Arquivo para Autobiografia
Ode ao trabalho
Sem trabalho não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade
(Renato Russo, Música de Trabalho, 1996)
Acho que já comentei aqui
De como sempre fui apaixonada por trabalho
Desde muito antes de terminar o primeiro grau
Seguia os classificados de domingo religiosamente
Suspirando em espera do dia que poderia dizer
“Segundo grau completo, tenho, sim, senhor”
Tirei minha carteira de trabalho aos 14
Depois de muita insistência e birra
(“puxa, só depois dos 14?”)
Primeiro registro veio aos 16
(“demorou, hein, caramba!)
Carteira assinada no ensino médio
Era minha maior vaidade
Tem gente que não têm nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber
De trabalhar
Vim para o Canadá aos 19
Trabalho? Tem que ser legal.
E legal por muito tempo
Era só na universidade
Universo pequeno
Todo verão, era aquela história
Eu feito doida atrás de emprego
On campus, legítimo; “frescura,”
Todo mundo me dizia.
Frescura. Gente sendo deportada
A torto, a direito e aos montes.
E eu, fresca
Sem querer me sujeitar a fazer
O que me tinha sido proibido
Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria
Ô, castração
Não ter permissão de trabalhar
Legalmente, legitimamente
Sem ser favor, sem ser esmola
Trabalho honesto, puxa vida
É pedir demais?
Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade
Ô inveja. Confessemos, demos nomes aos bois:
Eu tinha in-ve-ja. Inveja de quem tinha emprego
Chato, entediante, besta, mas emprego
Legal, e legítimo. Digno. Papel passado.
(A inveja era tanta que eu nem considerava
Como até o emprego pode ser desumanizante.)
Exigido e proibido. Recompensado e punido
O luxo é qual: ter ou não ter?
Não sei.
Mas ter é uma honra
É uma dádiva, um direito básico
O mínimo necessário
Que me pode ser possível agora
Permitido, ainda não
Mas possível ao menos.
Possível, espero
Primeiro de Maio
Dia de São José Operário
Fiz minha noveninha
Pedido que zele pelo meu trabalho
E pelos que trabalham
Pelos que oferecem, que regulam
Que proíbem ou destorcem
Pelos que o desprezam e desvalorizam
Pelos que muito o prezam e de que muito precisam
São José Operário
Roga por todos nós
E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p’rá casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos
Já que ninguém está vendo… (Parte 2)
Foi no fim de novembro que eu assisti “Ensaio sobre a Cegueira” e o documentário sobre James Orbinski. Desde então eu estava só querendo achar um tempo para escrever o post anterior, mas dezembro entrou no meio e daí o que já era difícil ficou dificílimo.
Eu estava de passagem comprada para o Brasil o dia 10 de dezembro. E eu tinha prometido para mim mesma e para meio mundo que eu só voltava para o Brasil com uma primeira versão da tese pronta — uma promessa pouquíssimo realista, mas que eu tentei cumprir até o último momento o melhor que pude.
Adicione-se a isso tudo o fato dessa viagem para o Brasil marcar minha sexta mudança em dois anos, pode-se dizer portanto que os primeiros dez dias de dezembro estavam prometendo. Tempo para blogar, respirar ou qualquer outra coisa estava zero, se não abaixo de zero.
A manhã de 10 de dezembro de 2008 me encontrou acordada, de mala quase toda pronta, pilhada a base de cafeína e adrenalina, e super orgulhosa de mim mesma. Havia semanas que eu trabalhava dia, noite e fim de semana. Minha média diária de sono não devia passar de 4 ou 5 horas por dia, uma façanha considerável, ainda mais considerando as temperaturas sub-zero e os dias cada vez mais curtos pré-solstício de inverno.
Mas após 7 anos tendo sérias suspeitas de que o doutorado era na verdade um buraco negro no qual tempo e energia desaparecia dentro do vácuo, de repente eu vi meu trabalho começar a ter resultados, e isso me enchia de uma alegria e uma energia sem precedentes.
Adicione-se a isso 1) o fato que naquelas três semanas eu tinha tocado três vezes com as minhas duas bandas (e, modéstia parte, nossas apresentações tinham sido o máximo!) e 2) o fato que também naquelas semanas eu tinha conseguido me aproximar de vários amigos que estavam afastados (alguns geograficamente, outros mais que isso), pode-se dizer que a manhã de 10 de dezembro me fez acreditar que eu dava conta de fazer o impossível.
Quando o sol chegou ao meio dia, eu já tinha relido, imprimido e entregado ao meu orientador a versão mais recente da minha tese. Por mais que eu soubesse que ela estava longe de estar acabada, eu também sabia que nunca na história desse país eu já havia chegado a tal grau de acabamento, e isso me deixava radiante.
Sorrindo até as orelhas, eu saí do meu departamento em direção à biblioteca, onde tenho um cubículo de um metro quadrado que é só meu, e onde deixei os pertences que não poderia trazer ao Brasil nessa viagem.
Tendo deixado meu cubículo em ordem, percebi subitamente que 1) eu precisava desesperadamente de cafeína e 2) eu não tinha um tostão na minha carteira. Decidi portanto parar no Massey College, que não só tinha cafezinho à vontade, mas era do lado da biblioteca, e caminho para casa. Eu não fazia a mínima idéia de que hora do dia ou da noite era aquela.
Indo ao refeitório atrás do meu café, descobri para minha grande surpresa que o almoço estava para ser retirado. Eu, que não lembrava da última refeição que tinha tido, resolvi pegar o finzinho da bóia. Tendo pegado meu prato, sentei sozinha no refeitório quase vazio.
A essa altura, só havia um grupo, três homens, terminando seu almoço, lá na outra ponta do refeitório, diagonalmente de onde eu estava. Com a minha fome, falta de sono, adrenalina a mil, carência de cafeína, e pressa para terminar de fazer tudo que eu tinha que fazer antes de entrar no avião naquela noite, foi só quando eu estava quase terminando de almoçar que eu percebi que um daqueles três senhores na minha diagonal era James Orbinski, sentado de costas para mim.
Era mesmo? Era. E no estado em que eu me encontrava naquele momento, eu não tinha tempo, espaço ou energia disponível para gastar com auto-censura.
O momento era esse. Nada me barrava.
Já que ninguém está vendo… (Parte 1)
Um dia desse fui no cinema assistir “Ensaio sobre a Cegueira.” Eu estava bem empolgada, primeiro porque muita gente tinha me falado bem do livro, e segundo, porque as filmagens foram feitas no Brasil, e eu estava no Brasil quando elas foram feitas.
Meus sentimentos ao sair do cinema são um pouco mais difíceis de descrever. Parte de mim achou que a premissa era forte, mas que o filme ia longe demais. O que me incomodava não era nem o fato de que algumas cenas eram extremamente violentas e/ou desagradáveis, mas o fato delas parecerem gratuitas. No quesito verossimilhança, portanto, o filme perdia muito ponto. Cheguei então ao meu veredito quanto o filme: desagradável demais para ser verdade. Ponto. O que mostra como que eu não sei de nada mesmo.
Alguns dias depois, fui assistir “Triagem: O dilema humanitário de James Orbinski. Entrei na sala com o filme começando, e o sentimento de “que legal, eu conheço esse lugar, eu conheço esse rosto” me deixou toda contente.
Quando eu mudei para Toronto em 2002, Massey College, uma residência da Universidade de Toronto, foi minha primeira morada (ainda hoje ela é minha base no Canadá). Eu morei lá um pouco mais de dois anos, em cujo período também morava lá o senhor James Orbinski com sua esposa Rolie Srivastava.
Os dois sempre foram membros ativos da comunidade, e sempre muito dispostos a bater papo com os membros menos famosos da comunidade, tipo eu. Mas eu, na minha timidez fora do comum, nunca nunca, nesses quase sete anos, tinha tido a coragem de dirigir mais do que um sorriso e aceno de cabeça ao vê-los passar.
Eu sabia que ele era muito famoso, e que ele tinha estado em Ruanda durante o genocídio em 1994. Eu até suspeitava que ele tinha ganhado o prêmio Nobel, mas disso eu não tinha muita certeza, porque na minha cabeça me parecia muito inacreditável que um ganhador do prêmio Nobel fosse meu vizinho.
Mais de seis anos depois, estou eu numa sala de cinema assistindo um documentário sobre meu ex-vizinho James Orbinski. O rosto conhecido e o cenário conhecido me deram uma sensação de proximidade que eu nunca tinha tido numa sala de cinema.
À medida que o filme foi passando, o sentimento de dejà-vu foi intensificando, mas de uma maneira muito bizarra: de repente, parecia que eu estava assistindo “Ensaio sobre a Cegueira” de novo! O absurdo de que as pessoas são capazes de fazer quando sabem que “não tem ninguém vendo mesmo” e o heroísmo quase que involuntário das pessoas que se vêem prestando cuidados em circunstâncias para lá de degradantes, sem saber se elas próprias vão sair vivas daquela situação são coisas absolutamente arrepiantes.
De repente, me vi tomada das mesmas emoções que senti assistindo “Ensaio sobre a Cegueira.” Só que agora não dava para eu colocar meus sentimentos numa caixinha hermeticamente fechada e rotulada como “sentimentos à toa causados por uma história de ficção para lá de exagerada.” Ruanda não foi ficção. Aconteceu de verdade. E eu conheço alguém que estava lá.
“O Dilema Humanitário de James Orbinski” é na verdade e de verdade um “Ensaio sobre a Cegueira”: uma cegueira mundial e muito real. Por dias e dias, fiquei em estado de choque.
Sete e sete são quatorze…
Nos últimos dez dias, o número de grupos de brasileiros que eu vi aqui em Toronto – na rua, no parque, na universidade, nos restaurantes — deve ter ultrapassado 20. Eu digo “grupos”, porque se fosse para contar as pessoas, acho que dava mais de cem. Tem família com criança, tem universitários, e tem adolescentes que andam em dúzias, com crachazinho dependurado no pescoço.
Motivo? Estamos em julho, mês de férias. E a economia brasileira está numa fase boa – como disse o New York Times na segunda-feira dia 7 e o Yahoo-EUA na terça dia 8. E o Yahoo-Brasil de ontem tinha uma chamada principal enorme de título “Estudar no Exterior Rules.” Toronto é exterior, é relativamente barato se comparado a outros exteriores, tem vôo direto de São Paulo… A lista de bons motivos para brasileiros passarem férias aqui é grande.
Minha primeira reação quando eu vi un grupo de adolescentes brasileiros andando junto com crachazinho na universidade semana passada (depois do reajuste cognitivo “peraí, eu conheço essa língua – ah, é português!” ) foi “ah, é julho, mês de férias. Mas nossa, essa meninada parece criança demais para está viajando sozinha…” Dentro de instantes eu própria me corrigi: “Nossa, Ester, você está ficando velha mesmo, com essa história de “mas eles são tão jovens!” Lembra que a primeira vez que você viajou para o exterior? Você tinha 14 anos, estava completamente desacompanhada, e não viu nada demais nisso…”
Isso foi em julho de 1994, há exatamente 14 anos. Eu saí do Brasil no primeiro dia da nossa moeda atual, o real – um período em que depois de décadas de inflação absurda, começou-se um período de estabilidade econômica sem precedentes. Tinha mais ou menos um ano que eu tinha começado a estudar inglês, e 30 dias na Inglaterra me ajudou a melhorar muito. A família com quem eu fiquei foi sensacional, e até hoje somos amigos. Fico pensando que se aquela experiência não tivesse sido tão positiva, provavelmente eu não teria tomado a decisão de fazer faculdade fora do Brasil – e de ficar fora do Brasil por todos esses anos.
Milhões de coisas aconteceram naqueles trinta dias em julho de 1994, e até hoje eu lebro da seqüência de eventos e de emoções, como se tivesse sido ano passado. Minha curva de aprendizado na época estava a todo o vapor. E isso me fez pensar no seguinte:
Em julho de 1994, 14 anos atrás, eu tinha 14 anos. Hoje eu tenho 28. Podemos considerar aquela viagem como o marco de 50% da minha vida até agora. Dividamos essas duas metades ao meio. Temos então quatro vezes sete anos, que podem ser analisados da seguinte maneira:
- 0-7 anos: muitas coisas aconteceram na minha vida – começando pela minha própria vida. Nesses sete anos eu nasci, aprendi a caminhar, a falar, a ler, e muitas outras coisas. O mundo passou da década de 70 para a década de 80. Minha curva de aprendizado: lá em cima, tendendo a 90 graus (pi radiandos).
- 7-14 anos: muitas coisas aconteceram de novo. Passagem da infância, via puberdade, até adolescência – mudança pra caramba. Primeiros namorados. Comecei a aprender uma língua estrangeira. Comecei a tocar violão. Saí do Brasil pela primeira vez. Passamos dos anos 80 para os anos 90. Curva de aprendizado: ainda lá em cima.
- 14-21 anos: várias coisas novas de novo. Aos 14 anos eu não tinha nem começado o segundo grau; com 21 já tinha me formado na faculdade e começado um doutorado. Nesses sete anos, viajei bastante. Aprendi mais línguas novas. Mudei para outros países. Chegou o tão esperado terceiro milênio. Curva de aprendizado: ainda altíssima.
- 21-28 anos: nada muito novo. Nada de década nova, nem milênio novo. Eu era uma doutoranda com 21 anos, continuo sendo aos 28. Está certo que nem é o mesmo doutorado. E está certo que eu me mudei de cidade, de departamento, de área de estudos. Mas o que me espanta é que nos últimos 7 anos – ou seja, 25% da minha vida, e 100% da minha maioridade legal – eu me apresento como sendo uma “doutoranda estrangeira.” É tempo pra caramba. Está na hora de ou parar de ser estrangeira, ou de ser doutoranda: de preferência as duas coisas. Curva de aprendizado: completamente horizontal.
As coincidências não param por aí. Julho é o mês 7. Eu nasci no dia 14. Eu fiz minha graduação em 3 anos e meio – 7 semestres: o que quer dizer que eu já passei o dobro de tempo sendo doutoranda do que sendo graduanda. Sinceramente, eu acho que eu tenho que me formar antes de fazer 29 anos, nem que seja só para manter essas proporções tão harmônicas. Mas será que eu consigo? Não sei dizer…
O que me espanta é que nesses sete anos gente que nem pensava em existir não só nasceu, mas aprendeu a andar, falar, a ler. E outros passaram da infância à adolescência, via puberdade. Começaram a estudar uma lingual estrangeira, e a tocar violão, e a viajar para o exterior. Tiveram o primeiro beijo, ou o primeiro filho (ou o segundo, ou terceiro). Alguns casaram e separam. Terminaram o Segundo grau e a faculdade. Aliás, tem um rapaz que estavava no segundo grau quando eu o conheci, no meu primeiro ano como pós-graduanda na Massey College (parte da universidade de Toronto). Hoje em dia ele é também um pós-graduando na Massey College. E eu ainda estou aqui, no mesmo lugar. Minha curva de aprendizado: estagnação total.
Então talvez eu esteje ficando velha mesmo, com aquele tipo de invejinha que os adultos sentem das gerações mais novas. Enquanto criança ou adolescente, a gente nunca sente invejinha dos mais novos, só dos mais velhos. Eu já cruzei aquele limiar que divide a fase em que a gente tenta de tudo parecer mais velho do que é, e agora estou no lado de cá, onde se tenta parecer mas novo do que se é. Mas eu ainda não cheguei naquela idade que se caracteriza por sua sabedoria e paciência – aliás, estou muito longe de chegar lá. E parte de mim acha isso bom (“Beleza, ainda não estou tão velha assim!”) enquanto outra parte quer apressar as coisas (“falta muito para eu adquirir paciência? E sabedoria, rola um atalho até lá? Não? Pô, porque não? Como assim? Tá demorando, viu? Agiliza, vai…”)
E assim são as pessoas e as criaturas…
Mudanças súbitas
Há uns vinte dias, mais ou menos, estava conversando com meu amigo Danilo, com quem não conversava desde que estive em Montreal em fevereiro. Ele me fez aquela pergunta super inocente: “então, que há de novo?”
Suspirei fundo e respondi: “Nada.”
“Como assim, ‘nada’? Três meses se passaram, você foi ao Brasil e voltou, e você me diz que não tem nenhuma novidade?”
”É. A tese continua na mesma, as incertezas continuam as mesmas, o computador que eu comprei naquela época continua com aqueles problemas que você viu, até o dedão do pé que eu machuquei naquele dia que a gente foi patinar no gelo ainda está roxo.”
“Caramba! É mesmo?”
“É. Posso dizer portanto que mudaram as estações, mas nada mudou. Aliás, nem isso mudou muito, porque continua frio pra caramba, se considerarmos que estamos em maio.”
“Ai, tá frio mesmo. Mas escuta, nem o dedão sarou?”
“Sarou não. A unha do dedão do pé direito caiu na véspera de eu vir para o Canadá. A do pé esquerdo ainda está com 50% de sua superfície de cor azul-aroxeado, e nem é esmalte. Aliás, antes da outra cair, eu estava mantendo as duas a base de esmalte bem escuro, o que não só ajuda na aparência delas, mas me faz esquecer que elas estão machucadas. Não fosse por isso eu estaria mancando até hoje, só de ver o estado delas…”
“E o computador?”
“Ah, outra novela. Aquele Windows Vista não vale nada. Completamente não-funcional. E o Microsoft Office 2007, meu Deus, que difícil. E a minha cópia original do XP e do Office 2003 estão ainda guardados numa caixa na casa da minha amiga que mora há uma hora daqui — e é quase impossível achá-los para comprar. Acabou que mal cheguei aqui em Toronto, o meu computador pifou por completo — e isso eu tendo que começar meu trabalho novo com ele no dia seguinte! No momento do aperto, uma colega me emprestou os cds de instalação dela, e da-lhe nós reformatando o disco para reinstalar tudo de novo, e achar tudo quanto é driver… Tudo isso só como um band-aid temporário: o meu código não bate com os discos que ela me deu, o que quer dizer que estou aqui na contagem regressiva até o computador dá pau de novo (“29 dias para autenticar sua cópia do Windows, 28, 27… 13, 12, 11…, 4, 3, 2…”). Crônica de uma morte anunciada…”
***
Uma semana depois dessa conversa, várias mudanças súbitas ocorreram, o que prova que as coisas não desenvolvem sempre linearmente, mas aos trancos e barrancos:
1) Tudo começou com uma árvore que fica em frente ao lugar onde trabalho e estudo. Um dia ela estava lá, grande, frondosa, emblemática. Duas horas depois só estava o talo, de diâmetro enorme, mas todo podre por dentro.
2) Um hóspede que tinha confirmado e reconfirmado sua estada (estadia?) na última hora não apareceu. Motivo: ataque do coração. O que quer dizer que nenhum plano é tão rígido que não pode ser mudado na última hora. O que reforça o esquema carpe diem. (Para os preocupados: o hospéde está bem e já voltou para casa).
3) O clima do nada resolveu ficar quente: de 12 graus a 36 (isso mesmo, 36) da noite pro dia.
4) O computador pifou três dias depois do anunciado (numa segunda-feira, ao invés da sexta, só para me manter em suspense). Mas minha outra amiga veio, me trouxe minhas caixas todas, inclusive a que continha meus cds de instalação. Em duas horas, consegui reformatar o disco — de novo — e reinstalar tudo, tudo — de novo. O código foi aceito sem problemas, os drivers foram todos instalados, e depois de três meses duvidando da bondade da idéia de ter comprado esse computador novo, eis que tudo deu certo e vivemos todos felizes para sempre. Ainda estou ralando para entender o novo WordPress (com esses problemas computadoriais, perdi o pique de blogar, e agora está tudo diferente!), e o novo Windows Player 11 também não ajuda (tá tudo branco! Ao invés da telinha psicodélica, tem as capinhas dos meus discos para eu escolher. Tudo tão estranho!). Mas como é bom ter um computador que funciona!
5) Meu supervisor passou de “cético de que as mudaças que eu propus para minha tese fossem realmente necessárias/desejáveis/factíveis” a “muito empolgado com o novo direcionamento da tese.” Viva! Mas hoje é dia de vê-lo de novo, o que quer dizer que tudo ainda pode acontecer.
6) Depois de três meses tendo parado de tomar meu remédio anti-acne (parei de tomar aqui no Canadá, em fevereiro, por causa do frio, depois de só três meses de tratamento), minhas espinhas voltaram a todo vapor, como flores desabrochando na primavera. Ai, ai…
7) E, por último, a mais recente mudança súbita da semana (por enquanto): a unha do dedão do meu pé esquerdo caiu. Sozinha, do nada. Estava eu andando de sandália na chuva, sábado à noite. Cheguei em casa, tirei a sandália molhada, e ao enxugar os pés, percebi que metade da unha não estava lá. Não vi cair, e nem doeu. Sem titubear, lasquei o esmalte rosa-choque por cima. Afinal, é verão, época de esbanjar sapatos abertos, oras (já não me bastassem as espinhas querendo interferir com a alegria veranil de andar na rua sem estar encapotado da cabeça aos pés…).
Pois é, pois é. Mudaram as estações… mas eu sei que alguma coisa aconteceu…
Ah se todos dodóis da vida pudessem ser esquecidos com uma dose de esmalte rosa-choque…
Irritações
A primeira semana de volta a Toronto foi complicada:
1. Eu não gosto de reclamar muito do frio, mas o clima não estava ajudando. Na primeira semana de fevereiro, as escolas em Toronto fecharam duas vezes por causa da neve. Eu estava no maior estresse preparando para ver meu orientador pela primeira vez em seis meses. Duas horas antes do horário combinado, a universidade inteira fechou por causa da neve. A reunião com meu orientador passou para a semana seguinte, o que quer dizer, mais outros cinco dias de ansiedade. Eba!
2. Minhas roupas de inverno estavam na casa de uma amiga que mora a cerca de uma hora de Toronto. Na minha obsessão com planejar e organizar tudo com antecedência, eu esqueci de combinar de pegar minhas roupas com minha amiga. Acabou que na semana que eu cheguei em Toronto ela estava viajando com a família. Eba!
3. Por causa do remédio contra a acne, minha pele reagiu feio ao frio e às botas nova que comprei por causa do item 2. Tive então que comprar creme e mais creme, que ao invés de aliviar a sensação, provocavam o efeito contrário, de irritar ainda mais. Todo mundo que encontrava comentavam como eu estava “corada.” Lá pelas tantas eu cansei de explicar que não era bronzeado, e sim alergia, e passei simplesmente a sorrir e agradecer o elogio.
4. Quando a minha amiga voltou com a família, fui visitá-la. Aproveitei a oportunidade para olhar o que eu tinha deixado na garagem dela, e filtrar o que eu precisava com mais urgência. Não dava para trazer tudo comigo, mas pelo menos dava para selecionar algumas coisas de maior prioridade, e separar outras para ela trazer da próxima vez que ela fosse para cidade de carro (ela geralmente vai de transporte público, que é mais fácil, barato e prático do que carro). Resultado: acabou que a combinação caixas, frio, livros, poeira, peso e cansaço dispararam uma crise alérgica, e passei dois dias de cama com rinite, sinusite ou similar.
5. Quando, alguns dias depois, minha amiga pode vir de carro para a cidade, uma nevasca fez com que ela desse meia-volta depois de passar quatro horas na estrada. Minhas malinhas então monopolizaram o bagageiro do carro dela por mais alguns dias, o que aumentou exponencialmente minha vergonha pelo incoveniente causado.
6. No meio disso tudo, enquanto eu ainda estava recuperando da rinite, houve um vazamento na casa da amiga onde estou hospedada. Eu estava sozinha em casa quando o pequeno ”dilúvio” começou. Mais tarde, depois que estava tudo sob controle, e eu morrendo de vergonha tentava explicar para minha amiga o que tinha acontecido na casa dela na sua ausência, ela me disse algo que me fez pensar: “Ester, não precisa se desculpar, está tudo bem, você não poderia ter feito mais nada. Além do mais, coisas são só coisas. Coisas não importam, pessoas sim.”
Coisas não importam, pessoas sim. E foi aí que eu decidi parar de me importar tanto com coisas que eu não posso controlar (vide items 1-6). Complicava um pouco o fato da minha pele estar irritada, o que me tornava muito mais facilmente irritável, irritada e irritante. Então resolvi parar de tomar o tal remédio para acne, e isso parece que resolveu o problema. O clima melhorou. Minha amiga troxe minhas malas. A sinusite-rinite sarou. Minhas roupas novas me caem bem (apesar de agora eu ter mais roupas de inverno do que eu tinha quando eu morava aqui). Vi meu orientador algumas vezes. Agora é só esperar a reunião com o resto da banca na sexta-feira, o que em si nunca é uma experiência muito agradável. Mas eu estou tentando encará-la como uma ida ao dentista: ninguém gosta, mas a maioria sobrevive. (Claro que anestesia torna o processo todo menos desagradável. Mas minha reunião é pela manhã, e acho que não pegaria bem se eu chegasse na reunião levemente embriagada.)
Moral da história, como diria Bob McFerrin:
“In every life there’s some trouble.
When you worry you make it double.
So don’t worry, be happy”
(“Toda vida tem seus problemas
A preocupação só os faz multiplicar
Então não se preocupe, alegre-se”)
Bom conselho!
Violão não é bagagem de mão? (Último capítulo)
Série completa:
Parte 8: Chega!
Telepatia dessa vez não funcionou, e o jeito foi esperar chegar em São Paulo. Depois de outras duas horas de vôo, desembarque, polícia federal e retirada de bagagem, estava eu de novo na longa fila do check-in, já me preparando para um novo confronto.
“Próximo! Identidade, por favor. Qual o destino?”
Resolvi partir para o ataque.
“Moça, é o seguinte. Eu estou vindo do Canadá, de mudança para Brasília. Eu sei que vai dar excesso,” (o limite para vôo doméstico é de 23kg total) “mas será que dá para dar um desconto?”
“Ah, claro! Deixa eu pesar sua bagagem para ver o que dá para fazer. São quantas?”
“São três.”
“E tem bagagem de mão?”
“Ih, lá vem de novo…” “Tenho. Duas.”
“Ah, senhora, sinto muito. Só pode levar uma bagagem de mão.”
“Preparar. Apontar. Fogo!” “Quer dizer que eu não posso entrar com essa mochila e o violão?”, eu disse, com voz forte, espichando a coluna para não dá na cara que a mochila passava muito dos 5 kg permitidos.
“Ah, não, senhora. Violão não conta como bagagem de mão não. Pode entrar com ele e a mochila sem problema.”
Então finalmente, depois de tantas aventuras, Arquimedes e eu chegamos juntos, sãos e salvos em casa (mais salvos do que sãos, diga-se de passagem).
E foi assim que eu descobri que, seja no Canadá, seja no Brasil, violão realmente não é bagagem de mão.
FIM
Violão não é bagagem de mão? (Parte 7)
“É seu esse violão?” perguntou o comissário de bordo.
”Ih, ferrou…” pensei cá comigo.
“É meu sim,” falei com cara de desentendida.
“Algum problema?”
“Você sabe tocar?”
“Sei”
“Se eu pedir para tocar uma música para mim você toca?”
Por uma fração de segundo eu achei essa perguntação toda muito esquisita. Mas logo lembrei que esse pessoal de aeroporto às vezes faz perguntas aparentemente inocentes mas cheias de segundas intenções, para pegar o mentiroso desatento.
(Caso clássico: “Você está indo para onde?” “Cuiabá.” “Fazer o quê?” “Eu moro lá.” “Há quanto tempo?” “Desde criança.” “Ok. Mato Grosso é MG, certo?” O viajante desatento ou desinformado concorda, e daí até provar que pingo não é letra, já perdeu o vôo.)
Me achando muito esperta, e vendo um sorriso na cara do cara, respondi: “Toco, claro que toco. É para tocar?”
“Ah, eu acho tão bonito mulher tocar violão… Eu queria saber tocar também. Agora mesmo está indo um tanto de gente tocar num festival em Dublin. Me deu uma vontade de estar nesse vôo…”
Nisso a voz do comandante espalhou-se por todos auto-falantes: “Atenção, tripulação, preparar para a decolagem.” O comissário sorridente concluíu a paquera com uma piscadinha e disparou corredor a frente fechando bagageiro e verificando cintos de segurança.
Eu disparei a rir descontroladamente e me segurei para não chamar atenção demais. Questão de segurança.
* * * * *
“Atenção, senhores passageiros!”
Acordei assustada com a agressividade dos auto-falantes e das luzes ofuscantes acesas de uma vez.
“Dentro de instantes daremos início ao nosso serviço de café-da-manhã.”
Olho pela janelinha: ainda é noite. Olho para o relógio: 4:45 da manhã. Meio cedo para tomar café, não? O comandante corrige meus pensamentos:
“Agora são cinco horas e quarenta e cinco minutos no horário local. Podemos ver à direita da aeronave a cidade de Brasília. O nosso tempo de vôo até São Paulo é de aproximadamente mais duas horas, com o pouso previsto para as sete e cinqüenta, desembarque para as oito horas e sete minutos.”
Olho para o relógio. Ainda falta tanto tempo. E depois do desembarque tem fila da alfândega. Depois tem que pegar bagagem. Depois fila de check-in de novo. Depois esperar um tantão para embarcar, outras duas horas de vôo, para, com sorte, chegar em Brasília antes da janta.
Olho pela janela e vejo as luzinhas da minha cidade que ainda dorme lá em baixo. “Ei, essa é a minha parada! Eu quero descer aqui! Cadê a cordinha para eu dar o sinal?”
Violão não é bagagem de mão? (Parte 6)
Ao telefone
“Olha, tá tudo bem.” Meus olhos corriam de um lado para o outro como um pêndulo nervoso. “Tá, tá no horário certinho.” Ninguém me interceptou ainda. “Não, sem problema.” É, parece que não tem ninguém me observando.
A vontade era de dizer que eu estava entrando com o violão escondido, que eu estava com as pernas tremendo, que eu tinha burlado o sistema, blefado, camuflado, que eu me sentia uma verdadeira contrabandista. Mas vai que nisso alguém me escuta e começasse a achar que o negócio era bem mais feio do que na verdade era? Até que eu provar que pingo não era letra, muita água ia ter que passar de baixo da ponte, e aí eu corria o risco da vaca ir para o brejo e dar com os burros n´água. Melhor eu ficar na minha.
“Tá, tá tudo ótimo. Beijo. Até amanhã.”
Embarque
Desliguei o telefone e fiquei aguardando meu vôo. Às vezes acontece que a pessoa do check-in depois vai para o portão ajudar no embarque. Eu estava então morrendo de medo de dar de cara de novo com a tia do check-in. A espera deve durado uma hora, mas para mim foram duzentas.
Reparei que tinha outro jovem violeiro na área. Quando finalmente chamaram para o embarque, fiquei esperando ele passar primeiro, e fiquei só na espreita.
Alívio número um foi que a tia do check-in não veio fazer o embarque. Legal. Alívio número dois foi que o violeiro entrou sem parecer ter tido problema. Beleza.
Mesmo assim, escolhi uma fila que passasse à direita do balcão. Por quê? Ora, porque assim o funcionário que pegasse meu cartão de embarque ficaria à minha esquerda. E daí? Ora, e daí que eu carrego o violão com o ombro direito. Dessa forma, o braço que entrega o bilhete não é o mesmo que carrega o violão. Tudo planejado nos mínimos detalhes para não chamar atenção.
O Túnel da Verdade
O cara pegou meu bilhete, entregou o canhoto e me desejou boa viagem. Um obstáculo a menos. Mas agora é que iam ser elas: quando (conforme descrito na parte 4, “Apegos e Desapegos”) compus o “Discurso da Apreensão”(note bem o trocadilho), na minha cabeça o pano de fundo de todo o discurso era o túnel que leva ao avião. Ali bem na curva, quase já na porta da aeronave.
O perigo então ainda estava por vir. O túnel da verdade se estendia à minha frente. Entrei, com a cara e a coragem, esperando ser abordada a qualquer momento. Fiz a curvinha, já contando com o pior.
Nada. Entrei no avião.
“É agora!”, pensei.
No avião
“Seu bilhete, senhora. Corredor a esquerda, no final.” A moça nem olhou para o meu violão.
Achei meu assento e coloquei o violão no bagageiro logo acima (que para minha surpresa estava completamente vazio). Sentei já pegando o cobertozinho, me cobri, coloquei o fone de ouvido e respirei aliviada. Deu certo.
Mais um perigo
Mal me acomodei, logo chegou alguém para sentar ao meu lado, no assento do corredor (o meu era o da janela, só tinha dois). Abriu o bagageiro, colocou sua maleta e sentou, deixando o bagageiro aberto. Não gostei. Mas também não quis reclamar, para não chamar atenção.
Aumentei o volume do mp3 para escapar das conversas chatas (“Puxa, véi, Paris é muito melhor que Montreal, nem se compara. Os franceses são chatos, mas são chiques.”). Compenetrada nos meus sudokus, nem vi quando fecharam as portas da aeronave e a tripulação veio fechando os bagageiros para preparar para a decolagem.
Quando vi, o comissário de bordo estava conversando com o cara do meu lado. Fingi que nem vi, e fiquei só rezando. Até que o carinha do meu lado me cutucou dizendo para quem quisesse ouvir: “Meu não. Deve ser dela.”
Gelei.
Violão não é bagagem de mão? (Parte 5)
Retrospectiva da série:
Parte 5:
A consciência a pesar nas costas
Sorri agradecida, respirei fundo de novo e passei pela portinha da segurança. Tirei o violão e a mochila das costas e pus na esteira. Mostrei meu bilhete. Passei pelo detector de metais, virando para trás toda hora, piscando para meu amigo e estalando os dedos como quem sabe que está fazendo coisa errada e diz “eita ferro!”. Bandeira total: minha cara de poker típica.
Tendo passado pelo detector, o segurança pegou meu violão e disse em voz forte e clara: “Senhora, seu violão…” Olhei para ele esperando mais. “Senhora, seu violão: não pode levar!” Ou então: “Senhora, seu violão: está apreendido, queira me acompanhar!” Ou ainda: “Senhora, seu violão: tem que despachar. A multa é de mil dólares!”
Mas não. Foi só: “Senhora, seu violão. Boa viagem!”
O desvio no Duty Free
Que estranho. Os carinhas da segurança (que em geral são os mais cri-cri de todos) não sabiam dessa que violão não é bagagem de mão. Acenei mais uma vez para meu amigo (e ainda acrescentei um “jóia” sorridente com o polegar) e segui rumo ao portão de embarque.
Mais adiante avistei do lado direito do corredor em que estava um balcão de informações da Air Canada. Do lado esquerdo, uma loja Duty Free gigante, com saída lá para o outro lado. Não tive dúvidas. Eu nem gosto de Duty Free, mas como o balcão daAir Canada tinha três atendentes e nenhum cliente, resolvi não dar muito na vista. O labirinto de balcões da Duty Free me caiu como uma bela camurflagem.
O último portal
Tendo sobrevivido mais esse perigo sã e salva (na verdade, mais salva do que sã), fui passando de um portão de embarque a outro até chegar no meu. Nesse percurso, vi pelo menos outros três violeiros. Que estranho. Será que eles não sabem que violão não é bagagem de mão? Ou será que a cara de poker deles era assim tão melhor que a minha? Não dava para saber.
Cheguei então ao meu portão. Como ainda faltava um tempinho para embarcar, resolvi ligar para meus pais em Brasília para dizer que estava tudo bem.