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Neotenia

Cumprir resoluções é um treco difícil. Esse negócio de acabativa então, vou te contar, dificílimo.

Por exemplo: eu quebrei minha resolução de algumas semanas atrás de parar de ler. Essa semana eu li um livro. Todinho.

Como circunstância atenuante, vale constar que o livro não era acadêmico. Pelo contrário, embora tenha algumas coisas que definitivamente se encaixam nas minhas tarefas escolares. No meio referências mais ou menos explícitas a diferentes fluidos corporais, acompanhados de descrições mais ou menos elaboradas de como tais fluidos fluem, o autor apresenta pérolas geniais, como a seguinte:

“Neotenia” significa “permanecer jovem,” e é irônico que tal palavra seja tão pouco conhecida, porque a evolução humana é dominada por ela. Os seres humanos evoluíram até seu relativo alto grau em virtude de manter as características imaturas de seus ancestrais. Os humanos são os mais avançados dos mamíferos – com exceção talvez dos golfinhos – porque eles raramente crescem. Traços comportamentais como curiosidade sobre o mundo, flexibilidade de reação, e ludicidade são características comuns a todos os jovens mamíferos, mas rapidamente se perdem com a chegada da maturidade – exceto nos humanos. A humanidade avançou, quando avançou, não por ter sido sóbria, responsável e cautelosa, mas por ter sido lúdica, rebelde e imatura.

Tom Robbins, in Still Life with the Woodpecker, p. 19, tradução de Ester Macedo.

Acabativa

Ontem eu estava conversando com meu irmão sobre meus mesmos “problemas” (interesse por milhões de coisas, mas nada tanto assim). E com sua sabedoria peculiar, ele identificou esse problema como sendo “muita iniciativa, mas pouca acabativa”.

Diz ele que viu tal neologismo numa dessas revistas de companhia aérea. Eu achei muito bom, e condizente com meu problema. Afinal, eu acho que eu deveria ter um diploma de “Iniciante Profissional” do tanto de curso de idiomas, de música, de dança, etc, em que eu completei o primeiro nível e fiquei por isso mesmo.

Joguei “acabativa” no Google e achei 513 links, uma porção deles associada a Stephen Kanitz, colunista da Veja e consultor. O link que mais me chamou atenção tinha como título “Deve ser por isso que meus blogs andam meio parados”. O que quer dizer mesmo que eu tenho os sintomas clássicos de falta de acabativa.

Pensando em como reverter esse quadro, apelei mais uma vez para meus bons blogs. Pensei “como será ‘acabativa’ em inglês?” (para poder por no meu outro blog) . Achei 42 links para “finishiative” e 64 para “finishative”. As fontes: sites com conselhos para vendedores, empresários, jogadores de xadrez, sermões cristãos, hindus…

Conclusão: Acho que um pouco mais de acabativa vai bem em qualquer lugar. Começando com nessa minha cabecinha. Porque acabativas têm de começar em algum lugar.

Perfeito é o oposto de feito

Perfeccionismo. Não é só a mania de encontrar defeito em tudo, mas também de não querer fazer nada que não seja perfeito. E como tudo que é feito tem defeito para quem encontra defeito em tudo, o perfeito impede que o feito seja feito e pronto.

Minha resolução da semana: fazer mais, esperar menos: esperar menos dos outros, de mim, das coisas, esperar menos pelas condições ideais, pela hora certa, pela oportunidade perfeita.

É desistir de tentar descobrir as plumas mais bonitas e aerodinamicamente mais perfeitas. É concentrar só em não deixar a peteca cair.

E tocar adiante. Começando com esse blog.