Arquivo para Brasil

Sobes e desces políticos sem precedentes

No Canadá: primeiro ministro, impopularíssimo, dissolveu o parlamento ontem até janeiro, para evitar a votação semana que vem que com certeza o derrubaria. Isso menos de dois meses depois de ter sido re-eleito.

No Brasil:  presidente da república alcança índice recorde de aprovação: 70%. O recorde anterior, de 64%, também era dele. Isso depois dele ter perdido três eleições presidenciais em doze anos… 

Que coisa, não?

Sete e sete são quatorze…

Nos últimos dez dias, o número de grupos de brasileiros que eu vi aqui em Toronto – na rua, no parque, na universidade, nos restaurantes — deve ter ultrapassado 20. Eu digo “grupos”, porque se fosse para contar as pessoas, acho que dava mais de cem. Tem família com criança, tem universitários, e tem adolescentes que andam em dúzias, com crachazinho dependurado no pescoço.

Motivo? Estamos em julho, mês de férias. E a economia brasileira está numa fase boa – como disse o New York Times na segunda-feira dia 7 e o Yahoo-EUA na terça dia 8. E o Yahoo-Brasil de ontem tinha uma chamada principal enorme de título “Estudar no Exterior Rules.” Toronto é exterior, é relativamente barato se comparado a outros exteriores, tem vôo direto de São Paulo… A lista de bons motivos para brasileiros passarem férias aqui é grande.

Minha primeira reação quando eu vi un grupo de adolescentes brasileiros andando junto com crachazinho na universidade semana passada (depois do reajuste cognitivo “peraí, eu conheço essa língua – ah, é português!” ) foi “ah, é julho, mês de férias. Mas nossa, essa meninada parece criança demais para está viajando sozinha…” Dentro de instantes eu própria me corrigi: “Nossa, Ester, você está ficando velha mesmo, com essa história de “mas eles são tão jovens!” Lembra que a primeira vez que você viajou para o exterior? Você tinha 14 anos, estava completamente desacompanhada, e não viu nada demais nisso…”

Isso foi em julho de 1994, há exatamente 14 anos. Eu saí do Brasil no primeiro dia da nossa moeda atual, o real – um período em que depois de décadas de inflação absurda, começou-se um período de estabilidade econômica sem precedentes. Tinha mais ou menos um ano que eu tinha começado a estudar inglês, e 30 dias na Inglaterra me ajudou a melhorar muito. A família com quem eu fiquei foi sensacional, e até hoje somos amigos. Fico pensando que se aquela experiência não tivesse sido tão positiva, provavelmente eu não teria tomado a decisão de fazer faculdade fora do Brasil – e de ficar fora do Brasil por todos esses anos.

Milhões de coisas aconteceram naqueles trinta dias em julho de 1994, e até hoje eu lebro da seqüência de eventos e de emoções, como se tivesse sido ano passado. Minha curva de aprendizado na época estava a todo o vapor. E isso me fez pensar no seguinte:

Em julho de 1994, 14 anos atrás, eu tinha 14 anos. Hoje eu tenho 28. Podemos considerar aquela viagem como o marco de 50% da minha vida até agora. Dividamos essas duas metades ao meio. Temos então quatro vezes sete anos, que podem ser analisados da seguinte maneira:

  • 0-7 anos: muitas coisas aconteceram na minha vida – começando pela minha própria vida. Nesses sete anos eu nasci, aprendi a caminhar, a falar, a ler, e muitas outras coisas. O mundo passou da década de 70 para a década de 80. Minha curva de aprendizado: lá em cima, tendendo a 90 graus (pi radiandos).
  • 7-14 anos: muitas coisas aconteceram de novo. Passagem da infância, via puberdade, até adolescência – mudança pra caramba. Primeiros namorados. Comecei a aprender uma língua estrangeira. Comecei a tocar violão. Saí do Brasil pela primeira vez. Passamos dos anos 80 para os anos 90. Curva de aprendizado: ainda lá em cima.
  • 14-21 anos: várias coisas novas de novo. Aos 14 anos eu não tinha nem começado o segundo grau; com 21 já tinha me formado na faculdade e começado um doutorado. Nesses sete anos, viajei bastante. Aprendi mais línguas novas. Mudei para outros países. Chegou o tão esperado terceiro milênio. Curva de aprendizado: ainda altíssima.
  • 21-28 anos: nada muito novo. Nada de década nova, nem milênio novo. Eu era uma doutoranda com 21 anos, continuo sendo aos 28. Está certo que nem é o mesmo doutorado. E está certo que eu me mudei de cidade, de departamento, de área de estudos. Mas o que me espanta é que nos últimos 7 anos – ou seja, 25% da minha vida, e 100% da minha maioridade legal – eu me apresento como sendo uma “doutoranda estrangeira.” É tempo pra caramba. Está na hora de ou parar de ser estrangeira, ou de ser doutoranda: de preferência as duas coisas. Curva de aprendizado: completamente horizontal.

As coincidências não param por aí. Julho é o mês 7. Eu nasci no dia 14. Eu fiz minha graduação em 3 anos e meio – 7 semestres: o que quer dizer que eu já passei o dobro de tempo sendo doutoranda do que sendo graduanda. Sinceramente, eu acho que eu tenho que me formar antes de fazer 29 anos, nem que seja só para manter essas proporções tão harmônicas. Mas será que eu consigo? Não sei dizer…

O que me espanta é que nesses sete anos gente que nem pensava em existir não só nasceu, mas aprendeu a andar, falar, a ler. E outros passaram da infância à adolescência, via puberdade. Começaram a estudar uma lingual estrangeira, e a tocar violão, e a viajar para o exterior. Tiveram o primeiro beijo, ou o primeiro filho (ou o segundo, ou terceiro). Alguns casaram e separam. Terminaram o Segundo grau e a faculdade. Aliás, tem um rapaz que estavava no segundo grau quando eu o conheci, no meu primeiro ano como pós-graduanda na Massey College (parte da universidade de Toronto). Hoje em dia ele é também um pós-graduando na Massey College. E eu ainda estou aqui, no mesmo lugar. Minha curva de aprendizado: estagnação total.

Então talvez eu esteje ficando velha mesmo, com aquele tipo de invejinha que os adultos sentem das gerações mais novas. Enquanto criança ou adolescente, a gente nunca sente invejinha dos mais novos, só dos mais velhos. Eu já cruzei aquele limiar que divide a fase em que a gente tenta de tudo parecer mais velho do que é, e agora estou no lado de cá, onde se tenta parecer mas novo do que se é. Mas eu ainda não cheguei naquela idade que se caracteriza por sua sabedoria e paciência – aliás, estou muito longe de chegar lá. E parte de mim acha isso bom (“Beleza, ainda não estou tão velha assim!”) enquanto outra parte quer apressar as coisas (“falta muito para eu adquirir paciência? E sabedoria, rola um atalho até lá? Não? Pô, porque não? Como assim? Tá demorando, viu? Agiliza, vai…”)

E assim são as pessoas e as criaturas…

Conhecendo Paulo Freire

Meus amigos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) me perguntam se no Canadá alguém já ouviu falar do Paulo Freire. E sempre riem quando eu respondo: “Sim, eu por exemplo.”

Tenho passado muitas horas na biblioteca da faculdade de educação em Toronto — principalmente horas de sábado. Eis aqui uma foto de onde estudo:

Geralmente quando eu me apresento a alguém como sendo brasileira, não raro a pessoa responde: “Ah, terra do Pelé, que legal!” Exceto na faculdade de educação. Lá as pessoas respondem: “Que legal, terra do Paulo Freire!” Dá uma olhada no painel acima — canto inferior esquerdo:

 

No começo eu sorria amarelo: “Pois é… Não, nunca li nada dele não.. Sério mesmo… Pois é, vou ver…” Mas depois de um tempo, resolvi criar vergonha na cara: como assim esse povo todo é fã do Paulo Freire, e eu, sua compatriota, nunca li nada? Tenho que dar um jeito nisso, nem se for para dizer que li e não gostei.”

 E daí eu li. E gostei para caramba. E virei fã de carteirinha. E minha vida — de estudante, de educadora, de brasileira, de estrangeira — nunca mais foi a mesma…

“Ester viu o Incrível Hulk na Universidade de Toronto”

“Que frase mais ambígua! Provavelmente ela quer dizer que a Ester assistiu o filme ‘O Incrível Hulk’ na Universidade de Toronto. Mas do jeito que está escrito, fica parecendo que a Ester viu um mostro verde andando na Universidade de Toronto, o que é muito improvável — incrível mesmo. Ao menos que a Ester tivesse visto alguém fazendo de conta que era o Incrível Hulk, tipo, se estivessem fazendo um filme, ou algo do tipo.”

“Ué, vai ver a frase não é ambígua — vai ver ela é polisêmica.”

“Como assim?”

“Seria ambígua se ela quisesse dizer só uma das coisas que você falou. Mas às vezes ela quer dizer as três coisas — em cujo caso ela merece um adjetivo mais caprichado que um reles ‘ambígua’. ‘Polisêmica’ é uma palavra muito mais massa!”

“Você acha mesmo que a Ester não só assistiu o filme na Universidade de Toronto, mas que ela viu o monstrão andando na universidade?”

“Bem, tem um cinema praticamente na universidade. E o parte do filme foi rodado em Toronto ano passado, então é possível que ela tenha visto quando eles estavam lá filmando. E mesmo que ela não estivesse, provavelmente dá para ela perceber que algumas das cenas que eram para ser em Virginia ou em Nova Iorque eram na verdade bem em frente de onde ela mora.”

“Acho isso tudo incrível demais — absolutamente inacreditível.”

“Pode ser incrível, mas talvez não seja impossível. Nunca se sabe…”

“E tem uma parte que é no Rio também, você viu? Aliás, com quase 200 milhões de brasileiros no mundo, custava ter chamado alguém que falasse português com um sotaque mais autêntico? Tipo, não só eles tinham 200 milhoes de pessoas da onde escolher, mas também 200 milhões de pessoas que conseguem perceber que ninguém no Rio fala daquele jeito… Não dava para entender nada…”

“Monstruosa a caracterização dos brasileiros, né? Fazer o quê…”

No rodapé de “Inclusão e Democracia”

Segunda à tarde. Estava eu pacatamente lendo um livro de uma autora que gosto muito, Iris Marion Young. O título do livro era “Inclusion & Democracy.” O livro estava indo sem maiores surpresas, tirando a surpresa de eu não estar me empolgando tanto como com os outros livros — talvez por ser mais “ciência política” do que os outros livros que li, não sei. Dezenas e dezenas de páginas tinham-se passado sem um único post-it (o livro era emprestado, e novinho em folha — eu não podia grifar).

E eis que do nada uma nota de rodapé me faz pular da cadeira. A primeira vista, era uma nota nada notável: seis linhas, consistindo principalmente em referências bibliográficas. Nada que justificasse uma leitura muito detalhada. Mas foi justamente a minha incapacidade de pular notas de rodapé, por mais insignificantes e enfadonhas que elas pareçam, que ocasionou meu maior momento de surpresa lendo ”Inclusion and Democracy.” Diz a dona nota de número 13, página 248:

“A obra de Samir Amin é um clássico nesse assunto; vide Classe e Nação (New York: Monthly Review Press, 1980). Para uma formulação diferente e mais recente de uma análise com conclusão semelhante, vide Fernando Henrique Cardoso, ‘Relações Norte-Sul no Contexto Atual: Uma Nova Dependência,’ in M. Carnoy, M. Castells, S. Cohen, e F. Cardoso (eds), A Nova Economia Global na Era da Informação (University Park, Pennsylvania State University Press, 1993).” (Young, 2000, p. 248).

A minha surpresa foi ver uma referência ao Fernando Henrique Cardoso como acadêmico, sem nenhuma menção do fato dele ser presidente ou político — e olha que na época da publicação do livro, ele ainda era presidente do Brasil. Tipo, eu sabia que antes de ser presidente o FHC era um acadêmico, mas a ficha nunca tinha caído.

Na verdade, minha reação ao ler essa notinha foi uma mistura de várias emoções: aquele orgulho brasileiro de ver um um compatriota sendo referência internacional – por mais que fosse só uma notinha de rodapé; o ajuste emocional-cognitivo do fato do tal compatriota ser o FHC, de quem eu nao gosto muito, e da pessoa citando ser a Iris Marion Young, de quem eu gosto muito; o ceticismo acadêmico do fato deles terem chegado a “conclusões semelhantes” — porque no meu escasso conhecimento de ciências políticas o jeito ”neo-liberal” do FHC parece ser justamente o tipo de postura que a Young critica em sua obra.

E pensar que uma nota de pé de página tão simplória podia render tanta reflexão…

Caminho da roça

Amanhã é dia de ir para roça; estamos aqui nos últimos preparativos para a viagem. Meu pai diz que Montalvânia (o município onde fica nossa fazenda) fica na intersecção de duas BRs que não existem. Como tem gente que acha que ele fala isso só de brincadeira, e como tendinite, falta de tempo, excesso de cansaço/preguiça, etc, me impedem de escrever muito, resolvi copiar um trechinho do blog do Luís Cláudio Guedes que comprova este fato curioso:  

“A BR-030 quando, e se um dia for concluída, vai ligar Brasília ao litoral Sul da Bahia. No seu traçado original (que corta paisagens ainda quase intactas narradas no livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa), a rodovia tem previsão de passar por Montalvânia, no Norte de Minas, numa extensão, até Brasília, de 326,6 quilômetros. Em Montalvânia, a BR-030 cruza com a BR-135, que liga a região Sudeste a São Luís do Maranhão e também não possui pavimento no trecho que corta o extremo Norte de Minas.

Ligar Brasília a Montalvânia era o grande sonho do fundador daquela cidade, o pioneiro Antônio Montalvão (1917/1992), que chegou a abrir uma picada até a nova capital a golpes de machado e enxadão. Essa estrada deixaria o Norte de Minas a um “pulo” dos mercados importantes como Brasília, Anápolis e Goiânia, mas parece ser mesmo coisa de sonhador. Outra opção para ligar o Distrito Federal àquela região seria via Januária. Aécio já prometeu ligar por asfalto Januária a Cônego Marinho. Esta última parece ser a opção mais factível. Sonhar não custa nada.”

Nota Estérica: além da BR-030, uma outra opção para fazer o percurso Brasília-Montalvânia é ir pela Bahia até Cocos em pista asfaltada, e depois atravessar para Minas Gerais para completar o finalzinho da viagem na estrada de chão. Este trajeto, que passa por três regiões brasileiras (Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste), é praticamente duas vezes mais comprido (600km de asfalto + 40km de chão até Montalvânia + outros 30km de chão até a nossa propriedade), mas ainda consegue levar mais ou menos o mesmo tempo de viagem (sem contar que batuca bem menos, e tem o super lanche no posto do Rosário).

Todavia, no momento esta opção não é viável, dado que está quebrada a ponte sobre o rio Itaguari , que fica em Cocos, já no finalzinho da viagem. Nos resta então a bela BR-030, de chão como sempre, chovendo como nunca. O que confere a toda esse aventura um quê de quadrilha (de festa junina, claro):

“Olha a chuva!” “É ment… ah, não é não!”

“A ponte caiu!” “É ment… ah, não é não!”

Violão não é bagagem de mão? (Parte 6)

Ao telefone

“Olha, tá tudo bem.” Meus olhos corriam de um lado para o outro como um pêndulo nervoso. “Tá, tá no horário certinho.” Ninguém me interceptou ainda. “Não, sem problema.” É, parece que não tem ninguém me observando.

 A vontade era de dizer que eu estava entrando com o violão escondido, que eu estava com as pernas tremendo, que eu tinha burlado o sistema, blefado, camuflado, que eu me sentia uma verdadeira contrabandista. Mas vai que nisso alguém me escuta e começasse a achar que o negócio era bem mais feio do que na verdade era? Até que eu provar que pingo não era letra, muita água ia ter que passar de baixo da ponte, e aí eu corria o risco da vaca ir para o brejo e dar com os burros n´água. Melhor eu ficar na minha.

“Tá, tá tudo ótimo. Beijo. Até amanhã.”

Embarque

Desliguei o telefone e fiquei aguardando meu vôo. Às vezes acontece que a pessoa do check-in depois vai para o portão ajudar no embarque. Eu estava então morrendo de medo de dar de cara de novo com a tia do check-in. A espera deve durado uma hora, mas para mim foram duzentas.

Reparei que tinha outro jovem violeiro na área. Quando finalmente chamaram para o embarque, fiquei esperando ele passar primeiro, e fiquei só na espreita. 

Alívio número um foi que a tia do check-in não veio fazer o embarque. Legal. Alívio número dois foi que o violeiro entrou sem parecer ter tido problema. Beleza.

Mesmo assim, escolhi uma fila que passasse à direita do balcão. Por quê? Ora, porque assim o funcionário que pegasse meu cartão de embarque ficaria à minha esquerda. E daí? Ora, e daí que eu carrego o violão com o ombro direito. Dessa forma, o braço que entrega o bilhete não é o mesmo que carrega o violão. Tudo planejado nos mínimos detalhes para não chamar atenção.

O Túnel da Verdade

O cara pegou meu bilhete, entregou o canhoto e me desejou boa viagem. Um obstáculo a menos. Mas agora é que iam ser elas: quando (conforme descrito na parte 4, “Apegos e Desapegos”) compus o “Discurso da Apreensão”(note bem o trocadilho), na minha cabeça o pano de fundo de todo o discurso era o túnel que leva ao avião. Ali bem na curva, quase já na porta da aeronave.

O perigo então ainda estava por vir. O túnel da verdade se estendia à minha frente. Entrei, com a cara e a coragem, esperando ser abordada a qualquer momento. Fiz a curvinha, já contando com o pior.

Nada. Entrei no avião.

“É agora!”, pensei.

No avião

“Seu bilhete, senhora. Corredor a esquerda, no final.” A moça nem olhou para o meu violão.

Achei meu assento e coloquei o violão no bagageiro logo acima (que para minha surpresa estava completamente vazio). Sentei já pegando o cobertozinho, me cobri, coloquei o fone de ouvido e respirei aliviada. Deu certo.

Mais um perigo

Mal me acomodei, logo chegou alguém para sentar ao meu lado, no assento do corredor (o meu era o da janela, só tinha dois). Abriu o bagageiro, colocou sua maleta e sentou, deixando o bagageiro aberto. Não gostei. Mas também não quis reclamar, para não chamar atenção.

Aumentei o volume do mp3 para escapar das conversas chatas (“Puxa, véi, Paris é muito melhor que Montreal, nem se compara. Os franceses são chatos, mas são chiques.”). Compenetrada nos meus sudokus, nem vi quando fecharam as portas da aeronave e a tripulação veio fechando os bagageiros para preparar para a decolagem.

Quando vi, o comissário de bordo estava conversando com o cara do meu lado. Fingi que nem vi, e fiquei só rezando. Até que o carinha do meu lado me cutucou dizendo para quem quisesse ouvir: “Meu não. Deve ser dela.”

Gelei.

Parte 7

Imagine…

Imagine que eu cogitei seriamente ficar em São Paulo até amanhã. Cogitei. Muito muito, que minha imaginação não brinca em serviço. E quase que resolvi ficar mesmo. Só que:

1. Imagine que, se não fosse pelo feriado semana que vem fazer a passagem ficar três vezes mais cara do que essa semana, eu teria ficado. Quer dizer, isso antes da BRA ir a falência e a outras empresas começarem a acomodar os passageiros que ficaram sobrando, o que com certeza bagunçaria meu retorno ainda mais. Mas acho que fosse só isso eu até teria feito uma força, imagine… Só que:

2. Ai, você nem imagina o tanto de trabalho que eu tenho que fazer. No dia de finados, fiz meu PPM (Planejamento Pluri-Mensal), como faço todo começo de mês. Percebi que para dar conta de tudo que eu gostaria de fazer até o natal, novembro vai ter que durar uns cinco meses… Imagina só. Mas eu até que eu teria segurado a onda e deixado para por sebo nas canelas semana que vem, só para poder ficar em São Paulo até amanhã. Só que…

3. Se eu não fosse perder tanta aula… Porque agora, além de malhar, eu estou fazendo Krav Magá e Tai Chi Chuan (um para treinar explosão, e o outro para repor a energia). E imagina que nesse nem bem um mês direito que eu estou fazendo essas aulas, eu já tive tanta falta… Assim fica complicado. Mas até que eu encarava mais uma faltinha só, para poder ficar em São Paulo até sexta. Só que:

4. Não tinha lugar para ficar. Assim, até que teoricamente dava para acrescentar mais umas três diárias no hotel que eu estava, que era muito simpático, e até em conta para seu nível de conforto, você nem imagina. Só que:

5. A grana está curta. Esse negócio do visto já está me gerando tanto gasto, ainda mais com esse negócio de eu ter ido a São Paulo à toa, e agora ter que ir atrás de despachante. Eu nem imagino como vai estar a conta do cartão quando chegar. Mas entre extravagâncias e extravagâncias até que dava para espremer mais um pouquinho e colocar mais uminha. Só que:

6. Se ao menos tivesse levado mais roupa… Eu só tinha levado roupa para 2-3 dias. Ainda assim, eu até cogitei achar uma lavanderia (já que o item 5 restringe um pouco a compra de mais roupas, e de qualquer forma, eu só havia levado uma mochila, que já estava estourando de cheia). Só que:

7. Eu tinha me esquecido o que é chuva e não levei comigo sequer um sapato fechado ou uma meia, ou uma camisa de manga. E choveu direto por dois dias… Então eu precisava não só de lavanderia, mas de sapato, agasalho, vai imaginando a figura… E tudo isso vai contra os itens 5 e 6.

Mas, olha, imagine que eu até pensei em fazer uma forcinha, nos esquemas 1-5, só para poder ficar em São Paulo até o dia nove de novembro de zero-zero-sete.

Você já está imaginando que isso tudo é só para eu poder ficar mais tempo no Instituto Paulo Freire, né? Ou então resolver logo o negócio do visto. Mas não: tanto um quanto outro dá para fazer em outra oportunidade, e apesar de eu ser uma pessoa impulsiva, até que eu sou paciente (por mais paradoxal que isso possa parecer).

Mas não é nada disso. O que eu queria está fazendo em São Paulo exatamente nesse momento era estar no Theatro Municipal. Ora, eu nunca fui ao Theatro Municipal, e teoricamente não há nada que esteja lá há tantas décadas que não possa esperar um pouco mais.

Quer dizer, tem algo que só está lá hoje, que eu nunca imaginaria ver no Brasil, assim, tão acessível ao público. É o tipo de coisa que não dá para voltar e ver de uma outra vez, ou fazer por despachante. Este algo é uma performance. Uma noite com alguém.

Pois imagine que a senhora Yoko Ono está se apresentando nesse momento em São Paulo. Eu que nem sabia que ela se apresentava assim, ainda mais que fazia turnê. E imagina que ela parece estar mais bonita hoje, com seus acho que 74 anos, do que há 40 anos, quando o mundo todo a conheceu. E imagina que o ingresso custava R$ 60,00 (não sei se inteira ou meia, mas que, de qualquer forma, é muito menos que muitas outras coisas).

E imagine que eu perdi uma coisa dessas!

Pois é. Dados os motivos 1-7 expostos acima, tudo o que me restou foi voltar para Brasília, e buscar consolo no bom e velho “Imagine”…

“In the middle of a dream,
In the middle of a dream,
I call your name:
Oh, Yoko…”

Vivendo e aprendendo

Essa semana eu fui a São Paulo para renovar meu visto do Canadá. A viagem foi boa, e eu fiz uma porção de coisas, exceto renovar o visto (por incompetência própria: eu esqueci de marcar horário, e o próximo agora era só semana que vem).

Depois de chorar um pouco sobre o leite derramado, eu resolvi tirar proveito da viagem. Aproveitei para conhecer o Instituto Paulo Freire

É um prédio desprentencioso num bairro desprentencioso. As pessoas dentro do prédio também são bem despretenciosas. Perguntei a secretária se podia fazer um tour do Instituto, mesmo sem ter marcado horário.

Ela chamou um rapaz na sala ao lado, e perguntou se ele poderia ser meu guia. Ele concordou prontamente, e me pediu para sentar numa mesa em sua pequena sala cheia de livros. Tanto as roupas como as maneiras das duas pessoas eram bem simples, assim como tudo no lugar.

O rapaz começou a me explicar que o Instituto surgiu de uma idéia em 1991 quando seu pai deu uma palestra na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e foi fundado mesmo em 1992. Eu não fazia idéia de quem era o pai dele, e quase interrompi para perguntar. Mas daí ele começou a explicar que seu pai esteve bem ativo nos primeiros cincos anos do Instituto, até falecer em 1997. Eu comecei a ter uma forte suspeita de quem seu pai seria. 

Daí ele falou que quando seu pai morreu, todos os livros dele foram doados para a sala onde a gente estava. Neste momento eu me arrepiei toda. O rapaz era nada mais nada menos que o filho caçula do Paulo Freire. Os livros na sala era da coleção pessoal de Freire, datando desde os anos 40. Eu achei uma cópia de 1959 de ”A Sociedade Democrátia e seus Inimigos” de Karl Popper, outra de 1963 do “Paideia” de Jaeger, todas com notas na margem e resuminhas no final, à mão do próprio Paulo Freire! 

(Interessante que eu cito esses dois livros na minha tese, e que na contra-capa do livro do Popper, Freire faz uma referência a Jaeger, o que é muito fera!). Nos outros dois minutos que eu passei as vistas pela biblioteca eu também vi Russell, Freud, Anísio Teixeira, Fernando Azevedo e Euclides da Cunha, e muitos outros. Definitivamente tenho que ir lá com mais tempo. 

Lut, o filho do Paulo Freire, me deu um tour do subsolo, onde ficam os arquivos. Me apresentava para todo mundo, contando piadas e histórias pelo caminho, como se a gente fosse amigo de infância.

Depois ele ofereceu a me mostrar os escritórios nos andares de cima, mas logo lembrou que estava na hora de buscar a filha na escola. Então ele pediu para a secretária para me levar lá. Ao mesmo tempo, me perguntou se eu poderia voltar no dia seguinte, para ele me mostrar uma escola perto onde é a sede de vários programas. Eu concordei entusiasticamente.

Lizeth, a secretária, me mostrou os andares de cima, onde se encontram todos os escritórios administrativos. Todo lugar que ela parava (tesouraria, comunicações, editora, informática, cozinha, relações internacionais) ela me apresentava para todo mundo quase solenemente, e eles paravam o que estavam fazendo e me recebiam como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo, e como se interrompê-los fosse tudo parte do esquema. Isso que eu nem tinha marcado horário nem nada, nem tinha falado muito sobre minha modesta pessoa.

Voltei no dia seguinte, dessa vez com a máquina (imagina que eu não tinha nem levado máquina!) , um tanto de pergunta mirabolante para o Lut e um tanto de coisa para bisbilhotar antes de retornar para Brasília no começo da noite. Infelizmente, acabou que o Lut não pode ir. Isso me deixou chateada por meio segundo. Mas depois eu lembrei da sorte que eu tinha dado de já ter conversado com um filho do Paulo Freire, sem estar nem esperando, e dele ter se mostrado tão simpático e disponível. Daí calculei que eu já estava no lucro, e que a visita já tinha superado em muitos as expectativas.

Além disso, no Instituto não faltava coisa para entreter uma pessoa do meu nível de curiosidade — curiosidade que a Lizeth soube aguçar bem. Não só eu fui à tal escola (que na verdade não era uma escola, mas um centro afiliado ao Instituto) e conversei com pessoas interessantíssimas (desde membros do conselho do Instituto a pesquisadores de além-mar), mas vi também muitas coisas maravilhosas, incluindo uma cópia do manuscrito (a mão mesmo!) de ”Pedagogia do Oprimido” de 1968″!!! 

Essa foi realmente uma daquelas viagens que o desvio sai mil vezes melhor do que o itinerário original. Agora é correr atrás de um despachante para conseguir o tal do visto…

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Fachada do Instituto Paulo Freire

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A simpática Lizeth guarda o forte.

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Cópia de 1959
de ”Sociedade Democrática e seus Inimigos”,
anotada pelo próprio Paulo Freire.”

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Já que é moda… (Parte 3)

Tudo é e não é…Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos… (GSV, p. 27-28) 

O que eu gosto no comandante Nascimento é que ele é um personagem de uma complexidade psicológica incrível. Ele não é um vilão malvado sem coração. Ele não é um herói bonzinho com o dever acima de tudo. Ele não é nenhuma coisa nem outra, e também é as duas coisas ao mesmo tempo: ele é humano.  

Ele sofre, ele preocupa, ele erra, ele tortura, ele troca fralda.  Do ponto de vista narrativo-literário, ele é um personagem brilhante. Um autor para escrever um personagem desses tem que ser muito gênio. O ator que o interpreta também.

Quando falei que a resposta de Férrez foi infantil, não quis dizer que a achei de todo ruim (porque coisas infantis não são necessáriamente ruins, pelo contrário). Mas a visão inocente atribuída ao narrador acaba  dando deixa para o seguinte comentário publicado na Época: ele poderia estar roubando por necessidade, mas também para investir no tráfico.

Poderia mesmo. Ou até mesmo as duas coisas. E nenhuma dessas possibilidades faria dele uma pessoa 100% boazinha ou 100% sem coração.

Num momento de delírio, até cheguei a pensar que a reportagem capa da Época de 15 de outubro terminaria com um questionamento nesse sentido, pelo jeito que o último parágrafo começa:

[N]ão se constrói um país com a visão torta e tão arraigada no Brasil que opõe, de maneira simplória, a “elite privilegiada e predadora” aos “bandidos coitadinhos e vítimas.”

Pensei comigo: até que enfim. Vamos sair da simplório e essencialista “isso é isso” e partir para análises mais profundas, mais complexas, menos reducionistas. Algo mais do tipo:

Mire veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (GSV, p. 39)

Ledo engano. O parágrafo e a reportagem terminam com as seguintes palavras: 

Criminoso é criminoso. Ponto. Um país mais justo socialmente tem neste princípio — bandido é bandido — um fundamento essencial. Romper com aquela visão reducionista e nefasta foi um dos maiores méritos “Tropa de Elite” 

Descobri então que dizer simplesmente que “elite é privilegiada e predadora” e “bandidos são coitadinhos e vítimas” é torto e simplório. Porém dizer simplesmente “criminoso é criminoso ponto” não é. Pelo contrário, é um fundamento essencial. O que casa perfeitamente com a capa da Veja da mesma semana que diz:

O filme Tropa de Elite é o maior sucesso do cinema brasileiro porque trata bandido como bandido e mostra usuários de drogas como sócios dos traficantes.  

Dentro, temos as seguintes matérias:

A Realidade, só a Realidade (p.80-83. Ou seja: “A verdade tem dono, e somos nós”)

Abaixo a Mitologia da Bandidagem: Tropa de Elite não rompe só com a tradição nacional de narra uma história do ponto de vista do bandido: rompe com a visão pia e romantizada do criminoso. (p.84-86. Traduzindo: “As pessoas já nascem terminadas: ou são afinadas ou desafinadas, e acabou. E nós que decidimos quem é quem.”)

Máquina Letal contra o Crime: Treinamento exaustivo e código de conduta rigoroso fazem do Bope uma das melhores tropas do mundo (p.88-89. Pergunto, pasma: melhores para que, para quem e de acordo com quem? Porque, como diz o Riobaldo: “cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães”. [GSV, p. 24])

O problema, Guimarães Rosa explica bem:

Uma coisa é por idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas de carne e sangue de mil-e-tantas misérias… Tanta gente – dá susto de saber – e nenhum se sossega….todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons… (GSV, p. 31)

Acontece que uns têm o poder de expressar e resolver suas misérias e insossegos. Outros muitos nem direito de reclamar tem, quanto menos o poder. Ontem eu terminei de ler um livro brilhante chamado “Justiça e a Política da Diferença”, da autora americana Iris Marion Young, falecida ano passado. O seguinte pensamento se encaixa certinho com o que vejo tanto na Veja quanto na Época:

“Enquanto os grupos privilegiados são neutros e exibem uma subjetividade livre e maleável, os grupos excluídos são marcados com uma essência, emprisionados em uma gama fixa de possibilidades. Em virtude das características que o grupo teoricamente tem por natureza, as ideologias alegam que os membros do grupo têm qualidades específicas que os tornam predispostos a algumas atividades e não a outras.” (JPD, p. 170)

A subjetividade da elite (que informa, que expressa, que opina, que publica seus medos e anseios nos jornais e revistas) objetifica os grupos excluídos (que não têm educação, opinião, medo, anseio ou coração). Ao fazer isso, cria-se uma polaridade. Ao mesmo tempo que elite fabrica e vende seus heróis perfeitos e quase super-humanos (acima de tudo e de todos, acima das leis), ela retrata também aqueles que são diferentes como seres subhumanos: sem educação, sem expressão, sem opção, sem futuro, sem jeito, sem valor. Coisa sem valor. Coisa.

E é assim que nascem os genocídios.  


GSV =  João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, Ed. Nova Fronteira

JPD = Iris Marion Young, Justice and the Politics of Difference, Princeton University Press, tradução de Ester Macedo.

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