Arquivo para Fevereiro, 2008

Montreal

Montreal é legal. Mesmo quando a temperatura é 40 graus abaixo de zero, tem algo na cidade que me faz um bem lascado. Quando tinha 19 anos eu fui lá para passar quatro meses, e quando depois de dois anos tive que ir embora, não queria ir de jeito nenhum. Acabei indo para Toronto, pensando que lá seria legal também. Mas nada a ver.

Quando morava em Montreal, muitas vezes alguém me disse que tinha me visto andando sorrindo sozinha. Em Toronto, virei uma pessoa ranziza. Não sei se era a cidade em si ou o contexto: a paisagem exterior ou interior. Mas tem algo em Montreal até hoje que é só chegar, seja lá qual seja meu humor, em dois minutos na cidade eu já me sinto bem.

Em Toronto eu morei mais tempo e fiz muitos mais amigos. Mas Montreal sempre me fez me sentir mais em casa. Fico pensando se eu pensaria em retornar ao Brasil se eu estivesse ficado em Montreal.

Os amigos que eu tinha na minha época de Montreal moravam ambos em Campinas. Eles eram meus maiores companheiros das minhas aventuras lá, mesmo morando tão longe.

Curioso que no ano passado, mais ou menos na mesma época que eu resolvi voltar para o Brasil, os dois, sem terem contato nenhum um com o outro, acabaram mudando para Montreal. Engraçado as voltas que essa vida dá. Eu devo ter dito boas coisas de lá.

Me pergunto como teria sido se estivéssemos morando em Montreal na mesma época: era só o que eu queria quando eu morava lá. Mas quem sabe a gente precisava mesmo ir um de cada vez para poder cada um tirar o máximo de proveito da experiência?  

Impossível saber. Mas fiquei contente de passar uns dias em Montreal nessa minha visita invernal ao Canadá. Ir para Montreal sempre me enche de nostalgia, e agora que meus amigos de velhos tempos estão lá e felizes, a nostalgia foi ainda maior. Não dá para saber o que teria sido se o que foi tivesse sido diferente: subjuntivos são só subjuntivos. Mas ver pessoas que me conheciam quando eu andava sorrindo à toa nas ruas e andar à toa nas ruas em que eu andava sorrindo me fez um bem lascado. Um bem tangível e concreto.

Irritações

A primeira semana de volta a Toronto foi complicada:

1. Eu não gosto de reclamar muito do frio, mas o clima não estava ajudando. Na primeira semana de fevereiro, as escolas em Toronto fecharam duas vezes por causa da neve. Eu estava no maior estresse preparando para ver meu orientador pela primeira vez em seis meses. Duas horas antes do horário combinado, a universidade inteira fechou por causa da neve. A reunião com meu orientador passou para a semana seguinte, o que quer dizer, mais outros cinco dias de ansiedade. Eba!

2. Minhas roupas de inverno estavam na casa de uma amiga que mora a cerca de uma hora de Toronto. Na minha obsessão com planejar e organizar tudo com antecedência, eu esqueci de combinar de pegar minhas roupas com minha amiga. Acabou que na semana que eu cheguei em Toronto ela estava viajando com a família. Eba!

3. Por causa do remédio contra a acne, minha pele reagiu feio ao frio e às botas nova que comprei por causa do item 2. Tive então que comprar creme e mais creme, que ao invés de aliviar a sensação, provocavam o efeito contrário, de irritar ainda mais. Todo mundo que encontrava comentavam como eu estava “corada.” Lá pelas tantas eu cansei de explicar que não era bronzeado, e sim alergia, e passei simplesmente a sorrir e agradecer o elogio.

4. Quando a minha amiga voltou com a família, fui visitá-la. Aproveitei a oportunidade para olhar o que eu tinha deixado na garagem dela, e filtrar o que eu precisava com mais urgência. Não dava para trazer tudo comigo, mas pelo menos dava para selecionar algumas coisas de maior prioridade, e separar outras para ela trazer da próxima vez que ela fosse para cidade de carro (ela geralmente vai de transporte público, que é mais fácil, barato e prático do que carro). Resultado: acabou que a combinação caixas, frio, livros, poeira, peso e cansaço dispararam uma crise alérgica, e passei dois dias de cama com rinite, sinusite ou similar.

5. Quando, alguns dias depois, minha amiga pode vir de carro para a cidade, uma nevasca fez com que ela desse meia-volta depois de passar quatro horas na estrada. Minhas malinhas então monopolizaram o bagageiro do carro dela por mais alguns dias, o que aumentou exponencialmente minha vergonha pelo incoveniente causado.

6. No meio disso tudo, enquanto eu ainda estava recuperando da rinite, houve um vazamento na casa da amiga onde estou hospedada. Eu estava sozinha em casa quando o pequeno ”dilúvio” começou. Mais tarde, depois que estava tudo sob controle, e eu morrendo de vergonha tentava explicar para minha amiga o que tinha acontecido na casa dela na sua ausência, ela me disse algo que me fez pensar: “Ester, não precisa se desculpar, está tudo bem, você não poderia ter feito mais nada. Além do mais, coisas são só coisas. Coisas não importam, pessoas sim.”

Coisas não importam, pessoas sim. E foi aí que eu decidi parar de me importar tanto com coisas que eu não posso controlar (vide items 1-6). Complicava um pouco o fato da minha pele estar irritada, o que me tornava muito mais facilmente irritável, irritada e irritante. Então resolvi parar de tomar o tal remédio para acne, e isso parece que resolveu o problema. O clima melhorou. Minha amiga troxe minhas malas. A sinusite-rinite sarou. Minhas roupas novas me caem bem (apesar de agora eu ter mais roupas de inverno do que eu tinha quando eu morava aqui). Vi meu orientador algumas vezes. Agora é só esperar a reunião com o resto da banca na sexta-feira, o que em si nunca é uma experiência muito agradável. Mas eu estou tentando encará-la como uma ida ao dentista: ninguém gosta, mas a maioria sobrevive.  (Claro que anestesia torna o processo todo menos desagradável. Mas minha reunião é pela manhã, e acho que não pegaria bem se eu chegasse na reunião levemente embriagada.) 

Moral da história, como diria Bob McFerrin: 

“In every life there’s some trouble.
When you worry you make it double.
So don’t worry, be happy”

(“Toda vida tem seus problemas
A preocupação só os faz multiplicar
Então não se preocupe, alegre-se”)

Bom conselho!  

Toronto, o retorno

Seis meses voaram: hora de ir para Toronto, conforme combinado com minha banca. Ansiedade marcou os dias — aliás, semanas — que precederam a viagem. As pessoas me perguntavam se eu estava empolgada. Eu revirava e revirava meu espírito procurando a resposta, mas não, não era empolgação que eu estava sentindo. Parecia mais cansaço: eu estava exausta só de pensar na viagem. Exaustão por antecipação. A verdade era que eu não queria muito fazer essa viagem.

Cheguei em Toronto no meio dum vento gelante. A viagem em si não teve maiores emoções (ao contrário da viagem anterior). Os sete minutes de caminhada do metrô até a casa da minha amiga quase me matou de frio.  Como parte do meu super-planejamento de mudança, eu tinha deixado todas minhas roupas de inverno no Canadá, na casa de outra amiga. O que queria dizer que eu simplesmente não estava adequadamente vestida para aquele frio. 

Tinha, claro, minha velha jaqueta azul, que apesar de incrivelmente feia, é incrivelmente quente. (Tal jaqueta tinha sido aposentado havia uns dois anos, quando, depois de usá-la por tantos anos, sua feíura se tornou para lá de óbvia. Tenho dificuldade hoje em dia de entender como pude usar essa jaqueta por tanto tempo — ou até mesmo como pude comprá-la. Está certo que elá é para lá de quentinha, mas mesmo assim… Acho que meu gosto em roupas mudou um tanto nos últimos invernos).

Sob minha jaqueta azul quentinha apesar de feinha, eu vestia umas duas ou três camadas que não eram quentinhas o suficiente. Minhas blusas de frio também tinham ficado na casa da minha amiga. A verdade é que ninguém esperava que estaria tão frio — à principio eu achei que era só eu que tinha perdido o costume, mas todo mundo que encontrei nesse dia disse que aquele dia tinha sido frio muito acima da média. Que sorte a minha. 

Os sete minutos de caminhada pareceram sete horas. Duas vezes tive que parar para me proteger do vento e me aquecer. Meu rosto era o que mais sofria. Desde outubro estava tomando remédio para acne, cujo princípio é remover todo o óleo da pele. Sem a gordura natural, as bactérias responsáveis pela acne morrem, o que é bom. Mas sem a gordura natural, a pele perde sua camada de proteção contra as intempéries climáticas, o que não é muito bom. No Brasil, eu estava tomando todas as precauções de não sair de casa sem filtro solar. Mas ao chegar no Canadá nessa fria manhã, depois de passar o dia e a noite viajando, eu tinha esquecido deste cuidado. E o bronze resultante destes sete minutos gelados foi impressionante.

Finalmente cheguei na casa da minha amiga. Ela tinha deixado as chaves com o porteiro, dizendo que estaria em casa à noite. Minha primeira atitude foi tomar um banho. Para minha surpresa, notei ao me despir que meu corpo inteiro — pernas, braços, barriga — estavam vermelhinhos, como se eu tivesse passado um dia ensolarado numa praia nudista sem protetor solar.

Saí do banho às 9 da manhã. Lista de prioridades incluía: 1) comprar loção hidratante, 2) combinar de pegar minhas roupas de frio na casa da minha amiga, 3) tirar uma soneca. 

A soneca ganhou.

Admirável Mundo Novo II

A literatura infantil de Monteiro Lobato sempre me fascinou tanto que ano passado nessa época eu estava pensando seriamente em lhe dedicar uma boa porção da minha tese de doutorado, se não a tese toda. Mas daí me veio a brilhante idéia de que, para fazer isso, seria aconselhável ler também os livros que Lobato escreveu para adultos. Foi o que fiz, e uma prova disso é que todos os meus posts de fevereiro e março de 2007 foram dedicados a esse assunto. 

O último post dessa série  descreve a sensação provocada pelo livro que me fez abandonar por completo o projeto de tese sobre Lobato. A gota d´água tem por título “O Choque das Raças, ou, O Presidente Negro: romance americano do ano 2228.” Este livro foi escrito em 1926, e descreve uma campanha presidencial nos Estados Unidos num futuro muito distante na qual, pela primeira vez, os dois candidatos principais são um homem negro e uma mulher branca.  

Lobato tinha mudado do Brasil para Nova Iorque em 1922 e ficou surpreso com o racismo aberto que ele encontrou lá (não que não existisse racismo no Brasil, mas ele não era tão aberto). A campanha feminista para sufrágio universal também o impressionou bastante (no Brasil, mulheres só tiveram direito de voto em 1932). A combinação desses dois fatores deu origem ao “O Presidente Negro,” um livro contendo tanto racismo e sexismo de dar até náusea. 

No post do ano passado, eu disse que um dos motivos pelos quais Monteiro Lobato me impressiona é sua franqueza: ele sempre escrevia o que pensava, não estava nem aí quanto a chocar ou ofender. Essa característica teve o duplo efeito de gerar algumas das coisas mais geniais que eu já li (como ”O Sítio”), e algumas das coisas mais ofensivas que já li (como “O Presidente Negro”). 

Mas outra coisa que me impressiona é o jeito com que Lobato consegue prever umas situações que só se materializarão décadas depois (petróleo no Brasil, por exemplo). No caso da disputa raça vs. gênero no contexto da disputa presidencial americana, com todos os exageros absurdos de Lobato, as coincidências entre 2228 e 2008 são por vezes assustadoras. Sorte nossa que a realidade não é tão terrível quanto a ficção. Pelo menos assim espero.