Arquivo para Julho, 2008
Sete e sete são quatorze…
Nos últimos dez dias, o número de grupos de brasileiros que eu vi aqui em Toronto – na rua, no parque, na universidade, nos restaurantes — deve ter ultrapassado 20. Eu digo “grupos”, porque se fosse para contar as pessoas, acho que dava mais de cem. Tem família com criança, tem universitários, e tem adolescentes que andam em dúzias, com crachazinho dependurado no pescoço.
Motivo? Estamos em julho, mês de férias. E a economia brasileira está numa fase boa – como disse o New York Times na segunda-feira dia 7 e o Yahoo-EUA na terça dia 8. E o Yahoo-Brasil de ontem tinha uma chamada principal enorme de título “Estudar no Exterior Rules.” Toronto é exterior, é relativamente barato se comparado a outros exteriores, tem vôo direto de São Paulo… A lista de bons motivos para brasileiros passarem férias aqui é grande.
Minha primeira reação quando eu vi un grupo de adolescentes brasileiros andando junto com crachazinho na universidade semana passada (depois do reajuste cognitivo “peraí, eu conheço essa língua – ah, é português!” ) foi “ah, é julho, mês de férias. Mas nossa, essa meninada parece criança demais para está viajando sozinha…” Dentro de instantes eu própria me corrigi: “Nossa, Ester, você está ficando velha mesmo, com essa história de “mas eles são tão jovens!” Lembra que a primeira vez que você viajou para o exterior? Você tinha 14 anos, estava completamente desacompanhada, e não viu nada demais nisso…”
Isso foi em julho de 1994, há exatamente 14 anos. Eu saí do Brasil no primeiro dia da nossa moeda atual, o real – um período em que depois de décadas de inflação absurda, começou-se um período de estabilidade econômica sem precedentes. Tinha mais ou menos um ano que eu tinha começado a estudar inglês, e 30 dias na Inglaterra me ajudou a melhorar muito. A família com quem eu fiquei foi sensacional, e até hoje somos amigos. Fico pensando que se aquela experiência não tivesse sido tão positiva, provavelmente eu não teria tomado a decisão de fazer faculdade fora do Brasil – e de ficar fora do Brasil por todos esses anos.
Milhões de coisas aconteceram naqueles trinta dias em julho de 1994, e até hoje eu lebro da seqüência de eventos e de emoções, como se tivesse sido ano passado. Minha curva de aprendizado na época estava a todo o vapor. E isso me fez pensar no seguinte:
Em julho de 1994, 14 anos atrás, eu tinha 14 anos. Hoje eu tenho 28. Podemos considerar aquela viagem como o marco de 50% da minha vida até agora. Dividamos essas duas metades ao meio. Temos então quatro vezes sete anos, que podem ser analisados da seguinte maneira:
- 0-7 anos: muitas coisas aconteceram na minha vida – começando pela minha própria vida. Nesses sete anos eu nasci, aprendi a caminhar, a falar, a ler, e muitas outras coisas. O mundo passou da década de 70 para a década de 80. Minha curva de aprendizado: lá em cima, tendendo a 90 graus (pi radiandos).
- 7-14 anos: muitas coisas aconteceram de novo. Passagem da infância, via puberdade, até adolescência – mudança pra caramba. Primeiros namorados. Comecei a aprender uma língua estrangeira. Comecei a tocar violão. Saí do Brasil pela primeira vez. Passamos dos anos 80 para os anos 90. Curva de aprendizado: ainda lá em cima.
- 14-21 anos: várias coisas novas de novo. Aos 14 anos eu não tinha nem começado o segundo grau; com 21 já tinha me formado na faculdade e começado um doutorado. Nesses sete anos, viajei bastante. Aprendi mais línguas novas. Mudei para outros países. Chegou o tão esperado terceiro milênio. Curva de aprendizado: ainda altíssima.
- 21-28 anos: nada muito novo. Nada de década nova, nem milênio novo. Eu era uma doutoranda com 21 anos, continuo sendo aos 28. Está certo que nem é o mesmo doutorado. E está certo que eu me mudei de cidade, de departamento, de área de estudos. Mas o que me espanta é que nos últimos 7 anos – ou seja, 25% da minha vida, e 100% da minha maioridade legal – eu me apresento como sendo uma “doutoranda estrangeira.” É tempo pra caramba. Está na hora de ou parar de ser estrangeira, ou de ser doutoranda: de preferência as duas coisas. Curva de aprendizado: completamente horizontal.
As coincidências não param por aí. Julho é o mês 7. Eu nasci no dia 14. Eu fiz minha graduação em 3 anos e meio – 7 semestres: o que quer dizer que eu já passei o dobro de tempo sendo doutoranda do que sendo graduanda. Sinceramente, eu acho que eu tenho que me formar antes de fazer 29 anos, nem que seja só para manter essas proporções tão harmônicas. Mas será que eu consigo? Não sei dizer…
O que me espanta é que nesses sete anos gente que nem pensava em existir não só nasceu, mas aprendeu a andar, falar, a ler. E outros passaram da infância à adolescência, via puberdade. Começaram a estudar uma lingual estrangeira, e a tocar violão, e a viajar para o exterior. Tiveram o primeiro beijo, ou o primeiro filho (ou o segundo, ou terceiro). Alguns casaram e separam. Terminaram o Segundo grau e a faculdade. Aliás, tem um rapaz que estavava no segundo grau quando eu o conheci, no meu primeiro ano como pós-graduanda na Massey College (parte da universidade de Toronto). Hoje em dia ele é também um pós-graduando na Massey College. E eu ainda estou aqui, no mesmo lugar. Minha curva de aprendizado: estagnação total.
Então talvez eu esteje ficando velha mesmo, com aquele tipo de invejinha que os adultos sentem das gerações mais novas. Enquanto criança ou adolescente, a gente nunca sente invejinha dos mais novos, só dos mais velhos. Eu já cruzei aquele limiar que divide a fase em que a gente tenta de tudo parecer mais velho do que é, e agora estou no lado de cá, onde se tenta parecer mas novo do que se é. Mas eu ainda não cheguei naquela idade que se caracteriza por sua sabedoria e paciência – aliás, estou muito longe de chegar lá. E parte de mim acha isso bom (“Beleza, ainda não estou tão velha assim!”) enquanto outra parte quer apressar as coisas (“falta muito para eu adquirir paciência? E sabedoria, rola um atalho até lá? Não? Pô, porque não? Como assim? Tá demorando, viu? Agiliza, vai…”)
E assim são as pessoas e as criaturas…
Conhecendo Paulo Freire
Meus amigos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) me perguntam se no Canadá alguém já ouviu falar do Paulo Freire. E sempre riem quando eu respondo: “Sim, eu por exemplo.”
Tenho passado muitas horas na biblioteca da faculdade de educação em Toronto — principalmente horas de sábado. Eis aqui uma foto de onde estudo:
Geralmente quando eu me apresento a alguém como sendo brasileira, não raro a pessoa responde: “Ah, terra do Pelé, que legal!” Exceto na faculdade de educação. Lá as pessoas respondem: “Que legal, terra do Paulo Freire!” Dá uma olhada no painel acima — canto inferior esquerdo:
No começo eu sorria amarelo: “Pois é… Não, nunca li nada dele não.. Sério mesmo… Pois é, vou ver…” Mas depois de um tempo, resolvi criar vergonha na cara: como assim esse povo todo é fã do Paulo Freire, e eu, sua compatriota, nunca li nada? Tenho que dar um jeito nisso, nem se for para dizer que li e não gostei.”
E daí eu li. E gostei para caramba. E virei fã de carteirinha. E minha vida — de estudante, de educadora, de brasileira, de estrangeira — nunca mais foi a mesma…


