Arquivo para Novembro, 2007

Violão não é bagagem de mão? (Parte 7)

“É seu esse violão?” perguntou o comissário de bordo.

 ”Ih, ferrou…” pensei cá comigo.
“É meu sim,” falei com cara de desentendida.
“Algum problema?”

“Você sabe tocar?”

“Sei”

“Se eu pedir para tocar uma música para mim você toca?”

Por uma fração de segundo eu achei essa perguntação toda muito esquisita. Mas logo lembrei que esse pessoal de aeroporto às vezes faz perguntas aparentemente inocentes mas cheias de segundas intenções, para pegar o mentiroso desatento.

(Caso clássico: “Você está indo para onde?” “Cuiabá.” “Fazer o quê?” “Eu moro lá.” “Há quanto tempo?” “Desde criança.” “Ok. Mato Grosso é MG, certo?” O viajante desatento ou desinformado concorda, e daí até provar que pingo não é letra, já perdeu o vôo.)

Me achando muito esperta, e vendo um sorriso na cara do cara, respondi: “Toco, claro que toco. É para tocar?”

“Ah, eu acho tão bonito mulher tocar violão… Eu queria saber tocar também. Agora mesmo está indo um tanto de gente tocar num festival em Dublin. Me deu uma vontade de estar nesse vôo…”

Nisso a voz do comandante espalhou-se por todos auto-falantes: “Atenção, tripulação, preparar para a decolagem.” O comissário sorridente concluíu a paquera com uma piscadinha e disparou corredor a frente fechando bagageiro e verificando cintos de segurança.

Eu disparei a rir descontroladamente e me segurei para não chamar atenção demais. Questão de segurança.

* * * * *

“Atenção, senhores passageiros!”

Acordei assustada com a agressividade dos auto-falantes e das luzes ofuscantes acesas de uma vez.

“Dentro de instantes daremos início ao nosso serviço de café-da-manhã.”

Olho pela janelinha: ainda é noite. Olho para o relógio: 4:45 da manhã. Meio cedo para tomar café, não? O comandante corrige meus pensamentos:

“Agora são cinco horas e quarenta e cinco minutos no horário local. Podemos ver à direita da aeronave a cidade de Brasília. O nosso tempo de vôo até São Paulo é de aproximadamente mais duas horas, com o pouso previsto para as sete e cinqüenta, desembarque para as oito horas e sete minutos.”

Olho para o relógio. Ainda falta tanto tempo. E depois do desembarque tem fila da alfândega. Depois tem que pegar bagagem. Depois fila de check-in de novo. Depois esperar um tantão para embarcar, outras duas horas de vôo, para, com sorte, chegar em Brasília antes da janta.

Olho pela janela e vejo as luzinhas da minha cidade que ainda dorme lá em baixo. “Ei, essa é a minha parada! Eu quero descer aqui! Cadê a cordinha para eu dar o sinal?”

Último capítulo

Violão não é bagagem de mão? (Parte 6)

Ao telefone

“Olha, tá tudo bem.” Meus olhos corriam de um lado para o outro como um pêndulo nervoso. “Tá, tá no horário certinho.” Ninguém me interceptou ainda. “Não, sem problema.” É, parece que não tem ninguém me observando.

 A vontade era de dizer que eu estava entrando com o violão escondido, que eu estava com as pernas tremendo, que eu tinha burlado o sistema, blefado, camuflado, que eu me sentia uma verdadeira contrabandista. Mas vai que nisso alguém me escuta e começasse a achar que o negócio era bem mais feio do que na verdade era? Até que eu provar que pingo não era letra, muita água ia ter que passar de baixo da ponte, e aí eu corria o risco da vaca ir para o brejo e dar com os burros n´água. Melhor eu ficar na minha.

“Tá, tá tudo ótimo. Beijo. Até amanhã.”

Embarque

Desliguei o telefone e fiquei aguardando meu vôo. Às vezes acontece que a pessoa do check-in depois vai para o portão ajudar no embarque. Eu estava então morrendo de medo de dar de cara de novo com a tia do check-in. A espera deve durado uma hora, mas para mim foram duzentas.

Reparei que tinha outro jovem violeiro na área. Quando finalmente chamaram para o embarque, fiquei esperando ele passar primeiro, e fiquei só na espreita. 

Alívio número um foi que a tia do check-in não veio fazer o embarque. Legal. Alívio número dois foi que o violeiro entrou sem parecer ter tido problema. Beleza.

Mesmo assim, escolhi uma fila que passasse à direita do balcão. Por quê? Ora, porque assim o funcionário que pegasse meu cartão de embarque ficaria à minha esquerda. E daí? Ora, e daí que eu carrego o violão com o ombro direito. Dessa forma, o braço que entrega o bilhete não é o mesmo que carrega o violão. Tudo planejado nos mínimos detalhes para não chamar atenção.

O Túnel da Verdade

O cara pegou meu bilhete, entregou o canhoto e me desejou boa viagem. Um obstáculo a menos. Mas agora é que iam ser elas: quando (conforme descrito na parte 4, “Apegos e Desapegos”) compus o “Discurso da Apreensão”(note bem o trocadilho), na minha cabeça o pano de fundo de todo o discurso era o túnel que leva ao avião. Ali bem na curva, quase já na porta da aeronave.

O perigo então ainda estava por vir. O túnel da verdade se estendia à minha frente. Entrei, com a cara e a coragem, esperando ser abordada a qualquer momento. Fiz a curvinha, já contando com o pior.

Nada. Entrei no avião.

“É agora!”, pensei.

No avião

“Seu bilhete, senhora. Corredor a esquerda, no final.” A moça nem olhou para o meu violão.

Achei meu assento e coloquei o violão no bagageiro logo acima (que para minha surpresa estava completamente vazio). Sentei já pegando o cobertozinho, me cobri, coloquei o fone de ouvido e respirei aliviada. Deu certo.

Mais um perigo

Mal me acomodei, logo chegou alguém para sentar ao meu lado, no assento do corredor (o meu era o da janela, só tinha dois). Abriu o bagageiro, colocou sua maleta e sentou, deixando o bagageiro aberto. Não gostei. Mas também não quis reclamar, para não chamar atenção.

Aumentei o volume do mp3 para escapar das conversas chatas (“Puxa, véi, Paris é muito melhor que Montreal, nem se compara. Os franceses são chatos, mas são chiques.”). Compenetrada nos meus sudokus, nem vi quando fecharam as portas da aeronave e a tripulação veio fechando os bagageiros para preparar para a decolagem.

Quando vi, o comissário de bordo estava conversando com o cara do meu lado. Fingi que nem vi, e fiquei só rezando. Até que o carinha do meu lado me cutucou dizendo para quem quisesse ouvir: “Meu não. Deve ser dela.”

Gelei.

Parte 7

Violão não é bagagem de mão? (Parte 5)

Retrospectiva da série:

Parte 1: Preparativos

Parte 2: Como assim?

Parte 3: Interlúdio

Parte 4: Raio X

Parte 5:

A consciência a pesar nas costas

Sorri agradecida, respirei fundo de novo e passei pela portinha da segurança. Tirei o violão e a mochila das costas e pus na esteira. Mostrei meu bilhete. Passei pelo detector de metais, virando para trás toda hora, piscando para meu amigo e estalando os dedos como quem sabe que está fazendo coisa errada e diz “eita ferro!”. Bandeira total: minha cara de poker típica.

Tendo passado pelo detector, o segurança pegou meu violão e disse em voz forte e clara: “Senhora, seu violão…” Olhei para ele esperando mais. “Senhora, seu violão: não pode levar!” Ou então: “Senhora, seu violão: está apreendido, queira me acompanhar!” Ou ainda: “Senhora, seu violão: tem que despachar. A multa é de mil dólares!”

Mas não. Foi só: “Senhora, seu violão. Boa viagem!”

O desvio no Duty Free

Que estranho. Os carinhas da segurança (que em geral são os mais cri-cri de todos) não sabiam dessa que violão não é bagagem de mão. Acenei mais uma vez para meu amigo (e ainda acrescentei um “jóia” sorridente com o polegar) e segui rumo ao portão de embarque.

Mais adiante avistei do lado direito do corredor em que estava um balcão de informações da Air Canada. Do lado esquerdo, uma loja Duty Free gigante, com saída lá para o outro lado. Não tive dúvidas. Eu nem gosto de Duty Free, mas como o balcão daAir Canada tinha três atendentes e nenhum cliente, resolvi não dar muito na vista. O labirinto de balcões da Duty Free me caiu como uma bela camurflagem.

O último portal

Tendo sobrevivido mais esse perigo sã e salva (na verdade, mais salva do que sã), fui passando de um portão de embarque a outro até chegar no meu. Nesse percurso, vi pelo menos outros três violeiros. Que estranho. Será que eles não sabem que violão não é bagagem de mão? Ou será que a cara de poker deles era assim tão melhor que a minha? Não dava para saber.

Cheguei então ao meu portão. Como ainda faltava um tempinho para embarcar, resolvi ligar para meus pais em Brasília para dizer que estava tudo bem.

Parte 6

Imagine…

Imagine que eu cogitei seriamente ficar em São Paulo até amanhã. Cogitei. Muito muito, que minha imaginação não brinca em serviço. E quase que resolvi ficar mesmo. Só que:

1. Imagine que, se não fosse pelo feriado semana que vem fazer a passagem ficar três vezes mais cara do que essa semana, eu teria ficado. Quer dizer, isso antes da BRA ir a falência e a outras empresas começarem a acomodar os passageiros que ficaram sobrando, o que com certeza bagunçaria meu retorno ainda mais. Mas acho que fosse só isso eu até teria feito uma força, imagine… Só que:

2. Ai, você nem imagina o tanto de trabalho que eu tenho que fazer. No dia de finados, fiz meu PPM (Planejamento Pluri-Mensal), como faço todo começo de mês. Percebi que para dar conta de tudo que eu gostaria de fazer até o natal, novembro vai ter que durar uns cinco meses… Imagina só. Mas eu até que eu teria segurado a onda e deixado para por sebo nas canelas semana que vem, só para poder ficar em São Paulo até amanhã. Só que…

3. Se eu não fosse perder tanta aula… Porque agora, além de malhar, eu estou fazendo Krav Magá e Tai Chi Chuan (um para treinar explosão, e o outro para repor a energia). E imagina que nesse nem bem um mês direito que eu estou fazendo essas aulas, eu já tive tanta falta… Assim fica complicado. Mas até que eu encarava mais uma faltinha só, para poder ficar em São Paulo até sexta. Só que:

4. Não tinha lugar para ficar. Assim, até que teoricamente dava para acrescentar mais umas três diárias no hotel que eu estava, que era muito simpático, e até em conta para seu nível de conforto, você nem imagina. Só que:

5. A grana está curta. Esse negócio do visto já está me gerando tanto gasto, ainda mais com esse negócio de eu ter ido a São Paulo à toa, e agora ter que ir atrás de despachante. Eu nem imagino como vai estar a conta do cartão quando chegar. Mas entre extravagâncias e extravagâncias até que dava para espremer mais um pouquinho e colocar mais uminha. Só que:

6. Se ao menos tivesse levado mais roupa… Eu só tinha levado roupa para 2-3 dias. Ainda assim, eu até cogitei achar uma lavanderia (já que o item 5 restringe um pouco a compra de mais roupas, e de qualquer forma, eu só havia levado uma mochila, que já estava estourando de cheia). Só que:

7. Eu tinha me esquecido o que é chuva e não levei comigo sequer um sapato fechado ou uma meia, ou uma camisa de manga. E choveu direto por dois dias… Então eu precisava não só de lavanderia, mas de sapato, agasalho, vai imaginando a figura… E tudo isso vai contra os itens 5 e 6.

Mas, olha, imagine que eu até pensei em fazer uma forcinha, nos esquemas 1-5, só para poder ficar em São Paulo até o dia nove de novembro de zero-zero-sete.

Você já está imaginando que isso tudo é só para eu poder ficar mais tempo no Instituto Paulo Freire, né? Ou então resolver logo o negócio do visto. Mas não: tanto um quanto outro dá para fazer em outra oportunidade, e apesar de eu ser uma pessoa impulsiva, até que eu sou paciente (por mais paradoxal que isso possa parecer).

Mas não é nada disso. O que eu queria está fazendo em São Paulo exatamente nesse momento era estar no Theatro Municipal. Ora, eu nunca fui ao Theatro Municipal, e teoricamente não há nada que esteja lá há tantas décadas que não possa esperar um pouco mais.

Quer dizer, tem algo que só está lá hoje, que eu nunca imaginaria ver no Brasil, assim, tão acessível ao público. É o tipo de coisa que não dá para voltar e ver de uma outra vez, ou fazer por despachante. Este algo é uma performance. Uma noite com alguém.

Pois imagine que a senhora Yoko Ono está se apresentando nesse momento em São Paulo. Eu que nem sabia que ela se apresentava assim, ainda mais que fazia turnê. E imagina que ela parece estar mais bonita hoje, com seus acho que 74 anos, do que há 40 anos, quando o mundo todo a conheceu. E imagina que o ingresso custava R$ 60,00 (não sei se inteira ou meia, mas que, de qualquer forma, é muito menos que muitas outras coisas).

E imagine que eu perdi uma coisa dessas!

Pois é. Dados os motivos 1-7 expostos acima, tudo o que me restou foi voltar para Brasília, e buscar consolo no bom e velho “Imagine”…

“In the middle of a dream,
In the middle of a dream,
I call your name:
Oh, Yoko…”

Vivendo e aprendendo

Essa semana eu fui a São Paulo para renovar meu visto do Canadá. A viagem foi boa, e eu fiz uma porção de coisas, exceto renovar o visto (por incompetência própria: eu esqueci de marcar horário, e o próximo agora era só semana que vem).

Depois de chorar um pouco sobre o leite derramado, eu resolvi tirar proveito da viagem. Aproveitei para conhecer o Instituto Paulo Freire

É um prédio desprentencioso num bairro desprentencioso. As pessoas dentro do prédio também são bem despretenciosas. Perguntei a secretária se podia fazer um tour do Instituto, mesmo sem ter marcado horário.

Ela chamou um rapaz na sala ao lado, e perguntou se ele poderia ser meu guia. Ele concordou prontamente, e me pediu para sentar numa mesa em sua pequena sala cheia de livros. Tanto as roupas como as maneiras das duas pessoas eram bem simples, assim como tudo no lugar.

O rapaz começou a me explicar que o Instituto surgiu de uma idéia em 1991 quando seu pai deu uma palestra na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e foi fundado mesmo em 1992. Eu não fazia idéia de quem era o pai dele, e quase interrompi para perguntar. Mas daí ele começou a explicar que seu pai esteve bem ativo nos primeiros cincos anos do Instituto, até falecer em 1997. Eu comecei a ter uma forte suspeita de quem seu pai seria. 

Daí ele falou que quando seu pai morreu, todos os livros dele foram doados para a sala onde a gente estava. Neste momento eu me arrepiei toda. O rapaz era nada mais nada menos que o filho caçula do Paulo Freire. Os livros na sala era da coleção pessoal de Freire, datando desde os anos 40. Eu achei uma cópia de 1959 de ”A Sociedade Democrátia e seus Inimigos” de Karl Popper, outra de 1963 do “Paideia” de Jaeger, todas com notas na margem e resuminhas no final, à mão do próprio Paulo Freire! 

(Interessante que eu cito esses dois livros na minha tese, e que na contra-capa do livro do Popper, Freire faz uma referência a Jaeger, o que é muito fera!). Nos outros dois minutos que eu passei as vistas pela biblioteca eu também vi Russell, Freud, Anísio Teixeira, Fernando Azevedo e Euclides da Cunha, e muitos outros. Definitivamente tenho que ir lá com mais tempo. 

Lut, o filho do Paulo Freire, me deu um tour do subsolo, onde ficam os arquivos. Me apresentava para todo mundo, contando piadas e histórias pelo caminho, como se a gente fosse amigo de infância.

Depois ele ofereceu a me mostrar os escritórios nos andares de cima, mas logo lembrou que estava na hora de buscar a filha na escola. Então ele pediu para a secretária para me levar lá. Ao mesmo tempo, me perguntou se eu poderia voltar no dia seguinte, para ele me mostrar uma escola perto onde é a sede de vários programas. Eu concordei entusiasticamente.

Lizeth, a secretária, me mostrou os andares de cima, onde se encontram todos os escritórios administrativos. Todo lugar que ela parava (tesouraria, comunicações, editora, informática, cozinha, relações internacionais) ela me apresentava para todo mundo quase solenemente, e eles paravam o que estavam fazendo e me recebiam como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo, e como se interrompê-los fosse tudo parte do esquema. Isso que eu nem tinha marcado horário nem nada, nem tinha falado muito sobre minha modesta pessoa.

Voltei no dia seguinte, dessa vez com a máquina (imagina que eu não tinha nem levado máquina!) , um tanto de pergunta mirabolante para o Lut e um tanto de coisa para bisbilhotar antes de retornar para Brasília no começo da noite. Infelizmente, acabou que o Lut não pode ir. Isso me deixou chateada por meio segundo. Mas depois eu lembrei da sorte que eu tinha dado de já ter conversado com um filho do Paulo Freire, sem estar nem esperando, e dele ter se mostrado tão simpático e disponível. Daí calculei que eu já estava no lucro, e que a visita já tinha superado em muitos as expectativas.

Além disso, no Instituto não faltava coisa para entreter uma pessoa do meu nível de curiosidade — curiosidade que a Lizeth soube aguçar bem. Não só eu fui à tal escola (que na verdade não era uma escola, mas um centro afiliado ao Instituto) e conversei com pessoas interessantíssimas (desde membros do conselho do Instituto a pesquisadores de além-mar), mas vi também muitas coisas maravilhosas, incluindo uma cópia do manuscrito (a mão mesmo!) de ”Pedagogia do Oprimido” de 1968″!!! 

Essa foi realmente uma daquelas viagens que o desvio sai mil vezes melhor do que o itinerário original. Agora é correr atrás de um despachante para conseguir o tal do visto…

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Fachada do Instituto Paulo Freire

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A simpática Lizeth guarda o forte.

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Cópia de 1959
de ”Sociedade Democrática e seus Inimigos”,
anotada pelo próprio Paulo Freire.”

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Violão não é bagagem de mão? (Parte 4)

Inocentite aguda

Terminamos nosso insípido lanche conversando sobre tais assuntos e fomos caminhando vagarosamente para a outra ponta do aeroporto onde era o embarque. Conversa vai, conversa vem, eu havia esquecido completamente daquela história que violão não é bagagem de mão. Sério mesmo. Não estou falando isso só para bancar a inocente.

A verdade é que eu não sei blefar. Para se ter uma idéia, eu sou péssima de truco. Poker então nem se fala. Quando o jogo é máfia ou killer, aí é que eu me entrego mesmo, de tanto piscar. Mentir me dá tique nervoso.

Apegos e desapegos

Quando então, no momento da despedida, meu amigo atentou para o fato que eu já ia entrando com o violão, eu caí em mim e me toquei de novo do drama da situação. Se ele não tivesse me lembrado, era capaz de eu passar pela segurança toda na maior naturalidade, sem achar que estava fazendo nada errado. Mas passar sabendo era outra história. Eu não daria conta. Comecei então me despedir de verdade do Arquimedes.

Enquanto a fila do raio-x caminhava, li com toda atenção a placa listando todas as coisas proibidas a bordo: armas de fogo, objetos cortantes, aerosois, shampoos e outros líquidos de higiene pessoal, até água. Em nenhum lugar constava “violão e outros instrumentos musicais”.

Nesse momento me deu um estalo. Segurei meu violão mais forte, e resolvi arriscar. Comecei a explicar para meu amigo que se me barrassem, que eu me virava. Pois pensei cá comigo: o Arquimedes, por mais querido que fosse, não tinha me custado nem os $120 de excesso e já tinha mais do que se pagado nos nossos quases doze anos juntos. O que viesse a mais era lucro. Não compensava toda aquela dor de cabeça para ou deixá-lo para trás, ou pagar para recebê-lo depois em frangalhos. Se desse para eu levá-lo, bem; senão, o melhor era passar ele adiante com saúde.

Já tinha começado até a ensaiar o discurso que faria na hora em que fosse apreendida: “Moça (ou “moço”), “fica com esse violão para você. Dê ele de presente a alguém que você gosta, um filho, sobrinho ou afilhado. É um violão muito bem-quisto, cuide bem dele. Ele se chama Arquimedes.”

O Plano B

Com o discurso pronto, ajeitei nos ombros mochila, violão e coragem,  respirei fundo, e segui rumo ao raio-X. Meu amigo ainda me deu uma recomendação final: “Olha, eu vou ficar aqui te observando até você passar do raio-X e chegar lá no final daquele corredor. Depois que você sair de vista, eu ainda vou ficar plantado aqui por uns dez minutos. Se der alguma coisa errada, lembra que eu estou aqui e posso pegar o violão de volta, tá? Agora vai lá, e boa sorte.”

Que será que aconteceu então? Será que deu certo? Não perca em breve mais um capítulo desta apegante história!

Parte 5: Duty Free

Violão não é bagagem de mão? (Parte 3)

Retomamos agora nossa programação light normal.

Para aqueles que perderam (ou já esqueceram) os dois primeiros capítulos dessa novela, eis aqui um Vale a Pena Ver de Novo:

Parte 1

Parte 2

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Parte 3:

Viagem no tempo, e vice-versa

Fomos então lanchar, o meu amigo com mãos abanando pedindo para me ajudar; e eu, com mochila e violão nas costas, recusando ajuda. Os motivos da recusa: o costume de carregar a mochila é tanto que sem ela eu me sinto despida. Quanto ao violão, acrescenta-se ao costume o ciúme (“nele ninguém tasca”) e a separação iminente (“deixa-me despedir do Arquimedes”).

Como haviámos chegado com bastante antecedência, tínhamos mais duas horas para matar antes do embarque. Andamos vagarosamente de uma ponta a outra do terminal, com direito a parar para observar todas as exposições permanentes do aeroporto (eu adoro aqueles cubos flutuando num aquário. Dá uma paz…). Finalmente sentamos para lanchar um lanche caro e sem graça, só mesmo para passar o tempo (as opções de lanche do aeroporto de Toronto são péssimas. O aeroporto de Brasília dá de mil.)

Jogamos conversa fora. Comparamos nosso passado, presente e futuro de viajantes. Lembramos da época em que gostávamos de tirar onda de “qual seu aeroporto favorito?” e de trocar figurinhas sobre as melhores maneiras de evitar o jetlag, ou de conseguir dormir num vôo intercontinental.

Refletíamos, nostálgicos, sobre o tempo em que achávamos tiração de onda uma pessoa dizer que estava cansada de tanto andar de avião. Como alguém pode cansar de viajar de avião? Nós sorríamos lembrando dos tempos longínquos em que só de pensar em andar de avião dava frio na barriga; na época em que contávamos nos dedos os dias que faltavam para a viagem, os olhos de colecionador já brilhando ao sonhar com os inúmeros sachês e outras coisinhas congêneres a serem adquiridos como troféu.

Foi-se o tempo. O futuro chegou e agora era nossa vez de tirar onda de quem não aguenta mais tanta viajação. Ousei dizer em voz alta algo que há muito sentia, mas que nunca havia tido coragem de falar para ninguém: que se fosse para passar os próximos cinco anos sem viajar para lugar nenhum, até que eu não achava ruim. Vi pelos olhos de meu amigo que eu tinha acertado em cheio um sentimento que ele não sabia que tinha, e ele sorriu para mim agradecido.

Acaba que essa história não acaba em três partes. Talvez em três vez três. Que novela, não?

Não perca a quarta parte deste trio elétrico de aventuras, em breve ou não) num blog perto de você.

Parte 4