Arquivo para Junho, 2008
Escrever e ticar, é só começar
Ultimamente, não tenho escrito muito porque 1) tenho estado muito ocupada e 2) nada de interessante tem acontecido. Como assim? Assim que tenho passado as últimas semanas entre trabalho e tese, e não só isso deixa pouca energia mental para blogar, mas também fiquei com pena dos meus cada vez menos fiéis leitores, lendo um post depois do outro sobre Ester tentando ser menos absorvida em si mesma — e fracassando terrivelmente.
Mas 1) tendo voltado a freqüentar a academia depois de cinco semanas de vida completamente sedentária, me lembrei que “muito ocupada” muitas vezes é desculpa esfarrapada. Muitas vezes é só questão de ajuste de prioridades. Endorfinas (reforço positivo) e dores musculares (reforço negativo) me fazem prometer nunca nunca nunca mais ficar tanto tempo sem ir a academia. E como já falei antes, blogar segue princípios semelhantes.
2) tendo assistido recentemente o filme “Mais Estranho que Ficção,” percebi que nenhuma vida é tão enfadonha a ponto de não render uma boa história — nem mesmo a minha. Então aqui vai mais uma dose de Ester descaradamente não fazendo nenhum esforço em ser menos absorvida em si mesmo.
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No dia 24 de maio, portanto há um mês e 5 dias, eu elaborei uma lista de leitura consistindo em 87 itens. Um dia inteiro foi só montando a tal lista – um belo dia de sábado por sinal, e eu enfurnada no subsolo da biblioteca, checando volume por volume de um certo periódico, anotando todo título que tinha remotamente alguma coisa a ver com a minha tese.
Depois da lista feita — pensei comigo — o resto era fácil: só ler os artigos, e ir ticando um por um. Dado que cada artigo tinha em média 5-7 páginas, e eu leio até rápido, calculei que uma ou duas semanas seriam mais do que suficiente para ler o que julguei ser mais ou menos 500 páginas — e ainda redigir um relatório sobre todo esse material.
Ledo engano. Primeiro, porque nem sempre cada um dos 87 itens correspondia a um artigo. Em alguns casos, o item era “todo o primeiro volume de 1993,” o que poderia ser 40, ou até 80 páginas se fosse um volume duplo. Segundo porque cinco páginas não eram bem cinco páginas padrão, daquelas que cabem em meia página A4 deitada. Na verdade, cada página era uma página A4 em pé, com três colunas, e a letra bem pequeninha. O que quer dizer que cada página valia por cinco: um artigo de cinco páginas tinha portanto conteúdo de quinze, e o que eu calculei como sendo 500 páginas estava mais para 1.500.
Paciência. Peguei minha caneta vermelha, fiz de conta que era trabalho de aluno, e mandei bala, lendo a cada minuto livre, no trabalho, na biblioteca, em cafés. Nisso, descobri várias coisas.
1. Que por mais que 1.500 páginas possam ser espremidas em 500, 500 ainda são um tantão para xerocar: em termos de tempo, dinheiro (10 centavos a página = 50 dólares!) e principalmente munheca. Ainda mais quando o artigo não atende suas expectativas, e a única satisfação que se tem em lê-lo é ticar um item da lista. E como esse periódico não é emprestável, resolvi que seria bom tentar passar o máximo de tempo lendo na própria biblioteca, e só xerocar os artigos que fossem realmente imprescindíveis.
2. Mas no verão, a biblioteca fecha cedo: 20hrs de segunda a quinta, 17hrs sexta e sábado, e fica fechada no domingo. Dado que eu trabalho de segunda a sexta até às 16hrs, o tempo eu posso passar na biblioteca fica um pouco restrito, com uma granda concentração no sábado. Várias vezes o segurança teve que me interromper no meio de um artigo, ou de uma fotocópia: “Senhora, a biblioteca já fechou, você tem que sair agora.” “Mas, moço, faltam só três páginas! Três páginas só!” “Senhora!”
3. Cafés são lugares bizarros quando observados com atenção e assiduidade. A maior parte do público que freqüenta cafés — e até dois meses atrás eu me encaixava nessa categoria — ou não freqüenta regularmente, ou não passa tempo suficiente. Alguns vão ao mesmo café todo dia, mas não passam mais de 10 minutos; outros passam uma hora ou duas, mas muito ocasionalmente. E outros vão acompanhados, o que interfere um pouco no fator ”atençao.” O que eu presenciei nessas últimas cinco semanas passando em média três horas por dia, seis dias por semana, em cafés, nossa, não está escrito — cada história… Talvez eu escreva sobre isso num futuro próximo. Ou não.
4. Uns dias atrás, descobri, ao pentear o cabelo, umas manchas vermelhas no meu couro cabeludo. Fiquei preocupada: seria sangue? Depois de tentar olhar mais de perto (difícil examinar direito o couro cabeludo…) descobri que eram manchas de caneta… Eu tenho mania de coçar a cabeça enquanto leio. Se faço isso à mão livre, no final do exercício meu cabelo está pura juba de leão. Mas nunca tinha feito isso com caneta — ao menos não com caneta vermelha (ou ao menos não que eu tenha percebido). Na pressa de terminar de pentear o cabelo para sair, tentei disfarçar os rabiscos mudando o jeito de partir o cabelo. Ótima idéia, não fosse pelo fato que eu consegui rabiscar minha cabeça quase inteira… Paciência…
Enfim, acabou que ontem o dia tão aguardado chegou: tiquei o último item nessa minha lista. Está bem que ao invés de uma semana, ela me levou uma semana e um mês! E isso só para ler: ainda tenho que escrever um relatório sobre ela todinha, para entregar sexta. Só que eu estou com uma preguiça…
E foi a preguiça de escrever que me levou a blogar… Irônico, não? Agora deixa eu curtir meu domingo, que ninguém é de ferro…
“Ester viu o Incrível Hulk na Universidade de Toronto”
“Que frase mais ambígua! Provavelmente ela quer dizer que a Ester assistiu o filme ‘O Incrível Hulk’ na Universidade de Toronto. Mas do jeito que está escrito, fica parecendo que a Ester viu um mostro verde andando na Universidade de Toronto, o que é muito improvável — incrível mesmo. Ao menos que a Ester tivesse visto alguém fazendo de conta que era o Incrível Hulk, tipo, se estivessem fazendo um filme, ou algo do tipo.”
“Ué, vai ver a frase não é ambígua — vai ver ela é polisêmica.”
“Como assim?”
“Seria ambígua se ela quisesse dizer só uma das coisas que você falou. Mas às vezes ela quer dizer as três coisas — em cujo caso ela merece um adjetivo mais caprichado que um reles ‘ambígua’. ‘Polisêmica’ é uma palavra muito mais massa!”
“Você acha mesmo que a Ester não só assistiu o filme na Universidade de Toronto, mas que ela viu o monstrão andando na universidade?”
“Bem, tem um cinema praticamente na universidade. E o parte do filme foi rodado em Toronto ano passado, então é possível que ela tenha visto quando eles estavam lá filmando. E mesmo que ela não estivesse, provavelmente dá para ela perceber que algumas das cenas que eram para ser em Virginia ou em Nova Iorque eram na verdade bem em frente de onde ela mora.”
“Acho isso tudo incrível demais — absolutamente inacreditível.”
“Pode ser incrível, mas talvez não seja impossível. Nunca se sabe…”
“E tem uma parte que é no Rio também, você viu? Aliás, com quase 200 milhões de brasileiros no mundo, custava ter chamado alguém que falasse português com um sotaque mais autêntico? Tipo, não só eles tinham 200 milhoes de pessoas da onde escolher, mas também 200 milhões de pessoas que conseguem perceber que ninguém no Rio fala daquele jeito… Não dava para entender nada…”
“Monstruosa a caracterização dos brasileiros, né? Fazer o quê…”
Mudanças súbitas
Há uns vinte dias, mais ou menos, estava conversando com meu amigo Danilo, com quem não conversava desde que estive em Montreal em fevereiro. Ele me fez aquela pergunta super inocente: “então, que há de novo?”
Suspirei fundo e respondi: “Nada.”
“Como assim, ‘nada’? Três meses se passaram, você foi ao Brasil e voltou, e você me diz que não tem nenhuma novidade?”
”É. A tese continua na mesma, as incertezas continuam as mesmas, o computador que eu comprei naquela época continua com aqueles problemas que você viu, até o dedão do pé que eu machuquei naquele dia que a gente foi patinar no gelo ainda está roxo.”
“Caramba! É mesmo?”
“É. Posso dizer portanto que mudaram as estações, mas nada mudou. Aliás, nem isso mudou muito, porque continua frio pra caramba, se considerarmos que estamos em maio.”
“Ai, tá frio mesmo. Mas escuta, nem o dedão sarou?”
“Sarou não. A unha do dedão do pé direito caiu na véspera de eu vir para o Canadá. A do pé esquerdo ainda está com 50% de sua superfície de cor azul-aroxeado, e nem é esmalte. Aliás, antes da outra cair, eu estava mantendo as duas a base de esmalte bem escuro, o que não só ajuda na aparência delas, mas me faz esquecer que elas estão machucadas. Não fosse por isso eu estaria mancando até hoje, só de ver o estado delas…”
“E o computador?”
“Ah, outra novela. Aquele Windows Vista não vale nada. Completamente não-funcional. E o Microsoft Office 2007, meu Deus, que difícil. E a minha cópia original do XP e do Office 2003 estão ainda guardados numa caixa na casa da minha amiga que mora há uma hora daqui — e é quase impossível achá-los para comprar. Acabou que mal cheguei aqui em Toronto, o meu computador pifou por completo — e isso eu tendo que começar meu trabalho novo com ele no dia seguinte! No momento do aperto, uma colega me emprestou os cds de instalação dela, e da-lhe nós reformatando o disco para reinstalar tudo de novo, e achar tudo quanto é driver… Tudo isso só como um band-aid temporário: o meu código não bate com os discos que ela me deu, o que quer dizer que estou aqui na contagem regressiva até o computador dá pau de novo (“29 dias para autenticar sua cópia do Windows, 28, 27… 13, 12, 11…, 4, 3, 2…”). Crônica de uma morte anunciada…”
***
Uma semana depois dessa conversa, várias mudanças súbitas ocorreram, o que prova que as coisas não desenvolvem sempre linearmente, mas aos trancos e barrancos:
1) Tudo começou com uma árvore que fica em frente ao lugar onde trabalho e estudo. Um dia ela estava lá, grande, frondosa, emblemática. Duas horas depois só estava o talo, de diâmetro enorme, mas todo podre por dentro.
2) Um hóspede que tinha confirmado e reconfirmado sua estada (estadia?) na última hora não apareceu. Motivo: ataque do coração. O que quer dizer que nenhum plano é tão rígido que não pode ser mudado na última hora. O que reforça o esquema carpe diem. (Para os preocupados: o hospéde está bem e já voltou para casa).
3) O clima do nada resolveu ficar quente: de 12 graus a 36 (isso mesmo, 36) da noite pro dia.
4) O computador pifou três dias depois do anunciado (numa segunda-feira, ao invés da sexta, só para me manter em suspense). Mas minha outra amiga veio, me trouxe minhas caixas todas, inclusive a que continha meus cds de instalação. Em duas horas, consegui reformatar o disco — de novo — e reinstalar tudo, tudo — de novo. O código foi aceito sem problemas, os drivers foram todos instalados, e depois de três meses duvidando da bondade da idéia de ter comprado esse computador novo, eis que tudo deu certo e vivemos todos felizes para sempre. Ainda estou ralando para entender o novo WordPress (com esses problemas computadoriais, perdi o pique de blogar, e agora está tudo diferente!), e o novo Windows Player 11 também não ajuda (tá tudo branco! Ao invés da telinha psicodélica, tem as capinhas dos meus discos para eu escolher. Tudo tão estranho!). Mas como é bom ter um computador que funciona!
5) Meu supervisor passou de “cético de que as mudaças que eu propus para minha tese fossem realmente necessárias/desejáveis/factíveis” a “muito empolgado com o novo direcionamento da tese.” Viva! Mas hoje é dia de vê-lo de novo, o que quer dizer que tudo ainda pode acontecer.
6) Depois de três meses tendo parado de tomar meu remédio anti-acne (parei de tomar aqui no Canadá, em fevereiro, por causa do frio, depois de só três meses de tratamento), minhas espinhas voltaram a todo vapor, como flores desabrochando na primavera. Ai, ai…
7) E, por último, a mais recente mudança súbita da semana (por enquanto): a unha do dedão do meu pé esquerdo caiu. Sozinha, do nada. Estava eu andando de sandália na chuva, sábado à noite. Cheguei em casa, tirei a sandália molhada, e ao enxugar os pés, percebi que metade da unha não estava lá. Não vi cair, e nem doeu. Sem titubear, lasquei o esmalte rosa-choque por cima. Afinal, é verão, época de esbanjar sapatos abertos, oras (já não me bastassem as espinhas querendo interferir com a alegria veranil de andar na rua sem estar encapotado da cabeça aos pés…).
Pois é, pois é. Mudaram as estações… mas eu sei que alguma coisa aconteceu…
Ah se todos dodóis da vida pudessem ser esquecidos com uma dose de esmalte rosa-choque…
No rodapé de “Inclusão e Democracia”
Segunda à tarde. Estava eu pacatamente lendo um livro de uma autora que gosto muito, Iris Marion Young. O título do livro era “Inclusion & Democracy.” O livro estava indo sem maiores surpresas, tirando a surpresa de eu não estar me empolgando tanto como com os outros livros — talvez por ser mais “ciência política” do que os outros livros que li, não sei. Dezenas e dezenas de páginas tinham-se passado sem um único post-it (o livro era emprestado, e novinho em folha — eu não podia grifar).
E eis que do nada uma nota de rodapé me faz pular da cadeira. A primeira vista, era uma nota nada notável: seis linhas, consistindo principalmente em referências bibliográficas. Nada que justificasse uma leitura muito detalhada. Mas foi justamente a minha incapacidade de pular notas de rodapé, por mais insignificantes e enfadonhas que elas pareçam, que ocasionou meu maior momento de surpresa lendo ”Inclusion and Democracy.” Diz a dona nota de número 13, página 248:
“A obra de Samir Amin é um clássico nesse assunto; vide Classe e Nação (New York: Monthly Review Press, 1980). Para uma formulação diferente e mais recente de uma análise com conclusão semelhante, vide Fernando Henrique Cardoso, ‘Relações Norte-Sul no Contexto Atual: Uma Nova Dependência,’ in M. Carnoy, M. Castells, S. Cohen, e F. Cardoso (eds), A Nova Economia Global na Era da Informação (University Park, Pennsylvania State University Press, 1993).” (Young, 2000, p. 248).
A minha surpresa foi ver uma referência ao Fernando Henrique Cardoso como acadêmico, sem nenhuma menção do fato dele ser presidente ou político — e olha que na época da publicação do livro, ele ainda era presidente do Brasil. Tipo, eu sabia que antes de ser presidente o FHC era um acadêmico, mas a ficha nunca tinha caído.
Na verdade, minha reação ao ler essa notinha foi uma mistura de várias emoções: aquele orgulho brasileiro de ver um um compatriota sendo referência internacional – por mais que fosse só uma notinha de rodapé; o ajuste emocional-cognitivo do fato do tal compatriota ser o FHC, de quem eu nao gosto muito, e da pessoa citando ser a Iris Marion Young, de quem eu gosto muito; o ceticismo acadêmico do fato deles terem chegado a “conclusões semelhantes” — porque no meu escasso conhecimento de ciências políticas o jeito ”neo-liberal” do FHC parece ser justamente o tipo de postura que a Young critica em sua obra.
E pensar que uma nota de pé de página tão simplória podia render tanta reflexão…