A primeira semana de volta a Toronto foi complicada:
1. Eu não gosto de reclamar muito do frio, mas o clima não estava ajudando. Na primeira semana de fevereiro, as escolas em Toronto fecharam duas vezes por causa da neve. Eu estava no maior estresse preparando para ver meu orientador pela primeira vez em seis meses. Duas horas antes do horário combinado, a universidade inteira fechou por causa da neve. A reunião com meu orientador passou para a semana seguinte, o que quer dizer, mais outros cinco dias de ansiedade. Eba!
2. Minhas roupas de inverno estavam na casa de uma amiga que mora a cerca de uma hora de Toronto. Na minha obsessão com planejar e organizar tudo com antecedência, eu esqueci de combinar de pegar minhas roupas com minha amiga. Acabou que na semana que eu cheguei em Toronto ela estava viajando com a família. Eba!
3. Por causa do remédio contra a acne, minha pele reagiu feio ao frio e às botas nova que comprei por causa do item 2. Tive então que comprar creme e mais creme, que ao invés de aliviar a sensação, provocavam o efeito contrário, de irritar ainda mais. Todo mundo que encontrava comentavam como eu estava “corada.” Lá pelas tantas eu cansei de explicar que não era bronzeado, e sim alergia, e passei simplesmente a sorrir e agradecer o elogio.
4. Quando a minha amiga voltou com a família, fui visitá-la. Aproveitei a oportunidade para olhar o que eu tinha deixado na garagem dela, e filtrar o que eu precisava com mais urgência. Não dava para trazer tudo comigo, mas pelo menos dava para selecionar algumas coisas de maior prioridade, e separar outras para ela trazer da próxima vez que ela fosse para cidade de carro (ela geralmente vai de transporte público, que é mais fácil, barato e prático do que carro). Resultado: acabou que a combinação caixas, frio, livros, poeira, peso e cansaço dispararam uma crise alérgica, e passei dois dias de cama com rinite, sinusite ou similar.
5. Quando, alguns dias depois, minha amiga pode vir de carro para a cidade, uma nevasca fez com que ela desse meia-volta depois de passar quatro horas na estrada. Minhas malinhas então monopolizaram o bagageiro do carro dela por mais alguns dias, o que aumentou exponencialmente minha vergonha pelo incoveniente causado.
6. No meio disso tudo, enquanto eu ainda estava recuperando da rinite, houve um vazamento na casa da amiga onde estou hospedada. Eu estava sozinha em casa quando o pequeno ”dilúvio” começou. Mais tarde, depois que estava tudo sob controle, e eu morrendo de vergonha tentava explicar para minha amiga o que tinha acontecido na casa dela na sua ausência, ela me disse algo que me fez pensar: “Ester, não precisa se desculpar, está tudo bem, você não poderia ter feito mais nada. Além do mais, coisas são só coisas. Coisas não importam, pessoas sim.”
Coisas não importam, pessoas sim. E foi aí que eu decidi parar de me importar tanto com coisas que eu não posso controlar (vide items 1-6). Complicava um pouco o fato da minha pele estar irritada, o que me tornava muito mais facilmente irritável, irritada e irritante. Então resolvi parar de tomar o tal remédio para acne, e isso parece que resolveu o problema. O clima melhorou. Minha amiga troxe minhas malas. A sinusite-rinite sarou. Minhas roupas novas me caem bem (apesar de agora eu ter mais roupas de inverno do que eu tinha quando eu morava aqui). Vi meu orientador algumas vezes. Agora é só esperar a reunião com o resto da banca na sexta-feira, o que em si nunca é uma experiência muito agradável. Mas eu estou tentando encará-la como uma ida ao dentista: ninguém gosta, mas a maioria sobrevive. (Claro que anestesia torna o processo todo menos desagradável. Mas minha reunião é pela manhã, e acho que não pegaria bem se eu chegasse na reunião levemente embriagada.)
Moral da história, como diria Bob McFerrin:
“In every life there’s some trouble.
When you worry you make it double.
So don’t worry, be happy”
(“Toda vida tem seus problemas
A preocupação só os faz multiplicar
Então não se preocupe, alegre-se”)
Bom conselho!