Arquivo para Cazuza
Post Mortem (parte 1 de 2)
É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais
(Renato Russo, Love in the Afternoon)
Quando o John Lennon morreu, eu tinha acabado de comemorar meu primeiro aniversário. A primeira vez que eu lembro de ter ouvido o nome do ex-Beatle — ou dos Beatles — foi em dezembro de 1990, quando passou na TV o filme “John e Yoko” e o show “Tributo a John Lennon”, para comemorar os dez anos de seu assassinato.
Eu tinha onze anos, e fiquei impressionada. Tínhamos acabado de comprar nosso primeiro video-cassete, e uma das primeiras fitas que a gente gravou continha esses dois programas. Em um mês eu devo ter assistido essa fita umas dez vezes, possivelmente mais. Como se isso não fosse suficiente, já que eu e meu irmão acabamos decorando os diálogos, nós às vezes dispensávamos a fita e fazíamos a dramatização ali nós dois, colocando um primo como terceiro figurante quando dava. Por algum motivo, o cara que dublava o John Lennon parecia ser o mesmo que dublava o Chapolin, o que deixava as cenas ainda mais memoráveis, e fazia a gente cair na gargalhada sem nem saber por quê. Os efeitos dessa maratona foram permanentes; quem duvidar, dê uma olhada neste meu post de abril, ou neste testemunho do meu irmão caçula.
Isso foi em dezembro de 1990. Em julho do mesmo ano morreu Cazuza. A gente estava de férias, e tínhamos parado em Três Marias no meio de uma viagem de carro Brasília-Rio. A notícia não pegou ninguém de surpresa– acho que a minha surpresa foi de saber que ele até o dia anterior ele ainda estava vivo. O Cazuza foi a primeira personalidade brasileira a assumir publicamente que era portador do vírus da AIDS, e a evolução da sua doença foi exaustivamente documentada pela mídia da época.
Apesar de não ser fan do Cazuza na época (não sei se eu era fan de alguma pessoa na época, talvez do Balão Mágico), eu conhecia muita música dele por osmose. Muita mesmo. Cazuza é o que até hoje eu defino como “música de clube”: era o que tocava nas rádios na época em que passávamos as tardes de sábado no clube nadando ou brincando de bola. Como esse era o único lugar que eu ouvia rádio na época — por que os alto-falantes eram tão altos e onipresentes a não dar outra opção — e como Cazuza era o que estava nas paradas do rádio, ergo Cazuza tornou-se um caso clássico de música de clube, ao menos para mim.
Mas assim, eu nunca pensei muito no Cazuza. Quer dizer, até o ano passado, quando assisti o filme baseado em sua vida. Daí lá foi Ester de novo ficar super-impressionada. Em um mês, eu devo ter visto o filme umas quatro ou cinco vezes. Comprei uns três discos, e pus para tocar o que eu já tinha e nunca havia parado para escutar muito. Por mais de mês não tocava mais nada no meu som. Virei fan de carteirinha. O cara é muito gênio, fala sério.
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Não perca no próximo episódio: Renato Russo e o “Por Toda Minha Vida” de 14 de setembro.
"Troco um cheque, mudo uma planta de lugar"
Entre as transações bancárias da semana, incluindo uma misteriosa discrepância de $15 em meu favor, uma preocupação inédita: parece que assassinei uma planta. Por negligência. Negligência não, porque preocupar eu preocupei muito. Mas nem só de preocupações vivem as plantas. Vamos aos fatos.
Fato número 1: Minha colega foi passar os próximos meses em Montreal, e deixou em meus cuidados vários items interessantes, incluindo um sofá, uma cadeira, uma máquina de café expresso e uma planta.
Fato número 2: A única planta que tive na minha vida foi um cacto que ganhei quando fiz 15 anos. O cacto morreu após alguns meses. De desidratação.
Fato número 3: Eu falei para minha colega que eu não era boa com plantas. Ela disse que era muito fácil, que eu só tinha que regar a planta uma vez por semana. Isso eu fiz. Mas a planta começou a morrer assim mesmo.
Fato número 4: Plantas são seres autótrofos. O que quer dizer que elas produzem seu próprio alimento, ao contrário de seres heterótrofos, que têm de buscar sua fonte de nutrição ingerindo outros seres vivos.
Fato número 5: A colega veio visitar final de semana passado. A máquina de expresso estava bem tratada, o sofá também, mas a planta nem tanto. Ela atribuiu ao fato de eu ter colocado a plantinha num cantinho fora do alcance de tropeções. O cantinho também era fora do alcance de luz solar, algo que eu não tinha notado antes.
Fato número 6: As plantas são autótrofas, o que não quer dizer que elas geram energia ex nihilo. Elas produzem o açúcar que necessitam através da fotossíntese. Pode-se dizer então que a comida das plantas é luz. Eu esqueci de alimentar minha planta.
Fato número 7. Nos dias que se seguiram, eu me tornei bastante atenta a luminosidade de vários lugares. Coloquei a planta perto da janela. Descobri que o sol só bate lá entre 6 e 8 da manhã. Coloquei uma lâmpada de 60watts para brilhar em cima da planta. Levei a planta para passear lá fora e pegar um solzinho. Pedi conselhos a amigos. Podei a plantinha. Levei para o escritório, onde o sol bate mais forte.
Fato número 8. Agora quase uma semana de intensos cuidados depois, a planta parece estar ressucitando, ou assim espero.
Morais da história:
1) Plantas são seres difíceis de se alimentar. Porque, como diz meu irmão citando um cantor famoso (Cartola?), plantas não choram, elas só exalam. E euxalês é um idioma que eu não domino.
2) Preocupação só não basta; saber o que fazer ajuda.