Arquivo para Outubro, 2007
Já que é moda… (Parte 3)
Tudo é e não é…Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos… (GSV, p. 27-28)
O que eu gosto no comandante Nascimento é que ele é um personagem de uma complexidade psicológica incrível. Ele não é um vilão malvado sem coração. Ele não é um herói bonzinho com o dever acima de tudo. Ele não é nenhuma coisa nem outra, e também é as duas coisas ao mesmo tempo: ele é humano.
Ele sofre, ele preocupa, ele erra, ele tortura, ele troca fralda. Do ponto de vista narrativo-literário, ele é um personagem brilhante. Um autor para escrever um personagem desses tem que ser muito gênio. O ator que o interpreta também.
Quando falei que a resposta de Férrez foi infantil, não quis dizer que a achei de todo ruim (porque coisas infantis não são necessáriamente ruins, pelo contrário). Mas a visão inocente atribuída ao narrador acaba dando deixa para o seguinte comentário publicado na Época: ele poderia estar roubando por necessidade, mas também para investir no tráfico.
Poderia mesmo. Ou até mesmo as duas coisas. E nenhuma dessas possibilidades faria dele uma pessoa 100% boazinha ou 100% sem coração.
Num momento de delírio, até cheguei a pensar que a reportagem capa da Época de 15 de outubro terminaria com um questionamento nesse sentido, pelo jeito que o último parágrafo começa:
[N]ão se constrói um país com a visão torta e tão arraigada no Brasil que opõe, de maneira simplória, a “elite privilegiada e predadora” aos “bandidos coitadinhos e vítimas.”
Pensei comigo: até que enfim. Vamos sair da simplório e essencialista “isso é isso” e partir para análises mais profundas, mais complexas, menos reducionistas. Algo mais do tipo:
Mire veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (GSV, p. 39)
Ledo engano. O parágrafo e a reportagem terminam com as seguintes palavras:
Criminoso é criminoso. Ponto. Um país mais justo socialmente tem neste princípio — bandido é bandido — um fundamento essencial. Romper com aquela visão reducionista e nefasta foi um dos maiores méritos “Tropa de Elite”
Descobri então que dizer simplesmente que “elite é privilegiada e predadora” e “bandidos são coitadinhos e vítimas” é torto e simplório. Porém dizer simplesmente “criminoso é criminoso ponto” não é. Pelo contrário, é um fundamento essencial. O que casa perfeitamente com a capa da Veja da mesma semana que diz:
O filme Tropa de Elite é o maior sucesso do cinema brasileiro porque trata bandido como bandido e mostra usuários de drogas como sócios dos traficantes.
Dentro, temos as seguintes matérias:
A Realidade, só a Realidade (p.80-83. Ou seja: “A verdade tem dono, e somos nós”)
Abaixo a Mitologia da Bandidagem: Tropa de Elite não rompe só com a tradição nacional de narra uma história do ponto de vista do bandido: rompe com a visão pia e romantizada do criminoso. (p.84-86. Traduzindo: “As pessoas já nascem terminadas: ou são afinadas ou desafinadas, e acabou. E nós que decidimos quem é quem.”)
Máquina Letal contra o Crime: Treinamento exaustivo e código de conduta rigoroso fazem do Bope uma das melhores tropas do mundo (p.88-89. Pergunto, pasma: melhores para que, para quem e de acordo com quem? Porque, como diz o Riobaldo: “cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães”. [GSV, p. 24])
O problema, Guimarães Rosa explica bem:
Uma coisa é por idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas de carne e sangue de mil-e-tantas misérias… Tanta gente – dá susto de saber – e nenhum se sossega….todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons… (GSV, p. 31)
Acontece que uns têm o poder de expressar e resolver suas misérias e insossegos. Outros muitos nem direito de reclamar tem, quanto menos o poder. Ontem eu terminei de ler um livro brilhante chamado “Justiça e a Política da Diferença”, da autora americana Iris Marion Young, falecida ano passado. O seguinte pensamento se encaixa certinho com o que vejo tanto na Veja quanto na Época:
“Enquanto os grupos privilegiados são neutros e exibem uma subjetividade livre e maleável, os grupos excluídos são marcados com uma essência, emprisionados em uma gama fixa de possibilidades. Em virtude das características que o grupo teoricamente tem por natureza, as ideologias alegam que os membros do grupo têm qualidades específicas que os tornam predispostos a algumas atividades e não a outras.” (JPD, p. 170)
A subjetividade da elite (que informa, que expressa, que opina, que publica seus medos e anseios nos jornais e revistas) objetifica os grupos excluídos (que não têm educação, opinião, medo, anseio ou coração). Ao fazer isso, cria-se uma polaridade. Ao mesmo tempo que elite fabrica e vende seus heróis perfeitos e quase super-humanos (acima de tudo e de todos, acima das leis), ela retrata também aqueles que são diferentes como seres subhumanos: sem educação, sem expressão, sem opção, sem futuro, sem jeito, sem valor. Coisa sem valor. Coisa.
E é assim que nascem os genocídios.
GSV = João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, Ed. Nova Fronteira
JPD = Iris Marion Young, Justice and the Politics of Difference, Princeton University Press, tradução de Ester Macedo.
Já que é moda… (Parte 2)
Meu post anterior mostrou minha surpresa com a ingenuidade do apresentador Luciano Huck, que, quer queira quer não, teve condições de ter tido uma boa formação intelectual. Mas isso é estereótipo meu de achar que só porque a pessoa é rica, provavelmente estudou em escolas boas e teve uma boa educação — o que não é necessariamente verdade.
Mas uma ter e prestar formação e informações intelectuais (senão úteis, pelo menos razoáveis) é dever não do rico ou do apresentador de televisão, mas de jornais e revistas. Certo?
Eu achava que era. Mas a Veja e a Época dessa semana provam mais uma vez a minha ingenuidade. Fiquei de cara em ver que as duas revistas trataram a situação
Tropa de Elite vs. Rolex com ainda mais infantilidade que o próprio Huck.
Vamos aos fatos:
A revista Época de 15 de outubro de 2007 traz na capa um close do rosto de Luciano Huck com a boca tampada. Sobre a boca, a seguinte pergunta:
“ELE MERECIA SER ROUBADO?
Sem ter nem entrado na banca para ver a revista mais de perto, já percebi que o debate foge à questão principal.
Ele merecia ser roubado?
Claro que não. Ninguém merece. A questão não é essa.
Chego mais perto. Em letras menores, o subtítulo promete:
O que o debate sobre o assalto a Luciano Huck revela sobre a alma do brasileiro”
Penso comigo: cara, que prepotência!
Que pobreza de alma:
mais de 150 milhões de brasileiros e alma só tem uma? E ela é coisa que dá para alguém tirar um raio-X e revelar? Um cara para fazer isso tem que ter muita moral.
Pego a revista, sento, vou ler. Percebo que não é um cara, mas dois: Celso Masson e Nelito Fernandes. Logo no início do artigo, eles começam o diagnóstico prometido na capa:
“Veio à tona, com o roubo do Rolex de Luciano Huck, a visão de uma parte do povo brasileiro. A elite é tiranizada como aproveitadora e vilã, e os bandidos são glamorizados e perdoados como vítimas ou heróis.” (p.89)
Entendi então que a alma do brasileiro é como uma coluna vertebral: única, porém divisível. Já não falamos da alma do povo brasileiro como um todo, mas de uma parte.
À que parte exatamente pertence essa visão não é revelada ainda explicitamente. Mas sabemos ao menos que existem no mínimo duas: uma, que, erroneamente ou não, pode ser caracterizada como aproveitadora e vilã; e outra, que também, erroneamente ou não, é glamorizada e perdoada como vítima ou herói. Até aqui também não sabemos se os radiólogos responsáveis pelo diágnosticos pertencem ou não ao corpo (ou alma) em estudo, e em caso afirmativo, à que parte pertencem.
Dando um zoom mais de perto, o raio-X apresenta também contribuições de um certo Roberto da Matta, que caracteriza a reação a Huck como neofascista. Achei que fosse talvez um erro de edição, pois enquanto o artigo de Huck e suas defesas tendem à direita do espectro sócio-pólitico (cujo extremo seria o neofascismo), a maior parte das reações que vi tendem mais à esquerda (cujo extremo seria o neocomunismo).
Mas isso é só uma questão de vocabulário. Afinal, como explica Hannah Arendt, acaba que essas duas formas extremas de totalitarismo, apesar de tão distantes, terminam por ficar muito parecidas (meio que nem quando se junta as duas pontas de uma corda, fazendo um círculo). Então dá para confundir mesmo.
Mas voltando à resposta de Roberto da Matta:
“A reação [a Huck] fere o direito de igualdade. Qualquer pessoa tem direito a denunciar uma injustiça de que foi vítima. Só porque ele é rico, não tem direito a nada?” (p.89)
Nessa hora meus olhos ficaram nadando em água de dó do pobre moço rico. Continuei lendo:
“Por que acham que um sem-terra pode arrebentar a porta do Congresso para protestar e um apresentador não pode escrever uma carta? Onde está a democracia nisto?” (p.90)
Peraí, seu Matta. Da onde é que o senhor tirou que sem-terra pode arrebentar a porta do Congresso? Pode não. Um sem-terra – ou qualquer pessoa – que cometa tal ação tem que estar disposto(a) a sofrer as conseqüências e responder por ela. 3a Lei de Newton: À toda ação há sempre uma reação de mesma força.
Cartas também obedecem essa lei de causalidade. É claro que publicar carta não é crime, do jeito que arrebentar portas do Congresso é. É um direito que todo cidadão tem, porém (e infelizmente) uns os tem mais que outros. O problema do Huck não foi publicar uma carta, mas na violência fora de proporção a qual a carta incitava. Ação e reação.
Detalhe da lei de Newton: Ela diz que à toda ação há sempre uma reação igual mas de direção oposta. A carta de Huck foi forte e infantil. A resposta de Férrez foi igualmente forte e infantil: só mudou a direção. Por mais que dar bobeira com um Rolex no braço pode ser vaidade, exibicionismo ou ingenuidade, dizer que o cara merecia ser assaltado é achar que injustiça com injustiça se cancela. Até então eu estava achando o título da capa da Época viajante: só quando eu li a resposta do Férrez que eu entendi.
É claro que é uma resposta literária, até poética: a primeira pessoa não é do autor, assim como a fala do Comandante Nacimento não é nem do Wagner Moura, nem do Padilha. Mas num momento que as pessoas estão tendo a maior dificuldade com esse recurso narrativo de uso de primeira pessoa, confundindo a torto e a direito o subjetivo com o objetivo, esse comentário do Férrez também bem mereceu uma reação. Afinal, reagir é bom, mostra que a gente ainda está vivo (embora a contra-reação de “no fundo, isso parece inveja” [p. 93] pareça para mim um caso perigosíssimo de falta do que fazer).
Cara, eu ainda tenho muito para falar sobre esse artigo (e mais o da Veja). Mas estes posts estão ficando compridos demais. Deixa eu para por aqui por agora; depois eu volto com mais.
Após do diagnóstico vem o prognóstico: não perca o próximo desfile desta super-coleção primavera-verão!
Já que é moda… (Parte 1)
Interrompemos a nossa programação para dizer uma palavrinha ou duas sobre o assunto do momento: se o compete ou não à alçada do comandante Nascimento o resgate do Rolex de um certo senhor.
Tá gente, eu sei que o assunto está mais do que batido: as principais revistas do país trouxeram estampado na capa esta semana este fascinante assunto, para não dizer nada da blogosfera nacional.
Olhando porém duas destas revistas, a Veja e a Época, achei interessante que nenhuma das duas toca o que é para mim o x da questão (vide o sublinhado no primeiro parágrafo) .
Vamos aos fatos.
O senhor que teve seu relógio roubado pergunta em jornal de circulação nacional:
“Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba.”
Esta passagem, a meu ver, justifica duplamente os motivos pelos quais a vítima deste assalto — repito e friso, vítima — não chegou a prestar queixa na polícia: primeiro, porque ele tem dificuldade crônica de localizar uma delegacia; segundo, porque ele acha que a polícia é onisciente.
Dificuldade em publicar suas idéias e necessidades em um grande jornal ele não tem: o que favorece o resto de nós (que, ao contrário da polícia, não somos oniscientes) porque serviu a nobre função de informar e gerar um debate nacional, algo que acho muito positivo.
Num outro ponto, mais no começo do artigo, vemos mais uma vez de maneira clara, a dificuldade de localização e a crença na onisciência policial que dispensaram a vítima de prestar ocorrência:
“Onde está a polícia? Onde está a “Elite da Tropa”? Quem sabe até a “Tropa de Elite”! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto.”
Esta segunda passagem (que ficou bem mais famosa que a primeira dado o sucesso do brilhante filme “Tropa de Elite”) mostra que a vítima acredita não só na onisciência, mas também na onipotência da polícia – ou pelo menos da Elite da Tropa. O que falta é boa vontade; coisa que a vítima tem bastante e poderia distribuir, via discussão com comandante Nascimento, de forma que bastaria 30 dias para a segurança pública colocar assaltos a pedestres e motoristas em extinção.
Não sei se eu sou uma pessoa demais pessimista, ou demais otimista: o fato é que acho esse comentário demasiado ingênuo e problemático.
A ingênuidade da vítima fica ainda mais clara já no final do artigo:
“Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no “Roda Vida” da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, “Tropa de Elite” é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela.”
Acho que faz parte do amadurecimento de toda pessoa passar duma fase em que se acredita em super-heróis, à outra, em que se descobre que eles não existem, e que quando o shopping fecha, o Papai Noel tira a barba, a roupa vermelha, a pança de enchimento, e volta para casa como qualquer pessoa, a pé, de ônibus ou até de transporte próprio, carro, moto ou bicicleta. Só não de trenó.
Fiquei então satisfeita que, ao final do parágrafo, o ex-dono de um Rolex mostrou ter alcançado um grau de amadurecimento bastante superior ao exibido no começo do mesmo parágrafo. Isso é muito positivo.
Mas outra questão ainda muito mais problemática que a ingenuidade (e com certeza decorrência dela, pois não acredito que o Luciano Huck seja uma pessoa ruim) é a seguinte:
Por que ele quer chamar o comandante Nascimento?
Porque o comandante Nascimento é um policial competente e comprometido: ele não sossega até achar o bandido.
Um bandido — repito e friso, bandido – roubou o relógio do Huck.
Portanto, o Huck quer se assegurar que o bandido seja punido e que tais atos de violência como o que aconteceu com ele deixe de ocorrer.
Pergunto:
O ladrão que roubou o relógio do Huck agiu de forma certa?
De forma alguma.
O Luciano Huck agiu de forma certa?
Também não.
Chamar o capitão Nascimento por causa de um Rolex é querer usar uma bazuca para matar uma mosca: é desproporcional, não importa quantas casas dê para comprar com um Rolex.
O ladrão deve ser punido? Sim.
Deve ser preso? Provavelmente.
Deve ser torturado com um saco plástico na cabeça? De forma alguma.
Deve ser morto friamente com um tiro a queima-roupa?
Absolutamente não.
Sei que a ingenuidade agora pode ser minha, mas não sei de onde eu cresci com uma crença que a vida (até a do bandido) é um negocinho sagrado e matar é errado.
E eu acho difícil de acreditar que seja isso que o Huck realmente queira, tanto para o bandido que roubou seu relógio, quanto como plano estratégico de como se eliminar assaltos em trinta dias. Eu prefiro acreditar que Luciano Huck seja ingênuo, e não fascista. Será que isso é dor de cotovelo daquela minha velha criança que ainda quer acreditar em Papai Noel?
A seguir cenas do próximos capítulos:
Época e Veja saem à defesa de Luciano
Violão não é bagagem de mão? (Parte 2)
Mais um Preâmbulo
Foi me levar ao aeroporto um amigo que tem muita experiência com mudanças internacionais (ele já morou na Alemanha, Japão, EUA, Canadá). Ele ficou muito impressionado com quão compacta era minha mudança: somente um volume a mais do que a quota (vale dizer que por todos esses países carregou as panelas de ferro da avó dele. Para ele, uma simples malinha de excesso de bagagem e nada era a mesma coisa).
Para passar o tempo na fila, a gente ficou brincando de adivinhar o peso de cada mala. Primeiro cada um fazia uma estimativa para a mala. Daí, ele que era forte carregava a mala em questão para uma balança próxima que ficava a disposição dos passageiros, justamente para esse fim (sendo opcional a aposta descrita acima).
A malona ficou com 70 libras (cerca de 32kg), que é o máximo permitido. A mala ficou com umas 50 libras (cerca de 23kg), só que sem espaço para nem mais um alfinete. A malinha por sua vez, que tecnicamente era “bagagem de mão”, acabou empatando com a mala no critério peso. Apesar de ser pequeninha, ela só continha livros, o que lhe dava uma sustância que ultrapassava em mais de 200% o limite de 22 libras (10kg) permitido a bordo para malas de sua categoria.
Tendo feito um remanejamento básico para assegurar que os quase 32kg da malona não ultrapassavam 70 libras, felizes e confiantes seguimos para o balcão de check-in.
No check-in
“Tem bagagem para despachar?”, perguntou-me a tia do check-in.
“Sim, essas três.”
“O máximo é duas. Por que a senhora não leva essa pequeninha a bordo?”
“Porque eu já estou levando a mochila e o violão.” E mostrei os dois para a tia.
“Violão não é bagagem de mão”, disse a tia calmamente. ”Porque a senhora não despacha o violão e leva a malinha como bagagem de mão?”
Na minha ingenuidadade — reflexo talvez do choque do momento — respondi bobamente: “Porque a malinha tem muito mais que 10kg.”
A tia não titubeou: “É, então tem que despachar também. Vou ter que cobrar dois volumes de excesso de bagagem. Dá 240 dólares: $120 cada peça.”
Interlúdio
Meu último post teve por único e pedestre objetivo frisar que minha mudança para o Brasil foi friamente calculada e cuidadosamente ensaiada.
Eu havia consultado com bastante atenção a página da Air Canada que trata de excesso de bagagem. Lá fala que acima de dois volumes, a taxa para cada peça excedente em destinos internacionais é de Cdn$225.
É bem verdade que na parte que fala ”Todos os destinos internacionais” tem duas estrelinhas. Abaixo, a legenda correspondente informa: “Exceto Brasil e Japão. (Favor consultar o serviço de reservas da Air Canada para detalhes sobre tarifas de excesso de bagagem para esses países.)”
Como condiz a meticulosidade estérica de todo esse planejamento, eu cheguei até a ligar na tal da central de reservas para averigüar com precisão o valor de tais tarifas. Liguei várias vezes, fiquei um tempão cada vez, e em todas elas fui driblada ou ludibriada pelo sistema eletrônico de atendimento.
Deixei para lá, mas tive cá comigo que por serem países longínquos, a taxa de excesso para o Brasil e o Japão provavelmente seria superior aos $225 por volume cobrados para os outros destinos internacionais. O que ainda era mais em conta do que mandar pelo correio ou via frete.
Vale frisar que em nenhum lugar do site da Air Canada havia a informação que violão não é bagagem de mão.
Cai a ficha
VIOLÃO NÃO É BAGAGEM DE MÃO?!?”,
perguntei incrédula depois de alguns segundos.
“Como não, moça?!?”
“Não, não é. Nunca foi.”
“Mas moça, eu já girei meio mundo com esse violão. Tem mais de dez anos que eu viajo com ele. Já fui com ele para a Inglaterra, EUA, Brasil. Até mesmo no Natal passado eu embarquei nesse mesmo vôo com um contrabaixo elétrico, que é muito maior e mais pesado. Como é que não pode?!?”
“Alguns atendentes de check-in deste aeroporto às vezes desconsideram essa regra. Mas isso é exceção: a regra em si é clara.”
“Mas moça, essa exceção está muito mais em uso que a regra. Eu nunca vi isso. E olha que eu li lá o site da Air Canada todo.”
“Mas a senhora telefonou para a operadora? Se a senhora tivesse telefonado, ela teria te dito claramente que violão não é bagagem de mão.”
“Ligar eu até liguei, mas não consegui falar com ninguém. Se bem que, na verdade, não me teria ocorrido de perguntar isso nem que eu tivesse conseguido falar com alguém.”
“Então eu sinto muito, senhora. O máximo que eu posso fazer é chamar o meu supervisor para falar com a senhora.”
De jeito nenhum
Vem o supervisor e reitera o discurso da atendente. Como os dois continuam irredutíveis, a tia, tentando ajudar, pergunta para meu amigo:
“Você vai ficar aqui em Toronto mesmo? Por que então o senhor não fica com o violão dela, e ela pega depois?”
Acho que a mulher pensou que a minha viagem era breve, e não uma mudança. Como ela não estava de todo errada, cogitei brevemente deixar o violão com meu amigo. Só que era muita maldade com o cara: ele ia ter que pegar um metrô, depois um ônibus, chegar na universidade para pegar o material dele, e de lá ir de bicicleta para casa. Como é que ele ia conseguir levar um violão?
Recusei então a oferta da moça. “Porque se eu não pagar excesso agora eu vou ter que pagar depois do mesmo jeito, então deixa eu resolver logo esse negócio.”
Enquanto a moça preparava as etiquetas, virei para o meu amigo:
“O que me deixa triste não é nem ter que pagar o excesso de bagagem a mais” (até porque eu tinha calculado pagar $225 ou mais por um único volume excedente, e a moça estava cobrando $240 por dois – mas isso eu não falei em voz alta). “O que me deixa triste é deixar meu querido Arquimedes viajar sozinho nesse mundo de meu Deus, subindo e descendo essas esteiras, eu que não deixo ninguém nem triscar nesse violão. E essa capinha de pano assim não protege nada, fosse pelo menos um estojo daqueles duros. Mas acho que ela colocando uma daquelas etiquetas vermelhas de “FRÁGIL”, às vezes eles tem um pouco mais de dó da bagagem…”
Nisso a tia interrompeu: “Assine aqui, senhora”. Olhei para ver o que era. Com letras bem miúdas, o papel dizia que eu, abaixo assinada, estava ciente que a Air Canada não se reponsabilizaria por qualquer dano ou perda que viesse ocorrer ao meu violão.
“VOCÊS NÃO SE RESPONSABILIZAM?!?”
“Não, senhora. É opção sua despachar um objeto frágil.”
“OPÇÃO MINHA?!?”
Nessa hora meu olho encheu de lágrima — e olha que eu não sou de muita frescura. A tia, para aliviar, sugeriu: “por que você não tira umas roupas dessa mala aqui e pôe dentro da capinha, para dar uma amortecida?”
Olhei para o meu amigo, atônita. Dessa vez até o olho dele estava cheio de lágrima.
“Você leva o violão para mim, Uli?” (o nome do meu amigo é Uli). “Leva lá para a universidade, deixa na minha mesa. Vai levar no mínimo uma semana para alguém tomar posse dessa mesa. É o tempo de eu arranjar alguém para vir buscar esse violão e cuidar dele até eu voltar. Você faz isso para mim?”
Meu amigo, muito solidário, concordou prontamente.
Tendo então pagado os $120 de excesso de bagagem, fomos para uma lanchonete esperar dar o horário do embarque.
*****
Comprida essa história, né? Muito comprida. E ela está longe de terminar. Não perca as próximas emoções dessa viajante e dolar-osa novela.
Violão não é bagagem de mão? (Parte 1)
Tem mais de mês que eu estou para escrever essa história. Mas como é uma história comprida, não tenho tido tempo (e no dia que sobra um tempo, bate aquele desânimo).
Para ficar menos cansativo para mim e para você, meu caro leitor, resolvi então dividir em três episódios esta cômica novela (e que novela!).
Apertem os cintos, e boa viagem!
—–
Parte 1:
2007: O ano da(s) mudança(s)
Minha mudança de volta ao Brasil foi cuidadosamente planejada. Eu decidi em novembro de 2006. Em dezembro, quando fui passar o Natal com a família, já levei uma parte da mudança: pois por mais que você se esprema, é raro mudança não dar excesso de bagagem (ao menos que você seja eu: minhas outras três mudanças transnacionais não deram excesso nenhum. Pelo menos não de bagagem. Mas isso é outro assunto).
Em janeiro de 2007, mudei de casa, em Toronto mesmo, e já joguei muita coisa fora. A mudança para o Brasil estava prevista para maio. Veio, porém, um imprevisto muito bom, então joguei para meados de agosto. Mas como o apartamento em que eu estava era só por quatro meses, no final de abril tive que mudar de novo. Aproveitei para passar mais uma peneira nas coisas.
Por motivos de força maior, meados de agosto foram cair lá para o dia 29. De novo, extrapolava as minhas combinações acomodatórias. Fiz então mais uma mudança, a de número três: desta vez de quarto, desta vez uma semana antes da mudança mesmo — a poderosa número quatro. Era o ensaio final.
Como eu tenho muito livro, e como livro pesa muito, resolvi sondar a possibilidade de mandá-los separadamente. Chequei de tudo: desde correios a frete marítimo. Pesei cuidadosamente cada caixa, anotando na tampa de cada uma seu peso, em quilogramas e em libras. Depois de muito calcular e de muito raciocinar, concluí que a opção mais prática, e mais barata de longe, era trazer mesmo tudo comigo no avião, mesmo se desse excesso de bagagem.
Mas há excessos e excessos. Como a mudança número 4 ainda não é a final (que deve ocorrer em junho de 2008), decidi que não havia necessidade — ou mesmo possibilidade — de levar tudo de uma vez. Deixei então uma parte da mudança aos generosos cuidados de uma amiga. Para levar comigo dessa vez só o absolutamente necessário para desempenhar o trabalho que tenho que fazer esse semestre: três bagagens a despachar (malona, mala e malinha), e a bordo, mochila e violão.
A história só está começando! Não perca o próximo capítulo desta eletrizante e estérica novela!
Foi tão estranho que choveu…
Sabe quando acontece uma coisa
bem surpreendente e a gente fala:
“Nossa, que surpresa! Vai chover!”
Às vezes é um telefonema inesperado.
Às vezes uma visita há muito só na promessa.
Às vezes o cônjuge, prole ou similar
que resolve do nada
lavar a louça, ou arrumar a cama.
Neste primeiro dia de outubro
ocorreu algo bem surpreendente.
Choveu.
Pela primeira vez desde o dia 29 de maio último.
O domingo trouxe boatos de garoa esparsa e breve aqui e ali. Só para dar vontade. Eu mesmo não vi, nem acreditei muito em quem falou que viu. Afinal, a previsão de chuva era só para fim de outubro, talvez meados.
Mas no começo da noite da segunda
não foi boato nem garoa.
O céu veio todo a baixo, de uma vez,
com direito a relâmpago e trovoada.
O clima era de quadrilha de festa junina.
De um lado da rua se gritava:
“Olha a chuva!”
E o outro lado respondia:
“É mentira!”
Até que todo mundo debruçou na janela,
achando a chuva melhor que a novela.
Crianças pulavam, pessoas gritavam.
Até fogo de artifício resolveu se fazer
de trovão e raio e entrar na festa.
O clima era de fim de campeonato.
E meu pai que sempre achou ruim
quando a previsão do tempo chamava chuva
de “mau tempo” ou “tempo feio”
olhava com o resto da cidade
a lindura do toró
seu presente de aniversário
mais desejado
O clima era mais festivo que final de campeonato
Era mais festivo
que festa de São João ou de aniversário
O fim era do inverno; a chuva venceu a seca
E a festa
era a primavera
Cai, chuva!
Hoje o céu está tão lindo
Cai, chuva!
Meu amigo,
Tim Maia
Meu amigo,
cai chuva
Minha amiga
chuva
cai.