica de primeira linha nesse ramo de escavar escritos por mulheres brasilieiras do século XIX.

A mulher então não só publica e despacha os próprios livros, mas é pesquisadora de primeira.

E não só ela pesquisa, escreve, publica e despacha os próprios livros, mas o de muita gente também. Os títulos da Editora Mulheres são muitos.

Isso que é gostar de livros, viu? Fiquei de cara.

Mas eu estava falando dos sites sobre a Nísia Floresta que, pelas minhas módicas capacidade de pesquisa no banco de dados “google”, dá para contar nos dedos. O outro site que achei na minha busca foi para um artigo de uma doutoranda na Inglaterra, Charlotte Liddell, cuja tese é sobre a Nísia. O artigo está em:
http://www.palgrave-journals.com
/fr/journal/v79/n1/pdf/9400202a.pdf

Página da autora não achei, mas o da supervisora dela é:
http://www.llc.manchester.ac.uk/
SubjectAreas/SpanishPortugueseStudies/Staff/HOwen/

Então, já fiz o seu dever de casa todo. Você não quer fazer essa redação não? 150 linhas só (mais ou menos 3 páginas), inscrições até o final de agosto, a minha valiosa comissão dessa vez eu nem cobro. Topa?

Recomendações, alusões e referências:
- Regras oficiais do concurso: http://www.fac.correioweb.com.br/
- Sobre Nísia Floresta: http://www.memoriaviva.digi.com.br/nisia/
- Cecília Prada e Nísia (Inglês): http://www.brazzil.com/2004/html/articles/may04/p101may04.htm
- Cecília Prada no SESC-SP: http://www.sescsp.org.br/

Vozes silenciosas

No episódio passado, eu falei que o “Paideia Redux” do Timothy Reagan é uma fonte de referências excelentes. Um dos trabalhos fascinantes que esse artigo apresentou para mim foi o da estudiosa clássica Page du Bois.

Uma escritora polêmica, o refrão principal de du Bois é um convite a uma releitura dos clássicos. Mas a idéia de du Bois não é copiar as culturas antigas, colocando-as num pedestal. Muito pelo contrário, a proposta é que reconheçamos não só o quanto herdamos dos gregos antigos, mas o quanto melhoramos, e o quanto ainda temos de melhorar.

Eis alguns títulos de obras de du Bois:

- “Cavalo de Tróia: resgatando os clássicos dos conservadores” (“Trojan horses : saving the classics from conservatives”)
- “Escravos e outros objetos” (“Slaves and other objects”)
- “Centauros e amazonas: mulheres e a pré-história da grande corrente do ser” (“Centaurs and amazons : women and the pre-history of the great chain of being”)
- “Safo está pegando fogo” (“Sappho is burning”)
- “Cultivando o corpo: psicoanálise e representações antigas da mulher” (“Sowing the body : psychoanalysis and ancient representations of women”)
- “Tortura e verdade” (“Torture and truth”)

Dá para ver dos próprios títulos uma preocupação com a história de “cidadãos de segunda classe”. Estes são grupos de pessoas como mulheres, escravos, estrangeiros e até criaturas míticas que, pelo fato de serem diferentes da classe dominante, num momento ou outro da história não eram considerados “100% ser humano”.

Eu tive a oportunidade de ler os capítulos sobre Platão em “Safo está pegando fogo” e em “Cultivando o corpo“, que são absolutamente excelentes. Du Bois demonstra como que, apesar de estar muito a frente do seu tempo ao apresentar um Sócrates que considerava mulheres como pessoas sábias, Platão ainda assim nega-se a dar voz para mulheres.

Aspásia, Diotima e Safo falam por meio de Sócrates, mas na verdade estão ausentes. Elas não têm voz própria. Quando aparecem nos diálogos, como Xantipe no Fédon, e as flautistas no Banquete, elas são apresentadas como simplesmente uma interrupção na “discussões sérias” dos homens, e forçadas a se retirarem.

Até a sábia Safo, que é lembrada no Fédro, é apresentada numa voz e terreno que não é o seu. Numa jogada muito criativa, du Bois imagina o que Safo diria se ela resolvesse dar o troco e escrever um poema sobre o sábio Platão.

Page du Bois é para mim uma pecinha fundamental na construção da resposta para “para que estudar os clássicos”. No momento, estou esperando ansiosamente para que o seu “Cavalo de Tróia” chegue pelo correio. Eu já estou até torcendo para uma abordagem “o-mal-feito-só-pode-ser-desfeito-de-dentro-para-fora” em relação aos estudos clássicos.

Afinal, como bem aprendemos dos gregos antigos, não tem nada mais poderoso do que a força que vem de dentro.

Jogos de Civilizações

É comum se perguntar qual a vantagem de se estudar culturas clássicas, como Roma Antiga, ou a Grécia, or o Antigo Egito ou a China.

Tem gente que acha que é porque os povos antigos eram o máximo, e depois deles tudo entrou em declínio.

Mas essa é uma visão que esquece todos os avanços dos últimos 5, 10, 15 ou 20 séculos.

Além disso, uma opinião dessa desconsidera o fato que as civilizações não desenvolvem linearmente. Qualquer um que já jogou Civilization III sabe que, em qualquer momento do jogo, pode ser que os zulus sejam mais avançados tecnologicamente do que os gregos, apesar de terem um território menor. Da mesma maneira, os Iroquois podem ser culturalmente mais desenvolvidos que os romanos, apesar de serem mais fracos militarmente.

Dizer portanto que uma civilização, presente ou passada, é mais civilizada que outra é ver um lado só da coisa. Com isso quero dizer não só que é uma visão simplista (“civilizado em que sentido?”), mas também no sentido de ser bairrista e um tanto injusto.

Outros podem dizer que estudamos civilizações antigas por pura curiosidade, mas que tal estudo não tem relevância nenhuma. Assim sendo, tanto faz estudar Roma Antiga ou tribos Tupi-Guarani. Tudo muito interessante, mas completamente inútil para a realidade atual.

Eu também acho essa versão bairrista, embora mais no sentido cronológico do que geográfico. Uma atitude dessa desconsidera toda uma riqueza de conhecimentos que ajudam a ver por que a civilização atual é o que é, e como nossas ações podem repercurtir no futuro. É como aceitar o risco de se reinventar a roda só de preguiça ou desinteresse de pesquisar o que já foi feito.

O artigo de Timothy Reagan entitulado “Paideia Redux: A Contemporary Case for the Classics” é até agora uma das respostas mais legais que já vi para a pergunta “para que estudar os clássicos?”. O autor não só defende muito bem a relevância dos clássicos nas questões atuais, mas é uma fonte excelente de referências sobre o assunto.

As ligações que Reagan faz entre teorias recentes e antigas, assim como entre outros autores da discussão contemporânea do assunto exemplificam muito bem tanto a minha própria opinião sobre a relevância dos clássicos como a minha estratégia favorita para me dar bem no jogo de Civilization.

Nós todos, tanto como civilização quanto como jogadores individuais, começamos em locais diferentes, com atribuições específicas diferentes, e acesso a diferentes recursos. Nossas especificidades são ao mesmo tempo nosso ponto forte e nossa limitação. Uma civilização com muitas montanhas, por exemplo, tem mais acesso a minérios (mais produção industrial) e mais pontos de defesa, mas tem dificuldades em locomoção e agricultura. Uma civilização com o atributo militar faz exércitos mais fortes mais rápido, mas leva mais tempo para desenvolver culturalmente.

Fazer contatos com o máximo de civilizações possível o mais cedo possível é uma estratégia em que só se tem a ganhar. Desse jeito, conseguimos multiplicar nosso acesso a recursos diversos, assim como a velocidade em que fazemos progressos tecnológicos (pois enquanto um está inventando a roda, o outro já está adiantando o expediente de inventar a escrita). A troca de recursos e informações beneficia os dois lados.

Alguém pode dizer que o objetivo do jogo não é beneficiar os adversários, mas, pelo contrário, superá-los todos. Assim sendo, só poderíamos ganhar o jogo se num momento ou outro quebrarmos nossas alianças com as outras civilizações, deixando-as para trás.

Mas isso depende de como e por que se joga o jogo. Para aqueles que, como eu, jogam Civilization repetidamente, simplesmente superar o adversário já perdeu a graça. A parte legal é tentar jogar cada vez melhor, e superar os próprios recordes de pontuação anteriores. Para fazer isso (como descobri depois de inúmeras tentativas e erros), a estratégia melhor que encontrei foi fazer o máximo de alianças possível, o mais cedo possível.

Mas tem outros jogos que a gente só tem a oportunidade de jogar uma vez. Que eu saiba, por exemplo, a vida é um deles.

Referências, alusões e recomendações:Sid Meier´s Civilization III

Reagan, Timothy. “Paideia Redux: A Contemporary Case for the Classics.” Journal of Thought 38.3 (2003): 21-39.

Burbules, Nicholas C., and Rupert Berk. “Critical Thinking and Critical Pedagogy: Relations, Differences, and Limits.” Changing Terrains of Knowledge and Politics. Ed. Thomas S. Popkewitz and Lynn Fendler. New York: Routledge, 1999. 45-65.

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