Arquivo para Cinema

Já que ninguém está vendo… (Parte 2)

Foi no fim de novembro que eu assisti “Ensaio sobre a Cegueira” e o documentário sobre James Orbinski. Desde então eu estava só querendo achar um tempo para escrever o post anterior, mas dezembro entrou no meio e daí o que já era difícil ficou dificílimo. 

Eu estava de passagem comprada para o Brasil o dia 10 de dezembro. E eu tinha prometido para mim mesma e para meio mundo que eu só voltava para o Brasil com uma primeira versão da tese pronta — uma promessa pouquíssimo realista, mas que eu tentei cumprir até o último momento o melhor que pude.

Adicione-se a isso tudo o fato dessa viagem para o Brasil marcar minha sexta mudança em dois anos, pode-se dizer portanto que os primeiros dez dias de dezembro estavam prometendo. Tempo para blogar, respirar ou qualquer outra coisa estava zero, se não abaixo de zero.

A manhã de 10 de dezembro de 2008 me encontrou acordada, de mala quase toda pronta, pilhada a base de cafeína e adrenalina, e super orgulhosa de mim mesma. Havia semanas que eu trabalhava dia, noite e fim de semana. Minha média diária de sono não devia passar de 4 ou 5 horas por dia, uma façanha considerável, ainda mais considerando as temperaturas sub-zero e os dias cada vez mais curtos pré-solstício de inverno.  

Mas após 7 anos tendo sérias suspeitas de que o doutorado era na verdade um buraco negro no qual tempo e energia desaparecia dentro do vácuo, de repente eu vi meu trabalho começar a ter resultados, e isso me enchia de uma alegria e uma energia sem precedentes.

Adicione-se a isso 1) o fato que naquelas três semanas eu tinha tocado três vezes com as minhas duas bandas (e, modéstia parte, nossas apresentações tinham sido o máximo!) e 2) o fato que também naquelas semanas eu tinha conseguido me aproximar de vários amigos que estavam afastados (alguns geograficamente, outros mais que isso), pode-se dizer que a manhã de 10 de dezembro me fez acreditar que eu dava conta de fazer o impossível.

Quando o sol chegou ao meio dia,  eu já tinha relido, imprimido e entregado ao meu orientador a versão mais recente da minha tese. Por mais que eu soubesse que ela estava longe de estar acabada, eu também sabia que nunca na história desse país eu já havia chegado a tal grau de acabamento, e isso me deixava radiante.

Sorrindo até as orelhas, eu saí do meu departamento em direção à biblioteca, onde tenho um cubículo de um metro quadrado que é só meu, e onde deixei os pertences que não poderia trazer ao Brasil nessa viagem.

Tendo deixado meu cubículo em ordem, percebi subitamente que 1) eu precisava desesperadamente de cafeína e 2) eu não tinha um tostão na minha carteira. Decidi portanto parar no Massey College, que não só tinha cafezinho à vontade, mas era do lado da biblioteca, e caminho para casa. Eu não fazia a mínima idéia de que hora do dia ou da noite era aquela.

Indo ao refeitório atrás do meu café, descobri para minha grande surpresa que o almoço estava para ser retirado. Eu, que não lembrava da última refeição que tinha tido, resolvi pegar o finzinho da bóia. Tendo pegado meu prato, sentei sozinha no refeitório quase vazio.

A essa altura, só havia um grupo, três homens, terminando seu almoço, lá na outra ponta do refeitório, diagonalmente de onde eu estava. Com a minha fome, falta de sono, adrenalina a mil, carência de cafeína, e pressa para terminar de fazer tudo que eu tinha que fazer antes de entrar no avião naquela noite, foi só quando eu estava quase terminando de almoçar que eu percebi que um daqueles três senhores na minha diagonal era James Orbinski, sentado de costas para mim.

Era mesmo? Era. E no estado em que eu me encontrava naquele momento, eu não tinha tempo, espaço ou energia disponível para gastar com auto-censura.

O momento era esse. Nada me barrava.

Já que ninguém está vendo… (Parte 1)

Um dia desse fui no cinema assistir “Ensaio sobre a Cegueira.” Eu estava bem empolgada, primeiro porque muita gente tinha me falado bem do livro, e segundo, porque as filmagens foram feitas no Brasil, e eu estava no Brasil quando elas foram feitas.

Meus sentimentos ao sair do cinema são um pouco mais difíceis de descrever. Parte de mim achou que a premissa era forte, mas que o filme ia longe demais. O que me incomodava não era nem o fato de que algumas cenas eram extremamente violentas e/ou desagradáveis, mas o fato delas parecerem gratuitas. No quesito verossimilhança, portanto, o filme perdia muito ponto. Cheguei então ao meu veredito quanto o filme: desagradável demais para ser verdade. Ponto. O que mostra como que eu não sei de nada mesmo.

Alguns dias depois, fui assistir “Triagem: O dilema humanitário de James Orbinski. Entrei na sala com o filme começando, e o sentimento de “que legal, eu conheço esse lugar, eu conheço esse rosto” me deixou toda contente.

Quando eu mudei para Toronto em 2002, Massey College, uma residência da Universidade de Toronto, foi minha primeira morada (ainda hoje ela é minha base no Canadá). Eu morei lá um pouco mais de dois anos, em cujo período também morava lá o senhor James Orbinski com sua esposa Rolie Srivastava.

Os dois sempre foram membros ativos da comunidade, e sempre muito dispostos a bater papo com os membros menos famosos da comunidade, tipo eu. Mas  eu, na minha timidez fora do comum, nunca nunca, nesses quase sete anos, tinha tido a coragem de dirigir mais do que um sorriso e aceno de cabeça ao vê-los passar.

Eu sabia que ele era muito famoso, e que ele tinha estado em Ruanda durante o genocídio em 1994. Eu até suspeitava que ele tinha ganhado o prêmio Nobel, mas disso eu não tinha muita certeza, porque na minha cabeça me parecia muito inacreditável que um ganhador do prêmio Nobel fosse meu vizinho.

Mais de seis anos depois, estou eu numa sala de cinema assistindo um documentário sobre meu ex-vizinho James Orbinski. O rosto conhecido e o cenário conhecido me deram uma sensação de proximidade que eu nunca tinha tido numa sala de cinema.

À medida que o filme foi passando, o sentimento de dejà-vu foi intensificando, mas de uma maneira muito bizarra: de repente, parecia que eu estava assistindo “Ensaio sobre a Cegueira” de novo!  O absurdo de que as pessoas são capazes de fazer quando sabem que “não tem ninguém vendo mesmo” e o heroísmo quase que involuntário das pessoas que se vêem prestando cuidados em circunstâncias para lá de degradantes, sem saber se elas próprias vão sair vivas daquela situação são coisas absolutamente arrepiantes.

De repente, me vi tomada das mesmas emoções que senti assistindo “Ensaio sobre a Cegueira.” Só que agora não dava para eu colocar meus sentimentos numa caixinha hermeticamente fechada e rotulada como “sentimentos à toa causados por uma história de ficção para lá de exagerada.” Ruanda não foi ficção. Aconteceu de verdade. E eu conheço alguém que estava lá.

“O Dilema Humanitário de James Orbinski” é na verdade e de verdade um “Ensaio sobre a Cegueira”: uma cegueira mundial e muito real.  Por dias e dias, fiquei em estado de choque.

Já que é moda… (Parte 3)

Tudo é e não é…Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos… (GSV, p. 27-28) 

O que eu gosto no comandante Nascimento é que ele é um personagem de uma complexidade psicológica incrível. Ele não é um vilão malvado sem coração. Ele não é um herói bonzinho com o dever acima de tudo. Ele não é nenhuma coisa nem outra, e também é as duas coisas ao mesmo tempo: ele é humano.  

Ele sofre, ele preocupa, ele erra, ele tortura, ele troca fralda.  Do ponto de vista narrativo-literário, ele é um personagem brilhante. Um autor para escrever um personagem desses tem que ser muito gênio. O ator que o interpreta também.

Quando falei que a resposta de Férrez foi infantil, não quis dizer que a achei de todo ruim (porque coisas infantis não são necessáriamente ruins, pelo contrário). Mas a visão inocente atribuída ao narrador acaba  dando deixa para o seguinte comentário publicado na Época: ele poderia estar roubando por necessidade, mas também para investir no tráfico.

Poderia mesmo. Ou até mesmo as duas coisas. E nenhuma dessas possibilidades faria dele uma pessoa 100% boazinha ou 100% sem coração.

Num momento de delírio, até cheguei a pensar que a reportagem capa da Época de 15 de outubro terminaria com um questionamento nesse sentido, pelo jeito que o último parágrafo começa:

[N]ão se constrói um país com a visão torta e tão arraigada no Brasil que opõe, de maneira simplória, a “elite privilegiada e predadora” aos “bandidos coitadinhos e vítimas.”

Pensei comigo: até que enfim. Vamos sair da simplório e essencialista “isso é isso” e partir para análises mais profundas, mais complexas, menos reducionistas. Algo mais do tipo:

Mire veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (GSV, p. 39)

Ledo engano. O parágrafo e a reportagem terminam com as seguintes palavras: 

Criminoso é criminoso. Ponto. Um país mais justo socialmente tem neste princípio — bandido é bandido — um fundamento essencial. Romper com aquela visão reducionista e nefasta foi um dos maiores méritos “Tropa de Elite” 

Descobri então que dizer simplesmente que “elite é privilegiada e predadora” e “bandidos são coitadinhos e vítimas” é torto e simplório. Porém dizer simplesmente “criminoso é criminoso ponto” não é. Pelo contrário, é um fundamento essencial. O que casa perfeitamente com a capa da Veja da mesma semana que diz:

O filme Tropa de Elite é o maior sucesso do cinema brasileiro porque trata bandido como bandido e mostra usuários de drogas como sócios dos traficantes.  

Dentro, temos as seguintes matérias:

A Realidade, só a Realidade (p.80-83. Ou seja: “A verdade tem dono, e somos nós”)

Abaixo a Mitologia da Bandidagem: Tropa de Elite não rompe só com a tradição nacional de narra uma história do ponto de vista do bandido: rompe com a visão pia e romantizada do criminoso. (p.84-86. Traduzindo: “As pessoas já nascem terminadas: ou são afinadas ou desafinadas, e acabou. E nós que decidimos quem é quem.”)

Máquina Letal contra o Crime: Treinamento exaustivo e código de conduta rigoroso fazem do Bope uma das melhores tropas do mundo (p.88-89. Pergunto, pasma: melhores para que, para quem e de acordo com quem? Porque, como diz o Riobaldo: “cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães”. [GSV, p. 24])

O problema, Guimarães Rosa explica bem:

Uma coisa é por idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas de carne e sangue de mil-e-tantas misérias… Tanta gente – dá susto de saber – e nenhum se sossega….todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons… (GSV, p. 31)

Acontece que uns têm o poder de expressar e resolver suas misérias e insossegos. Outros muitos nem direito de reclamar tem, quanto menos o poder. Ontem eu terminei de ler um livro brilhante chamado “Justiça e a Política da Diferença”, da autora americana Iris Marion Young, falecida ano passado. O seguinte pensamento se encaixa certinho com o que vejo tanto na Veja quanto na Época:

“Enquanto os grupos privilegiados são neutros e exibem uma subjetividade livre e maleável, os grupos excluídos são marcados com uma essência, emprisionados em uma gama fixa de possibilidades. Em virtude das características que o grupo teoricamente tem por natureza, as ideologias alegam que os membros do grupo têm qualidades específicas que os tornam predispostos a algumas atividades e não a outras.” (JPD, p. 170)

A subjetividade da elite (que informa, que expressa, que opina, que publica seus medos e anseios nos jornais e revistas) objetifica os grupos excluídos (que não têm educação, opinião, medo, anseio ou coração). Ao fazer isso, cria-se uma polaridade. Ao mesmo tempo que elite fabrica e vende seus heróis perfeitos e quase super-humanos (acima de tudo e de todos, acima das leis), ela retrata também aqueles que são diferentes como seres subhumanos: sem educação, sem expressão, sem opção, sem futuro, sem jeito, sem valor. Coisa sem valor. Coisa.

E é assim que nascem os genocídios.  


GSV =  João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, Ed. Nova Fronteira

JPD = Iris Marion Young, Justice and the Politics of Difference, Princeton University Press, tradução de Ester Macedo.

Já que é moda… (Parte 2)

Meu post anterior mostrou minha surpresa com a ingenuidade do apresentador Luciano Huck, que, quer queira quer não, teve condições de ter tido uma boa formação intelectual. Mas isso é estereótipo meu de achar que só porque a pessoa é rica, provavelmente estudou em escolas boas e teve uma boa educação — o que não é necessariamente verdade. 

Mas uma ter e prestar formação e informações intelectuais (senão úteis, pelo menos razoáveis) é dever não do rico ou do apresentador de televisão, mas de jornais e revistas. Certo? 

Eu achava que era. Mas a Veja e a Época dessa semana provam mais uma vez a minha ingenuidade. Fiquei de cara em ver que as duas revistas trataram a situação
Tropa de Elite vs. Rolex com ainda mais infantilidade que o próprio Huck.

Vamos aos fatos:  

 A revista Época de 15 de outubro de 2007 traz na capa um close do rosto de Luciano Huck com a boca tampada. Sobre a boca, a seguinte pergunta:

“ELE MERECIA SER ROUBADO?

Sem ter nem entrado na banca para ver a revista mais de perto, já percebi que o debate foge à questão principal. 

Ele merecia ser roubado?  
Claro que não. Ninguém merece. A questão não é essa.

Chego mais perto. Em letras menores, o subtítulo promete:

O que o debate sobre o assalto a Luciano Huck revela sobre a alma do brasileiro”

Penso comigo: cara, que prepotência!
Que pobreza de alma: 
mais de 150 milhões de brasileiros e alma só tem uma? E ela é coisa que dá para alguém tirar um raio-X e revelar? Um cara para fazer isso tem que ter muita moral.

Pego a revista, sento, vou ler. Percebo que não é um cara, mas dois: Celso Masson e Nelito Fernandes. Logo no início do artigo, eles começam o diagnóstico prometido na capa:

“Veio à tona, com o roubo do Rolex de Luciano Huck, a visão de uma parte do povo brasileiro. A elite é tiranizada como aproveitadora e vilã, e os bandidos são glamorizados e perdoados como vítimas ou heróis.” (p.89)

Entendi então que a alma do brasileiro é como uma coluna vertebral: única, porém divisível. Já não falamos da alma do povo brasileiro  como um todo, mas de uma parte.

À que parte exatamente pertence essa visão não é revelada ainda explicitamente. Mas sabemos ao menos que existem no mínimo duas: uma, que, erroneamente ou não, pode ser caracterizada como aproveitadora e vilã; e outra, que também, erroneamente ou não, é glamorizada e perdoada como vítima ou herói. Até aqui também não sabemos se os radiólogos responsáveis pelo diágnosticos pertencem ou não ao corpo (ou alma) em estudo, e em caso afirmativo, à que parte pertencem.

Dando um zoom mais de perto, o raio-X apresenta também contribuições de um certo Roberto da Matta, que caracteriza a reação a Huck como neofascista. Achei que fosse talvez um erro de edição, pois enquanto o artigo de Huck e suas defesas tendem à direita do espectro sócio-pólitico (cujo extremo seria o neofascismo), a maior parte das reações que vi tendem mais à esquerda (cujo extremo seria o neocomunismo).

Mas isso é só uma questão de vocabulário. Afinal, como explica Hannah Arendt, acaba que essas duas formas extremas de totalitarismo, apesar de tão distantes, terminam por ficar muito parecidas (meio que nem quando se junta as duas pontas de uma corda, fazendo um círculo). Então dá para confundir mesmo.

Mas voltando à resposta de Roberto da Matta:

“A reação [a Huck] fere o direito de igualdade. Qualquer pessoa tem direito a denunciar uma injustiça de que foi vítima. Só porque ele é rico, não tem direito a nada?” (p.89)

Nessa hora meus olhos ficaram nadando em água de dó do pobre moço rico. Continuei lendo:

“Por que acham que um sem-terra pode arrebentar a porta do Congresso para protestar e um apresentador não pode escrever uma carta? Onde está a democracia nisto?”  (p.90)

Peraí, seu Matta. Da onde é que o senhor tirou que sem-terra pode arrebentar a porta do Congresso? Pode não. Um sem-terra – ou qualquer pessoa – que cometa tal ação tem que estar disposto(a) a sofrer as conseqüências e responder por ela. 3a Lei de Newton: À toda ação há sempre uma reação de mesma força. 

Cartas também obedecem essa lei de causalidade. É claro que publicar carta não é crime, do jeito que arrebentar portas do Congresso é. É um direito que todo cidadão tem, porém (e infelizmente) uns os tem mais que outros. O problema do Huck não foi publicar uma carta, mas na violência fora de proporção a qual a carta incitava. Ação e reação.

Detalhe da lei de Newton: Ela diz que à toda ação há sempre uma reação igual mas de direção oposta. A carta de Huck foi forte e infantil. A resposta de Férrez foi igualmente forte e infantil: só mudou a direção. Por mais que dar bobeira com um Rolex no braço pode ser vaidade, exibicionismo ou ingenuidade, dizer que o cara merecia ser assaltado é achar que injustiça com injustiça se cancela. Até então eu estava achando o título da capa da Época viajante: só quando eu li a resposta do Férrez que eu entendi.

É claro que é uma resposta literária, até poética: a primeira pessoa não é do autor, assim como a fala do Comandante Nacimento não é nem do Wagner Moura, nem do Padilha. Mas num momento que as pessoas estão tendo a maior dificuldade com esse recurso narrativo de uso de primeira pessoa, confundindo a torto e a direito o subjetivo com o objetivo, esse comentário do Férrez também bem mereceu uma reação. Afinal, reagir é bom, mostra que a gente ainda está vivo (embora a contra-reação de “no fundo, isso parece inveja” [p. 93] pareça para mim um caso perigosíssimo de falta do que fazer).

Cara, eu ainda tenho muito para falar sobre esse artigo (e mais o da Veja). Mas estes posts estão ficando compridos demais. Deixa eu para por aqui por agora; depois eu volto com mais.

Após do diagnóstico vem o prognóstico: não perca o próximo desfile desta super-coleção primavera-verão! 

Já que é moda… (Parte 1)

Interrompemos a nossa programação para dizer uma palavrinha ou duas sobre o assunto do momento: se o compete ou não à alçada do comandante Nascimento o resgate do Rolex de um certo senhor.

Tá gente, eu sei que o assunto está mais do que batido: as principais revistas do país trouxeram estampado na capa esta semana este fascinante assunto, para não dizer nada da blogosfera nacional.

Olhando porém duas destas revistas, a Veja e a Época, achei interessante que nenhuma das duas toca o que é para mim o x da questão (vide o sublinhado no primeiro parágrafo) .

 Vamos aos fatos.

 O senhor que teve seu relógio roubado pergunta em jornal de circulação nacional:

“Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba.”

Esta passagem, a meu ver, justifica duplamente os motivos pelos quais a vítima deste assalto — repito e friso, vítima — não chegou a prestar queixa na polícia: primeiro, porque ele tem dificuldade crônica de localizar uma delegacia; segundo, porque ele acha que a polícia é onisciente.

Dificuldade em publicar suas idéias e necessidades em um grande jornal ele não tem: o que favorece o resto de nós (que, ao contrário da polícia, não somos oniscientes) porque serviu a nobre função de informar e gerar um debate nacional, algo que acho muito positivo.

Num outro ponto, mais no começo do artigo, vemos mais uma vez de maneira clara, a dificuldade de localização e a crença na onisciência policial que dispensaram a vítima de prestar ocorrência:

“Onde está a polícia? Onde está a “Elite da Tropa”? Quem sabe até a “Tropa de Elite”! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto.”

Esta segunda passagem (que ficou bem mais famosa que a primeira dado o sucesso do brilhante filme “Tropa de Elite”) mostra que a vítima acredita não só na onisciência, mas também na onipotência da polícia – ou pelo menos da Elite da Tropa. O que falta é boa vontade; coisa que a vítima tem bastante e poderia distribuir, via discussão com comandante Nascimento, de forma que bastaria 30 dias para a segurança pública colocar assaltos a pedestres e motoristas em extinção.

Não sei se eu sou uma pessoa demais pessimista, ou demais otimista: o fato é que acho esse comentário demasiado ingênuo e problemático.

A ingênuidade da vítima fica ainda mais clara já no final do artigo:

“Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no “Roda Vida” da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, “Tropa de Elite” é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela.”

Acho que faz parte do amadurecimento de toda pessoa passar duma fase em que se acredita em super-heróis, à outra, em que se descobre que eles não existem, e que quando o shopping fecha, o Papai Noel tira a barba, a roupa vermelha, a pança de enchimento, e volta para casa como qualquer pessoa, a pé, de ônibus ou até de transporte próprio, carro, moto ou bicicleta. Só não de trenó.  

Fiquei então satisfeita que, ao final do parágrafo, o ex-dono de um Rolex mostrou ter alcançado um grau de amadurecimento bastante superior ao exibido no começo do mesmo parágrafo. Isso é muito positivo.

Mas outra questão ainda muito mais problemática que a ingenuidade (e com certeza decorrência dela, pois não acredito que o Luciano Huck seja uma pessoa ruim) é a seguinte:

Por que ele quer chamar o comandante Nascimento?
Porque o comandante Nascimento é um policial competente e comprometido: ele não sossega até achar o bandido.
Um bandido — repito e friso, bandido – roubou o relógio do Huck. 
Portanto, o Huck quer se assegurar que o bandido seja punido e que tais atos de violência como o que aconteceu com ele deixe de ocorrer.

Pergunto:
O ladrão que roubou o relógio do Huck agiu de forma certa?
De forma alguma.
O Luciano Huck agiu de forma certa?
Também não.
Chamar o capitão Nascimento por causa de um Rolex é querer usar uma bazuca para matar uma mosca: é desproporcional, não importa quantas casas dê para comprar com um Rolex.

O ladrão deve ser punido? Sim.
Deve ser preso? Provavelmente.
Deve ser torturado com um saco plástico na cabeça? De forma alguma.
Deve ser morto friamente com um tiro a queima-roupa?
Absolutamente não.
Sei que a ingenuidade agora pode ser minha, mas não sei de onde eu cresci com uma crença que a vida (até a do bandido) é um negocinho sagrado e matar é errado.

E eu acho difícil de acreditar que seja isso que o Huck realmente queira, tanto para o bandido que roubou seu relógio, quanto como plano estratégico de como se eliminar assaltos em trinta dias. Eu prefiro acreditar que Luciano Huck seja ingênuo, e não fascista. Será que isso é dor de cotovelo daquela minha velha criança que ainda quer acreditar em Papai Noel?

A seguir cenas do próximos capítulos:

Época e Veja saem à defesa de Luciano

A Vida dos Outros

Então, eu disse que ler placas e cartazes foi uma das coisas mais divertidas que eu fiz na Grécia (meu senso nerd de diversão). O cartaz ao lado é um exemplo perfeito. Nele está escrito:

“‘Oi Zôes tôn allôn”

‘Oi = artigo plural

Zôes = “vidas” (tipo “zoológico”)

tôn allôn = genitivo plural = “dos outros” (tipo “alopatia”)

= “As Vidas dos Outros”
Captei a mensagem! E captar essa mensagem me dá aquela emoção que uma criança sente quando está aprendendo a ler.

Este cartaz é de um filme alemão que assisti recentemente, e tem semanas que eu estou ensaiando de escrever sobre ele e não escrevo. Ele é um dos filmes mais bonitos que já vi. O desenvolvimento dos personagens é absolutamente fantástico, e, no final, eu fiquei com aquela catarse que senti com “Les Miserables” de Victor Hugo, ou “A Tale of Two Cities” do Charles Dickens.

Mais especificamente, esse filme me fez pensar sobre a diferença entre justiça e misericórdia; sobre ser o dono da verdade; sobre observar – e julgar – os outros como se a gente se fosse invisível, ou acima e além de qualquer crítica.

Eu não tenho experiência com atuação, mas eu fico pensando se bons críticos são bons atores. Me parece que na vida cotidiana, os críticos mais críticos estão tão ocupados procurando defeito na atuação dos outros que não sobra tempo para atuar também (e, com todas as minhas teorias, devo confessar que também sofro desse problema). Então eles (nós?) meio que vivemos as vidas dos outros, que nem o cara do filme.

Mas chega um certo ponto, se a gente tiver sorte, que a gente cansa de escrever relatórios sobre o azedume das uvas lá do outro lado da cerca onde a grama parece ser bem mais verde (algo que não confessaríamos nunca). Quando se resolve pular para o outro lado, a gente percebe que a grama é mais verde porque ela é mais bem cuidada, e as uvas não são nem um pouco azedas quanto imaginávamos (Esopo tem uma fábula sobre a raposa e uvas azedas).

E, de repente, estamos compenetrados demais cuidando da nossa própria grama e nossas próprias uvas para ter tempo de caçar defeito na vida dos outros. Quando muito, ficamos felizes que têm outros para receber e aproveitar todas as flores e uvas que a gente não gostaria que apodrecesse no nosso jardim depois de todo esforço e cuidado que dedicamos a elas.