Arquivo para Legião Urbana

Post Mortem (parte 2 de 2)

No post passado, eu falei de dois cantores geniais que morreram de forma chocante ainda muito novos: John Lennon e Cazuza. Mas o que me levou mesmo a ressucitar este blog foi o especial da Globo sobre o Renato Russo, que foi ao ar na última sexta-feira. O impacto do programa em mim foi tão grande que eu passei o final de semana inteiro na maior deprê. “Pô, cara, o Renato Russo morreu. Que tristeza.”

Quando o Renato Russo morreu em 1996, eu tinha 16 anos e tinha acabado de transferir para uma escola nova. Era a Semana Cultural no Centro Educacional Sigma, e o número de bandas fazendo cover do(a) Legião Urbana era algo absurdo — isso antes mesmo de sair a notícia que o Renato tinha morrido.

Legião Urbana era para mim outro caso clássico de música de clube. Fan eu não era; na verdade, nem me dava conta que eu sabia tanta música deles. Quando a notícia estorou na mídia, foi aquela overdose: Legião tocando em todo lugar, fanatismo total. Até porque mais ou menos na mesma época saiu o “Tempestade”, que o Renato tinha gravado três meses antes de morrer, e a procura por esse disco foi uma febre. Eu não conseguia entender muito o chororô geral — falar a verdade, estava até um pouco de saco cheio.

Mas foi justamente aí que eu percebi que osmose ou não, o número de músicas do Legião que eu sabia de cor — sem nem saber que era Legião — era imenso. Até os longos 9 minutos e pouco de Faroeste Caboclo eu tinha na minha memória, da época que eu e meus primos ficávamos competindo, nas tardes de sábado no clube, quando eu tinha lá meus 7 anos.

Sem muito alarde, até para não pagar muito a língua, fui comprando um disco aqui, outro ali, até adquirir a coleçao completa. Legião virou algo central no meu repertório de violão, ao lado dos Beatles. No princípio, eu gostava mais das músicas da época do clube — anos 80, coisa de início de carreira. Depois vieram o disco V e o Descobrimento do Brasil, coisa já da minha adolescência. Daí o discos solo. (Se alguém duvida do efeito dessas músicas no meu consciente-inconsciente-subconsciente e super-consciente, vide este post de agosto passado.)

Me impressionava não só a poesia e o poder de observação das letras do Renato Russo, como o bom gosto dele nos covers que ele escolhia. Por bom gosto entenda-se: gosto que nem o meu. Madonna, Billy Joel, Neil Young: só tem coisa boa. Para ter idéia, há alguns meses eu falei da minha recente descoberta e fascínio com a música do Leonard Cohen. Até hoje eu tenho que escutar esse disco pelo menos umas dez vezes por semana (dia sim, dia não, com direito a um repeat ou dois). Qual então não foi minha surpresa semana passada ao escutar pela primeira vez o disco “Último Solo” do Renato Russo e dar de cara logo na primeira faixa com o “That´s no way to say good-bye” do Leonard Cohen. Foi dar de cara e ficar de cara.

Pensando bem, acho que o que eu gosto no Renato Russo e no Leonard Cohen é bem parecido: uma poesia inteligente combinada com uma percepção aguda do dia-a-dia. É o tipo de coisa que me faz gostar também do Raul Seixas e do Belchior.

(parêntese 1: por algum motivo muito interessante a wikipedia em inglês coloca Cazuza, Mutantes, Raul Seixas e Renato Russo como grandes nomes da música nacional. Não sei quem fez essa seleção, mas que tem um super bom gosto, isso tem.)

(parêntese 2: O Raul é outro desses caras que eu sei de cor e salteado por osmose, que morreu novo em 1989, que eu admiro muito hoje mas que cuja biografia eu conheço pouco. No dia que sair um especial sobre o Raul, aposto que eu vou ficar tão impressionada como fiquei com os tributos a John Lennon, Cazuza, e Renato Russo que citei nestes dois posts-mortes).

Mas eu divago. O que eu queria dizer é que eu passei o final de semana pensando no Renato Russo, e querendo saber mais sobre a vida dele. Só de re-escutar a discografia completa no sábado (sim, tive que escutar ela todinha. Várias vezes), desta vez sabendo que quando ele escreveu tal música, ele sabia que estava morrendo. Quando escreveu essa aqui, ainda não. Quando escreveu essa ele tinha acabado de assinar o primeiro contrato de gravação e cortado os pulsos. Só de saber um pouquinho da história por trás de uma música aqui outra ali me fez encher de lágrima.

Mas acho que o que de tudo de tudo me deixou mas impressionada foi que ele morreu sozinho. Nem a mãe dele, nem o pessoal do Legião sabia que ele tinha AIDS, ou pelo menos foi o que o programa da Globo deu a entender. Pelos meus cálculos, o Renato ficou sabendo que era aidético mais ou menos na época que o Cazuza morreu. Talvez ele tenha ficado impressionado com a cobertura minuto a minuto da doença do Cazuza, e resolveu partir para o outro extremo. Não sei. Mas só de imaginar a situação toda, dele segurar sozinho essa barra, me dá um aperto no coração.

O que no final das contas prova que apesar de todo meu complexo de superioridade, minhas emoções são tão vulneráveis a estímulos midiáticos como a de todos os tietes que na minha ignorância eu criticava. Se brincar, até mais. Porque olha só: até sair para comprar a biografia do Renato Russo eu saí. Se todo mundo que tem o meu poder aquisitivo é tão influenciável quanto eu, estimo que as vendas do “Trovador Solitário” neste final de semana deve ter batido recorde. Se não bateu, isso só pode provar que meu nível de impressionabilidade é maior do que a média da população que tem meu nível de renda ou maior. Não falei que tinha complexo de superioridade?

Enfim, vou parar por aqui e ir devorar meu livrinho novo. Depois eu conto detalhes. E depois do fim, o que vier vai terminar de ser o começo:

É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais

(Renato Russo, Love in the Afternoon)

Post Mortem (parte 1 de 2)

É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais

(Renato Russo, Love in the Afternoon)

Quando o John Lennon morreu, eu tinha acabado de comemorar meu primeiro aniversário. A primeira vez que eu lembro de ter ouvido o nome do ex-Beatle — ou dos Beatles — foi em dezembro de 1990, quando passou na TV o filme “John e Yoko” e o show “Tributo a John Lennon”, para comemorar os dez anos de seu assassinato.

Eu tinha onze anos, e fiquei impressionada. Tínhamos acabado de comprar nosso primeiro video-cassete, e uma das primeiras fitas que a gente gravou continha esses dois programas. Em um mês eu devo ter assistido essa fita umas dez vezes, possivelmente mais. Como se isso não fosse suficiente, já que eu e meu irmão acabamos decorando os diálogos, nós às vezes dispensávamos a fita e fazíamos a dramatização ali nós dois, colocando um primo como terceiro figurante quando dava. Por algum motivo, o cara que dublava o John Lennon parecia ser o mesmo que dublava o Chapolin, o que deixava as cenas ainda mais memoráveis, e fazia a gente cair na gargalhada sem nem saber por quê. Os efeitos dessa maratona foram permanentes; quem duvidar, dê uma olhada neste meu post de abril, ou neste testemunho do meu irmão caçula.

Isso foi em dezembro de 1990. Em julho do mesmo ano morreu Cazuza. A gente estava de férias, e tínhamos parado em Três Marias no meio de uma viagem de carro Brasília-Rio. A notícia não pegou ninguém de surpresa– acho que a minha surpresa foi de saber que ele até o dia anterior ele ainda estava vivo. O Cazuza foi a primeira personalidade brasileira a assumir publicamente que era portador do vírus da AIDS, e a evolução da sua doença foi exaustivamente documentada pela mídia da época.

Apesar de não ser fan do Cazuza na época (não sei se eu era fan de alguma pessoa na época, talvez do Balão Mágico), eu conhecia muita música dele por osmose. Muita mesmo. Cazuza é o que até hoje eu defino como “música de clube”: era o que tocava nas rádios na época em que passávamos as tardes de sábado no clube nadando ou brincando de bola. Como esse era o único lugar que eu ouvia rádio na época — por que os alto-falantes eram tão altos e onipresentes a não dar outra opção — e como Cazuza era o que estava nas paradas do rádio, ergo Cazuza tornou-se um caso clássico de música de clube, ao menos para mim.

Mas assim, eu nunca pensei muito no Cazuza. Quer dizer, até o ano passado, quando assisti o filme baseado em sua vida. Daí lá foi Ester de novo ficar super-impressionada. Em um mês, eu devo ter visto o filme umas quatro ou cinco vezes. Comprei uns três discos, e pus para tocar o que eu já tinha e nunca havia parado para escutar muito. Por mais de mês não tocava mais nada no meu som. Virei fan de carteirinha. O cara é muito gênio, fala sério.

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Não perca no próximo episódio: Renato Russo e o “Por Toda Minha Vida” de 14 de setembro.

A Importância de se Importar

Faroeste Caboclo - Quando eu tinha dezesseis anos, Galdino Jesus dos Santos, um índio pataxó, foi queimado vivo em Brasília, minha cidade natal e capital do Brasil.

A vítima estava em Brasília para as comemorações do 19 de abril, dia do índio. Estando a pensão fechada, ele dormia num ponto de ônibus em plena W-3 Sul.

Os assassinos eram quatro adolescentes, classe média alta. Quando perguntados por que tinham ateado fogo ao índio, responderam: “A gente não sabia que era um índio. Achamos que era só um mendigo.” Como se de repente isso explicasse tudo.

De onde vem a indiferença? - Eu lembro de na época ter pensado “Que idéia horrível!”. Mas minha reação não era bem indignação: na época eu era estóica demais para me indignar com qualquer coisa. Era mais um desprezo intelectual dos assassinos (“que idéia de jerico”), misturado com um resignado “é, acontece”, e com uma oração para alma do índio, que tinha ido dessa para uma melhor, e para os assassinos, para que Deus desse a eles mais juízo.

Sereníssima - E só. Nada de ficar esquentando com o que já aconteceu. Desprezo, resignação, tranqüilidade. Coisa de estóico mesmo.

Que País É Esse? - “É, acontece.” Ô, meu Deus, onde, quando, como é uma coisa dessas “acontece”? Minha falta de sensibilidade na época me assusta hoje quase tanto quanto à dos próprios assassinos. Anestesia de quem cresceu vendo Brasília sair no noticiário nacional não só pela corrupção mas também pelos crimes violentos praticados por adolescentes de classe média alta.

Geração Coca-Cola - Gente da minha idade, da minha classe social, da minha cidade. A “Parada do Índio” ficava no meu caminho para a escola. Foi pintada, cheia de homenagens. Eu passava lá todo dia, duas vezes por dia. E todo dia balançava a cabeça em reprovação, à la Harvey Siegel, como se o problema dos assassinos tivesse sido um erro de lógica, de pensamento, uma educação falha.

Giz - Foi uma falha da educação? Sim, com certeza. Mas, puxa vida!, os caras eram ricos, freqüentaram as melhores escolas, tinham tudo que queriam. O que prova: 1) que educação não é só coisa de escola e 2) que mesmo na escola a ênfase não pode ser só “intelectual”. O objetivo da educação, dentro e fora da sala de aula deveria ser o de tornar pessoas mais humanas. Não é só aprender a pensar, é aprender pensar com o coração e sentir com a cabeça.

Teorema - Mas não: a ênfase cada vez mais desprende o pensar do agir e do sentir, a teoria da prática, as causas das conseqüências, o lado subjetivo do objeto e o lado objetivo do sujeito. Os problemas são formulados e resolvidos “considerando as condições ideais” e “desconsiderando os atritos”.

Metrópole - E a minha reação estóica é conseqüência disso tanto quanto o ato assassino dos jovens. Trata-se outras pessoas como objetos na equação: esquece-se que são também sujeitos: sujeitos agentes e sujeitos sujeitos, que fazem e que são feitos pela “realidade objetiva” de todo dia. As coisas não “acontecem” simplesmente. Elas são feitas.

Indignação da Pedagogia - Comecei ontem a ler a “Pedagogia da Indignação” do Paulo Freire. Ele ficou profundamente abalado com a história de Galdino. A última coisa que ele escreveu foi sobre o nosso Pataxó, e nossos jovens:

“Que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer.” (Pedagogia da Indignação, p. 66)

Música Urbana - Paulo Freire morreu uns dez dias depois. Não sei se ele entendeu que o Galdino foi morto não foi por ser índio: os moços pensaram que ele fosse “só um mendigo”. Foi um ato desumano de violência, de elitismo, mas não foi por racismo.

Índios - Mas claro que ele foi morto também por ser índio: por estar numa cidade desconhecida, por não ter motorista e ter se perdido, por ter chegado tarde numa pensão sem estrelas, que não tinha recepcionista 24 horas esperando pelo prezado hóspede, ou anfitriã responsável pelo bem estar da visita. Tudo isso para receber as honrarias do Dia do Índio.

Pais e Filhos, Meninos e Meninas - A violência não foi só a dos jovens. Foi da sociedade toda. Foi racismo sim, foi elitismo sim. Da sociedade toda. Meu também. O que não inocenta nem um pouco os quatro culpados. Mas estende a culpa a muitos “inocentes”: ingênuos como eu que não vemos a nossa parte nisso.

Baader-Meinhof Blues - Eu tenho uma amiga que vive dizendo que o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença. E como diz Renato Russo, “de onde vem essa indiferença temperada a ferro e fogo?” Essa história do Galdino parece letra de Metrópole misturado com Faroeste Caboclo; Índios com Baader-Meinhof Blues. “A violência é tão fascinante, e nossas vidas são tão normais”.

Pacato Cidadão - Uma das correntes mais importantes do legado de Paulo Freire na educação é tentar sacudir a indiferença do “pacato cidadão”. Fazer as pessoas pararem de ser tão passivas, pacientes, para serem também agentes impacientes. E isso começa na escola, no berço.
Mais do Mesmo - Quem me dera ao menos uma vez explicar o que ninguém consegue entender. Mas ainda é cedo.