Arquivo para Abril, 2008
Exercitando as Sinapses
Durante uns bons vinte anos da minha vida, digamos, dos 4 aos 24 anos, eu sempre resisti fazer qualquer atividade física, com a desculpa, o medo, a impressão de “não dar conta.”
Era um ciclo vicioso: eu achava que não levava jeito para coisa, portanto nem tentava, e quando tentava me sentia completamente sem jeito para coisa, e ou me machucava ou me expunha ao ridículo, e portanto parava de tentar, por não achar que levava jeito para coisa, etc.
Na 5a série, por exemplo, comecei a fazer aula de vôlei depois da escola. Lembro do meu sentimento de frustração: todo mundo da minha idade sabia jogar “bem para caramba” e eu, só bola na cara. Eu não conseguia entender em que série foi que minhas coleguinhas aprenderam aquela matéria de saber jogar bem, mas tinha certeza que eu tinha perdido aquela aula, e portanto era uma vez, nunca mais. E foi assim que aos 11 eu decidi oficialmente não levava jeito para qualquer esporte.
A década que se seguiu me viu ficar cada vez mais sedentária, até lá pelo meu quarto ou quinto inverno na América do Norte, em que o frio de menos trinta por semanas a fio me fazia hibernar por mais de 12 horas diárias, e ainda ficar com preguiça. Pensei comigo que era impossível que eu não tinha três horas semanais sobrando para poder encaixar visitas à academia, quando eu desperdiçava quatro horas diariamente dormindo mais do que o necessário.
Desde então, meu relacionamento com meu próprio corpo tem melhorado muito. As três horas na marra que eu passava na academia se pagavam em dez vezes: não só eu dormia menos, mas os estudos rendiam mais, e a mudança na disposição e no humor não cansavam de me surpreender. Intelectualmente, eu sabia que exercício fazia bem. Mas nada como sentir na pele.
Hoje vejo que meu padrão do que “dou conta” inverteu por completo. Eu sempre tive dificuldade com esportes e nenhuma dificuldade com a escola. Agora que começo achar que não “levo jeito” para essa vida acadêmica, fico procurando nas minhas descobertas esportivas metáforas para transferir para a maratona da tese.
Por exemplo, no Canadá em fevereiro fui patinar no gelo, algo que sempre me deu muito medo. Sinapses exercitadas: se solta, Ester, se solta. Pára de querer segurar na gradinha, de querer andar passos pequenos, firmes, robóticos. Deixe-se deslizar. Curta o ritmo, o vento. Exercite sua flexibilidade. Resultado: muitas risadas, um dedão que ficou roxo por mais de mês, mas nenhum tombo.
Em fevereiro também fui esquiar estilo cross-country pela primeira vez. Sinapses exercitadas: caiu? levanta para cair de novo. Obstáculos muitos: subidas íngremes, descidas mais íngremes ainda, dores em músculos que você nem sabia que existia. Resultado: muitas risadas, roupa molhada de suor e de neve, roxos vários, orgulhosamente contados e relatados.
Agora, de volta a Brasília, estou me divertindo explorando rotas de bicicleta numa cidade tão automotiva. Sinapses exercitadas: buscar caminhos novos, atalhos que nem sempre são mais curtos, caminhos mais fáceis que nem sempre são os mais pertos.
E só Deus sabe o quanto estou precisando dessas sinapses todas para dar conta da minha tese…
Meta-aceitação
Hoje eu me aceito
Com meus talentos
E meus defeitos
Minhas coragens
Meus medos
Meus riso-lágrimas
Meus anseios
Não só erros
Mas os acertos
Eu aceito.
Contribuições
E atrapalhos
Meus confortos
E desconfortos
Minha dependência
Minha independência
Meu convívio
Minha solidão
Meu sonhar
Meu querer
Meu esperar
E meu desesperar
Meu fazer
E acontecer
E meu fazer
Que não acontece
E o mais difícil:
Hoje eu aceito
Aceitar
Mês IV
O personagem de Hugh Grant no filme “Um Grande Garoto” sofre de uma falta do que fazer tão crônica que ele costumava dividir o tempo em unidades de 30 minutos. Cortar o cabelo, 2 unidades. Jogar sinuca, 5 unidades. E assim por diante.
Eu tenho uma leve impressão que minha unidade de tempo é quatro meses. Para acrescentar ao que já disse sobre esse assunto no ano passado, olhemos o ano corrente.
Entramos agora no quarto mês do ano de 2008. Desses quatro meses, o primeiro passei todo em Brasília, seguido por um mês completo no Canadá. Agora já faz um mês que voltei para Brasília de novo, para retornar novamente ao Canadá daqui mais um mês. E dessa vez eu fico mais tempo: quatro meses.
Meu 2008 portanto se divirá em 3 períodos de 4 meses: o primeiro indo e vindo, o segundo todo indo e o terceiro todo vindo. Curioso não? Ou será que eu também começo mostrar sintomas de uma crônica falta do que fazer?