Músicos Intinerantes: Tragicomédias ambulantes

Uns dois anos atrás eu escrevi uma história, ou melhor, uma saga autobiográfica em 8 episódios, sobre minha viagem de Toronto a Brasília com Arquimedes, meu querido violão.

O vídeo seguinte do canadense  David Carroll mostra que não sou só eu que sofro com esse tipo de coisa!

Ode ao trabalho

Sem trabalho não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade

(Renato Russo, Música de Trabalho, 1996)

Acho que já comentei aqui
De como sempre fui apaixonada por trabalho
Desde muito antes de terminar o primeiro grau
Seguia os classificados de domingo religiosamente
Suspirando em espera do dia que poderia dizer
“Segundo grau completo, tenho, sim, senhor”

Tirei minha carteira de trabalho aos 14
Depois de muita insistência e birra
(“puxa, só depois dos 14?”)
Primeiro registro veio aos 16
(“demorou, hein, caramba!)
Carteira assinada no ensino médio
Era minha maior vaidade

Tem gente que não têm nada
E outros que têm mais do que precisam
Tem gente que não quer saber
De trabalhar

Vim para o Canadá aos 19
Trabalho? Tem que ser legal.
E legal por muito tempo
Era só na universidade
Universo pequeno

Todo verão,  era aquela história
Eu feito doida atrás de emprego
On campus, legítimo; “frescura,”
Todo mundo me dizia.

Frescura. Gente sendo deportada
A torto, a direito e aos montes.
E eu, fresca
Sem querer me sujeitar a fazer
O que me tinha sido proibido

Sei que existe injustiça
Eu sei o que acontece
tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado à miséria

Ô, castração
Não ter permissão de trabalhar
Legalmente, legitimamente
Sem ser favor, sem ser esmola
Trabalho honesto, puxa vida
É pedir demais?

Mas o que eu tenho é só um emprego
E um salário miserável
Eu tenho o meu ofício
Que me cansa de verdade

Ô inveja. Confessemos, demos nomes aos bois:
Eu tinha in-ve-ja. Inveja de quem tinha emprego
Chato, entediante, besta, mas emprego
Legal, e legítimo. Digno. Papel passado.
(A inveja era tanta que eu nem considerava
Como até o emprego pode ser desumanizante.)

Exigido e proibido.  Recompensado e punido
O luxo é qual: ter ou não ter?
Não sei.

Mas ter é uma honra
É uma dádiva,  um direito básico
O mínimo necessário

Que me pode ser possível agora
Permitido, ainda não
Mas possível ao menos.
Possível, espero

Primeiro de Maio
Dia de São José Operário
Fiz minha noveninha
Pedido que zele pelo meu trabalho 
E pelos que trabalham
Pelos que oferecem, que regulam
Que proíbem ou destorcem
Pelos que o desprezam e desvalorizam
Pelos que muito o prezam e de que muito precisam

São José Operário
Roga por todos nós

E quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar p’rá casa, pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
Do pouco que não temos
Quem sabe esquecer um pouco
De tudo que não sabemos

Contatos de primeiro grau

A capacidade do Lula de criar vínculos sem deixar se intimidar por qualquer tipo de barreira é fenomenal. Olha só esse vídeo de 49 segundos dele com o Obama e o primeiro-ministro australiano, onde ele domina a conversa sem falar uma palavra de inglês:

http://www.bbc.co.uk/worldservice/emp/pop.shtml?l=pt&t=video&p=/portuguese/meta/dps/2009/04/emp/090402_g20obamalula.emp.xml

Brincadeiras e más traduções a parte, é impressionante como o Lula tem a manha de deixar todo mundo à vontade. Eu queria ser assim!

Já que ninguém está vendo… (Parte 2)

Foi no fim de novembro que eu assisti “Ensaio sobre a Cegueira” e o documentário sobre James Orbinski. Desde então eu estava só querendo achar um tempo para escrever o post anterior, mas dezembro entrou no meio e daí o que já era difícil ficou dificílimo. 

Eu estava de passagem comprada para o Brasil o dia 10 de dezembro. E eu tinha prometido para mim mesma e para meio mundo que eu só voltava para o Brasil com uma primeira versão da tese pronta — uma promessa pouquíssimo realista, mas que eu tentei cumprir até o último momento o melhor que pude.

Adicione-se a isso tudo o fato dessa viagem para o Brasil marcar minha sexta mudança em dois anos, pode-se dizer portanto que os primeiros dez dias de dezembro estavam prometendo. Tempo para blogar, respirar ou qualquer outra coisa estava zero, se não abaixo de zero.

A manhã de 10 de dezembro de 2008 me encontrou acordada, de mala quase toda pronta, pilhada a base de cafeína e adrenalina, e super orgulhosa de mim mesma. Havia semanas que eu trabalhava dia, noite e fim de semana. Minha média diária de sono não devia passar de 4 ou 5 horas por dia, uma façanha considerável, ainda mais considerando as temperaturas sub-zero e os dias cada vez mais curtos pré-solstício de inverno.  

Mas após 7 anos tendo sérias suspeitas de que o doutorado era na verdade um buraco negro no qual tempo e energia desaparecia dentro do vácuo, de repente eu vi meu trabalho começar a ter resultados, e isso me enchia de uma alegria e uma energia sem precedentes.

Adicione-se a isso 1) o fato que naquelas três semanas eu tinha tocado três vezes com as minhas duas bandas (e, modéstia parte, nossas apresentações tinham sido o máximo!) e 2) o fato que também naquelas semanas eu tinha conseguido me aproximar de vários amigos que estavam afastados (alguns geograficamente, outros mais que isso), pode-se dizer que a manhã de 10 de dezembro me fez acreditar que eu dava conta de fazer o impossível.

Quando o sol chegou ao meio dia,  eu já tinha relido, imprimido e entregado ao meu orientador a versão mais recente da minha tese. Por mais que eu soubesse que ela estava longe de estar acabada, eu também sabia que nunca na história desse país eu já havia chegado a tal grau de acabamento, e isso me deixava radiante.

Sorrindo até as orelhas, eu saí do meu departamento em direção à biblioteca, onde tenho um cubículo de um metro quadrado que é só meu, e onde deixei os pertences que não poderia trazer ao Brasil nessa viagem.

Tendo deixado meu cubículo em ordem, percebi subitamente que 1) eu precisava desesperadamente de cafeína e 2) eu não tinha um tostão na minha carteira. Decidi portanto parar no Massey College, que não só tinha cafezinho à vontade, mas era do lado da biblioteca, e caminho para casa. Eu não fazia a mínima idéia de que hora do dia ou da noite era aquela.

Indo ao refeitório atrás do meu café, descobri para minha grande surpresa que o almoço estava para ser retirado. Eu, que não lembrava da última refeição que tinha tido, resolvi pegar o finzinho da bóia. Tendo pegado meu prato, sentei sozinha no refeitório quase vazio.

A essa altura, só havia um grupo, três homens, terminando seu almoço, lá na outra ponta do refeitório, diagonalmente de onde eu estava. Com a minha fome, falta de sono, adrenalina a mil, carência de cafeína, e pressa para terminar de fazer tudo que eu tinha que fazer antes de entrar no avião naquela noite, foi só quando eu estava quase terminando de almoçar que eu percebi que um daqueles três senhores na minha diagonal era James Orbinski, sentado de costas para mim.

Era mesmo? Era. E no estado em que eu me encontrava naquele momento, eu não tinha tempo, espaço ou energia disponível para gastar com auto-censura.

O momento era esse. Nada me barrava.

Já que ninguém está vendo… (Parte 1)

Um dia desse fui no cinema assistir “Ensaio sobre a Cegueira.” Eu estava bem empolgada, primeiro porque muita gente tinha me falado bem do livro, e segundo, porque as filmagens foram feitas no Brasil, e eu estava no Brasil quando elas foram feitas.

Meus sentimentos ao sair do cinema são um pouco mais difíceis de descrever. Parte de mim achou que a premissa era forte, mas que o filme ia longe demais. O que me incomodava não era nem o fato de que algumas cenas eram extremamente violentas e/ou desagradáveis, mas o fato delas parecerem gratuitas. No quesito verossimilhança, portanto, o filme perdia muito ponto. Cheguei então ao meu veredito quanto o filme: desagradável demais para ser verdade. Ponto. O que mostra como que eu não sei de nada mesmo.

Alguns dias depois, fui assistir “Triagem: O dilema humanitário de James Orbinski. Entrei na sala com o filme começando, e o sentimento de “que legal, eu conheço esse lugar, eu conheço esse rosto” me deixou toda contente.

Quando eu mudei para Toronto em 2002, Massey College, uma residência da Universidade de Toronto, foi minha primeira morada (ainda hoje ela é minha base no Canadá). Eu morei lá um pouco mais de dois anos, em cujo período também morava lá o senhor James Orbinski com sua esposa Rolie Srivastava.

Os dois sempre foram membros ativos da comunidade, e sempre muito dispostos a bater papo com os membros menos famosos da comunidade, tipo eu. Mas  eu, na minha timidez fora do comum, nunca nunca, nesses quase sete anos, tinha tido a coragem de dirigir mais do que um sorriso e aceno de cabeça ao vê-los passar.

Eu sabia que ele era muito famoso, e que ele tinha estado em Ruanda durante o genocídio em 1994. Eu até suspeitava que ele tinha ganhado o prêmio Nobel, mas disso eu não tinha muita certeza, porque na minha cabeça me parecia muito inacreditável que um ganhador do prêmio Nobel fosse meu vizinho.

Mais de seis anos depois, estou eu numa sala de cinema assistindo um documentário sobre meu ex-vizinho James Orbinski. O rosto conhecido e o cenário conhecido me deram uma sensação de proximidade que eu nunca tinha tido numa sala de cinema.

À medida que o filme foi passando, o sentimento de dejà-vu foi intensificando, mas de uma maneira muito bizarra: de repente, parecia que eu estava assistindo “Ensaio sobre a Cegueira” de novo!  O absurdo de que as pessoas são capazes de fazer quando sabem que “não tem ninguém vendo mesmo” e o heroísmo quase que involuntário das pessoas que se vêem prestando cuidados em circunstâncias para lá de degradantes, sem saber se elas próprias vão sair vivas daquela situação são coisas absolutamente arrepiantes.

De repente, me vi tomada das mesmas emoções que senti assistindo “Ensaio sobre a Cegueira.” Só que agora não dava para eu colocar meus sentimentos numa caixinha hermeticamente fechada e rotulada como “sentimentos à toa causados por uma história de ficção para lá de exagerada.” Ruanda não foi ficção. Aconteceu de verdade. E eu conheço alguém que estava lá.

“O Dilema Humanitário de James Orbinski” é na verdade e de verdade um “Ensaio sobre a Cegueira”: uma cegueira mundial e muito real.  Por dias e dias, fiquei em estado de choque.

Sobes e desces políticos sem precedentes

No Canadá: primeiro ministro, impopularíssimo, dissolveu o parlamento ontem até janeiro, para evitar a votação semana que vem que com certeza o derrubaria. Isso menos de dois meses depois de ter sido re-eleito.

No Brasil:  presidente da república alcança índice recorde de aprovação: 70%. O recorde anterior, de 64%, também era dele. Isso depois dele ter perdido três eleições presidenciais em doze anos… 

Que coisa, não?

Ofertório

De São José, aprendi
O amor ao trabalho
E o trabalho por amor

Trabalho, apaixonante, sacrificante
Amor que dá um trabalho lascado
Paixão que a gente teima em resistir
E teima em ser arrebatado

Este meu trabalho é por amor
Amor a Deus
Amor a meu país e meu povo
Amor a minha família e meus amigos
Amor ao próximo, perto e distante
Conhecido e desconhecido
Adorável e insuportável
Amor ao meu amor

Meu Deus, minha Força, meu Amor
Eu, pequeninha, Te ofereço, te peço
Aceita esse meu ato de amor
Abençoa esse meu ato de amor
Multiplica esse meu ato de amor
Põe Seu amor nesse meu ato de amor

Faça com ele o que Você quiser
Mas faça com que ele Te agrade
Adicione a ele o que eu não posso adicionar
Remova dele o que eu não posso remover

E se o que te agrade seja que ele não se realize
Então delete, tire isso de mim
Remova meu ego egoísta do meu trabalho
Do meu amor. De mim.

Este trabalho e esta trabalhadora são coisas Suas
Criados por Você e para Você
Você que me deu, Você que me tire

Esse amor e esta amadora são coisas Suas
Criados por Você e para Você
Você me colocou nessa: agora Você que me tire.

Se Você não quiser, também não quero
Mas faz de mim um trabalho que Te agrade
Um amor que te agrade

São José, padroeiro do trabalho, da família,
do Canadá, da igreja,
da minha paróquia, da minha família,
da minha vida,
hoje faz 29 anos que fui batizada
na paróquia que leva seu nome.

Se eu puder nessa ocasião
pedir um favorzinho,
peço o seguinte:
fala com sua Esposa
para dar uma palavrinha com o Filho dela
que eu estou precisando
de uma forcinha extra hoje.

Valeu, brigadão!
Grata como sempre,
(E um pouquinho mais do que o de sempre)
Ester.

Bom demais pra ser verdade?

Noticia da secretaria de comunicação da universidade de Brasília:

“Universitários contra analfabetismo: UnB apoiará governo do Distrito Federal em projeto para ensinar 55 mil adultos a ler e escrever até 2010.”

Eu no meu otimismo que é para lá de normal acredito que com boa vontade política e engajamento da população um projeto desses pode muito bem dar certo. Mas sabe como é, né: quando a esmola é demais… 

Mas isso me faz ainda mais empolgada (se é que isso é possível) de estar em Brasília semestre que vem (e nos próximos semestres também!). Quero acompanhar de perto esse processo, e fazer de tudo tudo para ele dar certo mesmo. Sabe como é, né: cavalo dado não se olha os dentes.

Mas quando você gosta de cavalo, é difícil não prestar atenção nos dentes… E se os dentes são de ouro então, gatos escaldados ficam com pulgas atrás da orelha…

Vamos torcer de novo para a Ester estar errada? Da última vez que a gente fez isso, deu muito certo!

Unesco alerta sobre grave crise mundial na educação

Gata escaldada…

Então acabou que o presságio foi só neura? Que bom, né? Posso dizer com isso tudo que Monteiro Lobato foi para mim fonte de não só sonhos como pesadelos. Influência, hein? E eu com minha imaginação fértil então… altamente influenciável.

Mas acho que o que eu queria dizer ontem era: cantar vitória é bom? Muito bom. Mas cantar vitória antes da hora não é tão bom assim. Úbris (prima grega do nosso “jogar de salto alto”) é craque em dar tombos feios.

Ontem não foi o caso? Demos graças a Deus então. Mas como boa mineira, eu sou da opinião que cautela, humildade e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Quanto mais alto o coqueiro, maior a queda. Seguro morreu de velho. Gata escaldada não conta com os ovos dentro da galinha: só vale quando eles estão no próprio bucho. A experiência é mãe da sabedoria e dos traumas.

Modéstia a parte, eu tenho uma memória ótima para recitar sabedoria popular. Quisera eu, porém, que tal sabedoria me ficasse na cabeça.

Assinado,

Gata Escaldada em pessoa

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