Arquivo para Dezembro, 2007
Caminho da roça
Amanhã é dia de ir para roça; estamos aqui nos últimos preparativos para a viagem. Meu pai diz que Montalvânia (o município onde fica nossa fazenda) fica na intersecção de duas BRs que não existem. Como tem gente que acha que ele fala isso só de brincadeira, e como tendinite, falta de tempo, excesso de cansaço/preguiça, etc, me impedem de escrever muito, resolvi copiar um trechinho do blog do Luís Cláudio Guedes que comprova este fato curioso:
“A BR-030 quando, e se um dia for concluída, vai ligar Brasília ao litoral Sul da Bahia. No seu traçado original (que corta paisagens ainda quase intactas narradas no livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa), a rodovia tem previsão de passar por Montalvânia, no Norte de Minas, numa extensão, até Brasília, de 326,6 quilômetros. Em Montalvânia, a BR-030 cruza com a BR-135, que liga a região Sudeste a São Luís do Maranhão e também não possui pavimento no trecho que corta o extremo Norte de Minas.
Ligar Brasília a Montalvânia era o grande sonho do fundador daquela cidade, o pioneiro Antônio Montalvão (1917/1992), que chegou a abrir uma picada até a nova capital a golpes de machado e enxadão. Essa estrada deixaria o Norte de Minas a um “pulo” dos mercados importantes como Brasília, Anápolis e Goiânia, mas parece ser mesmo coisa de sonhador. Outra opção para ligar o Distrito Federal àquela região seria via Januária. Aécio já prometeu ligar por asfalto Januária a Cônego Marinho. Esta última parece ser a opção mais factível. Sonhar não custa nada.”
Nota Estérica: além da BR-030, uma outra opção para fazer o percurso Brasília-Montalvânia é ir pela Bahia até Cocos em pista asfaltada, e depois atravessar para Minas Gerais para completar o finalzinho da viagem na estrada de chão. Este trajeto, que passa por três regiões brasileiras (Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste), é praticamente duas vezes mais comprido (600km de asfalto + 40km de chão até Montalvânia + outros 30km de chão até a nossa propriedade), mas ainda consegue levar mais ou menos o mesmo tempo de viagem (sem contar que batuca bem menos, e tem o super lanche no posto do Rosário).
Todavia, no momento esta opção não é viável, dado que está quebrada a ponte sobre o rio Itaguari , que fica em Cocos, já no finalzinho da viagem. Nos resta então a bela BR-030, de chão como sempre, chovendo como nunca. O que confere a toda esse aventura um quê de quadrilha (de festa junina, claro):
“Olha a chuva!” “É ment… ah, não é não!”
“A ponte caiu!” “É ment… ah, não é não!”
Esforço repetitivo (II)
Era véspera do meu aniversário quando a dor ficou insuportável, e minha mãe me levou a um acupunturista que costumava tratar de minhas rinites, sinusites e outras manifestações alérgicas de minha infância.
Não visitava tal consultório desde 1990, quando mudamos para Cuiabá e as crises se perderam no caminho. Para minha surpresa, o lugar não tinha mudado uma vírgula: a mesma sala, os mesmos móveis simples todos no mesmo lugar. Só a sala que estava muito vazia: na minha época tinha que esperar horas, às vezes até em pé.
A secretária interrompeu minhas lembranças: “É a primeira vez?” Respondi que primeira vez não era, mas que tinha uns vinte anos que eu tinha estado lá. A moça mesmo assim resolveu buscar minha ficha, sob protestos do doutor (“20 anos muito tempo. 5 anos tudo bem, mas 20 muito.”) Vale dizer que o doutor também não tinha envelhecido uma vírgula.
Entrei no consultório, vi que os posters na parede continuavam os mesmos, deitei, e o doutor tomou meu pulso. “Inchado, né? Deve está doendo aqui nas costas também.” Como eu berrasse afirmativamente (50% dor, 25% surpresa de descobrir uma dor forte que eu nem sabia que tinha e 25% susto da rapidez do médico), ele não teve dúvidas: “É. Tendinite.” Foi só nessa hora que eu fiquei sabendo o nome da dita cuja.
Esforço repetitivo (I)
Faz agora um pouco mais de um mês desde que comecei a sofrer um sofrimento até então inédito para a minha pessoa: uma dorzinha chata que vai da maçã da mão, passando pela munheca, até chegar aos cotovelos: uma senhora inflamação nos tendões, também conhecida como Tendinite.
Essa dona foi chegando devagar, quase imperceptível. Comecei, porém, fazer Krav Magá, e descobri que a minha habilidade de fazer flexão – que sempre foi inexistente por falta de bíceps – tinha deteriorado mil por cento: eu não conseguia nem abrir a palma da mão no chão sem berrar de dor.
O tio não teve dúvidas em por toda a culpa no senhor Computador, e mandou que eu fizesse alongamento para munheca, mãos e dedos. Quem passasse ali desavisado provavelmente se divertiria em ver o contraste formado pelo pessoal que ralava na flexão, e eu, que sentadinha no tatame, cantava silenciosamente, compenetradíssima: “uma minhoquinha fazendo ginastiquinha; duas minhoquinhas…”
Mas a visita da dona Tendinita — digo, Tendinite — estava só começando. Como eu não a conhecia, julguei logo que estava lidando com sua prima, a barra-pesada dona DORT (Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho), vulgo LER (Lesão por Esforço Repetitivo).
Fiquei apavorada. Imaginei logo o que seria da minha pobre tese, abandonada para todo o sempre, possívelmente um diamante bruto que nunca veria a luz do sol. E daí eu já extrapolava e lamentava a carreira brilhante de escritora, podada na raiz por uma obsessão besta de digitar tudo o que precisa e não precisa só por gostar do tetec-tec do teclado.
Violão não é bagagem de mão? (Último capítulo)
Série completa:
Parte 8: Chega!
Telepatia dessa vez não funcionou, e o jeito foi esperar chegar em São Paulo. Depois de outras duas horas de vôo, desembarque, polícia federal e retirada de bagagem, estava eu de novo na longa fila do check-in, já me preparando para um novo confronto.
“Próximo! Identidade, por favor. Qual o destino?”
Resolvi partir para o ataque.
“Moça, é o seguinte. Eu estou vindo do Canadá, de mudança para Brasília. Eu sei que vai dar excesso,” (o limite para vôo doméstico é de 23kg total) “mas será que dá para dar um desconto?”
“Ah, claro! Deixa eu pesar sua bagagem para ver o que dá para fazer. São quantas?”
“São três.”
“E tem bagagem de mão?”
“Ih, lá vem de novo…” “Tenho. Duas.”
“Ah, senhora, sinto muito. Só pode levar uma bagagem de mão.”
“Preparar. Apontar. Fogo!” “Quer dizer que eu não posso entrar com essa mochila e o violão?”, eu disse, com voz forte, espichando a coluna para não dá na cara que a mochila passava muito dos 5 kg permitidos.
“Ah, não, senhora. Violão não conta como bagagem de mão não. Pode entrar com ele e a mochila sem problema.”
Então finalmente, depois de tantas aventuras, Arquimedes e eu chegamos juntos, sãos e salvos em casa (mais salvos do que sãos, diga-se de passagem).
E foi assim que eu descobri que, seja no Canadá, seja no Brasil, violão realmente não é bagagem de mão.
FIM