Arquivo para Corpo & Mente
Ofertório
De São José, aprendi
O amor ao trabalho
E o trabalho por amor
Trabalho, apaixonante, sacrificante
Amor que dá um trabalho lascado
Paixão que a gente teima em resistir
E teima em ser arrebatado
Este meu trabalho é por amor
Amor a Deus
Amor a meu país e meu povo
Amor a minha família e meus amigos
Amor ao próximo, perto e distante
Conhecido e desconhecido
Adorável e insuportável
Amor ao meu amor
Meu Deus, minha Força, meu Amor
Eu, pequeninha, Te ofereço, te peço
Aceita esse meu ato de amor
Abençoa esse meu ato de amor
Multiplica esse meu ato de amor
Põe Seu amor nesse meu ato de amor
Faça com ele o que Você quiser
Mas faça com que ele Te agrade
Adicione a ele o que eu não posso adicionar
Remova dele o que eu não posso remover
E se o que te agrade seja que ele não se realize
Então delete, tire isso de mim
Remova meu ego egoísta do meu trabalho
Do meu amor. De mim.
Este trabalho e esta trabalhadora são coisas Suas
Criados por Você e para Você
Você que me deu, Você que me tire
Esse amor e esta amadora são coisas Suas
Criados por Você e para Você
Você me colocou nessa: agora Você que me tire.
Se Você não quiser, também não quero
Mas faz de mim um trabalho que Te agrade
Um amor que te agrade
São José, padroeiro do trabalho, da família,
do Canadá, da igreja,
da minha paróquia, da minha família,
da minha vida,
hoje faz 29 anos que fui batizada
na paróquia que leva seu nome.
Se eu puder nessa ocasião
pedir um favorzinho,
peço o seguinte:
fala com sua Esposa
para dar uma palavrinha com o Filho dela
que eu estou precisando
de uma forcinha extra hoje.
Valeu, brigadão!
Grata como sempre,
(E um pouquinho mais do que o de sempre)
Ester.
Exercitando as Sinapses
Durante uns bons vinte anos da minha vida, digamos, dos 4 aos 24 anos, eu sempre resisti fazer qualquer atividade física, com a desculpa, o medo, a impressão de “não dar conta.”
Era um ciclo vicioso: eu achava que não levava jeito para coisa, portanto nem tentava, e quando tentava me sentia completamente sem jeito para coisa, e ou me machucava ou me expunha ao ridículo, e portanto parava de tentar, por não achar que levava jeito para coisa, etc.
Na 5a série, por exemplo, comecei a fazer aula de vôlei depois da escola. Lembro do meu sentimento de frustração: todo mundo da minha idade sabia jogar “bem para caramba” e eu, só bola na cara. Eu não conseguia entender em que série foi que minhas coleguinhas aprenderam aquela matéria de saber jogar bem, mas tinha certeza que eu tinha perdido aquela aula, e portanto era uma vez, nunca mais. E foi assim que aos 11 eu decidi oficialmente não levava jeito para qualquer esporte.
A década que se seguiu me viu ficar cada vez mais sedentária, até lá pelo meu quarto ou quinto inverno na América do Norte, em que o frio de menos trinta por semanas a fio me fazia hibernar por mais de 12 horas diárias, e ainda ficar com preguiça. Pensei comigo que era impossível que eu não tinha três horas semanais sobrando para poder encaixar visitas à academia, quando eu desperdiçava quatro horas diariamente dormindo mais do que o necessário.
Desde então, meu relacionamento com meu próprio corpo tem melhorado muito. As três horas na marra que eu passava na academia se pagavam em dez vezes: não só eu dormia menos, mas os estudos rendiam mais, e a mudança na disposição e no humor não cansavam de me surpreender. Intelectualmente, eu sabia que exercício fazia bem. Mas nada como sentir na pele.
Hoje vejo que meu padrão do que “dou conta” inverteu por completo. Eu sempre tive dificuldade com esportes e nenhuma dificuldade com a escola. Agora que começo achar que não “levo jeito” para essa vida acadêmica, fico procurando nas minhas descobertas esportivas metáforas para transferir para a maratona da tese.
Por exemplo, no Canadá em fevereiro fui patinar no gelo, algo que sempre me deu muito medo. Sinapses exercitadas: se solta, Ester, se solta. Pára de querer segurar na gradinha, de querer andar passos pequenos, firmes, robóticos. Deixe-se deslizar. Curta o ritmo, o vento. Exercite sua flexibilidade. Resultado: muitas risadas, um dedão que ficou roxo por mais de mês, mas nenhum tombo.
Em fevereiro também fui esquiar estilo cross-country pela primeira vez. Sinapses exercitadas: caiu? levanta para cair de novo. Obstáculos muitos: subidas íngremes, descidas mais íngremes ainda, dores em músculos que você nem sabia que existia. Resultado: muitas risadas, roupa molhada de suor e de neve, roxos vários, orgulhosamente contados e relatados.
Agora, de volta a Brasília, estou me divertindo explorando rotas de bicicleta numa cidade tão automotiva. Sinapses exercitadas: buscar caminhos novos, atalhos que nem sempre são mais curtos, caminhos mais fáceis que nem sempre são os mais pertos.
E só Deus sabe o quanto estou precisando dessas sinapses todas para dar conta da minha tese…
Para o Alto e Avante!
Dentro do esquema “sacode a poeira e desperta para a vida, menina!” fiz algumas coisas interessantes nessa semana.
1. Na segunda-feira voltei a freqüentar a missa diária, e na terça comecei uma novena, pois como diz o jagunço Riobaldo do Grande Sertões: Veredas, “reza é que sara da loucura.”* Os efeitos positivos foram sentidos de imediato.
2. Na terça à noite, resolvi ir à reunião dos vicentinos da Paróquia. Essa foi uma idéia muito esperta, porque mata vários coelhos com uma cajadada só: 1) me tira do esquema: eu-minha tese-e-mais nada; 2) a questão do meu estar ausente em fevereiro não prejudica o trabalho de hoje (como prejudicaria se eu estivesse começando um curso, por exemplo); 3) me faz lembrar de como é bom fazer algo que tem efeitos práticos imediatos e que, além disso, tem utilidade para os outros; 4) me faz lembrar de como Deus é generoso comigo.
Dizia o Raul que “o auge do meu egoísmo é querer ajudar.” E é mesmo, estou agindo em benefício próprio total. Só espero que tenha algum benefício para os outros também… E olha que essa empolgação toda foi só com a reunião: mal posso esperar sábado chegar para acordar cedinho para ir visitar as famílias que o nosso grupo assiste.
3. Na quarta, comprei uma bicicleta. Bem básica mesmo, usada, só para quebrar o galho: estava morrendo de saudades de andar de bicicleta. Já dei várias voltas legais, até o parque (só até o portão, porque o acesso é proibido), até a UnB, sempre com meu capacete cor-de-rosa à la Penelope charmosa (só tinha dessa cor, sério mesmo).
Os efeitos positivos também foram sentidos de imediato. Alguns negativos também: em particular, uma dor na região glúteo-sacro-lombar, que não lembro ter sentido nunca na vida — e olha que eu já parei e voltei a andar de bicicletas um tantão de vezes. Estou pensando seriamente em comprar um banco de gel: pois domingo está chegando, e Eixão lá vou eu!
4. Substituí o café pelo chá-verde. Só que não deu muito certo: depois da segunda xícara meu estômago começa a reclamar em alto e bom som. Ora, se eu desse conta de me contentar com uma xícara diária de líquido quente acordante, o café não me traria problema algum. Mas como a minha média diária é de quatro (com uma margem de erro de um para mais ou para menos) tive que pensar em outra estratégia: café no café e no pós-almoço; chá-verde no lanche matinal e no lanche vespertino. Vamos ver se ajuda.
*****
* João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, Ed. Nova Fronteira, p. 32
Esforço repetitivo (II)
Era véspera do meu aniversário quando a dor ficou insuportável, e minha mãe me levou a um acupunturista que costumava tratar de minhas rinites, sinusites e outras manifestações alérgicas de minha infância.
Não visitava tal consultório desde 1990, quando mudamos para Cuiabá e as crises se perderam no caminho. Para minha surpresa, o lugar não tinha mudado uma vírgula: a mesma sala, os mesmos móveis simples todos no mesmo lugar. Só a sala que estava muito vazia: na minha época tinha que esperar horas, às vezes até em pé.
A secretária interrompeu minhas lembranças: “É a primeira vez?” Respondi que primeira vez não era, mas que tinha uns vinte anos que eu tinha estado lá. A moça mesmo assim resolveu buscar minha ficha, sob protestos do doutor (“20 anos muito tempo. 5 anos tudo bem, mas 20 muito.”) Vale dizer que o doutor também não tinha envelhecido uma vírgula.
Entrei no consultório, vi que os posters na parede continuavam os mesmos, deitei, e o doutor tomou meu pulso. “Inchado, né? Deve está doendo aqui nas costas também.” Como eu berrasse afirmativamente (50% dor, 25% surpresa de descobrir uma dor forte que eu nem sabia que tinha e 25% susto da rapidez do médico), ele não teve dúvidas: “É. Tendinite.” Foi só nessa hora que eu fiquei sabendo o nome da dita cuja.
Esforço repetitivo (I)
Faz agora um pouco mais de um mês desde que comecei a sofrer um sofrimento até então inédito para a minha pessoa: uma dorzinha chata que vai da maçã da mão, passando pela munheca, até chegar aos cotovelos: uma senhora inflamação nos tendões, também conhecida como Tendinite.
Essa dona foi chegando devagar, quase imperceptível. Comecei, porém, fazer Krav Magá, e descobri que a minha habilidade de fazer flexão – que sempre foi inexistente por falta de bíceps – tinha deteriorado mil por cento: eu não conseguia nem abrir a palma da mão no chão sem berrar de dor.
O tio não teve dúvidas em por toda a culpa no senhor Computador, e mandou que eu fizesse alongamento para munheca, mãos e dedos. Quem passasse ali desavisado provavelmente se divertiria em ver o contraste formado pelo pessoal que ralava na flexão, e eu, que sentadinha no tatame, cantava silenciosamente, compenetradíssima: “uma minhoquinha fazendo ginastiquinha; duas minhoquinhas…”
Mas a visita da dona Tendinita — digo, Tendinite — estava só começando. Como eu não a conhecia, julguei logo que estava lidando com sua prima, a barra-pesada dona DORT (Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho), vulgo LER (Lesão por Esforço Repetitivo).
Fiquei apavorada. Imaginei logo o que seria da minha pobre tese, abandonada para todo o sempre, possívelmente um diamante bruto que nunca veria a luz do sol. E daí eu já extrapolava e lamentava a carreira brilhante de escritora, podada na raiz por uma obsessão besta de digitar tudo o que precisa e não precisa só por gostar do tetec-tec do teclado.
Brincar é coisa séria
Quando eu era criança, eu gostava muito de ler. Muito mesmo. Na verdade, eu lia tanto, que nem sei se eu era muito criança de fato. Eu preferia a companhia de livros do que a de outras pessoas. Eu preferia ler a brincar com gente da minha idade. Na verdade, eu gostava tanto de ler, que teve vez que a professora até chegou a chamar meus pais na escola, preocupada com minha seriedade precoce.
Por um lado, eu acho que essa seriedade toda me faz amadurecer mais rápido. Mas por outro lado, eu acho que isso também prejudicou meu desenvolvimento em outras áreas. É como se eu fosse gente grande desde pequena, e nem sempre duma maneira positiva. É possível ser imaturamente maduro, e na verdade, não é nem tão difícil.
Mês passado eu escrevi sobre “neotenia”, e é algo em que tenho pensado bastante. Chame de síndrome de Peter Pan, chame do que for, mas minha opinião atual é que ser infantil é coisa muito séria. E estou me divertindo pacas tentando despertar minha criança interior (uma criança meio sisuda, mas ainda assim criança).
Quando eu era pequena, por algum motivo me veio à cabeça a convicção de que ou se é bom com livros, ou com esportes, mas não com os dois. E já que desde quando eu me entendia por gente eu já gostava de ler, eu meio que achei que minha escolha já estava feita e selada, e que seria fominha demais gostar de esportes também. Então eu entrei nesse círculo vicioso de que eu era “um desastre” em qualquer coisa que envolvesse o físico.
Acho que só foi lá pros meus 25 anos que eu saquei que essa dicotomia mente-corpo era um mito — e um mito não só bobo como também prejudicial. Desde então eu tenho tentado reverter os efeitos de um quarto de século de vida sedentária, nem sempre com muito sucesso (embora deva confessar que é bem melhor tentar quebrar a vida sedentária agora do que esperar mais outros 25 anos).
Tudo começou com a bicicleta. Depois a dança. Depois, mexer através do umbigo. Ontem eu experimentei dar tacadas em bolas de golf pela primeira vez. E frisbee. E pulei num trampolim. E, para minha grande surpresa, não foi nenhum desastre. Muito pelo contrário.
Eis então que um círculo vicioso dá lugar a outro ciclo, não tão vicioso mas igualmente viciante. Só espero que meus livros não fiquem com muito ciúmes. E se ficarem, ah, problemas…
Admirando o próprio umbigo
Os gregos achavam que a Grécia era o umbigo do mundo. Se isso não é egocentrismo (literalmente), eu não sei o que é.
Dessa última vez que eu fui à Grécia eu não tive tempo de ir a Delfos, o local exato do suposto umbigo do mundo. Mas eu passei muito tempo admirando um certo umbigo. No caso, o meu próprio umbigo.
Na verdade, nos últimos dois meses eu tenho admirado meu umbigo mais do que o normal. Não que narcisismo seja algo assim tão fora do normal para mim. Mas nesses meses eu alterei minha consciência umbilical em quantidade e qualidade. Eu tenho pensado sobre meu centro de gravidade, meu eu criativo, minha fábrica de energia. Seja lá o que isso queira dizer.
7 semanas atrás eu tomei uma decisão arrojada. Eu me matriculei em três aulas sobre as quais eu não sabia nada de nada. Eu comecei a ter aula de Pilates, Tai Chi Chuan e Nia. Eu não tinha a mínima idéia do que que era essas aulas, mas eu precisava de uma motivação extra para ir para a academia, e essas eram as únicas aulas que se encaixavam no meu horário. E por coincidência, todas essas três atividades exercitam o nosso centro de gravidade. Nosso “eu” criativo. Nossa fábrica de energia. Aquela cicatrizona no meio da nossa barriga.
Acredite ou não, essas aulas estão tendo o maior impacto em outras partes do meu dia-a-dia. Tango, por exemplo. Tem mais de ano que eu estou tentando entender o que que a tia quer que eu faça quando ela fala “Gente, tem que dançar com o umbigo!”. Como assim, com o umbigo? “Andar com o umbigo! Conduzir com o umbigo! Deslizar com o umbigo!” Pô, como assim? Mas agora, de repente, isso faz todo o sentido e toda a diferença! Até rodopiar ficou muito mais fácil, e muito mais legal.
Essa história de andar com o umbigo muda até o jeito que eu caminho. Andando com o umbigo eu caminho muito mais rápido, sem fazer tanto esforço. Eu geralmente me mexo a partir das minhas extremidades, e é por isso que eu ando devagar (e eu ando devagar pra caramba: é muita responsabilidade para meus pezinhos). O mesmo se dá com a quantidade de peso que eu consigo levantar (levantar peso com as mãos ou com o tronco faz toda diferença do mundo). Então agora do nada eu estou me sentindo “a forte”.
Então, se você estiver procurando uma maneira mais criativa, energizante, equilibrante de admirar o próprio umbigo, experimenta esse negócio de mover a partir do seu “centro de gravidade”. Sério, é o tipo de coisa que mexe o meu “eu” interior mais criativo… Seja lá o que isso queira dizer.