Arquivo para Canadá
Já que ninguém está vendo… (Parte 2)
Foi no fim de novembro que eu assisti “Ensaio sobre a Cegueira” e o documentário sobre James Orbinski. Desde então eu estava só querendo achar um tempo para escrever o post anterior, mas dezembro entrou no meio e daí o que já era difícil ficou dificílimo.
Eu estava de passagem comprada para o Brasil o dia 10 de dezembro. E eu tinha prometido para mim mesma e para meio mundo que eu só voltava para o Brasil com uma primeira versão da tese pronta — uma promessa pouquíssimo realista, mas que eu tentei cumprir até o último momento o melhor que pude.
Adicione-se a isso tudo o fato dessa viagem para o Brasil marcar minha sexta mudança em dois anos, pode-se dizer portanto que os primeiros dez dias de dezembro estavam prometendo. Tempo para blogar, respirar ou qualquer outra coisa estava zero, se não abaixo de zero.
A manhã de 10 de dezembro de 2008 me encontrou acordada, de mala quase toda pronta, pilhada a base de cafeína e adrenalina, e super orgulhosa de mim mesma. Havia semanas que eu trabalhava dia, noite e fim de semana. Minha média diária de sono não devia passar de 4 ou 5 horas por dia, uma façanha considerável, ainda mais considerando as temperaturas sub-zero e os dias cada vez mais curtos pré-solstício de inverno.
Mas após 7 anos tendo sérias suspeitas de que o doutorado era na verdade um buraco negro no qual tempo e energia desaparecia dentro do vácuo, de repente eu vi meu trabalho começar a ter resultados, e isso me enchia de uma alegria e uma energia sem precedentes.
Adicione-se a isso 1) o fato que naquelas três semanas eu tinha tocado três vezes com as minhas duas bandas (e, modéstia parte, nossas apresentações tinham sido o máximo!) e 2) o fato que também naquelas semanas eu tinha conseguido me aproximar de vários amigos que estavam afastados (alguns geograficamente, outros mais que isso), pode-se dizer que a manhã de 10 de dezembro me fez acreditar que eu dava conta de fazer o impossível.
Quando o sol chegou ao meio dia, eu já tinha relido, imprimido e entregado ao meu orientador a versão mais recente da minha tese. Por mais que eu soubesse que ela estava longe de estar acabada, eu também sabia que nunca na história desse país eu já havia chegado a tal grau de acabamento, e isso me deixava radiante.
Sorrindo até as orelhas, eu saí do meu departamento em direção à biblioteca, onde tenho um cubículo de um metro quadrado que é só meu, e onde deixei os pertences que não poderia trazer ao Brasil nessa viagem.
Tendo deixado meu cubículo em ordem, percebi subitamente que 1) eu precisava desesperadamente de cafeína e 2) eu não tinha um tostão na minha carteira. Decidi portanto parar no Massey College, que não só tinha cafezinho à vontade, mas era do lado da biblioteca, e caminho para casa. Eu não fazia a mínima idéia de que hora do dia ou da noite era aquela.
Indo ao refeitório atrás do meu café, descobri para minha grande surpresa que o almoço estava para ser retirado. Eu, que não lembrava da última refeição que tinha tido, resolvi pegar o finzinho da bóia. Tendo pegado meu prato, sentei sozinha no refeitório quase vazio.
A essa altura, só havia um grupo, três homens, terminando seu almoço, lá na outra ponta do refeitório, diagonalmente de onde eu estava. Com a minha fome, falta de sono, adrenalina a mil, carência de cafeína, e pressa para terminar de fazer tudo que eu tinha que fazer antes de entrar no avião naquela noite, foi só quando eu estava quase terminando de almoçar que eu percebi que um daqueles três senhores na minha diagonal era James Orbinski, sentado de costas para mim.
Era mesmo? Era. E no estado em que eu me encontrava naquele momento, eu não tinha tempo, espaço ou energia disponível para gastar com auto-censura.
O momento era esse. Nada me barrava.
Sobes e desces políticos sem precedentes
No Canadá: primeiro ministro, impopularíssimo, dissolveu o parlamento ontem até janeiro, para evitar a votação semana que vem que com certeza o derrubaria. Isso menos de dois meses depois de ter sido re-eleito.
No Brasil: presidente da república alcança índice recorde de aprovação: 70%. O recorde anterior, de 64%, também era dele. Isso depois dele ter perdido três eleições presidenciais em doze anos…
Que coisa, não?
Montreal
Montreal é legal. Mesmo quando a temperatura é 40 graus abaixo de zero, tem algo na cidade que me faz um bem lascado. Quando tinha 19 anos eu fui lá para passar quatro meses, e quando depois de dois anos tive que ir embora, não queria ir de jeito nenhum. Acabei indo para Toronto, pensando que lá seria legal também. Mas nada a ver.
Quando morava em Montreal, muitas vezes alguém me disse que tinha me visto andando sorrindo sozinha. Em Toronto, virei uma pessoa ranziza. Não sei se era a cidade em si ou o contexto: a paisagem exterior ou interior. Mas tem algo em Montreal até hoje que é só chegar, seja lá qual seja meu humor, em dois minutos na cidade eu já me sinto bem.
Em Toronto eu morei mais tempo e fiz muitos mais amigos. Mas Montreal sempre me fez me sentir mais em casa. Fico pensando se eu pensaria em retornar ao Brasil se eu estivesse ficado em Montreal.
Os amigos que eu tinha na minha época de Montreal moravam ambos em Campinas. Eles eram meus maiores companheiros das minhas aventuras lá, mesmo morando tão longe.
Curioso que no ano passado, mais ou menos na mesma época que eu resolvi voltar para o Brasil, os dois, sem terem contato nenhum um com o outro, acabaram mudando para Montreal. Engraçado as voltas que essa vida dá. Eu devo ter dito boas coisas de lá.
Me pergunto como teria sido se estivéssemos morando em Montreal na mesma época: era só o que eu queria quando eu morava lá. Mas quem sabe a gente precisava mesmo ir um de cada vez para poder cada um tirar o máximo de proveito da experiência?
Impossível saber. Mas fiquei contente de passar uns dias em Montreal nessa minha visita invernal ao Canadá. Ir para Montreal sempre me enche de nostalgia, e agora que meus amigos de velhos tempos estão lá e felizes, a nostalgia foi ainda maior. Não dá para saber o que teria sido se o que foi tivesse sido diferente: subjuntivos são só subjuntivos. Mas ver pessoas que me conheciam quando eu andava sorrindo à toa nas ruas e andar à toa nas ruas em que eu andava sorrindo me fez um bem lascado. Um bem tangível e concreto.
Toronto, o retorno
Seis meses voaram: hora de ir para Toronto, conforme combinado com minha banca. Ansiedade marcou os dias — aliás, semanas — que precederam a viagem. As pessoas me perguntavam se eu estava empolgada. Eu revirava e revirava meu espírito procurando a resposta, mas não, não era empolgação que eu estava sentindo. Parecia mais cansaço: eu estava exausta só de pensar na viagem. Exaustão por antecipação. A verdade era que eu não queria muito fazer essa viagem.
Cheguei em Toronto no meio dum vento gelante. A viagem em si não teve maiores emoções (ao contrário da viagem anterior). Os sete minutes de caminhada do metrô até a casa da minha amiga quase me matou de frio. Como parte do meu super-planejamento de mudança, eu tinha deixado todas minhas roupas de inverno no Canadá, na casa de outra amiga. O que queria dizer que eu simplesmente não estava adequadamente vestida para aquele frio.
Tinha, claro, minha velha jaqueta azul, que apesar de incrivelmente feia, é incrivelmente quente. (Tal jaqueta tinha sido aposentado havia uns dois anos, quando, depois de usá-la por tantos anos, sua feíura se tornou para lá de óbvia. Tenho dificuldade hoje em dia de entender como pude usar essa jaqueta por tanto tempo — ou até mesmo como pude comprá-la. Está certo que elá é para lá de quentinha, mas mesmo assim… Acho que meu gosto em roupas mudou um tanto nos últimos invernos).
Sob minha jaqueta azul quentinha apesar de feinha, eu vestia umas duas ou três camadas que não eram quentinhas o suficiente. Minhas blusas de frio também tinham ficado na casa da minha amiga. A verdade é que ninguém esperava que estaria tão frio — à principio eu achei que era só eu que tinha perdido o costume, mas todo mundo que encontrei nesse dia disse que aquele dia tinha sido frio muito acima da média. Que sorte a minha.
Os sete minutos de caminhada pareceram sete horas. Duas vezes tive que parar para me proteger do vento e me aquecer. Meu rosto era o que mais sofria. Desde outubro estava tomando remédio para acne, cujo princípio é remover todo o óleo da pele. Sem a gordura natural, as bactérias responsáveis pela acne morrem, o que é bom. Mas sem a gordura natural, a pele perde sua camada de proteção contra as intempéries climáticas, o que não é muito bom. No Brasil, eu estava tomando todas as precauções de não sair de casa sem filtro solar. Mas ao chegar no Canadá nessa fria manhã, depois de passar o dia e a noite viajando, eu tinha esquecido deste cuidado. E o bronze resultante destes sete minutos gelados foi impressionante.
Finalmente cheguei na casa da minha amiga. Ela tinha deixado as chaves com o porteiro, dizendo que estaria em casa à noite. Minha primeira atitude foi tomar um banho. Para minha surpresa, notei ao me despir que meu corpo inteiro — pernas, braços, barriga — estavam vermelhinhos, como se eu tivesse passado um dia ensolarado numa praia nudista sem protetor solar.
Saí do banho às 9 da manhã. Lista de prioridades incluía: 1) comprar loção hidratante, 2) combinar de pegar minhas roupas de frio na casa da minha amiga, 3) tirar uma soneca.
A soneca ganhou.
Ano Novo, etc.
Segunda-feira, 7 de janeiro. Para muitos, 2008 começa hoje. Acabaram-se as festas. Quem tem que trabalhar foi trabalhar; quem pode tirar férias foi viajar. Fiquei eu, nesse meu trabalho que tem cara de férias, mas que me dá mais trabalho que trabalho. De volta ao batente.
Começo pelo mais importante e imprescindível na vida do cidadão moderno: o email. Hora de agradecer os Feliz Natais desejados e desejar os desejos de Feliz Ano Novo. A maior parte dos meus emails foi para Toronto, e terminou com a saudação “te vejo antes do fim do mês.”
Tal repetição me fez perceber que 5 meses em Brasília passaram rápido demais. E só o pensamento de que estarei em Toronto antes de janeiro acabar me deu um frio na barriga. Ou será talvez gastrite? Não sei dizer.
O fato é que a partir de hoje vou substituir o café pelo chá verde. Segundo o filme “Alguém tem que ceder,” chá verde tem as funções acordantes do café, sem o efeito colateral de deixar a gente meio maluco. Como nesses dias meu nível de paciência tende a zero, a irritação tende ao infinito, a concentração é quase nula, a fadiga é considerável (apesar do sono bem acumulado durante a folga natalina), e a gastrite ameaça substituir a tendinite só para me manter atenta, decidir começar 2008 a base de chá verde. Vamos ver o que acontece.
Violão não é bagagem de mão? (Último capítulo)
Série completa:
Parte 8: Chega!
Telepatia dessa vez não funcionou, e o jeito foi esperar chegar em São Paulo. Depois de outras duas horas de vôo, desembarque, polícia federal e retirada de bagagem, estava eu de novo na longa fila do check-in, já me preparando para um novo confronto.
“Próximo! Identidade, por favor. Qual o destino?”
Resolvi partir para o ataque.
“Moça, é o seguinte. Eu estou vindo do Canadá, de mudança para Brasília. Eu sei que vai dar excesso,” (o limite para vôo doméstico é de 23kg total) “mas será que dá para dar um desconto?”
“Ah, claro! Deixa eu pesar sua bagagem para ver o que dá para fazer. São quantas?”
“São três.”
“E tem bagagem de mão?”
“Ih, lá vem de novo…” “Tenho. Duas.”
“Ah, senhora, sinto muito. Só pode levar uma bagagem de mão.”
“Preparar. Apontar. Fogo!” “Quer dizer que eu não posso entrar com essa mochila e o violão?”, eu disse, com voz forte, espichando a coluna para não dá na cara que a mochila passava muito dos 5 kg permitidos.
“Ah, não, senhora. Violão não conta como bagagem de mão não. Pode entrar com ele e a mochila sem problema.”
Então finalmente, depois de tantas aventuras, Arquimedes e eu chegamos juntos, sãos e salvos em casa (mais salvos do que sãos, diga-se de passagem).
E foi assim que eu descobri que, seja no Canadá, seja no Brasil, violão realmente não é bagagem de mão.
FIM
Violão não é bagagem de mão? (Parte 7)
“É seu esse violão?” perguntou o comissário de bordo.
”Ih, ferrou…” pensei cá comigo.
“É meu sim,” falei com cara de desentendida.
“Algum problema?”
“Você sabe tocar?”
“Sei”
“Se eu pedir para tocar uma música para mim você toca?”
Por uma fração de segundo eu achei essa perguntação toda muito esquisita. Mas logo lembrei que esse pessoal de aeroporto às vezes faz perguntas aparentemente inocentes mas cheias de segundas intenções, para pegar o mentiroso desatento.
(Caso clássico: “Você está indo para onde?” “Cuiabá.” “Fazer o quê?” “Eu moro lá.” “Há quanto tempo?” “Desde criança.” “Ok. Mato Grosso é MG, certo?” O viajante desatento ou desinformado concorda, e daí até provar que pingo não é letra, já perdeu o vôo.)
Me achando muito esperta, e vendo um sorriso na cara do cara, respondi: “Toco, claro que toco. É para tocar?”
“Ah, eu acho tão bonito mulher tocar violão… Eu queria saber tocar também. Agora mesmo está indo um tanto de gente tocar num festival em Dublin. Me deu uma vontade de estar nesse vôo…”
Nisso a voz do comandante espalhou-se por todos auto-falantes: “Atenção, tripulação, preparar para a decolagem.” O comissário sorridente concluíu a paquera com uma piscadinha e disparou corredor a frente fechando bagageiro e verificando cintos de segurança.
Eu disparei a rir descontroladamente e me segurei para não chamar atenção demais. Questão de segurança.
* * * * *
“Atenção, senhores passageiros!”
Acordei assustada com a agressividade dos auto-falantes e das luzes ofuscantes acesas de uma vez.
“Dentro de instantes daremos início ao nosso serviço de café-da-manhã.”
Olho pela janelinha: ainda é noite. Olho para o relógio: 4:45 da manhã. Meio cedo para tomar café, não? O comandante corrige meus pensamentos:
“Agora são cinco horas e quarenta e cinco minutos no horário local. Podemos ver à direita da aeronave a cidade de Brasília. O nosso tempo de vôo até São Paulo é de aproximadamente mais duas horas, com o pouso previsto para as sete e cinqüenta, desembarque para as oito horas e sete minutos.”
Olho para o relógio. Ainda falta tanto tempo. E depois do desembarque tem fila da alfândega. Depois tem que pegar bagagem. Depois fila de check-in de novo. Depois esperar um tantão para embarcar, outras duas horas de vôo, para, com sorte, chegar em Brasília antes da janta.
Olho pela janela e vejo as luzinhas da minha cidade que ainda dorme lá em baixo. “Ei, essa é a minha parada! Eu quero descer aqui! Cadê a cordinha para eu dar o sinal?”
Violão não é bagagem de mão? (Parte 6)
Ao telefone
“Olha, tá tudo bem.” Meus olhos corriam de um lado para o outro como um pêndulo nervoso. “Tá, tá no horário certinho.” Ninguém me interceptou ainda. “Não, sem problema.” É, parece que não tem ninguém me observando.
A vontade era de dizer que eu estava entrando com o violão escondido, que eu estava com as pernas tremendo, que eu tinha burlado o sistema, blefado, camuflado, que eu me sentia uma verdadeira contrabandista. Mas vai que nisso alguém me escuta e começasse a achar que o negócio era bem mais feio do que na verdade era? Até que eu provar que pingo não era letra, muita água ia ter que passar de baixo da ponte, e aí eu corria o risco da vaca ir para o brejo e dar com os burros n´água. Melhor eu ficar na minha.
“Tá, tá tudo ótimo. Beijo. Até amanhã.”
Embarque
Desliguei o telefone e fiquei aguardando meu vôo. Às vezes acontece que a pessoa do check-in depois vai para o portão ajudar no embarque. Eu estava então morrendo de medo de dar de cara de novo com a tia do check-in. A espera deve durado uma hora, mas para mim foram duzentas.
Reparei que tinha outro jovem violeiro na área. Quando finalmente chamaram para o embarque, fiquei esperando ele passar primeiro, e fiquei só na espreita.
Alívio número um foi que a tia do check-in não veio fazer o embarque. Legal. Alívio número dois foi que o violeiro entrou sem parecer ter tido problema. Beleza.
Mesmo assim, escolhi uma fila que passasse à direita do balcão. Por quê? Ora, porque assim o funcionário que pegasse meu cartão de embarque ficaria à minha esquerda. E daí? Ora, e daí que eu carrego o violão com o ombro direito. Dessa forma, o braço que entrega o bilhete não é o mesmo que carrega o violão. Tudo planejado nos mínimos detalhes para não chamar atenção.
O Túnel da Verdade
O cara pegou meu bilhete, entregou o canhoto e me desejou boa viagem. Um obstáculo a menos. Mas agora é que iam ser elas: quando (conforme descrito na parte 4, “Apegos e Desapegos”) compus o “Discurso da Apreensão”(note bem o trocadilho), na minha cabeça o pano de fundo de todo o discurso era o túnel que leva ao avião. Ali bem na curva, quase já na porta da aeronave.
O perigo então ainda estava por vir. O túnel da verdade se estendia à minha frente. Entrei, com a cara e a coragem, esperando ser abordada a qualquer momento. Fiz a curvinha, já contando com o pior.
Nada. Entrei no avião.
“É agora!”, pensei.
No avião
“Seu bilhete, senhora. Corredor a esquerda, no final.” A moça nem olhou para o meu violão.
Achei meu assento e coloquei o violão no bagageiro logo acima (que para minha surpresa estava completamente vazio). Sentei já pegando o cobertozinho, me cobri, coloquei o fone de ouvido e respirei aliviada. Deu certo.
Mais um perigo
Mal me acomodei, logo chegou alguém para sentar ao meu lado, no assento do corredor (o meu era o da janela, só tinha dois). Abriu o bagageiro, colocou sua maleta e sentou, deixando o bagageiro aberto. Não gostei. Mas também não quis reclamar, para não chamar atenção.
Aumentei o volume do mp3 para escapar das conversas chatas (“Puxa, véi, Paris é muito melhor que Montreal, nem se compara. Os franceses são chatos, mas são chiques.”). Compenetrada nos meus sudokus, nem vi quando fecharam as portas da aeronave e a tripulação veio fechando os bagageiros para preparar para a decolagem.
Quando vi, o comissário de bordo estava conversando com o cara do meu lado. Fingi que nem vi, e fiquei só rezando. Até que o carinha do meu lado me cutucou dizendo para quem quisesse ouvir: “Meu não. Deve ser dela.”
Gelei.
Violão não é bagagem de mão? (Parte 5)
Retrospectiva da série:
Parte 5:
A consciência a pesar nas costas
Sorri agradecida, respirei fundo de novo e passei pela portinha da segurança. Tirei o violão e a mochila das costas e pus na esteira. Mostrei meu bilhete. Passei pelo detector de metais, virando para trás toda hora, piscando para meu amigo e estalando os dedos como quem sabe que está fazendo coisa errada e diz “eita ferro!”. Bandeira total: minha cara de poker típica.
Tendo passado pelo detector, o segurança pegou meu violão e disse em voz forte e clara: “Senhora, seu violão…” Olhei para ele esperando mais. “Senhora, seu violão: não pode levar!” Ou então: “Senhora, seu violão: está apreendido, queira me acompanhar!” Ou ainda: “Senhora, seu violão: tem que despachar. A multa é de mil dólares!”
Mas não. Foi só: “Senhora, seu violão. Boa viagem!”
O desvio no Duty Free
Que estranho. Os carinhas da segurança (que em geral são os mais cri-cri de todos) não sabiam dessa que violão não é bagagem de mão. Acenei mais uma vez para meu amigo (e ainda acrescentei um “jóia” sorridente com o polegar) e segui rumo ao portão de embarque.
Mais adiante avistei do lado direito do corredor em que estava um balcão de informações da Air Canada. Do lado esquerdo, uma loja Duty Free gigante, com saída lá para o outro lado. Não tive dúvidas. Eu nem gosto de Duty Free, mas como o balcão daAir Canada tinha três atendentes e nenhum cliente, resolvi não dar muito na vista. O labirinto de balcões da Duty Free me caiu como uma bela camurflagem.
O último portal
Tendo sobrevivido mais esse perigo sã e salva (na verdade, mais salva do que sã), fui passando de um portão de embarque a outro até chegar no meu. Nesse percurso, vi pelo menos outros três violeiros. Que estranho. Será que eles não sabem que violão não é bagagem de mão? Ou será que a cara de poker deles era assim tão melhor que a minha? Não dava para saber.
Cheguei então ao meu portão. Como ainda faltava um tempinho para embarcar, resolvi ligar para meus pais em Brasília para dizer que estava tudo bem.
Violão não é bagagem de mão? (Parte 2)
Mais um Preâmbulo
Foi me levar ao aeroporto um amigo que tem muita experiência com mudanças internacionais (ele já morou na Alemanha, Japão, EUA, Canadá). Ele ficou muito impressionado com quão compacta era minha mudança: somente um volume a mais do que a quota (vale dizer que por todos esses países carregou as panelas de ferro da avó dele. Para ele, uma simples malinha de excesso de bagagem e nada era a mesma coisa).
Para passar o tempo na fila, a gente ficou brincando de adivinhar o peso de cada mala. Primeiro cada um fazia uma estimativa para a mala. Daí, ele que era forte carregava a mala em questão para uma balança próxima que ficava a disposição dos passageiros, justamente para esse fim (sendo opcional a aposta descrita acima).
A malona ficou com 70 libras (cerca de 32kg), que é o máximo permitido. A mala ficou com umas 50 libras (cerca de 23kg), só que sem espaço para nem mais um alfinete. A malinha por sua vez, que tecnicamente era “bagagem de mão”, acabou empatando com a mala no critério peso. Apesar de ser pequeninha, ela só continha livros, o que lhe dava uma sustância que ultrapassava em mais de 200% o limite de 22 libras (10kg) permitido a bordo para malas de sua categoria.
Tendo feito um remanejamento básico para assegurar que os quase 32kg da malona não ultrapassavam 70 libras, felizes e confiantes seguimos para o balcão de check-in.
No check-in
“Tem bagagem para despachar?”, perguntou-me a tia do check-in.
“Sim, essas três.”
“O máximo é duas. Por que a senhora não leva essa pequeninha a bordo?”
“Porque eu já estou levando a mochila e o violão.” E mostrei os dois para a tia.
“Violão não é bagagem de mão”, disse a tia calmamente. ”Porque a senhora não despacha o violão e leva a malinha como bagagem de mão?”
Na minha ingenuidadade — reflexo talvez do choque do momento — respondi bobamente: “Porque a malinha tem muito mais que 10kg.”
A tia não titubeou: “É, então tem que despachar também. Vou ter que cobrar dois volumes de excesso de bagagem. Dá 240 dólares: $120 cada peça.”
Interlúdio
Meu último post teve por único e pedestre objetivo frisar que minha mudança para o Brasil foi friamente calculada e cuidadosamente ensaiada.
Eu havia consultado com bastante atenção a página da Air Canada que trata de excesso de bagagem. Lá fala que acima de dois volumes, a taxa para cada peça excedente em destinos internacionais é de Cdn$225.
É bem verdade que na parte que fala ”Todos os destinos internacionais” tem duas estrelinhas. Abaixo, a legenda correspondente informa: “Exceto Brasil e Japão. (Favor consultar o serviço de reservas da Air Canada para detalhes sobre tarifas de excesso de bagagem para esses países.)”
Como condiz a meticulosidade estérica de todo esse planejamento, eu cheguei até a ligar na tal da central de reservas para averigüar com precisão o valor de tais tarifas. Liguei várias vezes, fiquei um tempão cada vez, e em todas elas fui driblada ou ludibriada pelo sistema eletrônico de atendimento.
Deixei para lá, mas tive cá comigo que por serem países longínquos, a taxa de excesso para o Brasil e o Japão provavelmente seria superior aos $225 por volume cobrados para os outros destinos internacionais. O que ainda era mais em conta do que mandar pelo correio ou via frete.
Vale frisar que em nenhum lugar do site da Air Canada havia a informação que violão não é bagagem de mão.
Cai a ficha
VIOLÃO NÃO É BAGAGEM DE MÃO?!?”,
perguntei incrédula depois de alguns segundos.
“Como não, moça?!?”
“Não, não é. Nunca foi.”
“Mas moça, eu já girei meio mundo com esse violão. Tem mais de dez anos que eu viajo com ele. Já fui com ele para a Inglaterra, EUA, Brasil. Até mesmo no Natal passado eu embarquei nesse mesmo vôo com um contrabaixo elétrico, que é muito maior e mais pesado. Como é que não pode?!?”
“Alguns atendentes de check-in deste aeroporto às vezes desconsideram essa regra. Mas isso é exceção: a regra em si é clara.”
“Mas moça, essa exceção está muito mais em uso que a regra. Eu nunca vi isso. E olha que eu li lá o site da Air Canada todo.”
“Mas a senhora telefonou para a operadora? Se a senhora tivesse telefonado, ela teria te dito claramente que violão não é bagagem de mão.”
“Ligar eu até liguei, mas não consegui falar com ninguém. Se bem que, na verdade, não me teria ocorrido de perguntar isso nem que eu tivesse conseguido falar com alguém.”
“Então eu sinto muito, senhora. O máximo que eu posso fazer é chamar o meu supervisor para falar com a senhora.”
De jeito nenhum
Vem o supervisor e reitera o discurso da atendente. Como os dois continuam irredutíveis, a tia, tentando ajudar, pergunta para meu amigo:
“Você vai ficar aqui em Toronto mesmo? Por que então o senhor não fica com o violão dela, e ela pega depois?”
Acho que a mulher pensou que a minha viagem era breve, e não uma mudança. Como ela não estava de todo errada, cogitei brevemente deixar o violão com meu amigo. Só que era muita maldade com o cara: ele ia ter que pegar um metrô, depois um ônibus, chegar na universidade para pegar o material dele, e de lá ir de bicicleta para casa. Como é que ele ia conseguir levar um violão?
Recusei então a oferta da moça. “Porque se eu não pagar excesso agora eu vou ter que pagar depois do mesmo jeito, então deixa eu resolver logo esse negócio.”
Enquanto a moça preparava as etiquetas, virei para o meu amigo:
“O que me deixa triste não é nem ter que pagar o excesso de bagagem a mais” (até porque eu tinha calculado pagar $225 ou mais por um único volume excedente, e a moça estava cobrando $240 por dois – mas isso eu não falei em voz alta). “O que me deixa triste é deixar meu querido Arquimedes viajar sozinho nesse mundo de meu Deus, subindo e descendo essas esteiras, eu que não deixo ninguém nem triscar nesse violão. E essa capinha de pano assim não protege nada, fosse pelo menos um estojo daqueles duros. Mas acho que ela colocando uma daquelas etiquetas vermelhas de “FRÁGIL”, às vezes eles tem um pouco mais de dó da bagagem…”
Nisso a tia interrompeu: “Assine aqui, senhora”. Olhei para ver o que era. Com letras bem miúdas, o papel dizia que eu, abaixo assinada, estava ciente que a Air Canada não se reponsabilizaria por qualquer dano ou perda que viesse ocorrer ao meu violão.
“VOCÊS NÃO SE RESPONSABILIZAM?!?”
“Não, senhora. É opção sua despachar um objeto frágil.”
“OPÇÃO MINHA?!?”
Nessa hora meu olho encheu de lágrima — e olha que eu não sou de muita frescura. A tia, para aliviar, sugeriu: “por que você não tira umas roupas dessa mala aqui e pôe dentro da capinha, para dar uma amortecida?”
Olhei para o meu amigo, atônita. Dessa vez até o olho dele estava cheio de lágrima.
“Você leva o violão para mim, Uli?” (o nome do meu amigo é Uli). “Leva lá para a universidade, deixa na minha mesa. Vai levar no mínimo uma semana para alguém tomar posse dessa mesa. É o tempo de eu arranjar alguém para vir buscar esse violão e cuidar dele até eu voltar. Você faz isso para mim?”
Meu amigo, muito solidário, concordou prontamente.
Tendo então pagado os $120 de excesso de bagagem, fomos para uma lanchonete esperar dar o horário do embarque.
*****
Comprida essa história, né? Muito comprida. E ela está longe de terminar. Não perca as próximas emoções dessa viajante e dolar-osa novela.