Renovar Simplesmente…

Ano Novo: tempo de furar paredes
De substituir pregos por parafusos
De tapar uns buracos e fazer outros
De fazer e limpar melecas
De consertar e organizar gavetas,
arrumando-as duplamente…

De fazer numa manhã
O que você passou um ano adiando
De experimentar, arriscar, renovar
De lembrar que o possível é fácil
E o difícil possível

Tempo de começar pela enésima vez
De ver pessoas queridas que há tempos não se via
Tempo de fazer cálculos, contas,
Histórias e poesias
E de se divertir nas besteiras nossas de cada dia

Ano Novo é cliché
Dos mais gostosos
Junto com amor à primeira vista
Pôr-do-sol em Brasília
E cuscuz com leite e café

Ano Novo é tudo de bom
É o que faz o ano e os anos valerem

Feliz 2012 a todos! :)

A Proposta dos Cursos da Ester

Muitos dos meus alunos começam o curso confessando seus traumas com a matéria. O diferencial dos cursos da Ester é desenvolver um círculo virtuoso de tranquilidade ->competência->tranquilidade->competência. É possível ter tranquilidade sem competência ou competência sem tranquilidade? Com certeza. Mas acho que tranquilidade sem competência não ajuda muito, e competência sem tranquilidade não é muito saudável.

O objetivo de cada um dos meus cursos é desmistificar a matéria em questão: mostrar ao aluno que ela não é nenhum bicho-papão, que cada uma delas tem sua razão de ser, que a torna útil e até divertida. Isso não quer dizer diluir a matéria, mas sim desenvolver a competência com tranquilidade.

Sendo assim, os cursos da Ester são estruturados em módulos mensais independentes. A idéia é que cada a mês valha a pena por si só: que ele seja aprofundado e significativo para desenvolver competência num determinado tópico, mas que ele não exija do aluno um contrato interminável até ver resultados. O objetivo é fugir tanto da superficialidade das promessas de resultados mirabolantes num tempo mínimo de um lado, quanto da escravidão de contratos infinitos de outro.

Esse compromisso mensal que eu proponho, portanto, é um compromisso de que, quando o fim do mês chegar,  o aluno possa dizer que adquiriu uma tranquilidade num conteúdo específico que ele não tinha antes. Ele pode então decidir que isso já atende seus objetivos, e parar por aí, ou pode decidir continuar, e assim adquirir confiança num outro tópico da matéria. Mas de qualquer forma, seja um mês, três, doze ou quantos forem, cada aluno possa dizer que valeu a pena, que ele está mais competente e mais tranquilo.

—————————————————-
Quer estudar com a Ester?
Cursos de Verão 2012 – Novas Turmas:

Poesia no Presente Perfeito do Indicativo:

Eu não sou perfeito(a)
Tu não és perfeito(a)
Ele não é perfeito
Ela não é perfeita

Nós não somos perfeitos (as)
Vós não sois perfeitos (as)
Eles não são perfeitos
Elas não são perfeitas.

Perfeito!

N. Senhora das Neves, rogai por nós

“Celebramos hoje a Dedicação da Basílica de Santa Maria Maior de Roma, a mais antiga igreja do Ocidente consagrada à Virgem Maria, onde se deram tantos acontecimentos relacionados com a história da Igreja; especialmente relaciona-se com essa igreja a definição dogmática da Maternidade divina de Maria, proclamada pelo Concílio de Éfeso. O templo foi construído sob essa invocação no século IV, sobre outro já existente, depois de encerrado o Concílio. (…)

Segundo uma piedosa lenda, certo patrício romano chamado João, de comum acordo com a sua esposa, resolveu dedicar os seus bens a honrar a Mãe de Deus, mas não sabia ao certo como fazê-lo. No meio da sua perplexidade, teve um sonho — como também o teve o Papa — pelo qual soube que a Virgem desejava que se construísse um templo em sua honra no monte Esquilino, que apareceu coberto de neve — coisa insólita — no dia 5 de agosto. Embora a lenda seja posterior à edificação da Basílica, deu lugar a que a festa de hoje seja conhecida em muitos lugares como de Nossa Senhora das Neves e a que os alpinistas a tenham por Padroeira.” (Francisco Fernandes-Carvajal, “Falar Com Deus”, vol. 7, p. 58-59).

Santo Cura D’Ars, rogai por nóis

Lembra de nóis lá da 713
Esse povo da nossa família
Q vc viu batizar, 1a comunhão, casar
Roga por nóis tudo

Lembra de nossos sacerdotes
Q vc vê batizar, 1a comunhão, casar
E de nossos seminaristas
Principalmente os meus alunos
Que voltam às aulas hoje
Olha minha responsa e me ajuda
Lembra do nosso novo bispo
Que começa essa semana a labuta
Lembra de nóis tudo

E dê lembranças ao Todo-Poderoso
E toda a galera do bem
Diz pra eles pra ir preparando as coisas
Q um dia desses nóis taí
Nóis ainda não sabe quando
Mas hora dessa a gente chega
E quer encontrar vcs tudo.
Fica dado o recado.

Mas depois a gente se fala mais.
Abraços cordiais, etc e tal
ESTER

Músicos Intinerantes: Tragicomédias ambulantes

Uns dois anos atrás eu escrevi uma história, ou melhor, uma saga autobiográfica em 8 episódios, sobre minha viagem de Toronto a Brasília com Arquimedes, meu querido violão.

O vídeo seguinte do canadense  David Carroll mostra que não sou só eu que sofro com esse tipo de coisa!

Ode ao trabalho

Sem trabalho não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade

(Renato Russo, Música de Trabalho, 1996)

Acho que já comentei aqui
De como sempre fui apaixonada por trabalho
Desde muito antes de terminar o primeiro grau
Seguia os classificados de domingo religiosamente
Suspirando em espera do dia que poderia dizer
“Segundo grau completo, tenho, sim, senhor”

Tirei minha carteira de trabalho aos 14
Depois de muita insistência e birra
(“puxa, só depois dos 14?”)
Primeiro registro veio aos 16
(“demorou, hein, caramba!)
Carteira assinada no ensino médio
Era minha maior vaidade

Tem gente que não têm nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber
De trabalhar

Vim para o Canadá aos 19
Trabalho? Tem que ser legal.
E legal por muito tempo
Era só na universidade
Universo pequeno

Todo verão,  era aquela história
Eu feito doida atrás de emprego
On campus, legítimo; “frescura,”
Todo mundo me dizia.

Frescura. Gente sendo deportada
A torto, a direito e aos montes.
E eu, fresca
Sem querer me sujeitar a fazer
O que me tinha sido proibido

Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria

Ô, castração
Não ter permissão de trabalhar
Legalmente, legitimamente
Sem ser favor, sem ser esmola
Trabalho honesto, puxa vida
É pedir demais?

Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade

Ô inveja. Confessemos, demos nomes aos bois:
Eu tinha in-ve-ja. Inveja de quem tinha emprego
Chato, entediante, besta, mas emprego
Legal, e legítimo. Digno. Papel passado.
(A inveja era tanta que eu nem considerava
Como até o emprego pode ser desumanizante.)

Exigido e proibido.  Recompensado e punido
O luxo é qual: ter ou não ter?
Não sei.

Mas ter é uma honra
É uma dádiva,  um direito básico
O mínimo necessário

Que me pode ser possível agora
Permitido, ainda não
Mas possível ao menos.
Possível, espero

Primeiro de Maio
Dia de São José Operário
Fiz minha noveninha
Pedido que zele pelo meu trabalho 
E pelos que trabalham
Pelos que oferecem, que regulam
Que proíbem ou destorcem
Pelos que o desprezam e desvalorizam
Pelos que muito o prezam e de que muito precisam

São José Operário
Roga por todos nós

E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p’rá casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos

Contatos de primeiro grau

A capacidade do Lula de criar vínculos sem deixar se intimidar por qualquer tipo de barreira é fenomenal. Olha só esse vídeo de 49 segundos dele com o Obama e o primeiro-ministro australiano, onde ele domina a conversa sem falar uma palavra de inglês:

http://www.bbc.co.uk/worldservice/emp/pop.shtml?l=pt&t=video&p=/portuguese/meta/dps/2009/04/emp/090402_g20obamalula.emp.xml

Brincadeiras e más traduções a parte, é impressionante como o Lula tem a manha de deixar todo mundo à vontade. Eu queria ser assim!

Já que ninguém está vendo… (Parte 2)

Foi no fim de novembro que eu assisti “Ensaio sobre a Cegueira” e o documentário sobre James Orbinski. Desde então eu estava só querendo achar um tempo para escrever o post anterior, mas dezembro entrou no meio e daí o que já era difícil ficou dificílimo. 

Eu estava de passagem comprada para o Brasil o dia 10 de dezembro. E eu tinha prometido para mim mesma e para meio mundo que eu só voltava para o Brasil com uma primeira versão da tese pronta — uma promessa pouquíssimo realista, mas que eu tentei cumprir até o último momento o melhor que pude.

Adicione-se a isso tudo o fato dessa viagem para o Brasil marcar minha sexta mudança em dois anos, pode-se dizer portanto que os primeiros dez dias de dezembro estavam prometendo. Tempo para blogar, respirar ou qualquer outra coisa estava zero, se não abaixo de zero.

A manhã de 10 de dezembro de 2008 me encontrou acordada, de mala quase toda pronta, pilhada a base de cafeína e adrenalina, e super orgulhosa de mim mesma. Havia semanas que eu trabalhava dia, noite e fim de semana. Minha média diária de sono não devia passar de 4 ou 5 horas por dia, uma façanha considerável, ainda mais considerando as temperaturas sub-zero e os dias cada vez mais curtos pré-solstício de inverno.  

Mas após 7 anos tendo sérias suspeitas de que o doutorado era na verdade um buraco negro no qual tempo e energia desaparecia dentro do vácuo, de repente eu vi meu trabalho começar a ter resultados, e isso me enchia de uma alegria e uma energia sem precedentes.

Adicione-se a isso 1) o fato que naquelas três semanas eu tinha tocado três vezes com as minhas duas bandas (e, modéstia parte, nossas apresentações tinham sido o máximo!) e 2) o fato que também naquelas semanas eu tinha conseguido me aproximar de vários amigos que estavam afastados (alguns geograficamente, outros mais que isso), pode-se dizer que a manhã de 10 de dezembro me fez acreditar que eu dava conta de fazer o impossível.

Quando o sol chegou ao meio dia,  eu já tinha relido, imprimido e entregado ao meu orientador a versão mais recente da minha tese. Por mais que eu soubesse que ela estava longe de estar acabada, eu também sabia que nunca na história desse país eu já havia chegado a tal grau de acabamento, e isso me deixava radiante.

Sorrindo até as orelhas, eu saí do meu departamento em direção à biblioteca, onde tenho um cubículo de um metro quadrado que é só meu, e onde deixei os pertences que não poderia trazer ao Brasil nessa viagem.

Tendo deixado meu cubículo em ordem, percebi subitamente que 1) eu precisava desesperadamente de cafeína e 2) eu não tinha um tostão na minha carteira. Decidi portanto parar no Massey College, que não só tinha cafezinho à vontade, mas era do lado da biblioteca, e caminho para casa. Eu não fazia a mínima idéia de que hora do dia ou da noite era aquela.

Indo ao refeitório atrás do meu café, descobri para minha grande surpresa que o almoço estava para ser retirado. Eu, que não lembrava da última refeição que tinha tido, resolvi pegar o finzinho da bóia. Tendo pegado meu prato, sentei sozinha no refeitório quase vazio.

A essa altura, só havia um grupo, três homens, terminando seu almoço, lá na outra ponta do refeitório, diagonalmente de onde eu estava. Com a minha fome, falta de sono, adrenalina a mil, carência de cafeína, e pressa para terminar de fazer tudo que eu tinha que fazer antes de entrar no avião naquela noite, foi só quando eu estava quase terminando de almoçar que eu percebi que um daqueles três senhores na minha diagonal era James Orbinski, sentado de costas para mim.

Era mesmo? Era. E no estado em que eu me encontrava naquele momento, eu não tinha tempo, espaço ou energia disponível para gastar com auto-censura.

O momento era esse. Nada me barrava.

Já que ninguém está vendo… (Parte 1)

Um dia desse fui no cinema assistir “Ensaio sobre a Cegueira.” Eu estava bem empolgada, primeiro porque muita gente tinha me falado bem do livro, e segundo, porque as filmagens foram feitas no Brasil, e eu estava no Brasil quando elas foram feitas.

Meus sentimentos ao sair do cinema são um pouco mais difíceis de descrever. Parte de mim achou que a premissa era forte, mas que o filme ia longe demais. O que me incomodava não era nem o fato de que algumas cenas eram extremamente violentas e/ou desagradáveis, mas o fato delas parecerem gratuitas. No quesito verossimilhança, portanto, o filme perdia muito ponto. Cheguei então ao meu veredito quanto o filme: desagradável demais para ser verdade. Ponto. O que mostra como que eu não sei de nada mesmo.

Alguns dias depois, fui assistir “Triagem: O dilema humanitário de James Orbinski. Entrei na sala com o filme começando, e o sentimento de “que legal, eu conheço esse lugar, eu conheço esse rosto” me deixou toda contente.

Quando eu mudei para Toronto em 2002, Massey College, uma residência da Universidade de Toronto, foi minha primeira morada (ainda hoje ela é minha base no Canadá). Eu morei lá um pouco mais de dois anos, em cujo período também morava lá o senhor James Orbinski com sua esposa Rolie Srivastava.

Os dois sempre foram membros ativos da comunidade, e sempre muito dispostos a bater papo com os membros menos famosos da comunidade, tipo eu. Mas  eu, na minha timidez fora do comum, nunca nunca, nesses quase sete anos, tinha tido a coragem de dirigir mais do que um sorriso e aceno de cabeça ao vê-los passar.

Eu sabia que ele era muito famoso, e que ele tinha estado em Ruanda durante o genocídio em 1994. Eu até suspeitava que ele tinha ganhado o prêmio Nobel, mas disso eu não tinha muita certeza, porque na minha cabeça me parecia muito inacreditável que um ganhador do prêmio Nobel fosse meu vizinho.

Mais de seis anos depois, estou eu numa sala de cinema assistindo um documentário sobre meu ex-vizinho James Orbinski. O rosto conhecido e o cenário conhecido me deram uma sensação de proximidade que eu nunca tinha tido numa sala de cinema.

À medida que o filme foi passando, o sentimento de dejà-vu foi intensificando, mas de uma maneira muito bizarra: de repente, parecia que eu estava assistindo “Ensaio sobre a Cegueira” de novo!  O absurdo de que as pessoas são capazes de fazer quando sabem que “não tem ninguém vendo mesmo” e o heroísmo quase que involuntário das pessoas que se vêem prestando cuidados em circunstâncias para lá de degradantes, sem saber se elas próprias vão sair vivas daquela situação são coisas absolutamente arrepiantes.

De repente, me vi tomada das mesmas emoções que senti assistindo “Ensaio sobre a Cegueira.” Só que agora não dava para eu colocar meus sentimentos numa caixinha hermeticamente fechada e rotulada como “sentimentos à toa causados por uma história de ficção para lá de exagerada.” Ruanda não foi ficção. Aconteceu de verdade. E eu conheço alguém que estava lá.

“O Dilema Humanitário de James Orbinski” é na verdade e de verdade um “Ensaio sobre a Cegueira”: uma cegueira mundial e muito real.  Por dias e dias, fiquei em estado de choque.