Arquivo para Maio, 2008

Deja vu visto de uma nova maneira

De volta a Toronto. De novo. Morando no mesmo de um ano atrás. Mesmo emprego também. Tese? Um pouco diferente, mas às vezes dando a impressão de estar no mesmo lugar. “Você aqui de novo?” “Mas você não estava ia voltar para o Brasil?” “Mudou de idéia?” Sim, sim, e não. O plano era esse mesmo. Só não sei se era um bom plano. 

Eu planejo demais, e analiso o passado demais também. O que quer dizer que sobra pouco tempo para curtir o presente. Resolução de verão: viver o presente, para variar um pouco. Aceitar o presente, ao invés de estar sempre com pressa, querendo mudar de fase. Nisso eu estou copiando um pouco uma amiga que resolveu de agora em diante ser mais espontânea. Espontaneidade planejada. Paradoxo? Vai assim mesmo. 

Nos meus oito anos na América do Norte, eu nunca senti muita saudade do Brasil, exceto talvez no último inverno, em que eu estava contando os dias para voltar para casa. Então de volta lá fui eu. Agora que eu passei os últimos meses lá, não me levou uma semana em Toronto para eu bater o recorde de saudade sentida.  Interessante. Mas é aqui que o tal viver no presente ajuda.

Eu encontrei meu chefe ontem pela primeira vez desde que voltei. Ele me fala, do nada: ”Ester, não sei se você está feliz de estar de volta, mas a gente com certeza está muito feliz de você estar de volta!” E eu nem estava reclamando da vida nem nada. Ele falou isso assim, sem mais nem menos. ”Pelo menos alguém está contente nessa história,” foi o primeiro pensamento que me passou pela cabeça.  Mas nesse momento de repente eu percebi que as pessoas em geral parecem estar alegres de me ver de volta. Nada assim “oh, não posso me conter de alegria.” Mas contentes, de qualquer forma.

Até o dono de um restaurante que eu costumo freqüentar me falou que sentiu minha falta ultimamente. Se donos de restaurantes sentem sua falta, isso é um sinal que você não é 100% invisível. Talvez um pouco excêntrica, mas invisível não. E se seu chefe diz que está contente de te ter você de volta, isso é indício de que você não é 100% inútil. Um pouco mais para lá do que pra cá talvez, mas ainda assim, capaz de fazer alguma coisa. E isso me fez bem. Minha tese raramente é gentil desse tanto.

Ontem eu recebi um email rejeitando um artigo meu para publicação. O surreal da história foi que os comentários do editor eram quase idênticos aos que os membros da minha banca tinham feito sobre o mesmo trabalho. Foi tipo um deja vu, só que com um efeito surpreendentemente reconfortante. “Reconfortante” aqui é usado da mesma maneira que uma segunda opinião médica confirmando um diagnóstico desfavorável pode ser classificado como “reconfortante.”  Mas pelo menos é algum tipo de definição, o que é bom.

Ainda no tema  deja vu, hoje foi minha primeira aula de Tai Chi, de novo. Mesmo instrutor do ano passado, mesma aula também. Sua didática não é a melhor que eu já vi nem de longe, e ficar de pé de braços abertos feito espantalho ainda faz três minutos parecerem três horas, que nem no ano passado.  Mas pelo menos me ajuda a evitar a tendinite. E pensar que nessa época ano passado eu nem sabia o que era tendinite. O que é indício de que mudaram as estações e pelo menos alguma coisa mudou. Legal. Acho que por hora chega de ficar comparando.  Carpe diem. Agarre o dia de hoje. Contanto que a tendinite se mantenha afastada, o dia será agarrado. 

E agora, de volta às tarefas.  Respira fundo e carpe diem nelas.