Já que ninguém está vendo… (Parte 2)

Foi no fim de novembro que eu assisti “Ensaio sobre a Cegueira” e o documentário sobre James Orbinski. Desde então eu estava só querendo achar um tempo para escrever o post anterior, mas dezembro entrou no meio e daí o que já era difícil ficou dificílimo. 

Eu estava de passagem comprada para o Brasil o dia 10 de dezembro. E eu tinha prometido para mim mesma e para meio mundo que eu só voltava para o Brasil com uma primeira versão da tese pronta — uma promessa pouquíssimo realista, mas que eu tentei cumprir até o último momento o melhor que pude.

Adicione-se a isso tudo o fato dessa viagem para o Brasil marcar minha sexta mudança em dois anos, pode-se dizer portanto que os primeiros dez dias de dezembro estavam prometendo. Tempo para blogar, respirar ou qualquer outra coisa estava zero, se não abaixo de zero.

A manhã de 10 de dezembro de 2008 me encontrou acordada, de mala quase toda pronta, pilhada a base de cafeína e adrenalina, e super orgulhosa de mim mesma. Havia semanas que eu trabalhava dia, noite e fim de semana. Minha média diária de sono não devia passar de 4 ou 5 horas por dia, uma façanha considerável, ainda mais considerando as temperaturas sub-zero e os dias cada vez mais curtos pré-solstício de inverno.  

Mas após 7 anos tendo sérias suspeitas de que o doutorado era na verdade um buraco negro no qual tempo e energia desaparecia dentro do vácuo, de repente eu vi meu trabalho começar a ter resultados, e isso me enchia de uma alegria e uma energia sem precedentes.

Adicione-se a isso 1) o fato que naquelas três semanas eu tinha tocado três vezes com as minhas duas bandas (e, modéstia parte, nossas apresentações tinham sido o máximo!) e 2) o fato que também naquelas semanas eu tinha conseguido me aproximar de vários amigos que estavam afastados (alguns geograficamente, outros mais que isso), pode-se dizer que a manhã de 10 de dezembro me fez acreditar que eu dava conta de fazer o impossível.

Quando o sol chegou ao meio dia,  eu já tinha relido, imprimido e entregado ao meu orientador a versão mais recente da minha tese. Por mais que eu soubesse que ela estava longe de estar acabada, eu também sabia que nunca na história desse país eu já havia chegado a tal grau de acabamento, e isso me deixava radiante.

Sorrindo até as orelhas, eu saí do meu departamento em direção à biblioteca, onde tenho um cubículo de um metro quadrado que é só meu, e onde deixei os pertences que não poderia trazer ao Brasil nessa viagem.

Tendo deixado meu cubículo em ordem, percebi subitamente que 1) eu precisava desesperadamente de cafeína e 2) eu não tinha um tostão na minha carteira. Decidi portanto parar no Massey College, que não só tinha cafezinho à vontade, mas era do lado da biblioteca, e caminho para casa. Eu não fazia a mínima idéia de que hora do dia ou da noite era aquela.

Indo ao refeitório atrás do meu café, descobri para minha grande surpresa que o almoço estava para ser retirado. Eu, que não lembrava da última refeição que tinha tido, resolvi pegar o finzinho da bóia. Tendo pegado meu prato, sentei sozinha no refeitório quase vazio.

A essa altura, só havia um grupo, três homens, terminando seu almoço, lá na outra ponta do refeitório, diagonalmente de onde eu estava. Com a minha fome, falta de sono, adrenalina a mil, carência de cafeína, e pressa para terminar de fazer tudo que eu tinha que fazer antes de entrar no avião naquela noite, foi só quando eu estava quase terminando de almoçar que eu percebi que um daqueles três senhores na minha diagonal era James Orbinski, sentado de costas para mim.

Era mesmo? Era. E no estado em que eu me encontrava naquele momento, eu não tinha tempo, espaço ou energia disponível para gastar com auto-censura.

O momento era esse. Nada me barrava.

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