Arquivo para Brasília

Ano Novo, etc.

Segunda-feira, 7 de janeiro. Para muitos, 2008 começa hoje. Acabaram-se as festas. Quem tem que trabalhar foi trabalhar; quem pode tirar férias foi viajar. Fiquei eu, nesse meu trabalho que tem cara de férias, mas que me dá mais trabalho que trabalho. De volta ao batente.

Começo pelo mais importante e imprescindível na vida do cidadão moderno: o email. Hora de agradecer os Feliz Natais desejados e desejar os desejos de Feliz Ano Novo. A maior parte dos meus emails foi para Toronto, e terminou com a saudação “te vejo antes do fim do mês.”

Tal repetição me fez perceber que 5 meses em Brasília passaram rápido demais. E só o pensamento de que estarei em Toronto antes de janeiro acabar me deu um frio na barriga. Ou será talvez gastrite? Não sei dizer.

O fato é que a partir de hoje vou substituir o café pelo chá verde. Segundo o filme “Alguém tem que ceder,” chá verde tem as funções acordantes do café, sem o efeito colateral de deixar a gente meio maluco. Como nesses dias meu nível de paciência tende a zero, a irritação tende ao infinito, a concentração é quase nula, a fadiga é considerável (apesar do sono bem acumulado durante a folga natalina), e a gastrite ameaça substituir a tendinite só para me manter atenta, decidir começar 2008 a base de chá verde. Vamos ver o que acontece. 

Violão não é bagagem de mão? (Último capítulo)

Série completa:

Parte 1: Preparativos

Parte 2: Como assim?

Parte 3: Interlúdio

Parte 4: Raio X

Parte 5: Duty Free

Parte 6: Embarque

Parte 7: Voando longe

Parte 8: Chega!

Telepatia dessa vez não funcionou, e o jeito foi esperar chegar em São Paulo. Depois de outras duas horas de vôo, desembarque, polícia federal e retirada de bagagem, estava eu de novo na longa fila do check-in, já me preparando para um novo confronto.

“Próximo! Identidade, por favor. Qual o destino?”

Resolvi partir para o ataque.

“Moça, é o seguinte. Eu estou vindo do Canadá, de mudança para Brasília. Eu sei que vai dar excesso,” (o limite para vôo doméstico é de 23kg total) “mas será que dá para dar um desconto?”

“Ah, claro! Deixa eu pesar sua bagagem para ver o que dá para fazer. São quantas?”

“São três.”

“E tem bagagem de mão?”

“Ih, lá vem de novo…” “Tenho. Duas.”

“Ah, senhora, sinto muito. Só pode levar uma bagagem de mão.”

“Preparar. Apontar. Fogo!” “Quer dizer que eu não posso entrar com essa mochila e o violão?”, eu disse, com voz forte, espichando a coluna para não dá na cara que a mochila passava muito dos 5 kg permitidos.

“Ah, não, senhora. Violão não conta como bagagem de mão não. Pode entrar com ele e a mochila sem problema.”

Então finalmente, depois de tantas aventuras, Arquimedes e eu chegamos juntos, sãos e salvos em casa (mais salvos do que sãos, diga-se de passagem).

E foi assim que eu descobri que, seja no Canadá, seja no Brasil, violão realmente não é bagagem de mão.

FIM

Violão não é bagagem de mão? (Parte 7)

“É seu esse violão?” perguntou o comissário de bordo.

 ”Ih, ferrou…” pensei cá comigo.
“É meu sim,” falei com cara de desentendida.
“Algum problema?”

“Você sabe tocar?”

“Sei”

“Se eu pedir para tocar uma música para mim você toca?”

Por uma fração de segundo eu achei essa perguntação toda muito esquisita. Mas logo lembrei que esse pessoal de aeroporto às vezes faz perguntas aparentemente inocentes mas cheias de segundas intenções, para pegar o mentiroso desatento.

(Caso clássico: “Você está indo para onde?” “Cuiabá.” “Fazer o quê?” “Eu moro lá.” “Há quanto tempo?” “Desde criança.” “Ok. Mato Grosso é MG, certo?” O viajante desatento ou desinformado concorda, e daí até provar que pingo não é letra, já perdeu o vôo.)

Me achando muito esperta, e vendo um sorriso na cara do cara, respondi: “Toco, claro que toco. É para tocar?”

“Ah, eu acho tão bonito mulher tocar violão… Eu queria saber tocar também. Agora mesmo está indo um tanto de gente tocar num festival em Dublin. Me deu uma vontade de estar nesse vôo…”

Nisso a voz do comandante espalhou-se por todos auto-falantes: “Atenção, tripulação, preparar para a decolagem.” O comissário sorridente concluíu a paquera com uma piscadinha e disparou corredor a frente fechando bagageiro e verificando cintos de segurança.

Eu disparei a rir descontroladamente e me segurei para não chamar atenção demais. Questão de segurança.

* * * * *

“Atenção, senhores passageiros!”

Acordei assustada com a agressividade dos auto-falantes e das luzes ofuscantes acesas de uma vez.

“Dentro de instantes daremos início ao nosso serviço de café-da-manhã.”

Olho pela janelinha: ainda é noite. Olho para o relógio: 4:45 da manhã. Meio cedo para tomar café, não? O comandante corrige meus pensamentos:

“Agora são cinco horas e quarenta e cinco minutos no horário local. Podemos ver à direita da aeronave a cidade de Brasília. O nosso tempo de vôo até São Paulo é de aproximadamente mais duas horas, com o pouso previsto para as sete e cinqüenta, desembarque para as oito horas e sete minutos.”

Olho para o relógio. Ainda falta tanto tempo. E depois do desembarque tem fila da alfândega. Depois tem que pegar bagagem. Depois fila de check-in de novo. Depois esperar um tantão para embarcar, outras duas horas de vôo, para, com sorte, chegar em Brasília antes da janta.

Olho pela janela e vejo as luzinhas da minha cidade que ainda dorme lá em baixo. “Ei, essa é a minha parada! Eu quero descer aqui! Cadê a cordinha para eu dar o sinal?”

Último capítulo

Foi tão estranho que choveu…

Sabe quando acontece uma coisa
bem surpreendente e a gente fala:

“Nossa, que surpresa! Vai chover!”

Às vezes é um telefonema inesperado.
Às vezes uma visita há muito só na promessa.
Às vezes o cônjuge, prole ou similar
que resolve do nada
lavar a louça, ou arrumar a cama.

Neste primeiro dia de outubro
ocorreu algo bem surpreendente.
Choveu.
Pela primeira vez desde o dia 29 de maio último.

O domingo trouxe boatos de garoa esparsa e breve aqui e ali. Só para dar vontade. Eu mesmo não vi, nem acreditei muito em quem falou que viu. Afinal, a previsão de chuva era só para fim de outubro, talvez meados.

Mas no começo da noite da segunda
não foi boato nem garoa.
O céu veio todo a baixo, de uma vez, 
com direito a relâmpago e trovoada.

O clima era de quadrilha de festa junina.
De um lado da rua se gritava:
“Olha a chuva!”
E o outro lado respondia:
“É mentira!” 

Até que todo mundo debruçou na janela,
achando a chuva melhor que a novela.
Crianças pulavam, pessoas gritavam.

Até fogo de artifício resolveu se fazer
de trovão e raio e entrar na festa.
O clima era de fim de campeonato.

E meu pai que sempre achou ruim
quando a previsão do tempo chamava chuva
de “mau tempo” ou “tempo feio”
olhava com o resto da cidade
a lindura do toró
seu presente de aniversário
mais desejado

O clima era mais festivo que final de campeonato
Era mais festivo
que festa de São João ou de aniversário
O fim era do inverno; a chuva venceu a seca

E a festa
era a primavera
Cai, chuva!
Hoje o céu está tão lindo
Cai, chuva!
Meu amigo,
Tim Maia
Meu amigo,
cai chuva

Minha amiga
chuva
cai.

Umidade 11%

Ué…
Existe primavera no Brasil?

Existe, ué.
Equinócio, dias mais longos,
árvore seca enchendo de florzinha.

Isso não é primavera?

Mas, peraí:
Se o inverno não faz nem frio…
 

Não, seguinte. O que caracteriza o inverno aqui
não é o frio.

É a seca.

Dá uma olhada de perto nessa paisagem de novo:

Sacou? 

Isto é Brasília
Sexta-feira, 21 de setembro de 2007:

Ao invés de neve, névoa seca.
(É névoa mesmo.
Não é embaçamento da lente não.)

Umidade relativa do ar: 11%
(Média do deserto do Sahara: 13%)
Mais de 110 dias sem chuva.

É um calor infernal, digo, invernal:
30 graus na sombra…

Mas mesmo assim,
o melhor é correr para a sombra mesmo!

Primavera em Brasília

Como alguns de vocês sabem, estou passando essa primavera em Brasília. E como este fim de semana marca oficialmente o início da primavera, eis aqui um relatório oficial da minha nova rotina diária.

Primeiro, acordo e olho pela janela:

Tomo um café esperto
 e parto para a biblioteca da universidade: 

Estaciono e, andando,
penso nos meus compromissos do dia:

Chego à biblioteca e trabalho a manhã toda:

Hora do almoço, volto para casa:

À tarde, vou para a biblioteca da paróquia:

É fim de dia e de inverno na capital federal.

A Importância de se Importar

Faroeste Caboclo - Quando eu tinha dezesseis anos, Galdino Jesus dos Santos, um índio pataxó, foi queimado vivo em Brasília, minha cidade natal e capital do Brasil.

A vítima estava em Brasília para as comemorações do 19 de abril, dia do índio. Estando a pensão fechada, ele dormia num ponto de ônibus em plena W-3 Sul.

Os assassinos eram quatro adolescentes, classe média alta. Quando perguntados por que tinham ateado fogo ao índio, responderam: “A gente não sabia que era um índio. Achamos que era só um mendigo.” Como se de repente isso explicasse tudo.

De onde vem a indiferença? - Eu lembro de na época ter pensado “Que idéia horrível!”. Mas minha reação não era bem indignação: na época eu era estóica demais para me indignar com qualquer coisa. Era mais um desprezo intelectual dos assassinos (“que idéia de jerico”), misturado com um resignado “é, acontece”, e com uma oração para alma do índio, que tinha ido dessa para uma melhor, e para os assassinos, para que Deus desse a eles mais juízo.

Sereníssima - E só. Nada de ficar esquentando com o que já aconteceu. Desprezo, resignação, tranqüilidade. Coisa de estóico mesmo.

Que País É Esse? - “É, acontece.” Ô, meu Deus, onde, quando, como é uma coisa dessas “acontece”? Minha falta de sensibilidade na época me assusta hoje quase tanto quanto à dos próprios assassinos. Anestesia de quem cresceu vendo Brasília sair no noticiário nacional não só pela corrupção mas também pelos crimes violentos praticados por adolescentes de classe média alta.

Geração Coca-Cola - Gente da minha idade, da minha classe social, da minha cidade. A “Parada do Índio” ficava no meu caminho para a escola. Foi pintada, cheia de homenagens. Eu passava lá todo dia, duas vezes por dia. E todo dia balançava a cabeça em reprovação, à la Harvey Siegel, como se o problema dos assassinos tivesse sido um erro de lógica, de pensamento, uma educação falha.

Giz - Foi uma falha da educação? Sim, com certeza. Mas, puxa vida!, os caras eram ricos, freqüentaram as melhores escolas, tinham tudo que queriam. O que prova: 1) que educação não é só coisa de escola e 2) que mesmo na escola a ênfase não pode ser só “intelectual”. O objetivo da educação, dentro e fora da sala de aula deveria ser o de tornar pessoas mais humanas. Não é só aprender a pensar, é aprender pensar com o coração e sentir com a cabeça.

Teorema - Mas não: a ênfase cada vez mais desprende o pensar do agir e do sentir, a teoria da prática, as causas das conseqüências, o lado subjetivo do objeto e o lado objetivo do sujeito. Os problemas são formulados e resolvidos “considerando as condições ideais” e “desconsiderando os atritos”.

Metrópole - E a minha reação estóica é conseqüência disso tanto quanto o ato assassino dos jovens. Trata-se outras pessoas como objetos na equação: esquece-se que são também sujeitos: sujeitos agentes e sujeitos sujeitos, que fazem e que são feitos pela “realidade objetiva” de todo dia. As coisas não “acontecem” simplesmente. Elas são feitas.

Indignação da Pedagogia - Comecei ontem a ler a “Pedagogia da Indignação” do Paulo Freire. Ele ficou profundamente abalado com a história de Galdino. A última coisa que ele escreveu foi sobre o nosso Pataxó, e nossos jovens:

“Que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer.” (Pedagogia da Indignação, p. 66)

Música Urbana - Paulo Freire morreu uns dez dias depois. Não sei se ele entendeu que o Galdino foi morto não foi por ser índio: os moços pensaram que ele fosse “só um mendigo”. Foi um ato desumano de violência, de elitismo, mas não foi por racismo.

Índios - Mas claro que ele foi morto também por ser índio: por estar numa cidade desconhecida, por não ter motorista e ter se perdido, por ter chegado tarde numa pensão sem estrelas, que não tinha recepcionista 24 horas esperando pelo prezado hóspede, ou anfitriã responsável pelo bem estar da visita. Tudo isso para receber as honrarias do Dia do Índio.

Pais e Filhos, Meninos e Meninas - A violência não foi só a dos jovens. Foi da sociedade toda. Foi racismo sim, foi elitismo sim. Da sociedade toda. Meu também. O que não inocenta nem um pouco os quatro culpados. Mas estende a culpa a muitos “inocentes”: ingênuos como eu que não vemos a nossa parte nisso.

Baader-Meinhof Blues - Eu tenho uma amiga que vive dizendo que o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença. E como diz Renato Russo, “de onde vem essa indiferença temperada a ferro e fogo?” Essa história do Galdino parece letra de Metrópole misturado com Faroeste Caboclo; Índios com Baader-Meinhof Blues. “A violência é tão fascinante, e nossas vidas são tão normais”.

Pacato Cidadão - Uma das correntes mais importantes do legado de Paulo Freire na educação é tentar sacudir a indiferença do “pacato cidadão”. Fazer as pessoas pararem de ser tão passivas, pacientes, para serem também agentes impacientes. E isso começa na escola, no berço.
Mais do Mesmo - Quem me dera ao menos uma vez explicar o que ninguém consegue entender. Mas ainda é cedo.