Arquivo para Beatles
Brincadeira de criança!
Fato número 1: Em agosto, eu descobri um brinquedo novo e minha mais nova obsessão: Rockband, um jogo de videogame em que o “controle” é um instrumento musical de brinquedo, e que se joga “acompanhando” a música que aparece na telinha. Quanto mais notas se acerta, mais pontos se faz. (Para provas de minha obsessão, vide relato do Danilo).
Coisa de criança? Pode ser. Mais que é bom, é bom. E como eu queria que um trem bão desse existisse quando eu era pequena! Eu teria ficado craque no violão rapidinho. Tipo ninja mesmo. Com as manhas tudo.
Fato número 2: Eu passei milhares horas de minha adolescência aprendendo a tocar violão. Por “tocar violão” entenda “aprender música dos Beatles” – na minha cabeça, um remete a outro e vice-versa. (Para prova de minha obsessão com os Beatles, vide este meu relato, por exemplo.)
Fato número 3 = Fato 1 + Fato 2!!!!
Em outras palavras, vai ter o Rockband dos Beatles! Êta nóis! QUE FERA, VÉI!!! Quando eu crescer, eu quero comprar um desse pra mim! Yeah, yeah, yeah!
http://br.noticias.yahoo.com/s/04112008/11/entretenimento-beatles-vao-ganhar-guitar-hero.html
Imagine…
Imagine que eu cogitei seriamente ficar em São Paulo até amanhã. Cogitei. Muito muito, que minha imaginação não brinca em serviço. E quase que resolvi ficar mesmo. Só que:
1. Imagine que, se não fosse pelo feriado semana que vem fazer a passagem ficar três vezes mais cara do que essa semana, eu teria ficado. Quer dizer, isso antes da BRA ir a falência e a outras empresas começarem a acomodar os passageiros que ficaram sobrando, o que com certeza bagunçaria meu retorno ainda mais. Mas acho que fosse só isso eu até teria feito uma força, imagine… Só que:
2. Ai, você nem imagina o tanto de trabalho que eu tenho que fazer. No dia de finados, fiz meu PPM (Planejamento Pluri-Mensal), como faço todo começo de mês. Percebi que para dar conta de tudo que eu gostaria de fazer até o natal, novembro vai ter que durar uns cinco meses… Imagina só. Mas eu até que eu teria segurado a onda e deixado para por sebo nas canelas semana que vem, só para poder ficar em São Paulo até amanhã. Só que…
3. Se eu não fosse perder tanta aula… Porque agora, além de malhar, eu estou fazendo Krav Magá e Tai Chi Chuan (um para treinar explosão, e o outro para repor a energia). E imagina que nesse nem bem um mês direito que eu estou fazendo essas aulas, eu já tive tanta falta… Assim fica complicado. Mas até que eu encarava mais uma faltinha só, para poder ficar em São Paulo até sexta. Só que:
4. Não tinha lugar para ficar. Assim, até que teoricamente dava para acrescentar mais umas três diárias no hotel que eu estava, que era muito simpático, e até em conta para seu nível de conforto, você nem imagina. Só que:
5. A grana está curta. Esse negócio do visto já está me gerando tanto gasto, ainda mais com esse negócio de eu ter ido a São Paulo à toa, e agora ter que ir atrás de despachante. Eu nem imagino como vai estar a conta do cartão quando chegar. Mas entre extravagâncias e extravagâncias até que dava para espremer mais um pouquinho e colocar mais uminha. Só que:
6. Se ao menos tivesse levado mais roupa… Eu só tinha levado roupa para 2-3 dias. Ainda assim, eu até cogitei achar uma lavanderia (já que o item 5 restringe um pouco a compra de mais roupas, e de qualquer forma, eu só havia levado uma mochila, que já estava estourando de cheia). Só que:
7. Eu tinha me esquecido o que é chuva e não levei comigo sequer um sapato fechado ou uma meia, ou uma camisa de manga. E choveu direto por dois dias… Então eu precisava não só de lavanderia, mas de sapato, agasalho, vai imaginando a figura… E tudo isso vai contra os itens 5 e 6.
Mas, olha, imagine que eu até pensei em fazer uma forcinha, nos esquemas 1-5, só para poder ficar em São Paulo até o dia nove de novembro de zero-zero-sete.
Você já está imaginando que isso tudo é só para eu poder ficar mais tempo no Instituto Paulo Freire, né? Ou então resolver logo o negócio do visto. Mas não: tanto um quanto outro dá para fazer em outra oportunidade, e apesar de eu ser uma pessoa impulsiva, até que eu sou paciente (por mais paradoxal que isso possa parecer).
Mas não é nada disso. O que eu queria está fazendo em São Paulo exatamente nesse momento era estar no Theatro Municipal. Ora, eu nunca fui ao Theatro Municipal, e teoricamente não há nada que esteja lá há tantas décadas que não possa esperar um pouco mais.
Quer dizer, tem algo que só está lá hoje, que eu nunca imaginaria ver no Brasil, assim, tão acessível ao público. É o tipo de coisa que não dá para voltar e ver de uma outra vez, ou fazer por despachante. Este algo é uma performance. Uma noite com alguém.
Pois imagine que a senhora Yoko Ono está se apresentando nesse momento em São Paulo. Eu que nem sabia que ela se apresentava assim, ainda mais que fazia turnê. E imagina que ela parece estar mais bonita hoje, com seus acho que 74 anos, do que há 40 anos, quando o mundo todo a conheceu. E imagina que o ingresso custava R$ 60,00 (não sei se inteira ou meia, mas que, de qualquer forma, é muito menos que muitas outras coisas).
E imagine que eu perdi uma coisa dessas!
Pois é. Dados os motivos 1-7 expostos acima, tudo o que me restou foi voltar para Brasília, e buscar consolo no bom e velho “Imagine”…

“In the middle of a dream,
In the middle of a dream,
I call your name:
Oh, Yoko…”
Post Mortem (parte 1 de 2)
É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais
(Renato Russo, Love in the Afternoon)
Quando o John Lennon morreu, eu tinha acabado de comemorar meu primeiro aniversário. A primeira vez que eu lembro de ter ouvido o nome do ex-Beatle — ou dos Beatles — foi em dezembro de 1990, quando passou na TV o filme “John e Yoko” e o show “Tributo a John Lennon”, para comemorar os dez anos de seu assassinato.
Eu tinha onze anos, e fiquei impressionada. Tínhamos acabado de comprar nosso primeiro video-cassete, e uma das primeiras fitas que a gente gravou continha esses dois programas. Em um mês eu devo ter assistido essa fita umas dez vezes, possivelmente mais. Como se isso não fosse suficiente, já que eu e meu irmão acabamos decorando os diálogos, nós às vezes dispensávamos a fita e fazíamos a dramatização ali nós dois, colocando um primo como terceiro figurante quando dava. Por algum motivo, o cara que dublava o John Lennon parecia ser o mesmo que dublava o Chapolin, o que deixava as cenas ainda mais memoráveis, e fazia a gente cair na gargalhada sem nem saber por quê. Os efeitos dessa maratona foram permanentes; quem duvidar, dê uma olhada neste meu post de abril, ou neste testemunho do meu irmão caçula.
Isso foi em dezembro de 1990. Em julho do mesmo ano morreu Cazuza. A gente estava de férias, e tínhamos parado em Três Marias no meio de uma viagem de carro Brasília-Rio. A notícia não pegou ninguém de surpresa– acho que a minha surpresa foi de saber que ele até o dia anterior ele ainda estava vivo. O Cazuza foi a primeira personalidade brasileira a assumir publicamente que era portador do vírus da AIDS, e a evolução da sua doença foi exaustivamente documentada pela mídia da época.
Apesar de não ser fan do Cazuza na época (não sei se eu era fan de alguma pessoa na época, talvez do Balão Mágico), eu conhecia muita música dele por osmose. Muita mesmo. Cazuza é o que até hoje eu defino como “música de clube”: era o que tocava nas rádios na época em que passávamos as tardes de sábado no clube nadando ou brincando de bola. Como esse era o único lugar que eu ouvia rádio na época — por que os alto-falantes eram tão altos e onipresentes a não dar outra opção — e como Cazuza era o que estava nas paradas do rádio, ergo Cazuza tornou-se um caso clássico de música de clube, ao menos para mim.
Mas assim, eu nunca pensei muito no Cazuza. Quer dizer, até o ano passado, quando assisti o filme baseado em sua vida. Daí lá foi Ester de novo ficar super-impressionada. Em um mês, eu devo ter visto o filme umas quatro ou cinco vezes. Comprei uns três discos, e pus para tocar o que eu já tinha e nunca havia parado para escutar muito. Por mais de mês não tocava mais nada no meu som. Virei fan de carteirinha. O cara é muito gênio, fala sério.
—-
Não perca no próximo episódio: Renato Russo e o “Por Toda Minha Vida” de 14 de setembro.
Alimento para a Alma
Ontem eu fui almoçar num lugar que há tempos eu não freqüentava. Teve uma época que eu ia lá quase todo domingo, em parte porque eles sempre tocavam discos dos Beatles. Dicos inteiros. Do começo ao fim.
Desta vez não era os Beatles que temperavam o ambiente, mas Elvis Presley. Nada mal, embora isso dificultasse o processo de prestar atenção nas minhas conversas (quando elas existiam — as distrações eram muitas). Depois do Elvis, veio uma salada de músicas dos anos 50 e 60, que fez não só eu, mas o pessoal da mesa do lado cantar.
Saindo do restaurante, entrei numa livraria em busca de inspiração. A inspiração veio, mas não tanto dos milhares e milhares de títulos tentadores, todos prometendo a solução para todos meus problemas (tenho certeza que a solução está lá em algum lugar, só que meu tempo de vida é limitado, e o número de livros no mundo – ou nas livrarias – parece não ser).
A inspiração veio pelos auto-falantes: eles tocavam “Help”, dos Beatles. E não se limitaram à primeira faixa do disco de mesmo nome (que por si só refletia bem meu estado de espírito e ironicamente o deixava mais leve). Eles tocaram o disco inteiro. Todas as quatorze faixas.
Como meu pobre irmão bem sabe,”Help” foi o primeiro disco que eu comprei, com minha própria mesada. Com a costumeira avidez de adolescente, eu pus esse disco para tocar até ele (o disco, não meu irmão) quase furar (o disco era de vinil, e a mesada limitava um pouco o repertório). Eu diria quase que eu escutei este disco “ad nauseam”, só que eu nunca enjoei dele (não sei se meu irmão pode dizer o mesmo). Eu decorei as letras todas (apesar de não saber inglês na época, o que nunca foi empecilho). Aprendi os acordes todos (duas coisas na minha vida que começou com os Beatles: inglês e violão). E agora na livraria, muitas mesadas depois, eu não conseguia de jeito nenhum lembrar a última vez que eu tinha ouvido esse disco.
Eu não estava procurando nada específico na livraria (além do significado da vida, do universo e de tudo que existe — como eu estava dizendo, nada específico). Então fiquei andando sem rumo de prateleira em prateleira. Percorri as estantes todas, de “Antropologia” a “Zoologia”, passando por “Saúde e Bem-Estar” e voltando via “Estilo de Vida Digital”, cantarolando, digo, cantando em alta voz, pronunciando deliberadamente cada palavra, lembrando da época que eu não sabia o que elas queriam dizer, mas as dizia saborosamente. Algumas pessoas por quem eu passava olhavam para mim confusas. Algumas outras estavam compenetradas demais em suas buscas, e enquanto outras estavam compenetradas cantando também (principalmente durante “Yesterday”, durante “Act Naturally” nem tanto.)
No último acorde de “Dizzy Miss Lizzy”, minha busca por inspiração se deu por terminada. Voltei para casa, completamente satisfeita com meu especial de domingo: almoço e livraria. E até agora eu não sei dizer se o que repunha minhas energias naquele restaurante era a comida ou se era a música.