Já que ninguém está vendo… (Parte 1)

Um dia desse fui no cinema assistir “Ensaio sobre a Cegueira.” Eu estava bem empolgada, primeiro porque muita gente tinha me falado bem do livro, e segundo, porque as filmagens foram feitas no Brasil, e eu estava no Brasil quando elas foram feitas.

Meus sentimentos ao sair do cinema são um pouco mais difíceis de descrever. Parte de mim achou que a premissa era forte, mas que o filme ia longe demais. O que me incomodava não era nem o fato de que algumas cenas eram extremamente violentas e/ou desagradáveis, mas o fato delas parecerem gratuitas. No quesito verossimilhança, portanto, o filme perdia muito ponto. Cheguei então ao meu veredito quanto o filme: desagradável demais para ser verdade. Ponto. O que mostra como que eu não sei de nada mesmo.

Alguns dias depois, fui assistir “Triagem: O dilema humanitário de James Orbinski. Entrei na sala com o filme começando, e o sentimento de “que legal, eu conheço esse lugar, eu conheço esse rosto” me deixou toda contente.

Quando eu mudei para Toronto em 2002, Massey College, uma residência da Universidade de Toronto, foi minha primeira morada (ainda hoje ela é minha base no Canadá). Eu morei lá um pouco mais de dois anos, em cujo período também morava lá o senhor James Orbinski com sua esposa Rolie Srivastava.

Os dois sempre foram membros ativos da comunidade, e sempre muito dispostos a bater papo com os membros menos famosos da comunidade, tipo eu. Mas  eu, na minha timidez fora do comum, nunca nunca, nesses quase sete anos, tinha tido a coragem de dirigir mais do que um sorriso e aceno de cabeça ao vê-los passar.

Eu sabia que ele era muito famoso, e que ele tinha estado em Ruanda durante o genocídio em 1994. Eu até suspeitava que ele tinha ganhado o prêmio Nobel, mas disso eu não tinha muita certeza, porque na minha cabeça me parecia muito inacreditável que um ganhador do prêmio Nobel fosse meu vizinho.

Mais de seis anos depois, estou eu numa sala de cinema assistindo um documentário sobre meu ex-vizinho James Orbinski. O rosto conhecido e o cenário conhecido me deram uma sensação de proximidade que eu nunca tinha tido numa sala de cinema.

À medida que o filme foi passando, o sentimento de dejà-vu foi intensificando, mas de uma maneira muito bizarra: de repente, parecia que eu estava assistindo “Ensaio sobre a Cegueira” de novo!  O absurdo de que as pessoas são capazes de fazer quando sabem que “não tem ninguém vendo mesmo” e o heroísmo quase que involuntário das pessoas que se vêem prestando cuidados em circunstâncias para lá de degradantes, sem saber se elas próprias vão sair vivas daquela situação são coisas absolutamente arrepiantes.

De repente, me vi tomada das mesmas emoções que senti assistindo “Ensaio sobre a Cegueira.” Só que agora não dava para eu colocar meus sentimentos numa caixinha hermeticamente fechada e rotulada como “sentimentos à toa causados por uma história de ficção para lá de exagerada.” Ruanda não foi ficção. Aconteceu de verdade. E eu conheço alguém que estava lá.

“O Dilema Humanitário de James Orbinski” é na verdade e de verdade um “Ensaio sobre a Cegueira”: uma cegueira mundial e muito real.  Por dias e dias, fiquei em estado de choque.

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