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A Vida dos Outros
Então, eu disse que ler placas e cartazes foi uma das coisas mais divertidas que eu fiz na Grécia (meu senso nerd de diversão). O cartaz ao lado é um exemplo perfeito. Nele está escrito:
“‘Oi Zôes tôn allôn”
‘Oi = artigo plural
Zôes = “vidas” (tipo “zoológico”)
tôn allôn = genitivo plural = “dos outros” (tipo “alopatia”)
= “As Vidas dos Outros”
Captei a mensagem! E captar essa mensagem me dá aquela emoção que uma criança sente quando está aprendendo a ler.
Este cartaz é de um filme alemão que assisti recentemente, e tem semanas que eu estou ensaiando de escrever sobre ele e não escrevo. Ele é um dos filmes mais bonitos que já vi. O desenvolvimento dos personagens é absolutamente fantástico, e, no final, eu fiquei com aquela catarse que senti com “Les Miserables” de Victor Hugo, ou “A Tale of Two Cities” do Charles Dickens.
Mais especificamente, esse filme me fez pensar sobre a diferença entre justiça e misericórdia; sobre ser o dono da verdade; sobre observar – e julgar – os outros como se a gente se fosse invisível, ou acima e além de qualquer crítica.
Eu não tenho experiência com atuação, mas eu fico pensando se bons críticos são bons atores. Me parece que na vida cotidiana, os críticos mais críticos estão tão ocupados procurando defeito na atuação dos outros que não sobra tempo para atuar também (e, com todas as minhas teorias, devo confessar que também sofro desse problema). Então eles (nós?) meio que vivemos as vidas dos outros, que nem o cara do filme.
Mas chega um certo ponto, se a gente tiver sorte, que a gente cansa de escrever relatórios sobre o azedume das uvas lá do outro lado da cerca onde a grama parece ser bem mais verde (algo que não confessaríamos nunca). Quando se resolve pular para o outro lado, a gente percebe que a grama é mais verde porque ela é mais bem cuidada, e as uvas não são nem um pouco azedas quanto imaginávamos (Esopo tem uma fábula sobre a raposa e uvas azedas).
E, de repente, estamos compenetrados demais cuidando da nossa própria grama e nossas próprias uvas para ter tempo de caçar defeito na vida dos outros. Quando muito, ficamos felizes que têm outros para receber e aproveitar todas as flores e uvas que a gente não gostaria que apodrecesse no nosso jardim depois de todo esforço e cuidado que dedicamos a elas.
De buk is on de teibol
Mais um post sobre o Lobato, prometo que o último, pelo menos por alguns meses.
O Monteiro Lobato lia bastante a literatura inglesa, e até traduziu vários livros do inglês para o português. Mas naquele tempo não havia fitas ou CD´s para aprimorar o “listening”, e filmes americanos não eram tão difundidos como hoje. O que quer dizer que apesar de Lobato saber “ler” inglês bem, umas aulinhas de conversation antes da viagem dele para Nova Iorque teriam sido uma ótima pedida, como mostra o trechinho abaixo:
New York, 5, 9, 1927,
Rangel,
O americano troca o “t” por “r”, de modo que até um inglês de Londres se atrapalha em New York. Há dias pedi “water” num restaurante. O “waiter” – isso que aí vocês chamam de garçon – olhou-me com cara d´asno. Repeti: “A glass or water, please!” Ele ainda ficou no ar uns instantes. Depois seu rosto iluminou-se (era um garçon inteligentíssimo) e disse: “Warer?” (uórar), e trouxe-me a água. “Tomato” é “tomeiro” – e eu sou “Mr. Lobeiro.” Filha é “dórar” e “What of it?” é “Órovet?”. Fui comprar uma fita de máquina. “Standard ou pôrabal?” perguntou o homem. Espertissimamente adivinhei que “pôrabal” queria dizer “portable” – máquina portátil.
Se gostas de ler inglês, poderei mandar-te um milhão de coisas – sobretudo jornais e revistas.
So long, old chap!
Lobato
